Este
sábado (12/09), amanheceu-me uma saudade imensa de minha Monark. Minha primeira
bicicleta. Desde o antes de tê-la, quando observei detalhes vários deste
excelentíssimo equipamento de mobilidade – tanto urbana, quanto rural –, que
longe ser unicamente um veículo de transporte de passeio e/ou de labor – já que
suporta boa carga – notabiliza-se pela significativa mestria com que fomenta o
melhor desenvolvimento humano.
Mais
do que um simples meio de transporte, a Monark consolidou-se como um símbolo de
liberdade, independência, superação e memória afetiva para diversas gerações de
brasileiros, sendo associada à simplicidade bem executada e à capacidade de
suportar longas décadas de uso intenso. A Monark ensinou gerações a manter o
equilíbrio, a vencer subidas íngremes e a cuidar do próprio veículo como quem zela de si.
Esse
"excelentíssimo equipamento" une uma engenharia robusta – capaz de
aguentar o tranco das estradas rurais e o vaivém do asfalto urbano – a um papel
social profundo. Docente das artes do equilíbrio, da paciência, do zelo e,
acima de tudo, expande os horizontes geográficos e pessoais de quem pedala. Foi
a democratização do deslocamento em larga escala, num país onde o carro
particular era (e ainda é) privilégio de poucos.
Há
um fato curioso e pouco conhecido: a Monareta é um modelo mundial. Além de ser
fabricada no Brasil e na Colômbia, e montada no Chile, também era produzida na
Suécia – mas, como Crescent model 210, sob outra marca do mesmo grupo, o
Cycleurope, que reunia Bianchi, Gitane, Puch, Tec
e outras. A bicicleta que era lenda no Brasil era, na Europa, um número de
catálogo. A bicicleta é a máquina mais eficiente já inventada pelo homem.
O
rendimento energético de uma pessoa pedalando é de cerca de 25% – maior que
qualquer motor a combustão e que qualquer motor elétrico. Mas a eficiência não
é o ponto. O ponto é que a bicicleta é a única máquina que não muda o corpo do
operador – o corpo que a muda. Não há câmbio entre o corpo e o mundo. A mão no
guidão, o pé no pedal, o quadril no selim: é uma interface direta, sem
mediação, sem software, sem tela, sob o influxo da boa-vontade.
A
bicicleta, e a Monark em particular, sempre esteve ligada a uma ideia de autonomia
corporal: o próprio corpo como motor, sem dependência de combustível, sem
intermediários. Para crianças e jovens, é a primeira experiência de
mobilidade independente – a primeira vez que o mundo se abre num raio que os
pés e as pernas alcançam. Para trabalhadores, é ferramenta de produção e geração
de emprego e renda.
Aprender
a andar de bicicleta é uma metáfora viva da ética aristotélica: exige a busca
constante pelo meio-termo para não cair nem para a esquerda, nem para a
direita. O uso da bicicleta para o labor e para o passeio desenvolve virtudes
como a resiliência, a atenção e a temperança. Nas antigas tradições, o
equilíbrio é uma busca estática de paz interna. A bicicleta subverte essa
lógica: ela prova que a estabilidade só existe através do movimento.
Para
não cair, é preciso continuar avançando, digerindo as imperfeições do terreno
em tempo real. Sendo um veículo de tração puramente humana, o peso da carga
exige o dobro do seu suor. Há uma honestidade brutal na física da bicicleta:
cada quilômetro vencido e cada quilo transportado é uma vitória direta da força
de vontade. A máquina não mascara o esforço; ela o potencializava, gerando
dignidade.
A
bicicleta é, antes de tudo, uma mestra. No equilíbrio, ela não oferece atalhos:
o corpo precisa aprender, quedas e tudo, a se sustentar sobre duas rodas finas.
É uma lição que se transfere para a vida – a estabilidade não se conquista de
uma vez, e cada pedalada é um pequeno ato de confiança no próprio centro de
gravidade. Exige paciência, resiliência e a coragem de aceitar as quedas como
parte do processo ao qual a vida chama sempre.
Na
paciência, o pedal não se deixa forçar. Diante de uma subida íngreme (um
desafio difícil), é preciso reduzir a marcha (desacelerar, ter paciência) em
vez de forçar demais e esgotar as energias. Quem tenta subir uma ladeira com
pressa acaba perdendo fôlego e ritmo. A bicicleta impõe um tempo próprio, um
ritmo que o corpo dita e a mente precisa aceitar. É a metáfora mais honesta do
progresso: constante, às vezes imperceptível, mas real.
No
zelo, a máquina responde com fidelidade a cada gota de óleo, a cada ajuste
fino, a cada pneu checado. Negligência se paga em avarias. Há algo de quase
espiritual nessa relação de cuidado mútuo entre quem pedala e a bicicleta. Esse
ritual de manutenção vai muito além da mecânica – é uma extensão do próprio
corpo e da mente de quem pedala – e passa a ser uma forma de respeito e conexão
com o próprio caminho.
Pedalar
é, no fundo, um exercício de presença. O vento no rosto, o ruído da corrente, o
cheiro da estrada – tudo isso devolve ao ciclista uma atenção que a vida
cotidiana raramente permite. o ciclista é o motor. Não há separação entre quem
move e o que é movido; o corpo é a fonte de energia da máquina. Isso torna a
reciprocidade mais direta e mais exigente. Reciprocidade é o que a vida respira.
É
por isso que a relação com a bicicleta tem um tom "quase espiritual":
a máquina não tem voz, mas tem linguagem – rangidos, folgas, resistência
anômala – e decifrá-la exige o tipo de presença que a tradição zen chama de shoshin
(mente de principiante): o mecânico veterano que age com mente de principiante
não assume o diagnóstico antes de tocar na bike; ele permite que a própria
bicicleta revele o problema através do toque e da escuta.
Cada
estalo no movimento central ou sutil hesitação na troca de marchas funciona
como um koan – um enigma mecânico que não se resolve com força, mas, com
percepção refinada. Atenção sem pressupostos, gesto por gesto. Quando se limpa
os ruídos da mente para ouvir os ruídos da máquina, a manutenção deixa de ser
uma obrigação e se torna uma forma de meditação em movimento.
Neste
toar, a bicicleta ensina humildade de um jeito que nenhum outro veículo o faz, tão
pouco permite. Ela não esconde o esforço. Não há ar-condicionado, não há
suspensão eletrônica, não há a ilusão de que o deslocamento é gratuito. O corpo
aparece inteiro – cansado, suado, limitado – e é exatamente essa exposição que
devolve ao ciclista uma relação honesta com o próprio corpo, com o tempo e com
o mundo.
Maranguape,
Ceará, 12 de Setembro de 2026
Bruno
Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado
à ACI - Associação Cearense de Imprensa
Associado
à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

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