A trolha, ou colher de pedreiro, é uma ferramenta essencial na construção civil, composta por uma lâmina metálica e cabo, usada para aplicar, espalhar e alisar argamassa ou cimento. Romana de nascimento, ela vem sendo usada desde desta época nas edificações que trazem acolhimento, bem-estar e viver digno aos homens.
Etimologicamente, a palavra trolha deriva do latim trulla, que significa "concha" ou "colher pequena", termo que evoluiu para descrever a ferramenta condizentemente aos usos dela feitos. Historicamente, o termo passou a designar não apenas o objeto, mas também, o próprio profissional (pedreiro ou servente) em certas regiões lusitanas.
Coloquialmente, a gíria "trolha" usada para descrever um problema inesperado ou algo de grandes dimensões é uma evolução informal e regional da palavra, sem uma data de surgimento precisa, porém, amplamente registrada em dicionários informais nesta contemporaneidade. Como se diz, a voz do povo é a voz de Deus, que tudo cria.
Psicologicamente, o ato de "passar a trolha" representa o aperfeiçoamento refletindo o acabamento final do caráter, onde o indivíduo busca eliminar suas imperfeições comportamentais. Envolve a capacidade mental de esquecer injúrias, dissimular ressentimentos e ressignificar experienciações em prol da inclusão social almejada.
Ao invés de nos apegarmos a ofensas ou traumas, a mestria da trolha no leva a transformar essas vivências em aprendizados formidáveis e nos incita à promoção da inclusão social sob o lume da autodisciplina, da autorresponsabilidade e da serenidade, que nos fazem cocriadores da sociedade intelectualmente proba.
Maçonicamente, a trolha ganha um significado simbólico profundo: representa a benevolência, tolerância, indulgência e conciliação. O conceito central da trolha combina função prática com simbolismo moral e espiritual, especialmente nas atividades maçônicas, onde é um símbolo atemporal da fraternidade e da pacificação.
Emblema do amor fraternal, assume inefável mestria ao ensinar aos maçons a perdoar os defeitos uns dos outros, a dissimular ressentimentos, a promover a harmonia na fraternidade, assim como, aplaina as irregularidades (arestas) na construção para formar uma superfície uniforme, onde concórdia e a tolerância jamais tropeçam.
Manifestando a mais augusta a alteridade, a trolha agindo homogeneizando o "cimento-amor", suavizando as arestas e fazendo emergir o senso de pertencimento (equanimidade) entre os indivíduos, fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e harmoniosa. “Sem amor nada seria”, preceitua Paulo de Tarso.
Sob os auspícios da trolha, o maçom é admoestado a direcionar-se pela filosofia de "respeito a Deus, amor ao próximo e dedicação à família", onde o respeito aos direitos individuais e a proteção dos semelhantes, o amor pela pátria e cultivo da felicidade humana, são vetores que lhe conferem a identidade maçônica.
Incontestavelmente, a trolha é o instrumento de união que transforma pedras soltas (indivíduos) em uma estrutura sólida (sociedade ou templo), baseada na solidariedade e no respeito mútuo, que alicerçam a ambiência inclusivamente coesa e feliz, cuja imagem cativa a atenção das sociedades ao longo destes mais de 300 anos de vida da maçonaria.
Passar a trolha é uma alegoria para a construção intencional de nós mesmos, onde cada ação consciente contribui para a remoção de "lacunas" emocionais e comportamentais para que não se façam óbices aos ideais de virtude, equilíbrio e pertencimento coletivo – que são fertilizantes ótimos a alimentar a felicidade humana.
O ato de "passar a trolha", indubitavelmente, é um dos conceitos mais refinados do simbolismo aplicado ao comportamento humano. Na prática operativa, a trolha serve para assentar a argamassa e alisar as superfícies; na esfera psicanalítica e moral, ela representa o instrumento de pacificação, coesão social.
Psicanaliticamente, os feitos e efeitos da trolha podem ser chamados de “flexibilidade cognitiva”, já que, sob sua guia escolhemos ignorar picuinhas em prol de um objetivo maior. É, essencialmente, o exercício da benevolência ativa como estratégia de convivência, pois, maçonaria é convivência, afirma José Linhares de Vasconcelos Filho.
Na psicologia das massas e/ou de grupos, a trolha é o que permite a inclusão: ao "passar a trolha", aplainamos as desigualdades de temperamento, criando um ambiente de paz onde o coletivo prevalece sobre o ego individual. Passar a trolha é o esforço de neutralizar o que separa e fortalecer o que une.
Não se trata de uma negação passiva da realidade, mas, de uma escolha consciente de não permitir que o ressentimento se torne um obstáculo na "construção" de relações saudáveis. Enquanto outras ferramentas "desbastam-nos" (como o maço e o cinzel na pedra bruta), a trolha habilidosamente nos dá o acabamento final.
Se a trolha é o acabamento final, compete aos demais símbolos fundamentais da construção do caráter atuar nas etapas anteriores, transformando a "matéria-prima" humana em algo refinado e ético. Na tradição simbólica, especialmente na maçônica, cada ferramenta representa uma faculdade mental ou moral específica.
A “pedra bruta, nos denota como “ser humano” em seu estado natural, com todas as suas imperfeições, preconceitos e paixões desenfreadas. É o ponto de partida do autoconhecimento: reconhecer que nosso caráter ainda é "tosco" e requer trabalho constante para se tornar uma "Pedra Polida", apta à grande obra que a aguarda.
A tão desejada “pedra polida” emerge do labor diligente do malho e do cinzel (ação e inteligência) desbastando a “pedra bruta”. Sem o malho, não há movimento para a mudança alguma, pois, ele manifesta a força de vontade e a energia necessária para a profícua exequibilidade das incontáveis agências às quais se destina.
O maço sem o cinzel destrói; o cinzel sem o maço é inútil. Proeminente, o cinzel, que representa o discernimento e a inteligência, direciona a força bruta do malho. Psicologicamente, esta sagacidade do cinzel desvela nossa capacidade de analisar quais partes do nosso comportamento devem ser removidas e qual o tempo para isto ocorra.
Como o dia tem 24 horas, a régua de 24 polegadas - símbolo da gestão do tempo e da (auto)disciplina – apresenta-nos o dever de equilibrar a vida entre o trabalho, o descanso, o estudo e o auxílio ao próximo. É a mais fidedigna alegoria para uma vida organizada e reta, sem excessos, sob a égide do esquadro e do compasso.
O Esquadro e o Compasso, conhecidíssimos por juntos formarem a “justa medida”, são egrégios representantes da retidão e do limite. Como uma ferramenta que forma ângulos – retos - perfeitos, o esquadro orienta que nossas ações com os outros devem ser sempre "quadradas", ou seja, justas e honestas, dentro do traçado pelo compasso.
O compasso ao definir o círculo ao redor de nossos desejos e paixões, mantém-nos sob controle para que não invadamos o espaço alheio, desvelando-se como um emblema da Sabedoria, da precisão e da exatidão nos atos humanos, indicando que tudo deve ser medido ao seu justo valor em busca da emancipação do homem.
A emancipação se plasma pelo labor do nível e do prumo. O nível, símbolo da igualdade, anuncia-nos que apesar das diferenças de status (sejam quais forem) todos os seres humanos possuem a mesma essência e dignidade. Como diz Empédocles, somente os iguais se reconhecem mutuamente.
A regência do prumo nos faz respeitavelmente reconhecidos pela firmeza com que praticamos os sãos princípios, a moral e a razão, sem nos inclinarmos por influências externas negativas, desvelando a integridade vertical que nos liga a terra (matéria) ao céu (espírito), pois, somente assim vivemos a independência de espírito.
Esses símbolos mostram que a construção do caráter não é um evento único, mas um processo cíclico de desbastar, medir e polir. Conscienciosos, aqui confirmamos que o "acabamento final" do nosso caráter exige o sacrifício de certas vaidades e impulsos reativos, pois, somente assim, nos assentaremos com parte integrante da sociedade.
O perfeito encaixe na "parede" da sociedade de forma harmoniosa, impele-nos o dever de abrir mão das protuberâncias comportamentais (arrogância, intolerância, etc.), ao mover-se da trolha, que evoca a alteridade - como a ferramenta de pedreiro que alisa a argamassa - para nos nivelarmos e construirmos relações sociais sólidas e sem arestas.
Maranguape, Ceará, 25 de Fevereiro de 2026
Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9
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