segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DANÇA DO TEMPO

 

No compasso do passado,

Ouço o doce gingado.

Lembrança boa e leve,

Que o meu peito recebe.

 

Cabelo solto ao vento,

Desperta o bom contento,

Ilumina o pensamento,

No mais doce momento.

 

É hora de aventura,

Com graça e fina bravura.

O coração se conjura,

E o olhar fulgura.

 

O passo firme na terra,

Toda saudade desenterra.

Cria pontes, desfaz a guerra,

Nesse amor que em nós encerra.

 

A brisa segue soprando,

E a vida vai balançando.

O destino desenhando,

O que a alma está cantando.

 

A jornada não termina,

A luz do sol nos ilumina.

O sopro do vento ensina,

A força que nos domina.

 

Sorrisos que o tempo traz,

Caminhos cheios de paz.

O peito que quer sempre mais,

Nas curvas que o mundo faz.

 

Maranguape, Ceará, 14 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

domingo, 13 de setembro de 2026

A VIDA RECOMPENSA QUEM AMA SEU CAMINHAR

 

Recompensa-me a vida, mais uma vez, com a mestria galante de Júlio César Pereira de Paula que neste domingo (13/09) diz que “a grande lição é esta: devemos sim buscar o conhecimento, estudar, evoluir, crescer espiritualmente. Mas, devemos fazê-lo pelo caminho em si, não pelos aplausos que receberemos ao final”. Envolve aceitar e cultuar o gracioso antagonismo: conhecer quem somos cônscios de que nada somos que não um empréstimos de Deus.

 

Um mestre sábio, em sua docência, lembra a todo instante que o orgulho e a vaidade humana não têm fundamento real, pois somos limitados. Nós apenas administramos a vida que nos foi concedida por um período determinado. Tudo o que temos e somos veio do divino e, claramente, voltará para Ele, conforme adverte Salomão: “... o pó voltará à Terra como é; e o espírito a Deus que o deu” (Eclesiastes 12:7). Qualquer coisa fora deste eixo é pura extrapolação dos vaidosos em sua puerilidade.

 

Reconhecer nossa pequenez diante da imensidão do universo e da eternidade transcende à mera necessidade de desvelar por desvelar o desconhecido, de saciar a curiosidade, assumindo-se como dever de compreender nossa essência, defeitos, virtudes e propósito; de identificar o que nos move e qual é o nosso papel no mundo para assim sabendo arquitetarmos em nossos dias as melhores ambiências onde a sabedoria adorna os dias com suas primícias.

 

O topo da sabedoria humana é entender que somos totalmente dependentes do Criador, que confirma isso ao dizer: atrai-os com cordas humanas, com laços de amor; e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e me inclinei para lhes dar de comer” (Oséias 11:4). Nisto, somos (inter)dependentes uns dos outros nesta cadeia de união (laços de amor) que nos abraça e move. Envolve abandonar a arrogância, valorizar cada dia como um presente e viver com mais gratidão e desapego.

 

O autoconhecimento verdadeiro exige reconhecer que não somos donos de nós mesmos, mas sim, uma criação temporária que pertence a Deus. Aceitando que nossa existência, talentos, corpo e tempo na Terra não são propriedades definitivas usamos melhor a régua de 24 polegadas com a qual damos a cada hora seu momento de gloriosa proficuidade no exercício daquilo que lhe compete.

 

Sob a ótica da filosofia desvela-se paralelos surpreendentes e contrastes profundos, especialmente quando olhamos para o Estoicismo e o Existencialismo. Os estoicos (como Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio) concordariam quase integralmente com a frase, substituindo apenas o termo "Deus" pela "Natureza" ou pelo "Cosmos" (a Razão Universal). Eles se veem como uma pequena engrenagem em um mecanismo gigante, gerando um profundo senso de dever e serenidade (ataraxia).

 

O existencialismo (de Sartre, Camus e Beauvoir) enxerga de forma inversa, focando na crise e na responsabilidade que essa afirmação gera, dividindo-se entre a vertente ateia e a cristã. Para Sartre, "a existência precede a essência", portanto, não somos "nada" inicialmente, porém, temos plena liberdade para construir quem somos através de nossas ações. A falta de um dono divino gera a angústia da responsabilidade total, a carência da “mão” que nos atravesse a rua em segurança.

 

Kierkegaard, nisto, fitaria o paradoxo. Conhecer a si mesmo diante de Deus gera um "temor e tremor". Reconhecer-se como um nada diante do Absoluto é o que permite ao indivíduo dar o "salto da fé" para encontrar seu verdadeiro significado, não na sociedade, mas, na sua relação solitária com o divino. Aceitar que somos deuses e filhos do Altíssimo (Salmos 82:6) orgulha-nos ao ponto de praticarmos tudo menos aquilo que nos deserde desta realeza, enfrentando o orgulho egóico que nos cega.

 

Emerge, pois, a ética da responsabilidade: ver a vida como um "empréstimo" transforma o ser humano em um administrador (ou "mordomo") dos bens divinos e lhe imputa a obrigação de agir de forma correta, racional e produtiva para prestar contas ao "Dono" original. Essa postura se assemelha à ética protestante analisada por Weber, onde o desapego vaidoso e o trabalho árduo são vistos como formas de honrar a Deus, impulsionando transformações econômicas e sociais históricas.

 

Estar "cônscio de que nada somos" cria uma consciência coletiva de humildade. Isso refreia o egoísmo e o individualismo, que Durkheim via como perigos para a ordem social. Ao reconhecerem a vida como um "empréstimo de Deus", os indivíduos compartilham um valor comum sagrado. Isso gera solidariedade e reduz a anomia (a falta de regras e rumo na sociedade). Ninguém “é coroado como vencedor se não competir de acordo com as regras” (2 Timóteo 2:5).

 

Dura lex sed lex: “uma andorinha só não faz verão, afirma o Povo. Direta ou indiretamente permanecemos (inter)ligados a pessoas – quer as conheçamos ou não – para a realização de rutilantes feitos, para nos alimentar e termos forças para, ao menos, arquitetarmos tais realizações, para compartir experiencias, alegrias e conhecimentos, pois, disto emerge a sabedoria que faz todos nós fortes, belos e amoráveis; e para que o amor viceje e reine, pois, amar carece a presença de outrem.

 

Não há força mais letalmente formidável a combater os preconceitos, os erros e os vícios do que o amor. Nascido no solo mais fértil na mais recôndita parte do coração humano, o amor-próprio, como toda boa plântula ergue-se rumo à luz, que o faz conhecer a essência do corpo que o acolhe, seus sentimentos e pensamentos, valores e primícias, conhecimentos e habilidades, desejos e competências, para com este conhecimento, burilado e polido, melhor amar o mundo.

 

Esse amor é uma ferramenta ativa e poderosa contra males sociais e individuais, superando a rigidez do preconceito e a repetição de erros ou vícios, pois, é estabelecedor da ética da alteridade (Levinas), onde, juntamente, com responsabilidade pelo "Outro" quebram o egoísmo. O rosto do outro convoca a agir-se com justiça, desarmando preconceitos automáticos. Ele nos impulsiona do mundo das aparências (erros e preconceitos) em direção à verdade, à beleza e ao bem fazer, afirma Platão.

 

A máxima "Ama e faz o que quiseres" de Agostinho de Hipona preceitua que as ações guiadas pelo amor autêntico são intrinsecamente boas. Elas eliminam o vício e o erro na raiz. Quaisquer leis externas tornam-se desnecessária, pois o bem é exercido de forma espontânea. Manifesta-se nisto o caritas (amor benevolente e desinteressado), não eros (desejo de posse), pois, quem ama como Deus ama perde o desejo de ferir, enganar ou pecar. Onde o amor reina a vaidade não respira.

 

Amar assim é o ápice da maturidade espiritual. É a compreensão de que nossa busca por expansão, estudo e evolução não serve para nos inflar, mas, para nos polir como instrumentos daquilo que recebemos por empréstimo divino. Somos tudo em potencial, mas nada por nós mesmos. Estudar e evoluir serve para transformar o chumbo da nossa ignorância no ouro do serviço ao próximo. Quem busca o aplauso da plateia torna-se refém do humor dos outros; quem busca o caminho encontra a liberdade.

 

Maranguape, Ceará, 13 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


sábado, 12 de setembro de 2026

A BICICLETA, ESCOLA DA VIDA

Este sábado (12/09), amanheceu-me uma saudade imensa de minha Monark. Minha primeira bicicleta. Desde o antes de tê-la, quando observei detalhes vários deste excelentíssimo equipamento de mobilidade – tanto urbana, quanto rural –, que longe ser unicamente um veículo de transporte de passeio e/ou de labor – já que suporta boa carga – notabiliza-se pela significativa mestria com que fomenta o melhor desenvolvimento humano.

 

Mais do que um simples meio de transporte, a Monark consolidou-se como um símbolo de liberdade, independência, superação e memória afetiva para diversas gerações de brasileiros, sendo associada à simplicidade bem executada e à capacidade de suportar longas décadas de uso intenso. A Monark ensinou gerações a manter o equilíbrio, a vencer subidas íngremes e a cuidar do próprio veículo como quem zela de si.

 

Esse "excelentíssimo equipamento" une uma engenharia robusta – capaz de aguentar o tranco das estradas rurais e o vaivém do asfalto urbano – a um papel social profundo. Docente das artes do equilíbrio, da paciência, do zelo e, acima de tudo, expande os horizontes geográficos e pessoais de quem pedala. Foi a democratização do deslocamento em larga escala, num país onde o carro particular era (e ainda é) privilégio de poucos.

 

Há um fato curioso e pouco conhecido: a Monareta é um modelo mundial. Além de ser fabricada no Brasil e na Colômbia, e montada no Chile, também era produzida na Suécia – mas, como Crescent model 210, sob outra marca do mesmo grupo, o Cycleurope, que reunia Bianchi, Gitane, Puch, Tec e outras. A bicicleta que era lenda no Brasil era, na Europa, um número de catálogo. A bicicleta é a máquina mais eficiente já inventada pelo homem.

 

O rendimento energético de uma pessoa pedalando é de cerca de 25% – maior que qualquer motor a combustão e que qualquer motor elétrico. Mas a eficiência não é o ponto. O ponto é que a bicicleta é a única máquina que não muda o corpo do operador – o corpo que a muda. Não há câmbio entre o corpo e o mundo. A mão no guidão, o pé no pedal, o quadril no selim: é uma interface direta, sem mediação, sem software, sem tela, sob o influxo da boa-vontade.  

 

A bicicleta, e a Monark em particular, sempre esteve ligada a uma ideia de autonomia corporal: o próprio corpo como motor, sem dependência de combustível, sem intermediários. Para crianças e jovens, é a primeira experiência de mobilidade independente – a primeira vez que o mundo se abre num raio que os pés e as pernas alcançam. Para trabalhadores, é ferramenta de produção e geração de emprego e renda.

 

Aprender a andar de bicicleta é uma metáfora viva da ética aristotélica: exige a busca constante pelo meio-termo para não cair nem para a esquerda, nem para a direita. O uso da bicicleta para o labor e para o passeio desenvolve virtudes como a resiliência, a atenção e a temperança. Nas antigas tradições, o equilíbrio é uma busca estática de paz interna. A bicicleta subverte essa lógica: ela prova que a estabilidade só existe através do movimento.

 

Para não cair, é preciso continuar avançando, digerindo as imperfeições do terreno em tempo real. Sendo um veículo de tração puramente humana, o peso da carga exige o dobro do seu suor. Há uma honestidade brutal na física da bicicleta: cada quilômetro vencido e cada quilo transportado é uma vitória direta da força de vontade. A máquina não mascara o esforço; ela o potencializava, gerando dignidade.

 

A bicicleta é, antes de tudo, uma mestra. No equilíbrio, ela não oferece atalhos: o corpo precisa aprender, quedas e tudo, a se sustentar sobre duas rodas finas. É uma lição que se transfere para a vida – a estabilidade não se conquista de uma vez, e cada pedalada é um pequeno ato de confiança no próprio centro de gravidade. Exige paciência, resiliência e a coragem de aceitar as quedas como parte do processo ao qual a vida chama sempre.

 

Na paciência, o pedal não se deixa forçar. Diante de uma subida íngreme (um desafio difícil), é preciso reduzir a marcha (desacelerar, ter paciência) em vez de forçar demais e esgotar as energias. Quem tenta subir uma ladeira com pressa acaba perdendo fôlego e ritmo. A bicicleta impõe um tempo próprio, um ritmo que o corpo dita e a mente precisa aceitar. É a metáfora mais honesta do progresso: constante, às vezes imperceptível, mas real.

 

No zelo, a máquina responde com fidelidade a cada gota de óleo, a cada ajuste fino, a cada pneu checado. Negligência se paga em avarias. Há algo de quase espiritual nessa relação de cuidado mútuo entre quem pedala e a bicicleta. Esse ritual de manutenção vai muito além da mecânica – é uma extensão do próprio corpo e da mente de quem pedala – e passa a ser uma forma de respeito e conexão com o próprio caminho.

 

Pedalar é, no fundo, um exercício de presença. O vento no rosto, o ruído da corrente, o cheiro da estrada – tudo isso devolve ao ciclista uma atenção que a vida cotidiana raramente permite. o ciclista é o motor. Não há separação entre quem move e o que é movido; o corpo é a fonte de energia da máquina. Isso torna a reciprocidade mais direta e mais exigente. Reciprocidade é o que a vida respira.

 

É por isso que a relação com a bicicleta tem um tom "quase espiritual": a máquina não tem voz, mas tem linguagem – rangidos, folgas, resistência anômala – e decifrá-la exige o tipo de presença que a tradição zen chama de shoshin (mente de principiante): o mecânico veterano que age com mente de principiante não assume o diagnóstico antes de tocar na bike; ele permite que a própria bicicleta revele o problema através do toque e da escuta.

 

Cada estalo no movimento central ou sutil hesitação na troca de marchas funciona como um koan – um enigma mecânico que não se resolve com força, mas, com percepção refinada. Atenção sem pressupostos, gesto por gesto. Quando se limpa os ruídos da mente para ouvir os ruídos da máquina, a manutenção deixa de ser uma obrigação e se torna uma forma de meditação em movimento.

 

Neste toar, a bicicleta ensina humildade de um jeito que nenhum outro veículo o faz, tão pouco permite. Ela não esconde o esforço. Não há ar-condicionado, não há suspensão eletrônica, não há a ilusão de que o deslocamento é gratuito. O corpo aparece inteiro – cansado, suado, limitado – e é exatamente essa exposição que devolve ao ciclista uma relação honesta com o próprio corpo, com o tempo e com o mundo.

 

Maranguape, Ceará, 12 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ÍCAROS E PARAQUEDISTAS SOCIAIS MATAM O “HOMEM”

 

Uma das agências mais formidáveis do homem, principalmente daquele dotado do excelentíssimo bom senso, é a inventividade. Que pena que a inventividade, por vezes, ofusca a si própria na forma dos invencionismos e mentiras que cocriamos para satisfazer nosso próprio ego, esconder nossas incapacidades e, como não dizer, para sermos grandes em nossa mediocridade. Mentir incessantemente pode criar verdades?

 

Bastante bem faria o homem a si próprio se olhasse para o passado com mesmo fito desbravador que os moradores daquele tempo empregaram enquanto postulavam os vetores de (do) futuro nas fabulas, contos e estórias míticas que chegam aos nossos dias com a mesma força de sempre ensinando-nos os arquétipos e fundos morais que guardam como mestria para as novas gerações.

 

Carl Gustav Jung e outros pensadores defendem que os mitos e as fábulas não são relíquias inertes, mas, veículos vivos de estruturas psíquicas universais que codificam dilemas morais e existências que se repetem em cada geração. Os povos antigos, ao criar narrativas míticas usavam o passado como laboratório projetivo, antecipando conflitos, virtudes e falhas que o futuro traria. Antecipar é melhor que remediar.

 

O olhar visionário é justamente o oposto da nostalgia, ou seja, perceber o mito não como um museu, mas, como um mapa, reconhecendo que os mesmos arquétipos (o herói, o traidor, o sábio, a sombra etc.) operam hoje em contextos novos. A força "de sempre" que essas narrativas mantêm vem do fato de que o conteúdo psicológico que carregam não obsoletiza; muda a roupagem, não o fundo moral, que fica mais rico quando compartido.

 

O mito guarda para as novas gerações não um "código de conduta" fixo, mas, um proeminente sistema operacional: um conjunto de programas (arquétipos) que a consciência pode executar em qualquer situação. A criança que ouve Hansel e Gretel não aprende "cuidado com a bruxa", ela internaliza o programa da tentação, da perda do caminho e da saída pela inteligência no emprego correto do que aprendera.

 

Joseph Campbell radicalizou isso ao mostrar que a "jornada do herói" (partida → iniciação → retorno) é o monomito, ou seja, o esqueleto comum a quase toda narrativa humana, de Homero a Star Wars.  O que muda é a cenografia; o que permanece é a arquitetura moral da escolha, da prova e da transformação, cujos resultados são mais exuberantes a cada novo geração que passa por esse “rito de passagem”.

 

Uma destas fábulas, a de Ícaro, me é bastante instrutiva a todo momento em que vislumbro o sol de uma nova oportunidade. Ícaro é o grande símbolo da ambição desmedida, da busca humana pelos limites e do perigo de desafiar as forças superiores, tendo na protuberante inventividade de Dédalo sua aliada mais portentosa, ao lado da sua coragem desmedida, somente curadas com moderação e prudência.

 

Dédalo projeta e constrói as asas; Ícaro as usa sem compreendê-las. Isso muda a geometria da advertência. A inovação, no mito, não é a falha – é a condição de possibilidade. A falha é o uso desconsciente da inovação: Ícaro não sabe o que a cera é, não sabe o que o calor faz nela, não sabe que a distância ao sol é uma variável, não um cenário. Ninguém em sã consciência põe a mão em cumbuca alheia.

 

A cera é o elemento que torna o mito tão preciso: ela não é fraca, é condicional. É o material perfeito para uma alegoria sobre a mediação humana entre a ambição e o cósmico – toda a nossa tecnologia, toda a nossa capacidade de "voar", opera numa faixa de condições que não controlamos. A cera não trai Ícaro; ela é o limite dele. O perigo está em não saber que se está mediado por algo que tem um ponto de ruptura.

 

Ao dizer "sol de uma nova oportunidade" retrato exatamente o que o mito faz com o sol: ele é simultaneamente a meta e a ameaça. Não há como buscar a luz sem se aproximar do calor; não há como aspirar a altura sem entrar na zona onde a cera falha. A moderação, neste contexto, não é uma virtude moral abstrata – é um cálculo de a(l)titude.  Ícaro não morre por ter subido demais, morre por não ter sabido onde estava enquanto subia.

 

É fascinante como o mito de Ícaro ressoa tão fortemente quando estamos diante de novos horizontes. Essa história nos lembra que a mesma audácia que nos tira do chão pode nos derrubar se esquecermos as nossas vulnerabilidades. Envolve usar a criatividade e a coragem de Dédalo e Ícaro para construir caminhos inovadores, sair de situações limitantes e não deixar o entusiasmo cegar você para os riscos reais.

 

Ícaro representa a dualidade entre o desejo humano de transcendência (de ser aparecido) e os perigos da ambição desmedida (hubris). Na mitologia grega, ao tentar escapar do Labirinto de Creta com asas de cera e penas feitas por seu pai, Dédalo, Ícaro ignora os avisos de prudência, voa perto demais do Sol, tem suas asas derretidas e despenca no mar, trazendo consigo o sonho mal arquitetado e executado.

 

Isso explica a "mesma força de sempre", pois, o conteúdo psicológico que o mito de Ícaro carrega é atemporal por construção. Seu dilema (ambição vs. limite) reaparece em cada geração com nova roupagem – hoje é o hacker que escala sem ética, o investidor que alavancagem além do limite, o paraquedista que se assenta no trono sem o mérito aferido pelo cumprimento do devido processo legal.

 

A coragem desmedida do transgressor, do usurpador, do paraquedista social – de Ícaro – não é a coragem de voar; é a coragem de ignorar a faixa. O mito de Ícaro não é uma condenação da ousadia. É uma lição de instrumentação: quem voa precisa de um horizonte que inclua o próprio limite, não apenas a meta. Afinal, a dor das frustrações (queda) não cessão com qualquer morfinazinha não, pois, o dano é irreparável.

 

Consequência do que a sociedade moderna fez ao relegar essas histórias ao entretenimento ou ao contexto religioso, negando-lhes o poder que possuem na formação ético-moral dos mais jovens. Urge, portanto, um viril resgate funcional: devolver ao mito o papel que sempre teve, o de ser a escola moral que opera não pela pregação, mas, pela identificação emocional com a narrativa. Refletimos o exemplo que nos cativa.

 

A admiração desperta pelo herói da tela quando redirecionada para figuras do mundo real (médicos, bombeiros, professores), e os dilemas dos quadrinhos (o que fazer quando o poder corrompe? quando a justiça conflita com a lei?) abrem espaço para questionamentos filosóficos que a pregação moral convencional não alcança e fulcram relevantes pontos de partida para discussões éticas reais.

 

A mentira incessante não cria verdade, mas cria algo que, para quem a absorve (e muitas vezes para quem a produz), funciona como verdade – até que a realidade, irredutível, a confronte. A ambição só se torna destrutiva quando perde a conexão com a realidade. Neste toar, com moderação e prudência, quaisquer asas serão perfeitamente capazes de chegar ao destino planejado certificadas pela inventividade e glorificadas pelo mérito.


Maranguape, Ceará, 11 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

PIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO SE ENXERGA

 

Diz o povo que o pior cego é aquele que não quer enxergar, porém, penso ser este adágio apenas levanta a ponta do tapete a desvelar a cegueira dos incautos, dos pérfidos e dos absolutamente vaidosos até a tampa que turvam a graça da vida.

 

Ocorre que a maior da cegueira de fato não é somente a da visão, pois, ela se agrava quando cego resolve nada ouvir – tão pouco querer ouvir. Pior ainda quando esse flagelo do decoro resolve nada discernir ainda que veja e/ou ouça bem o suficiente.

 

Cego assim, desta imensa envergadura é visto apenas com a ajuda do microscópio , embora atravanque o progresso, faça o mundo infeliz, poia, como humano nada condiz. Somente tem arranque... igual a codorniz. A vida sempre lhe contradiz.

 

Ao dizer "Com o humano nada condiz" reforço a estranheza: ele não pertence ao mundo humano, é um intruso que não se ajusta à lógica das vidas que parasita. Este microrganismo é um obstáculo ao progresso civilizatório.

 

Na Bíblia (Mateus 13:13-15), o Cristo alerta que aqueles que têm olhos e ouvidos, mas, se recusam a compreender, estão em uma condição espiritual pior que a cegueira física, sendo considerada mais prejudicial que a deficiência física.

 

A verdadeira escuridão não mora na falta de visão física. Reside de forma graciosa e bem acomodada no autoengano a que se submete o vaidoso que pensa poder estar onde lhe falta competente mérito que lhe faça caber.

 

Nietzsche, enxerga que a vaidade e a falsa visão de si como detentora de "única verdade" e elas corrompem a boa consciência, criando uma escuridão moral e existencial que coíbe o reconhecimento da própria insuficiência.

 

Essa torpeza alcança o ápice dramático quando o cego, desprovido de qualquer decoro ou bom senso, decide anular o discernimento, o pactuado e o aceito por todos. Ele olha na cara da realidade e ouve o clamor dos fatos, mas, os ignora.

 

Desumano de nascença, é um fardo para o mundo. Sua postura arrogante e alienada nada condiz com a essência do que deveríamos ser enquanto humanos. Infeliz de protuberante essência espalha infelicidade pelos quatro cantos da Terra.

 

A vida não o "derrota" – ela o contradiz, o torna incoerente com a ordem do mundo. Há nele um tom de desdém cósmico: o patógeno é ao mesmo tempo ameaça e figura quase cômica, um gigante que não consegue decolar. 

 

Incapaz e sem talentos, falta-lhe fôlego para voos mais largos que sua mediocridade. Salta curto, faz um barulho danado, desajeitado, e logo cai “de imaturo” no chão. Vive em desalinho com a realidade, sem perceber a mestria vida.

 

A vida, em sua totalidade, é antinômica ao patógeno. O sistema imune, a evolução, a própria definição de "vivo" (autonomia, adaptação, continuidade) contradiz a lógica do parasita, que carece de outrem para existir e, por isso, nunca se sustenta sozinho.

 

A mestria da vida ensina que ao agir-se com total e voraz apatia, ocorre uma deterioração moral que embaça o caráter, a honra e a moral, impedindo o crescimento individual e coletivo, que somente ocorre em plenitude quando há pureza de atitudes.

 

Em Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, a cegueira branca simboliza a incapacidade de ver os males humanos. A cegueira da alma ou do espírito envolve a escolha consciente de ignorar evidências claras e inquestionáveis.

 

Eis uma postura portentosa a gerar consequências negativas para o crescimento coletivo e a tomada de decisões conscientes, pois, ao "furar os próprios olhos" vive-se uma mentira para evitar responsabilidades ou desconforto.

 

Se a ignorância é autoimposta, o ato volta a ser voluntário. O homem bêbado que comete um delito é punido com pena dobrada, porque "o princípio da ofensa reside no próprio agente". Ou seja, é uma decisão, e como decisão, é imputável.

 

O vaidoso não finge diante de outrem; ele acredita de boa-fé que o que exibe é o que é. A "falta de crença em si" que o caracteriza é uma arquitetura ativa: ele constrói uma imagem de si tão convincente que a própria consciência se torna cúmplice. 

 

A mentira que se conta em silêncio não mente, ela cativa revestida do semblante da verdade para melhor mentir. O vaidoso não foi cegado; ele escolheu, sem perceber que escolheu, a penumbra em que sua autoimagem se sustenta. 

 

A "vontade de aparência" que Nietzsche chama de "vontade fundamental do espírito" opera justamente assim – não como imposição, mas, como atração. Ela opera nossa capacidade que temos de sentir e de acreditar de boa-fé que somos o que não somos.

 

A aparência, uma vez internalizada, passa a ser tratada como substância. Quanto mais o vaidoso ocupa o lugar, mais a ocupação reforça a crença de que ele pertence ali, e mais a crença reforça a ocupação, num perene círculo vicioso.

 

O mérito que lhe falta é conhecimento recortado: ele sabe o suficiente para saber o que não sabe, e é exatamente esse excesso de luz parcial que torna a cegueira mais densa que a do cego físico, que ao menos não tem o contraste.

 

A verdadeira escuridão, então, não é o que se sofre no escuro, mas, o que se desfruta nele – e o gozo é o que impede a saída. E é precisamente porque é confortável que é a mais perigosa: ninguém foge do que lhe faz bem, ainda que aparentemente.

 

Neste toar, o vez as contas: a luz custa caro – custa admitir o limite, o erro, a insuficiência. A sombra é gratuita, confortável, e ainda por cima flattered pela opinião dos que, por conveniência ou por cegueira própria, confirmam que cegar é melhor. 

 

Maranguape, Ceará, 10 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O SERTÃO ALIMENTA DE AMOR ESSE MUNDÃO


Embora eu perceba, acate e respeite a relevância do mar como primeiro lar de todas as criaturas que, hoje, se movem por sobre a terra, assim como, é sempre a casa daqueles que ele acalanta em suas águas; tenho verdadeiro encanto e amor pelo sertão, onde estou neste momento a cortejar sua graça e imponência que tão bem alimentam os prodígios da litorânea parte de nosso Ceará, pois, bem olhando grande diferença e destaque faz em todo canto que estiver aquele que o sertão viu crescer sob sua guia.

 

O sertão é por demais inspirador da ousadia que faz o pequeno maior – espelhando Davi a derribar o Golias – manifestando a magia por detrás da criatividade que faz a beleza para os olhos ver e para mente aprender a mestria sertaneja a resplandecer do litoral ao meio do mar. Tudo volta pro mar, ninguém há de negar essa regra tão clara da natureza. E se volta, é porque é de lá, de lá veio ao sabor do sol e à busca da boa sombra onde a serenidade apaga o fogo do juízo e faz o coração se perceber na valia que imprime mesmo pra quem não a quer ver.

 

Fascina-me contemplar nosso Ceará não como duas partes distintas – o litoral e o sertão –, mas como um ciclo contínuo, onde a força bruta, criativa e resiliente do interior alimenta e dá identidade até mesmo à calmaria da praia. A metáfora de Davi e Golias resume perfeitamente o sertanejo: a pequenez geográfica ou econômica diante da imensidão dos desafios, superada pela gigantice da astúcia e da arte, que somente o cálido sertão tem o condão de forjar tão proficiente alavanca a mover o progresso e a felicidade brasileira.

 

Esse "ir e vir" do mar ao sertão e do serão ao mar, onde tudo nasce no mar, ganha corpo e têmpera no calor do sertão, e depois retorna transformado em mestria, traduz a própria essência da cultura cearense. O sertão não é escassez; é o berço da engenhosidade que reluz em todos os rincões do Brasil não arrogantemente a dar “quinau”, mas sim, com as águas do mar que abraça a terra por igual estabelecendo na sinergia da troca o habitat para a sabedoria de ser brasileiro.

 

Aqui onde repousam os restos mortais de Bárbara de Alencar, a primeira presa política do Brasil, heroína de revoluções e avó do escritor José de Alencar, viceja Campos Sales, situada no extremo oeste da Chapada do Araripe, na transição do sul cearense com o Piauí e Pernambuco, a cidade respira a bravura dos fortes, pois, carrega na própria terra o peso da história e a têmpera e enche-me a mente de coragem para arquitetar o melhor e o coração de determinação para cumprir o traçado.

 

A imponência de Campos Sales se materializa também na fé e na paisagem, guardada pelo imponente Monumento de Nossa Senhora da Penha que se ergue sobre o horizonte sertanejo, o lugar atua como o útero de pedra que molda os homens antes de devolver suas águas espirituais ao mar. Aqui verdades são cultuadas: como o sangue de Bárbara Pereira de Alencar, uma sertaneja à frente do seu tempo, que gerou a mestria literária de José de Alencar, que tão bem pintou o Ceará para o resto do país?

 

A resiliência de Bárbara de Alencar manifesta com rutilância plena o conceito de "pequeno que se faz maior diante de Golias". É a pequenez da gota d'água desafiando a imensidão do calor, tecendo seu caminho com a astúcia e a engenhosidade que são típicas de quem o sertão viu crescer. Ela reflete, ainda hoje, o valor da mulher, da mãe e da líder que adotou a tantos sob o manto da vivaz coragem com que defendeu os mais basilares interesses ao sabor do vento da liberdade tão bem difundida por seu legado.

 

A ousadia e a criatividade forjadas na adversidade do semiárido manifestam no litoral a capacidade de inventar beleza com pouco: a arte popular, as festas, a gastronomia que mistura leguminosas do sertão com a fauna do fundo do mar. O Ceará tem sua força na sinergia sertão-serra-litoral provando que a beleza da praia depende, inteiramente, da ousadia e da majestade que resplandecem no coração do interior. Um ecossistema vivo onde a escassez do interior alimenta a abundância criativa da costa.

 

No Ceará, o sertão não tem uma faixa de mata costeira que o separe do mar – como diz o adágio popular: "o sertão vai bater no mar".  Com 93% do território em semiaridez, a caatinga chega praticamente à linha de costa, e a vegetação litorânea é de dunas, não de mata atlântica. Essa proximidade física torna a troca cultural portentosa e inevitável. A urbanização cearense (mais de 70% da população em cidades) é fruto dessa exportação de gentes do sertão que vem à capital aportar seu valioso capital humano em prol da prosperidade de todos.

 

A música do Ceará pegou o peso do bumbo do sertão e o misturou com a brisa do mar, criando uma sonoridade única que conquistou o Brasil. Embora pernambucano, o Legado de Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião, tem viril influência no Ceará onde consolidou o triângulo, a zabumba e a sanfona como os tradutores do "fogo do juízo" e da poeira da estrada. O Forró Eletrônico, nascido no coração do estado, modernizou a tradição, provando que a criatividade sertaneja se adapta, se agiganta e dita o ritmo do mercado musical brasileiro.

 

Nos anos 70, artistas como Belchior, Fagner e Ednardo uniram a crueza e o existencialismo do sertão com o movimento das ondas do litoral, gerando clássicos que cantam a partida (o êxodo em direção ao mar/sul) e o eterno desejo de retorno. A estética do sertão cearense se manifesta na música e no cordel através da exaltação da resiliência, do misticismo e da oralidade, transformando a aparente escassez em uma riqueza poética inigualável, onde a arte do cordel – literatura, xilogravura e cantoria – são estudados mundialmente.

 

Curiosamente, o Cordel chega ao além-mar para que o povo de lá se enriqueça com os tesouros de cá, do sertão, confirmando com fervorosidade que há muito mais felicidade em dar do que em receber. O sertanejo é farto como é a fartura, não lhe falta tiú (tejo), nem tatú, muito menos preá – de coice ligeiro ou não –, além da comida boa, há sorrisos e abraços de montão para aquecer e aliar o coração da gente boa que vai ou vem do mar pro sertão, não importa a direção, mais sim, o amor em ato e expressão unindo a todos como irmão.

 

Maranguape, Ceará, 09 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


terça-feira, 8 de setembro de 2026

A PRAIA DO FUTURO NÃO É LUGAR PARA LUNÁTICOS

A Praia do Futuro não é lugar para lunáticos. Ao menos, não para aqueles que em pleno dia de sol, num feriado, estão a cuidar de assuntos imeritórios como: coisas de labor, usurpação de direitos doutrem, etc. Neste formidável espaço ao som do mar e sob azul profundo do céu cearense, somente os lunáticos que esperam o chegar da lua para a corteja com suas poesias, contos, fábulas e, claro, com amoráveis melodias, têm seu trono ali.

 

Ainda que eu não seja lunático em nenhuma destas duas antagônicas categorias, ontem (07 / 09) estive na Praia do Futuro em companhia daqueles que fazem reais meus sonhos, que me inspiram boas leituras – e, claro, que transcendam de mim alguns escritos interessantes; não pra todos, pois, nem o Cristo de Deus foi suficientemente aprazível a todos – e que fazem meus dias mais felizes neste caminhar pela Terra de Pão e Sal em busca da vida plena galgada por bravos feitos, maviosos efeitos e por enriquecedores méritos.

 

Mérito é tudo que há de mais justo e valioso na vida dos que vivem, porém, totalmente desconhecido e/ou negligenciado pelos tantos que vegetam nas ilicitudes a que os chama o submundo no qual operam suas maquinações segundo a discrepante arquitetura que projetaram para a infelicidade de si e de tudo que orbita sua nauseante existência longe do mérito cujo condão é ser a portentosa alavanca a mudar sombra em luz proficiente em torno da qual viceja evolução e progresso.

 

Sem o mérito o efeito que o sustentam não encanta e nem exempla nele se encantou. Inexistindo o mérito, nenhum feito move efeito algum ao ponto onde se faz mérito para o engrandecimento daquele que habitualmente pratica algum excelente feito. Majestosa fluidez da vida, feito manifesta efeito, cuja reverberação o reconhece “mérito” que aclara o caminho do bem, da alegria e da humanidade em busca de suas mais íntimas essências, perfumes que despertam os mais augustos sentimentos e, estes, aguçam os sonhos mais audazes. A audácia é mãe do mérito.

 

A audácia tem feito a humanidade alcançar inclusive a lua, nela pisando para conhecer sua tez, e já se arquiteta o modus de tê-la como entreposto (trampolim) justo e perfeito para o espaço profundo, embasando os programas espaciais modernos, como o Programa Artemis. Lançar naves a partir da Lua exige muito menos combustível do que a partir da Terra, graças ao menor efeito gravitacional em sua atmosfera. A água em forma de gelo encontrada nos polos lunares, pode ser convertida em oxigênio para respirar e hidrogênio para combustível de foguetes.

 

O valor ou o merecimento de uma conquista não nasce do acaso, mas sim, do ato corajoso de ousar e arriscar. No “ousar” repousam os melhores aspectos do desenvolvimento humano, progredindo era após era numa incessante jornada em busca do autoconhecimento pari passu à caminhada em prol da segurança, do bem-estar e da vida plena. Composta por gênio, poder e magia, a ousadia levou Goethe a destacar-se dentro e fora da maçonaria: seu o mérito é consequência da ação, não do talento dormindo: sem a audácia de começar, o mérito jamais se materializa.

 

Na ordem maçônica, onde o aperfeiçoamento moral e intelectual exige esforço contínuo, Goethe compreendeu que a lapidação da "pedra bruta" não aceita a inércia. O mérito é a consequência direta da ação, e nunca de um talento adormecido. A história humana, portanto, pertence aos que agem. O talento sem movimento é apenas uma promessa esquecida no tempo. É através do risco calculado e do compromisso com a evolução que o homem transforma a sua própria realidade, provando que a verdadeira magia da vida reside na coragem de começar.

 

A coragem de começar quaisquer que sejam os intentos humanos alimenta-se da inspiração e, esta, é fartamente servida por aqueles que nos imbuem no seu amor. E nada é comparável à família como fonte fecunda e inesgotável de amor, somente o sagrado a supera, pois, é dela o macro polo. O amor, além de ser a força mais sútil do universo, é a mestria mais arguta a disposição da humanidade, a quem serve com as mais venturosos arquiteturas que a engenharia humana se põe a construir como habitat digno do progresso e da felicidade, a família.

 

A família não como instituição, mas, como fonte é algo que não se esgota porque não é um estoque, e sim, um manancial. Ela está num patamar quase cósmico: o sagrado não está fora da família; ele se manifesta por ela. A família é o lugar onde o transcendente ganha forma concreta, onde o amor deixa de ser abstração e se torna mesa posta, presença, palavra dita na hora certa e ação cocriadora de realidades. O lar é o ponto de convergência de tudo: a coragem que se realizou, a inspiração que se fixou, o amor que se habitou, a família que se tornou casa.

 

O sagrado não está nos templos, mas no lar; a força mais poderosa do universo não está nas estrelas, mas, no gesto de quem nos ama; e a maior obra da engenharia humana não é a catedral, tão pouco a ponte, mas, o teto sob o qual podemos, enfim, começar de novo. Uma casa que erguemos onde quer que estejamos na mais feliz das companhias, à presença daqueles a quem mais amamos, que nos ama com essa mesma intensa proatividade com que inspiramos nossos amados aos melhores constructos, pois, assim também somos por eles inspirados, nessa perene sinergia na qual o amor se faz reconhecido como o maior mérito conquistado pelo ser humano.

 

A Praia do Futuro, em Fortaleza, convida a esse tipo de contemplação: a linha extensa de areia, o mar aberto e o silêncio do fim de tarde fazem dela um cenário quase feito para pensamentos de vida plena, onde meus amados filhos – Bruna, Rosilda e Jorge – e minha esposa Rosélia, inspiram os dias mais felizes neste caminhar pela Terra de Pão e Sal – nome que dou ao Brasil, porque ele é simultaneamente o sustento e o mar, o pão que se parte e o sal que preserva. E a vida plena que buscamos é a plenitude dinâmica de quem se lança, como diz Sartre, à existência, sem essência prévia, sem roteiro – apenas com bravos feitos, maviosos efeitos e enriquecedores méritos, que são, em última análise, as três formas que a liberdade assume quando decide ser.

 

Maranguape, Ceará, 08 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


A VERDADE NÃO SE CURVA À OPINIÃO

  Entre o certo e o errado há o ponto de vista. Verdades existem muitas, mas uma supera todas: a verdadeira. Afirma Tiago — filho do trovão,...