sábado, 12 de setembro de 2026

A BICICLETA, ESCOLA DA VIDA

Este sábado (12/09), amanheceu-me uma saudade imensa de minha Monark. Minha primeira bicicleta. Desde o antes de tê-la, quando observei detalhes vários deste excelentíssimo equipamento de mobilidade – tanto urbana, quanto rural –, que longe ser unicamente um veículo de transporte de passeio e/ou de labor – já que suporta boa carga – notabiliza-se pela significativa mestria com que fomenta o melhor desenvolvimento humano.

 

Mais do que um simples meio de transporte, a Monark consolidou-se como um símbolo de liberdade, independência, superação e memória afetiva para diversas gerações de brasileiros, sendo associada à simplicidade bem executada e à capacidade de suportar longas décadas de uso intenso. A Monark ensinou gerações a manter o equilíbrio, a vencer subidas íngremes e a cuidar do próprio veículo como quem zela de si.

 

Esse "excelentíssimo equipamento" une uma engenharia robusta – capaz de aguentar o tranco das estradas rurais e o vaivém do asfalto urbano – a um papel social profundo. Docente das artes do equilíbrio, da paciência, do zelo e, acima de tudo, expande os horizontes geográficos e pessoais de quem pedala. Foi a democratização do deslocamento em larga escala, num país onde o carro particular era (e ainda é) privilégio de poucos.

 

Há um fato curioso e pouco conhecido: a Monareta é um modelo mundial. Além de ser fabricada no Brasil e na Colômbia, e montada no Chile, também era produzida na Suécia – mas, como Crescent model 210, sob outra marca do mesmo grupo, o Cycleurope, que reunia Bianchi, Gitane, Puch, Tec e outras. A bicicleta que era lenda no Brasil era, na Europa, um número de catálogo. A bicicleta é a máquina mais eficiente já inventada pelo homem.

 

O rendimento energético de uma pessoa pedalando é de cerca de 25% – maior que qualquer motor a combustão e que qualquer motor elétrico. Mas a eficiência não é o ponto. O ponto é que a bicicleta é a única máquina que não muda o corpo do operador – o corpo que a muda. Não há câmbio entre o corpo e o mundo. A mão no guidão, o pé no pedal, o quadril no selim: é uma interface direta, sem mediação, sem software, sem tela, sob o influxo da boa-vontade.  

 

A bicicleta, e a Monark em particular, sempre esteve ligada a uma ideia de autonomia corporal: o próprio corpo como motor, sem dependência de combustível, sem intermediários. Para crianças e jovens, é a primeira experiência de mobilidade independente – a primeira vez que o mundo se abre num raio que os pés e as pernas alcançam. Para trabalhadores, é ferramenta de produção e geração de emprego e renda.

 

Aprender a andar de bicicleta é uma metáfora viva da ética aristotélica: exige a busca constante pelo meio-termo para não cair nem para a esquerda, nem para a direita. O uso da bicicleta para o labor e para o passeio desenvolve virtudes como a resiliência, a atenção e a temperança. Nas antigas tradições, o equilíbrio é uma busca estática de paz interna. A bicicleta subverte essa lógica: ela prova que a estabilidade só existe através do movimento.

 

Para não cair, é preciso continuar avançando, digerindo as imperfeições do terreno em tempo real. Sendo um veículo de tração puramente humana, o peso da carga exige o dobro do seu suor. Há uma honestidade brutal na física da bicicleta: cada quilômetro vencido e cada quilo transportado é uma vitória direta da força de vontade. A máquina não mascara o esforço; ela o potencializava, gerando dignidade.

 

A bicicleta é, antes de tudo, uma mestra. No equilíbrio, ela não oferece atalhos: o corpo precisa aprender, quedas e tudo, a se sustentar sobre duas rodas finas. É uma lição que se transfere para a vida – a estabilidade não se conquista de uma vez, e cada pedalada é um pequeno ato de confiança no próprio centro de gravidade. Exige paciência, resiliência e a coragem de aceitar as quedas como parte do processo ao qual a vida chama sempre.

 

Na paciência, o pedal não se deixa forçar. Diante de uma subida íngreme (um desafio difícil), é preciso reduzir a marcha (desacelerar, ter paciência) em vez de forçar demais e esgotar as energias. Quem tenta subir uma ladeira com pressa acaba perdendo fôlego e ritmo. A bicicleta impõe um tempo próprio, um ritmo que o corpo dita e a mente precisa aceitar. É a metáfora mais honesta do progresso: constante, às vezes imperceptível, mas real.

 

No zelo, a máquina responde com fidelidade a cada gota de óleo, a cada ajuste fino, a cada pneu checado. Negligência se paga em avarias. Há algo de quase espiritual nessa relação de cuidado mútuo entre quem pedala e a bicicleta. Esse ritual de manutenção vai muito além da mecânica – é uma extensão do próprio corpo e da mente de quem pedala – e passa a ser uma forma de respeito e conexão com o próprio caminho.

 

Pedalar é, no fundo, um exercício de presença. O vento no rosto, o ruído da corrente, o cheiro da estrada – tudo isso devolve ao ciclista uma atenção que a vida cotidiana raramente permite. o ciclista é o motor. Não há separação entre quem move e o que é movido; o corpo é a fonte de energia da máquina. Isso torna a reciprocidade mais direta e mais exigente. Reciprocidade é o que a vida respira.

 

É por isso que a relação com a bicicleta tem um tom "quase espiritual": a máquina não tem voz, mas tem linguagem – rangidos, folgas, resistência anômala – e decifrá-la exige o tipo de presença que a tradição zen chama de shoshin (mente de principiante): o mecânico veterano que age com mente de principiante não assume o diagnóstico antes de tocar na bike; ele permite que a própria bicicleta revele o problema através do toque e da escuta.

 

Cada estalo no movimento central ou sutil hesitação na troca de marchas funciona como um koan – um enigma mecânico que não se resolve com força, mas, com percepção refinada. Atenção sem pressupostos, gesto por gesto. Quando se limpa os ruídos da mente para ouvir os ruídos da máquina, a manutenção deixa de ser uma obrigação e se torna uma forma de meditação em movimento.

 

Neste toar, a bicicleta ensina humildade de um jeito que nenhum outro veículo o faz, tão pouco permite. Ela não esconde o esforço. Não há ar-condicionado, não há suspensão eletrônica, não há a ilusão de que o deslocamento é gratuito. O corpo aparece inteiro – cansado, suado, limitado – e é exatamente essa exposição que devolve ao ciclista uma relação honesta com o próprio corpo, com o tempo e com o mundo.

 

Maranguape, Ceará, 12 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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