quarta-feira, 22 de julho de 2026

SENDO PEDRAS, CAMINHEMOS!

Valorizar trilhas, rochas e belezas naturais da região da Serra de Maranguape expressa que Deus abre os caminhos para que neles nos coloquemos como pedras lavradas que fazem a estrada andar, pois, a natureza criada pelo sagrado para nos abrigar, alimentar e contentar já aparou as arestas restadas do mundano deixando-nos com a superfície ótima a sermos parte dele.

 

Poeticamente, este pensamento manifesta a sinergia entre a ação divina e o trabalho humano, sugerindo que a fé nos dá a direção, porém, é a nossa dedicação o vetor de transformação dos obstáculos em estruturas (alavancas) para avançar, encontrando na interdependência que há entre tudo criado material e espiritualmente sob a égide da harmonia reinante.

 

A natureza, como um abrigo já preparado pelo sagrado não é meramente um cenário, sendo um formidável organismo vivo que "aparou as arestas" do mundano. Isso sedimenta que o ambiente natural já possui uma sabedoria intrínseca e uma superfície pronta para nos receber – e para que a recebamos –, bastando que nos integremos a ela em vez de tentarmos dominá-la.

 

Essa percepção reverbera sentimentos encontrados em diversas tradições espirituais e obras artísticas, como nos louvores que celebram a intervenção divina que remove obstáculos e prepara o terreno para o trânsito da fé e da vida. Como nos rituais maçônicos que definem o maçom como pedra que, pelo burilamento, galga a aptidão para ser usada na construção social.


Neste contexto, a arte atua como uma ponte entre o humano e o divino, permitindo a expressão de emoções, crenças e ideias de forma criativa e simbólica. Afirma Adelino Barcellos Filho, citado pelo Vatican News, essa expressão buscar "aliar forma e conteúdo", fazendo com que o indivíduo cresça e corresponda à arquitetura Sagrada presente em toda a Criação.

 

Historicamente, essa dinâmica observa-se desde a preparação instintiva dos ninhos pelos animais até as complexas obras humanas, indicando que a criatividade é uma resposta ao divino, mesmo que no Renascimento e Iluminismo ela tenha passado a ser compreendida como um processo estruturado fruto do esforço individual, razão e desenvolvimento técnico.

 

A simbiose entre estas tradições reside na ideia de que a existência humana requer um processo ativo de transformação para atingir seu pleno potencial. Resolutamente, assim como o louvor materializa a remoção de impedimentos espirituais para o trânsito da fé, o burilamento da pedra, a seu tempo, remove as asperezas do caráter para o trânsito na vida social. Eis o múnus da evolução humana.

 

Tanto o cântico espiritual quanto a pedra lapidada deixam de ser elementos isolados para se tornarem partes fundamentais de uma estrutura maior – seja o corpo místico da fé ou a edificação da sociedade humana. O maçom, simbolizado como uma "pedra bruta" que, através do trabalho constante e do "burilamento" (educação e autoconhecimento), torna-se apta ao fim a que se destina.

 

O objetivo desse refinamento jamais será unicamente a perfeição individual, mas, sempre será o desenvolvimento das capacidades de integrar-se à "construção social". Assim como as pedras lapidadas compõem um templo, os indivíduos transformados compõem uma sociedade mais justa e fraterna. O ritual estabelece essa aptidão como essencial para o trânsito da vida em comunidade.

 

Este olhar robustece que a espiritualidade e a arte não são fins em si mesmas, mas, ferramentas dinâmicas que preparam o indivíduo para atuar no mundo, superando limitações e contribuindo para uma obra coletiva, que jamais finda, ao contrário é continua e aprimorada por cada geração que a seu tempo estabelece novéis perspectivas de entendimento para o tradicional dando-lhe (re)novadas utilidades.

 

Sêneca e Marco Aurélio, acreditam que viver em harmonia com o bem é viver em conformidade com a razão e a natureza. Marco Aurélio defende que aceitar os acontecimentos externos – que estão fora do nosso controle – e focar nas próprias respostas internas e virtudes é o caminho para a tranquilidade da mente (ataraxia), cônscio que somente uma mente serena é sã.

 

Viver racionalmente é, incontestavelmente, alinhar a própria vontade e ações com essa ordem natural e divina que dá influxo ao universo. Fidedignamente leal à amizade ao bem, Jônatas arriscou sua posição como príncipe e sua relação com o pai, o Rei Saul, para proteger Davi. "A alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma". (1 Samuel 18:1)

 

Sêneca enfatiza a virtude é o único bem verdadeiro e que ela só é alcançada quando se vive de acordo com a natureza. Envolve o uso correto da razão para discernir o que é bom, mal ou indiferente, como também, para cultivar qualidades como a sabedoria, a justiça, a coragem e a temperança, que manifestam – como Ruth e Noemi – amor sacrificial e compromisso inabalável. (Rute 1:16)

 

“Sou amigo de todos os que te temem e obedecem aos teus preceitos”, declara Salomão. (Salmos 119:63). A razão (ou logos), pois, é a lei universal que governa o cosmos e que, também, reside dentro de cada ser humano. Desta sinergia a natureza forma-se como a pedra angular da ética estoica, o único caminho para se alcançar a verdadeira felicidade e excelência moral.

 

Sendo a excelência moral, ou virtude, o único bem verdadeiro. Tudo o mais – saúde, riqueza, reputação – é um "indiferente preferível", algo que podemos desejar, ainda que não determine nossa felicidade ou moralidade. A virtude, unicamente, é mais que suficiente para que a felicidade propicie a ausência de sofrimentos desnecessários através da sabedoria prática: domínio próprio.

 

O sábio foca apenas naquilo que pode controlar. "Quem tem muitos amigos pode chegar à ruína, mas existe amigo mais chegado que um irmão" (Provérbios 18:24), afinal, unicamente a verdadeira amizade oferece um apoio profundo, lealdade contundente e um companheirismo mais forte que os laços familiares, sendo um tesouro de valor inestimável encontrado por poucas pessoas.

 

O amigo fiel é permanece quando outros partem. Ele constrói a família espiritual (“família de alma”) sobre uma base de confiança e amor. A amizade manifesta o poder do "nurture" (criação e escolhas interpessoais) na formação de conexões significativas. Como afirma Aristóteles que a amizade é "uma alma habitando em dois". É o exercício da liberdade e da autonomia de uma escolha deliberada. 

 

Esse "sim" renovado diariamente confere ao suporte emocional uma validação única. Saber que o amigo escolhe estar ali todos os dias cria um vínculo de confiança muito mais profundo do que os laços consanguíneos. É um vicejar intenso da empatia, fortalecendo a resiliência, que deixa de ser um "hábito" para a ser uma genuína e cuidadosa amizade entre amigos do bem. 

 

A amizade é o cimento que assenta a pedra polida nos caminhos da (con)fraternidade aberto pelo Criador para que nele sejamos a estrada a levar o universo à coadjuvação entre o mundano e o sagrado onde galgamos a aptidão para sermos a pedra polida (o homem integral aprimorado moral e espiritualmente) assentada neste caminho.

 

Maranguape, Ceará, 22 de Julho de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


Nenhum comentário:

Postar um comentário

SENDO PEDRAS, CAMINHEMOS!

Valorizar trilhas, rochas e belezas naturais da região da Serra de Maranguape expressa que Deus abre os caminhos para que neles nos coloquem...