sábado, 28 de fevereiro de 2026

TUDO É UM SONHO FORMIDÁVEL QUE SEGUE AO FUTURO

 

Nesses 21 meses desde sua fundação, tudo é um sonho formidável que segue ao futuro a passos largos reverberando a ideia de os sonhos não são meras fantasias, mas, forças motrizes que impulsionam o futuro. Ainda que ressoe como um eco de Augusto dos Anjos, mestre em fundir o pessimismo biológico com a grandiosidade do tempo, é um pensar que desvela a sensação de que a realidade é só um ensaio correndo em direção ao inevitável. 


Como destacado por Walt Disney, "se você pode sonhar, você pode realizar", reforçando que o primeiro passo para transformar o futuro é acreditar no possível. Essa visão é sustentada por pesquisas em psicologia, que indicam que planos pragmáticos - como o chamado contraste mental, onde se compara a realidade atual com o futuro desejado - aumentam significativamente a motivação, o autocontrole e a capacidade de superar obstáculos.


Superando obstáculos, vencendo percalços e prosperando sempres, “os sonhos, especialmente quando compartilhados, funcionaram historicamente como oráculos coletivos - moldando caminhos da humanidade desde o paleolítico”, afirma o neurocientista, Sidarta Ribeiro. Desta forma, cada sonho, individual ou coletivo, é um elo no processo de construção do futuro, movido pela imaginação, intuição e ação, sob os auspícios da inventividade.


Sonhos lúcidos mostram que o cérebro pode, em certos momentos, alcançar um nível de consciência durante o sono, permitindo experiências que parecem reais e até influenciar decisões conscientes. Isso reforça a ideia de que o sonho não é apenas um fenômeno passivo, mas, um espaço ativo de criação e projeção. O tempo não para, e o "sonho" (a realidade/vida) está avançando rapidamente para o que vem a seguir.


A Academia de Internacional de Maçons imortais é, incontestavelmente, um "sonho que faz sonhar". Ela preserva a língua materna onde quer que exerça suas atividades e fomenta a produção artística, funcionando como um "Olimpo" para escritores e artistas que aspiram perpetuar sua obra e inspirar novas. Ancorada no Arquipélago Cultural que instituiu para abraçar suas congeneres irmãs num só propósito: agir conjuntamente na promoção da cultura e no incentivo àqueles que a fazem.


A literatura não é, apenas, entretenimento, mas, principalmente, um fator indispensável de humanização, capaz de organizar o caos interno e social, desenvolvendo em nós a quota de humanidade por meio do exercício da reflexão, da empatia e da percepção da complexidade do mundo. Como preceitua o General Morivalde Calvet Fagundes, Patrono-Mor desta Academia Internacional de Maçons Imortais: “A literatura faz homens probos”.


A literatura, portanto, devolve ao público a capacidade de reimaginar o mundo — não apenas como refúgio, mas como campo de ação. Ela resiste à barbárie, mesmo em tempos de devastação, como demonstra, mesmo em meio à pandemia, a literatura transformou o virtual em espaço de criação coletiva, afeto e sonho. Como destaca Cristiane Sobral, a poesia contemporânea é uma voz de resistência. E, também, de direito!


A literatura, nesse sentido, é direito inalienável, tão fundamental quanto alimentação ou justiça, pois, ao dar forma aos sentimentos e à visão do mundo, nos liberta do caos e nos torna mais abertos, compreensivos e humanos. Assim inspirada, a Academia Internacional de Maçons Imortais instituiu a Biblioteca Virtual João Darcy Ruggeri que nasceu com a missão de difundir a literatura, incentivar a leitura e, claro, guardar a memoria literária.


Além destes deveres primevos, a Biblioteca Virtual João Darcy Ruggeri, enquanto instituição, é um modus de democratizar o acesso ao conhecimento que se robustece como um pilar da educação e cultura, fortalecendo a cidadania, a aprendizagem contínua e o desenvolvimento intelectual; oferecendo acesso à tecnologia, porém, mantendo a essência de preservar o conhecimento para o futuro, pois, a memória celebra o porvir digno.


Quem disse uma imagem fala mais do mil palavras, inspirou a Academia Internacional dos Maçons a instituir o Museu Virtual da Imagem, do Som e da Música Cleber Tomás Vianna com a insigne determinação de promover a preservação, digitalização, difusão de patrimônios audiovisuais (fotos, sons, vídeos, filmes, depoimentos) por meio de plataformas digitais. E, claro, a pesquisa da memória cultural nesta relevante segmentação.


A experiência é imersiva, com objetos em 3D que permitem ao público explorar detalhes de todos os ângulos, combinando entretenimento e pesquisa. Essa abordagem transforma o museu em um espaço acessível globalmente, promovendo o acesso democrático ao patrimônio cultural e a interação com a história da imagem e do som, não somente no Brasil, haja vista que Academia Internacional de Maçons Imortais atua em todo o orbe terrestre.


Claramente, ao remover as barreiras geográficas e físicas, o Museu Museu Virtual da Imagem, do Som e da Música Cleber Tomás Vianna deixa de ser um "depósito de objetos" para se tornar uma plataforma viva de conhecimento. No contexto da história da imagem e do som no Brasil, isso é imprescindível. Virtualizar esses objetos garante que as futuras gerações entendam a evolução tecnológica e estética do nosso país.


A Academia Internacional de Maçons Imortais é um sonho fascinante que já historia o presente e conta o que espera do porvir construindo-o dia a dia na forma de pontes entre o passado e o futuro através da produção intelectual e artística diária, contando com o auxílio eficaz de mais de duzentas mentes brilhantes que ao longo destes 630 dias de sua fundação vem com ela construindo um magnificente legado de literatura, pintura, musica; de arte.


Maranguape, Ceará, 28 de Fevereiro de 2026


ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cleber Tomás Viana
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O CORAÇÃO MANSO FAZ PRODÍGIOS ONDE O CONHECIMENTO FRACASSA

 

Entre o coração e a razão, o coração manso faz prodígios onde o conhecimento fracassa, já que a superioridade da empatia e da sensibilidade (o coração manso) sobre a lógica fria (a razão/conhecimento) em situações que exigem cura, paciência e amor. Onde o conhecimento técnico fracassa – como no luto, no trauma ou na reconciliação familiar – a empatia atua porque ela não busca "resolver" um problema logístico, mas sim, validar uma existência. Porém, tal condição não prospera face ao direito, onde a razão é essencial para organizar, padronizar e trazer previsibilidade às interações humanas.

 

O coração manso, indiscutivelmente, faz prodígios na vida privada e nas relações interpessoais, enquanto o Direito requer uma racionalidade técnica que muitas vezes parece – e deve ser assim sempre – desprovida da emoção direta para assegurar a justiça. O Direito trabalha com a regra geral; o coração trabalha com a exceção do sentir. Ainda assim, há um crescente entendimento de que um Direito totalmente desumanizado perde sua função social, buscando-se, portanto, um equilíbrio onde a "lógica fria" seja aplicada com sensibilidade humana (humanização das práticas jurídicas).  

 

O Direito, como sistema, baseia-se na igualdade formal, na técnica jurídica e em regras pré-estabelecidas (a "lei"). Ele não pode se pautar apenas na emoção de um caso isolado, sob pena de gerar injustiças e insegurança jurídica. O Direito busca a impessoalidade para garantir a justiça geral, o que o "coração" muitas vezes ignora em favor da compaixão individual. Para ser justo com todos, o Direito precisa ser, em certa medida, "cego". Se a lei fosse aplicada apenas com o coração, cairíamos no subjetivismo – o que é "amor" para um juiz pode ser "injustiça" para a vítima.

 

"A justiça sem misericórdia é crueldade; a misericórdia sem justiça é a mãe da dissolução" – Tomás de Aquino (Summa Theologiae) – sublinha a necessidade de equilíbrio entre punição e compaixão. A justiça estrita sem misericórdia torna-se crueldade, enquanto a misericórdia sem justiça gera caos, impunidade e dissolução social. Perdoar incondicionalmente, sem reparação ou consequência, enfraquece a noção de bem e mal, conduzindo ao caos moral e social.  A verdadeira justiça busca emendar seus infratores, aplicando a pena justa, porém, temperada com a compaixão. 

 

Claramente é um discurso que destaca a necessidade de virtudes complementares, onde a punição visa a reabilitação, não apenas o castigo, e o perdão não anula a responsabilidade. Ele é um ato de clemência que pode ser considerado no contexto de justiça restaurativa, onde o agressor tem a oportunidade de pedir perdão às vítimas e reparar o dano causado. A restituição criativa, promove um diálogo entre todas as partes envolvidas, buscando soluções consensuais que atendam às necessidades da vítima, do agressor e da comunidade. A paz nunca é demais.

 

Falamos sobre a punição dever incorporar virtudes complementares: a justiça retributiva, que reconhece a responsabilidade do agente, e a justiça restaurativa, que busca a reparação e a reconstrução de laços sociais.  A punição só é moralmente legítima quando serve para prevenir novos crimes e promover a transformação, conforme defendido por pensadores como Bentham e Foucault, que veem na pena um instrumento de prevenção, não de vingança, ou seja, “seja simples como a pomba e prudente como a serpente” como instrui de Jesus em Mateus 10:16.

 

Ensina o Inefável Mestre a equilibrar integridade (inocência/pomba) com sabedoria prática (astúcia/serpente).  Significa agir com bondade e pureza sem ser ingênuo, utilizando inteligência e cautela para evitar perigos no mundo. Manifesta a capacidade de avaliar situações perigosas, prever consequências e agir com inteligência para se proteger. Envolve pureza, inocência, sinceridade e integridade – reflete não ter malícia, não agir com falsidade e manter a retidão de caráter, mesmo em meio a dificuldades e as fortes pressões dos contextos que se nos apresenta a sociedade liquida nesta contemporaneidade.

 

É viver com clareza, coragem e integridade mesmo diante de desafios, sem perder a essência de si mesmo. Sócrates, o mestre simbólico do caminho, ensina que o guerreiro pacífico não busca invulnerabilidade, mas, vulnerabilidade absoluta ao mundo, à vida e à presença – ou seja, estar plenamente presente, aberto, sem defesas rígidas.  Ele age com intenção, não reage com impulsos do passado e que navega por ambientes difíceis sem se corromper e sem ser tolo. É uma jornada de autoconhecimento, onde o verdadeiro combate não está no mundo externo, mas, na transformação interior.

 

A paz não é fuga do mundo, mas presença ativa nele, com alegria, compaixão e disciplina. Como diz o caminho: "O triunfo é o privilégio de quem transforma o obstáculo em fogo de alegria." A paz é uma postura de engajamento, um estado de equilíbrio interno que nos permite atuar no caos sem sermos consumidos por ele. Não é apenas euforia passageira, mas uma serenidade profunda, uma escolha de ver a luz mesmo em tempos difíceis. Ela manifesta a força de vontade para manter essa postura, treinando a mente e o coração para não reagir com raiva ou medo.

 

"Transformar o obstáculo em fogo de alegria" é o triunfo supremo. Significa que, em vez de reclamar ou desanimar perante a dificuldade, usamos a energia do problema como combustível para o nosso crescimento, aprendizado e fortalecimento (fogo) e, paradoxalmente, encontramos alegria no processo de superação. "O impedimento à ação avança a ação. O que está no caminho torna-se o caminho", preceitua Marco Aurélio. A disciplina é o que nos permite manter o "fogo" aceso mesmo quando os ventos externos são contrários. Ele é a forma mais alta de autocuidado e de liberdade. 

 

Sem disciplina, a alegria se torna volátil e a compaixão se torna apenas um sentimento passivo. Ela lembra muito o conceito de "otimismo trágico" de Viktor Frankl — a capacidade de dizer "sim" à vida, apesar de tudo. É um convite para sermos agentes de transformação no mundo, vivendo a paz na prática. A construção de um mundo melhor não depende apenas de grandes líderes ou eventos, mas, de ações cotidianas e concretas. A mudança do mundo começa com a mudança pessoal. A cultura de paz não é ausência de conflitos, mas, a capacidade de resolvê-los de forma não violenta.

 

Claramente, ser um agente de transformação exige algo mais do que boas intenções; demanda a coragem de substituir a reatividade pela empatia e o conflito pela construção. Envolve ancora-se no respeito, diálogo, solidariedade e justiça; e ter espontaneidade de solucionar problemas sociais ao seu redor, e não apenas esperar que outros o façam, lembrando que a paz jamais será é a ausência de problemas, mas, a presença de uma nova postura diante deles. Cultivar a paz interior e gerenciar as próprias emoções sob os auspícios da inteligência emocional, sobre a qual se ergue uma vida íntegra.

 

Ser agente de transformação no mundo é um chamado ativo e diário para viver a paz como prática concreta, não como ideia abstrata. Envolve abandonar ressentimentos, perdoar, acolher e dialogar com serenidade, mesmo diante das adversidades, inspirado no ensinamento de Jesus: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não a dou como o mundo a dá." (João 14,27).  A paz interior, que transcende as circunstâncias, é a base para ações transformadoras em família, comunidade e sociedade. Não é um estado passivo – é uma escolha constante, um ato de coragem e amor.

 

Coragem e amor que resultam da renovação da mente – sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus (Romanos 12:2) –, e se expande para o mundo por meio de pequenos gestos que criam um efeito dominó de bondade. Ser um agente de transformação exige que a paz deixe de ser um conceito abstrato e se torne uma ação deliberada em nossas escolhas diárias. Buscar essa mudança radical de mentalidade e de comportamento, é a uma alquimia do ser e um veraz clamor à "(auto)responsabilidade" em vez da "fuga".

 

Autorresponsabilidade é o alicerce de qualquer mudança verdadeira e duradoura.  Não se trata de culpar-se, mas de assumir o protagonismo sobre a própria trajetória, reconhecendo que, mesmo diante de circunstâncias adversas, é-se corresponsável pelos resultados segados. Como destaca o conceito de autorresponsabilidade no trabalho, a mudança começa com uma avaliação sincera de suas ações, escolhas e padrões – especialmente quando se atribui culpa a outros. Buscar um “eu perfeito” é uma fuga – o que liberta é reconhecer que o crescimento é um processo, não um destino.

 

A verdadeira responsabilidade é ativa, prática e ética.  Não se trata de um ideal, mas de uma atitude diária: agir com coerência entre o que se pensa, sente e faz. Como afirmam os princípios da psicologia da mudança, o caminho é incremental. A mudança caminha com a consistência, e esta nasce da congruência entre a realidade e suas escolhas – começar onde há controle imediato, com pequenas ações consistentes. Como diz Carl Jung: “Quem olha para dentro, desperta.” A profundidade vem da integração entre corpo, mente e alma, da aceitação da imperfeição e da falibilidade humana.

 

Na profundeza do ser, não se encontra sabedoria superior ou a ausência de erros, mas sim, a capacidade de abraçar a própria humanidade, com todas as suas contradições e fragilidades. É o reconhecimento de que somos limitados, vulneráveis e suscetíveis a erros. E essa aceitação humaniza, permitindo que a vida seja vivida com mais leveza e autenticidade, em vez de sob o constante medo do julgamento. Perceber que falhas fazem parte do processo permite maior autocompaixão, criatividade e conexão genuína com os outros, em vez de viver por trás de uma máscara de perfeição.

 

Abraçar a falibilidade humana é um ato de humildade, permitindo que a pessoa aprenda a cultivar a resiliência, pois, a vida não é feita de momentos perfeitos, mas, de um conjunto de altos e baixos, erros e acertos.  A aceitação da própria falibilidade é vista como um caminho para a autenticidade e conexão humana real, segundo a psicologia da "espiritualidade da imperfeição". Saber-se como uma unidade inseparável, onde a saúde física influencia a mente e o bem-estar espiritual, e vice-versa, inspira que devemos nos cuidar de si de forma integral, pois, é essencial para o equilíbrio e a harmonia.

 

Autocuidado não é egoísmo, mas, uma forma de amor-próprio que permite lidar com as adversidades com mais resiliência e contribuir positivamente para os outros. Ao unir o "coração" (emoções/sentimentos) e a "razão" (mente/lógica), o autocuidado baseia-se no equilíbrio entre sentir e pensar, reconhecendo que ambos são componentes essenciais do ser humano. Não se trata de anular a emoção com a lógica, mas de usar a razão para compreender e direcionar as emoções. Entre o coração e a razão, o coração manso faz prodígios onde o conhecimento, sozinho, fracassa.

 

Maranguape, Ceará, 27 de Fevereiro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

CRUZ CABUGÁ E O BERÇO DA DEMOCRACIA BRASILEIRA

 

Pernambuco do termo tupi paranãbuku – "rio comprido" – é clara alusão ao Rio Capibaribe (ou "rio das capivaras" em tupi), assinalado "rio Pernambuco" nos mapas primitivos, situado ao norte do Cabo de Santo Agostinho. Pernambuco, a província mais rica do Brasil no século XIX, financiava luxos da Corte Real, como iluminação pública no Rio, sem receber retorno algum em infraestrutura ou políticas públicas.


A população, desde a elite agrária até as camadas populares, via o aumento de tributos como uma forma de sustentar a corte de D. João VI, gerando um forte sentimento antilusitano, acentuado pelo crescente favorecimento aos comerciantes portugueses. Cargos de prestígio eram ocupados por portugueses, enquanto os brasileiros – especialmente a elite local – sentiam-se marginalizados.


A economia da região, baseada no açúcar e no algodão, estava em viril decadência devido à concorrência internacional – especialmente com a Jamaica e as Antilhas – e à queda de preços após o fim das guerras napoleônicas. A seca de 1816 agravou a ainda mais a miséria, destruindo plantações e rebanhos, enquanto os impostos só permaneciam sendo cobrados pela Coroa portuguesa, como aumentavam significativamente.


Viviam os pernambucanos naquele jovem século XIX um cenário de extrema tensão social, crise econômica e efervescência política que logo culminaria na Revolução Pernambucana. Naquele 06 de Março de 1817, Pernambuco respirou por um curto período de 75 dias os ares da liberdade providos pela República Pernambucana, onde reina a liberdade de imprensa e a tolerância religiosa, dentre outros vetores do progresso.


Pernambuco consolidava-se dia a dia como polo intelectual. Ideias de liberdade e república veiculadas no Seminário de Olinda e em lojas maçônicas, influenciadas pelas revoluções Francesa e Americana, construíam a jovem República Pernambucana desde o robustecimento das fundações, até o bem-estar que trazia o sentimento de igualdade e justiça anunciado pelos clérigos para a felicidade de todos.


A esperança rutilava ordem e progresso no horizonte – liberdade de imprensa e de culto; e reforma tributária –, e o povo, especialmente os pobres e trabalhadores, como também comerciantes, militares e intelectuais, aderiu parcialmente ao movimento revolucionário, motivado não somente pela tragédia econômica in voga (fome, seca, etc), mas, principalmente, pelo sentimento de abandono que do centralismo português emergia.


Um projeto político ambicioso, que embora brutalmente reprimido pela da Coroa Portuguesa, executando seus cocriadores em praças públicas, confiscando seus bens e impondo ao povo um regime de medo, jamais ruiu os sólidos alicerces da liberdade que dá cioforia à inventividade, da igualdade que dá ciese aos propósitos comuns e fraternidade que vida à inclusão e coesão social que sustentam a sociedade justa, feliz e próspera.


Nestes dias viveu Antônio Gonçalves da Cruz, mais conhecido como Cruz Cabugá. A alcunha Cabugá é uma herança familiar vinda de seu pai, Manuel Gonçalves da Cruz – próspero ourives –, e surgiu por causa da Rua do Cabugá (atualmente uma travessa próxima à Rua do Imperador, no Recife), onde seu pai possuía imóveis. Envolve o uso e costume do povo: incorporar nomes de locais ao próprio nome para melhor identifica-se.


O termo “Cabugá”, portanto, funciona estritamente como um identificador geográfico e familiar que distingue Antônio Gonçalves da Cruz de outros "Gonçalves da Cruz" da elite recifense, embora, pareça ter sonoridade indígena e, curiosamente, seja também, uma onomatopeia ou referência à maneira como seu pai, o Ourives Manuel Gonçalves da Cruz pronunciava certas palavras, devido a uma certa dificuldade na fala.


Considerado um "jacobino" em sede da Revolução Pernambucana de 1817 devido ao seu caráter radical e republicano, mas principalmente, por conta de sua audaciosa tentativa de buscar apoio internacional para consolidar a República no Brasil, incluindo o plano de trazer Napoleão Bonaparte, moção que o liga diretamente à França e o torna um fervoroso e loquaz difusor dos ideais iluministas naqueles dias de (R)evolução.


Ao voltar de uma de suas idas à França, em 1797, por exemplo, Cabugá trouxe retratos dos heróis da Revolução de 1789 e os pendurou ostensivamente nas paredes do sobrado onde vivia e onde funcionava a loja maçônica “Pernambuco do Oriente”. Eram frequentes as festas realizadas em sua residência, para aliciar adeptos para a Maçonaria, o que oportunizou a fundação das lojas​: “Guatimosin”, “Restauração” e “Patriotismo”.​


Em 1816, havia em Pernambuco um grande número de Lojas, que cumpriram a tradição da velha terra: com o crescimento das lojas, fez-se necessário instituir uma loja que centralizasse e unificasse todas elas, daí então cunhou-se a primeira Loja Principal, ou Grande Loja em solo brasileiro, a Grande Loja Provincial, filiada ao Governo Supremo, tendo como Grão Mestre Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva.


Por oportuno e justo, afirmo que dos três irmãos Andrada, José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos, este último foi o que menos recebeu atenção da historiografia moderna, mesmo tendo sido ele um dos principais organizadores da Revolução Pernambucana em 1817. ​Mas, essa é outra história que contaremos um dia destes, a Epopeia aqui pertence a outro protagonista, que fez história escrevendo-a galhardamente.​


Com Cabugá à frente do Erário da Jovem República Pernambucana, operou-se, de fato, uma revolução na economia local: ​estabeleceu-se plena liberdade de comércio com todas as nações estrangeiras. ​Isentou-se de taxas os produtos de primeira necessidade como grãos, armas e equipamentos científicos. ​Democratizou-se a concessão de alvarás, revogou-se impostos sobre os pequenos, oportunizando a todos equanimemente.


Dentre outras medidas de grande impacto, tomadas em apenas duas semanas de gestão profícua,​a República Pernambucana, em mãos de Cabugá, passou a comprar alimentos e revendê-los à população a preço de custo, acabando com o monopólio dos mascates lusos que compravam em grosso, estocavam, esperavam a fome crescer para depois revendê-las aos retalheiros, hoje por cinco, amanhã por dez, depois por quinze etc.​


Rendido por Gervásio Pires, que assumiu prontamente a gestão financeira da Jovem República, Cabugá embarcou, finalmente, em 25 de Março de 1817, com destino ao Estados Unidos. Do seu labor em solo americano dependia o futuro do regime democrático que se implantará no Brasil, a partir de Pernambuco: Conseguir o reconhecimento americano e a defesa dos direitos da República Pernambucana junto a Inglaterra.


Cabugá, na verdade, não alimentava grandes esperanças de sucesso, pois, já fora alertado de que o espírito daquela nação era mercantil - ideais revolucionários eram uma coisa e negócios, outra. Se os brasileiros se libertassem sozinhos, ótimo; seriam saudados como irmãos. Até por que, a jovem República Pernambucana somente tinha a oferecer em troca a isenção de impostos para as mercadorias norte-americanas, por vinte anos.​


Até lá, os estadunidenses, que disputavam com ingleses e franceses o valiosíssimo mercado do Brasil para produtos industrializados, não correriam o risco de prejudicar suas relações com Portugal que ainda mandava por aqui - por causa de alguns rebeldes iniciantes na política.​ Ainda assim, uma aparência de reconhecimento foi percebida com a nomeação do seu amigo Charles Ray para a função de cônsul-geral no Recife.


Também fez um bom trabalho junto à imprensa. Apenas algumas vozes anônimas – ou seja, o Abade Serra – tentaram negar o valor do movimento pernambucano pelos jornais americanos – e até desestimulá-lo e quaisquer apoiadores – ao dizer que se tratava de rebeldia isolada, ao contrário da América Espanhola, que se levantara de norte a sul.


Porém, outras vozes, mais loquazes – ou seja, o Cabugá – responderam que Boston também começara a revolução norte-americana sozinha, com uma população ainda menor que a do Recife, cativando a atenção de Thomas Jefferson, um dos “pais fundadores” dos Estados Unidos, que em carta ao Marquês de Lafayette disse-lhe: “Lisboa perdeu sua melhor província, não será de se admire se todo o Brasil se levantar.”


Cabugá fez História e seu legado fulcra a História no livro "1808" Cap.23 (A República Pernambucana), de Laurentino Gomes: "Em maio de 1817, um misterioso personagem percorria as ruas batidas pelo vento frio da primavera na cidade de Filadélfia, a antiga capital dos Estados Unidos. O comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, era o agente secreto de uma conspiração em andamento em Pernambuco."​


Com ajuda dos seus irmãos maçons e dos sessenta contos de réis que levou consigo, Cabugá comprou dez mil fuzis e os despachou para Pernambuco. E ainda convenceu alguns militares franceses, exilados na América do Norte após a derrota de Napoleão em Waterloo, em 1814, a vir treinar nossos soldados, que lutavam contra os portugueses. Em troca, eles ganhariam uma flotilha, para com ela tentar libertar seu imperador.


Lamentavelmente, ao chegar em Pernambuco com os reforços, Cabugá descobriu que o movimento havia durado apenas 75 dias e líderes haviam sido presos ou executados. Condenado à morte pela coroa portuguesa, ele conseguiu escapar e se exilar nos Estados Unidos. ​Após a Independência do Brasil, em 1822, ele teve sua pena de morte revogada e foi dignamente nomeado cônsul-geral do Brasil nos Estados Unidos.


Mais tarde, Cabugá atuou como cônsul geral no Peru e na Bolívia, onde faleceu em 1833. Sua figura é homenageada na Avenida Cruz Cabugá, principal via do Recife, que liga a cidade a Olinda. Cruz Cabugá é lembrado em nossos dias como um dos heróis da pátria pernambucana, e sua trajetória exemplifica como a Maçonaria atuou como o "braço intelectual" dos movimentos emancipacionistas no Brasil do século XIX.


Antônio Gonçalves da Cruz “Cabugá”, mulato rico e revolucionário nascido no Recife em 1775, é uma das figuras centrais na formação da identidade brasileira, especialmente no que diz respeito ao sentimento de pertença e soberania, antes mesmo da Independência oficial do Brasil. Sua trajetória simboliza a resistência, a ousadia e o espírito republicano que permeiam a construção da identidade brasileira.


A República Pernambucana é pioneira por instituir: um governo próprio, armadas próprias (exército e marinha), bandeira própria e uma Lei Orgânica (constituição), na qual ideais como a separação dos poderes, liberdade de imprensa – e de credo – e a democracia representativa manifestavam o brasilidade de um povo abnegadamente notável, razão pela qual a República Pernambucana é chamada de berço da democracia brasileira.


Pernambuco de hoje tem em si arraigado esse legado simbólico. A data de 6 de março é comemorada como Data Magna, feriado estadual, e a bandeira oficial do estado é uma reprodução direta da bandeira da república revolucionária. Em seu imaginário, o pernambucano se construiu em torno de figuras como Cruz Cabugá e suas histórias são celebradas no Carnaval, no hino estadual e em símbolos públicos, para que neles vivam sempre.


Maranguape, Ceará, 26 de Fevereiro de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A TROLHA

 

A trolha, ou colher de pedreiro, é uma ferramenta essencial na construção civil, composta por uma lâmina metálica e cabo, usada para aplicar, espalhar e alisar argamassa ou cimento. Romana de nascimento, ela vem sendo usada desde desta época nas edificações que trazem acolhimento, bem-estar e viver digno aos homens.


Etimologicamente, a palavra trolha deriva do latim trulla, que significa "concha" ou "colher pequena", termo que evoluiu para descrever a ferramenta condizentemente aos usos dela feitos. Historicamente, o termo passou a designar não apenas o objeto, mas também, o próprio profissional (pedreiro ou servente) em certas regiões lusitanas.


Coloquialmente, a gíria "trolha" usada para descrever um problema inesperado ou algo de grandes dimensões é uma evolução informal e regional da palavra, sem uma data de surgimento precisa, porém, amplamente registrada em dicionários informais nesta contemporaneidade. Como se diz, a voz do povo é a voz de Deus, que tudo cria.


Psicologicamente, o ato de "passar a trolha" representa o aperfeiçoamento refletindo o acabamento final do caráter, onde o indivíduo busca eliminar suas imperfeições comportamentais. Envolve a capacidade mental de esquecer injúrias, dissimular ressentimentos e ressignificar experienciações em prol da inclusão social almejada.


Ao invés de nos apegarmos a ofensas ou traumas, a mestria da trolha no leva a transformar essas vivências em aprendizados formidáveis e nos incita à promoção da inclusão social sob o lume da autodisciplina, da autorresponsabilidade e da serenidade, que nos fazem cocriadores da sociedade intelectualmente proba.


Maçonicamente, a trolha ganha um significado simbólico profundo: representa a benevolência, tolerância, indulgência e conciliação. O conceito central da trolha combina função prática com simbolismo moral e espiritual, especialmente nas atividades maçônicas, onde é um símbolo atemporal da fraternidade e da pacificação.


Emblema do amor fraternal, assume inefável mestria ao ensinar aos maçons a perdoar os defeitos uns dos outros, a dissimular ressentimentos, a promover a harmonia na fraternidade, assim como, aplaina as irregularidades (arestas) na construção para formar uma superfície uniforme, onde concórdia e a tolerância jamais tropeçam.


Manifestando a mais augusta a alteridade, a trolha agindo homogeneizando o "cimento-amor", suavizando as arestas e fazendo emergir o senso de pertencimento (equanimidade) entre os indivíduos, fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e harmoniosa. “Sem amor nada seria”, preceitua Paulo de Tarso.


Sob os auspícios da trolha, o maçom é admoestado a direcionar-se pela filosofia de "respeito a Deus, amor ao próximo e dedicação à família", onde o respeito aos direitos individuais e a proteção dos semelhantes, o amor pela pátria e cultivo da felicidade humana, são vetores que lhe conferem a identidade maçônica.


Incontestavelmente, a trolha é o instrumento de união que transforma pedras soltas (indivíduos) em uma estrutura sólida (sociedade ou templo), baseada na solidariedade e no respeito mútuo, que alicerçam a ambiência inclusivamente coesa e feliz, cuja imagem cativa a atenção das sociedades ao longo destes mais de 300 anos de vida da maçonaria.


Passar a trolha é uma alegoria para a construção intencional de nós mesmos, onde cada ação consciente contribui para a remoção de "lacunas" emocionais e comportamentais para que não se façam óbices aos ideais de virtude, equilíbrio e pertencimento coletivo – que são fertilizantes ótimos a alimentar a felicidade humana.


O ato de "passar a trolha", indubitavelmente, é um dos conceitos mais refinados do simbolismo aplicado ao comportamento humano. Na prática operativa, a trolha serve para assentar a argamassa e alisar as superfícies; na esfera psicanalítica e moral, ela representa o instrumento de pacificação, coesão social.


Psicanaliticamente, os feitos e efeitos da trolha podem ser chamados de “flexibilidade cognitiva”, já que, sob sua guia escolhemos ignorar picuinhas em prol de um objetivo maior. É, essencialmente, o exercício da benevolência ativa como estratégia de convivência, pois, maçonaria é convivência, afirma José Linhares de Vasconcelos Filho.


Na psicologia das massas e/ou de grupos, a trolha é o que permite a inclusão: ao "passar a trolha", aplainamos as desigualdades de temperamento, criando um ambiente de paz onde o coletivo prevalece sobre o ego individual. Passar a trolha é o esforço de neutralizar o que separa e fortalecer o que une.


Não se trata de uma negação passiva da realidade, mas, de uma escolha consciente de não permitir que o ressentimento se torne um obstáculo na "construção" de relações saudáveis. Enquanto outras ferramentas "desbastam-nos" (como o maço e o cinzel na pedra bruta), a trolha habilidosamente nos dá o acabamento final.


Se a trolha é o acabamento final, compete aos demais símbolos fundamentais da construção do caráter atuar nas etapas anteriores, transformando a "matéria-prima" humana em algo refinado e ético. Na tradição simbólica, especialmente na maçônica, cada ferramenta representa uma faculdade mental ou moral específica.


A “pedra bruta, nos denota como “ser humano” em seu estado natural, com todas as suas imperfeições, preconceitos e paixões desenfreadas. É o ponto de partida do autoconhecimento: reconhecer que nosso caráter ainda é "tosco" e requer trabalho constante para se tornar uma "Pedra Polida", apta à grande obra que a aguarda.


A tão desejada “pedra polida” emerge do labor diligente do malho e do cinzel (ação e inteligência) desbastando a “pedra bruta”. Sem o malho, não há movimento para a mudança alguma, pois, ele manifesta a força de vontade e a energia necessária para a profícua exequibilidade das incontáveis agências às quais se destina.


O maço sem o cinzel destrói; o cinzel sem o maço é inútil. Proeminente, o cinzel, que representa o discernimento e a inteligência, direciona a força bruta do malho. Psicologicamente, esta sagacidade do cinzel desvela nossa capacidade de analisar quais partes do nosso comportamento devem ser removidas e qual o tempo para isto ocorra.


Como o dia tem 24 horas, a régua de 24 polegadas - símbolo da gestão do tempo e da (auto)disciplina – apresenta-nos o dever de equilibrar a vida entre o trabalho, o descanso, o estudo e o auxílio ao próximo. É a mais fidedigna alegoria para uma vida organizada e reta, sem excessos, sob a égide do esquadro e do compasso.


O Esquadro e o Compasso, conhecidíssimos por juntos formarem a “justa medida”, são egrégios representantes da retidão e do limite. Como uma ferramenta que forma ângulos – retos - perfeitos, o esquadro orienta que nossas ações com os outros devem ser sempre "quadradas", ou seja, justas e honestas, dentro do traçado pelo compasso.


O compasso ao definir o círculo ao redor de nossos desejos e paixões, mantém-nos sob controle para que não invadamos o espaço alheio, desvelando-se como um emblema da Sabedoria, da precisão e da exatidão nos atos humanos, indicando que tudo deve ser medido ao seu justo valor em busca da emancipação do homem.


A emancipação se plasma pelo labor do nível e do prumo. O nível, símbolo da igualdade, anuncia-nos que apesar das diferenças de status (sejam quais forem) todos os seres humanos possuem a mesma essência e dignidade. Como diz Empédocles, somente os iguais se reconhecem mutuamente.


A regência do prumo nos faz respeitavelmente reconhecidos pela firmeza com que praticamos os sãos princípios, a moral e a razão, sem nos inclinarmos por influências externas negativas, desvelando a integridade vertical que nos liga a terra (matéria) ao céu (espírito), pois, somente assim vivemos a independência de espírito.


Esses símbolos mostram que a construção do caráter não é um evento único, mas um processo cíclico de desbastar, medir e polir. Conscienciosos, aqui confirmamos que o "acabamento final" do nosso caráter exige o sacrifício de certas vaidades e impulsos reativos, pois, somente assim, nos assentaremos com parte integrante da sociedade.


O perfeito encaixe na "parede" da sociedade de forma harmoniosa, impele-nos o dever de abrir mão das protuberâncias comportamentais (arrogância, intolerância, etc.), ao mover-se da trolha, que evoca a alteridade - como a ferramenta de pedreiro que alisa a argamassa - para nos nivelarmos e construirmos relações sociais sólidas e sem arestas.


Maranguape, Ceará, 25 de Fevereiro de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9

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