Eis
que o dia hoje (05/09) resplandece, é Dia do Irmão! Cuidem, pois, o primeiro
irmão a ser festejado somos nós mesmos, já que, somente quando nos amarmos o
suficiente poderemos amar aos demais entes humanos com a primazia que merecem. Talvez
por isso, neste 05 de setembro, celebremos conjuntamente a caridade em manifestação
internacional, ratificando que a primeira caridade a se praticar sempre será em
benefício de nós próprios, pois, quem não se apieda nem mesmo de si, como pode
ter dó de outrem?
O
amor-próprio é o robusto alicerce da fraternidade está desde sempre em sintonia
com o espírito da data: o 5 de setembro foi escolhido justamente em homenagem à
Madre Teresa de Calcutá, falecida nessa data em 1997, cuja vida foi dedicada à
caridade e ao cuidado com o próximo. A
celebração começou em 2007, no 10º aniversário de sua morte, por iniciativa da
Igreja Católica. Corroborativo com esta excelsitude, o ato de exercer a
primeira caridade sobre nós mesmos ecoa a ideia de que a fraternidade – valor
central da data – só se concretiza plenamente quando partimos de uma relação de
cuidado e respeito conosco mesmos, para então estendê-los a todos os demais.
Que
amor temos por nós próprios quando repentinamente ofuscados pelos holofotes da
vaidade invadimos do direito de outrem, de uma coletividade inteira e nos
assentamos no trono real dos hipócritas a dar-lhes ordens sem o devido amparo
legal, tão pouco da aceitação plena e inequívoca de, ao menos, cinquenta por
cento mais um dos constituintes desta coletividade, contabilizado ao final do
devido processo democrático de eleição? Não é amor, mas, sim tirana usurpação,
pois, amor, amar, etc. não é combustível para conflito, definem-se assim!
Figura
nisto um argumento coerente com uma tradição clássica da filosofia política: a
ideia de que legitimidade de poder exige base legal e consentimento democrático
– a referência a "cinquenta por cento mais um" evoca diretamente o
princípio da maioria simples como critério mínimo de validade eleitoral. A
distinção entre amor e usurpação põe na difusora a crítica de pensadores como
Maquiavel (que já descrevia o tirano como aquele que "transtorna a
república e se apodera de tudo sem respeitar as leis") e, mais tarde, o
liberalismo de Locke, para quem o governo sem consentimento do povo é tirania
por definição.
Ao dizer "não é amor, mas tirana usurpação" condensa-se bem a tese de
que poder exercido sem amparo legal nem mandato popular é, por natureza, ato de
dominação – não de cuidado. A vaidade, nesse enquadramento, funciona como o
motor que transforma o desejo de reconhecimento em vontade de subjugação, que
somente aqueles incapazes “ser” e/ou conquistar por mérito tem a chave para acioná-lo
a demérito dos bons costumes que sustentam a liberdade do melhor convívio para
os buscadores da verdade e para os obreiros da paz esparsos sobre os
continentes do planeta Terra.
Essa
detestável vaidade – que transforma o desejo de reconhecimento em vontade de
subjugação – encontra eco preciso em Étienne de La Boétie (1549), que em
Dissertação sobre a Servidão Voluntária descreve o tirano como alguém que
"não tem poder sobre vós senão graças a vós". O tirano, ali retratado, não é meramente um
infame que invade o direito alheio: é quem se alimenta do consentimento que
extrai por vaidade, e o povo, por sua vez, "concede tudo ao tirano antes
mesmo que este exija sua parte". A vaidade, nessa percepção , é o
combustível que faz o tirano crer que o trono lhe é de direito – quando, na
verdade, este assento é um empréstimo, como tudo na vida, que ele se apropria
sem o lastro do mérito e/ou da permissão consensual a si concedida pela
coletividade que assente.
Rousseau
radicaliza tal exigência em Do Contrato Social (1762): o pacto social, como ato
fundador, exige consentimento unânime – cada associado abdicando de seus
direitos em favor do corpo coletivo. Já
nas deliberações ordinárias, a vontade geral se expressa pela maioria, e
"todos ficam obrigados pelo acordo estabelecido pela maioria". A sua
exigência de "cinquenta por cento mais um" situa-se exatamente nesse
ponto: é o mínimo que transforma uma imposição individual em ato coletivo
legítimo. Bobbio, a seu tempo, sintetiza: "o poder político legítimo é
exercido mediante o consentimento da maioria, não podendo, por isso, extrapolar
os limites fixados pelo estatuto político". Legalidade e legitimidade,
para ele, são indissociáveis – uma pertence à doutrina do poder, a outra à do
direito, e juntas constituem a summa potestas.
Em
Platão (República, Livro IX), a tirania é o regime que "leva às últimas
consequências o domínio do mais forte", e o tirano é descrito como o homem
mais infeliz de todos, precisamente porque a sua relação com os outros é de
domínio, não de cuidado – onde não caridade, haverá amor? O tirano não ama: ele consome. A vaidade cega
este laureado pela má-fé para a diferença entre ser reconhecido (amor,
reciprocidade) e ser obedecido (dominação, unilateralidade). Aristóteles
reforça: a monarquia justa governa "pelo bem do conjunto", enquanto a
tirania governa "pelo interesse do tirano". A diferença não é de
grau, mas, de natureza – exatamente como externei acima a oposição entre amor e
usurpação. O amor político, na tradição contratualista, é a obediência livre à
lei que se impõe a si mesmo (Rousseau); a usurpação é a imposição de uma
vontade particular sobre a vontade geral.
Há
ainda uma camada que toquei de raspão, mas que é crucial à percepção dos
fatos com a clareza que exigem: Tocqueville adverte que "quando vejo
concederem o direito e a faculdade de fazer tudo a uma força qualquer, seja ela
chamada povo ou rei, democracia ou aristocracia, digo: aí está o germe da
tirania". A tirania não exige a ausência de eleições – pode nascer dentro
delas, quando a vaidade de um líder o leva a se assentar "no trono real
dos hipócritas" mesmo com o aval formal da maioria, sem que haja
"aceitação plena e inequívoca" do corpo constituinte. É a diferença entre ser escolhido e ser
aceito – e é nessa fenda que a usurpação se instala.
Tal
usurpação pintada nesta imagem do "assentar-se no trono real" é, em
psicologia, a externalização do que Heinz Kohut chamou de narcisismo grandioso:
o indivíduo que não suporta a própria finitude projeta sobre o mundo uma
posição de supremacia que o alivie do vazio interno. O trono não é um lugar que
se ocupa – é um espelho que se constrói sob os auspícios dos melhores feitos e dos
mais auguriosos efeitos. A vaidade, nesse enquadramento, não é um excesso de
amor-próprio: é a falta de amor-próprio que tenta ser preenchida por uma
posição externa. O "holofote" é o suprimento narcísico, sem o qual o
sujeito colapsa no que Otto Kernberg descreve como a "vulnerabilidade
narcísica oculta" sob a armadura de grandiosidade. Lembrei-me que Dona
Eunice – minha avó – dizia: “todo penso é torto”. E se é torto cai, ruindo
consigo sua impertinência e corrupção.
Em
teoria das relações objetais (Melanie Klein, D. W. Winnicott), o
desenvolvimento saudável exige que o sujeito reconheça o outro como separado de
si – com vontade, direito e integridade próprias. O narcisista patológico não
consegue fazer esse reconhecimento. Para ele, o outro não é um sujeito, é um
objeto: um meio para a própria validação. Quando digo da "invasão do
direito de outrem, de uma coletividade inteira”, aclaro a falha fundamental: a
incapacidade de tolerar a alteridade. O outro não é amado – é apropriadamente,
pois, não se ama uma “coisa”, a desejamos. Isso explica a "usurpação"
no sentido psicológico: o tirano não invade por maldade calculada. Ele invade
porque não distingue o próprio limite do limite alheio. A coletividade inteira,
para ele, é extensão do próprio ego – e, como tal, pode ser
"ordenada" sem amparo, porque, na sua experiência interna, não é
outra.
Fromm
preceitua uma inversão com precisão cirúrgica: "Os narcisistas não se amam
demais – amam-se de menos." O mito de Narciso dá-nos a perceber sua
tamanha solidão, pois, somente ele vê a si próprio belo, amorável, reconhecível,
etc. O narcisista congelou o amor-próprio na forma de grandiosidade: ele não se
ama, ele se defende. O amor-próprio saudável, em contraponto, é a capacidade de
se aceitar sem necessidade de espelho externo – e é exatamente isso que
desativa a máquina da usurpação: sem a necessidade de holofotes, fenece a
vaidade e a usurpação não há, pois, somos plenos em tudo e de tudo quando nos
amamos veraz e sobriamente. O trono – “dos hipócritas” – desmonta-se porque o
que o sustentava – o vazio interno – foi preenchido pelo autocuidado (caridade
por si próprio).
Eis
o vetor que a maioria das moralidades erra: a caridade não é a negação do
amor-próprio. Ela a sua continuação natural. Se o amor-próprio saudável me diz
"eu tenho valor", a caridade me diz "e o outro também tem".
Fromm bate o prego e vira a ponta: "aqueles que são capazes de se amar são
também capazes de amar os outros; aqueles que são incapazes de se amar são
também incapazes de amar os outros." Portanto, a caridade, nesse diapasão,
não é um sacrifício, mas sim, a mais irrefutável prova de que o amor-próprio
está funcionando. Quem se sacrifica não ama: foge de si. Quem dá com plenitude
não perde: expande-se! É dando que se recebe, tem o condão de multiplicar os pães
ofertados.
O
pão-amor concita-nos a mesa dos iguais, portanto, irmãos, onde alimenta-nos
a alma e limpa-nos a visão: se a usurpação é o "eu" impondo sua
vontade sobre o "nós" sem consentimento, é a inversão naturalmente é
o "nós" constituído a partir de "eus" que se reconhecem
mutuamente pelo amor os identifica. Rousseau já o via: a compaixão é "a
emoção democrática por excelência", porque "cria laços de afeto
através do sofrimento compartilhado".
Não é a lei que impõe a solidariedade – é o reconhecimento mútuo que a
torna possível. A força dos iguais é descomunal e apta a transfigurar
realidades caóticas em aprazíveis ambiências onde pelo amor aprimoram-se os costumes,
semeia-se respeito à fé e a autoridade de cada um e se estabelece a alteridade
como Norte de amorabilidade.
Evoco
meu Jovem Irmão Francisco Jackson Arruda Cavalcante que tem sido formidável em
sua perene busca por estabelecer entre nós a mais robusta das virtudes
maçônicas, que se solidifica no silêncio de sua prática, afinal, a alteridade
não permeia nenhum escrito ritual, embora ela esteja neles intrínseca e em
efusivo exercício de sua mestria. Ele nos chama a olhar para o outro não para o
julgar, pois, incontáveis são nossas hipocrisias e amoralidades a nos
impedir de fazê-lo com a necessária isenção. Com sagacidade, Jackson convence-nos
a abrir os olhos a perceber o invisível aos nossos olhos até que o ouçamos: o
outro é nosso retrato mais digno.
Quando
o enxergado é atroz maior atrocidade há em nossas entranhas psico-espirituais;
quando o visto é aprazivelmente belo, tudo em nosso entorno viceja graça,
prosperidade e alegrias, como preceitua o meu Irmão Jackson. Com singeleza
ele nos apresenta o mal e o bem na fluída sinergia que une estas duas
antagônicas forças na cocriação das realidades conforme arquiteta nossa índole.
As práticas de Jackson robustecem o adágio popular que sentencia: "quem
disso usa, disso cuida". Quem é capaz de penetrar nos locais mais
recônditos do coração bem formado dos entes humanos a ver se há lá acesa a
tênue luz que identifica, os iguais, os irmãos – sendo também apto a acendê-la,
quando vista apagada – é potencialmente capaz de ver-se exuberante em cada um
de nós.
Um
irmão assim, como Jackson, enche-nos de orgulho, com a mesma intensidade com
que nos motivamos a manifestar a melhor versão de nós, os mais auguriosos
feitos e efeitos; e a revelar a mais autêntica imagem de nós mesmos. Uma clara
manifestação do Princípio da Correspondência: assim como Jackson é, também nós
o somos. E somos todos aquilo que habitualmente fazemos. Nussbaum nisto efloresce: a
compaixão é uma virtude cívica, não um sentimento privado. Para ela, "ser um bom cidadão exige
estar confiavelmente alerta à injustiça, ser motivado a promover a justiça e
ser motivado a garantir que todos tenham os bens básicos para uma vida
boa". A compaixão política não é piedade – é a capacidade
institucionalizada de reconhecer a vulnerabilidade alheia e responder a ela. E
a melhor resposta sempre será a caridade – vinda do latim caritas, caritatis,
que significa afeto, estima, amor ou ternura – que abraça a todos por igual na
constante busca do tornar feliz a humanidade.
Maranguape,
Ceará, 05 de Setembro de 2026
Bruno
Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE
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