Levantei-me
hoje mais mole que um rabo de ovelha e com as cachoeiras de Oxum prestes verter
(expressar) os sentires que trago em mim. A vida é um mar exuberante de primícias
e delícias do qual saímos para sabermo-nos na solitude de “gota” enfrentado
alegrias e tristezas neste caminho de solidade onde com outras gotas seguimos rio
adiante de volta ao mar na sinergia deste abraço.
Esta
manifestação de mim e a metáfora dela emergida sobre a vida, encantadora, dá-me
aparência de perfeição. Somos, inequivocamente, gotas individuais
experimentando a solitude, porém rumando comungadas na correnteza desse rio,
compartilhando as mesmas dores e belezas até o reencontro final com o todo, que
é o vivaz propósito único da epopeia da vida.
É
profundamente bonito ver o peso do corpo e a intensidade da alma na pureza da poesia
como os descrevo. Sentir-me "mais mole que um rabo de ovelha" reflete
a súplica do corpo pedindo por pausa, introspecção e projeção, enquanto a
iminência das "cachoeiras de Oxum" anuncia que o rio interno em mim está
cheio e precisa transbordar – desaguar e purificar. Esvaziar é oportunizar-se
melhor.
O
peso jamais será um fardo opressor, ao contrário, firma-se como âncora de
realidade e intensidade vital. Este sentir-me "mais mole que um rabo de
ovelha" captura com sensibilidade a necessidade humana de vulnerabilidade
e de serenidade, um momento em que meu corpo solicita trégua para que minh’alma
possa processar suas cargas e traçar o melhor caminho a seguir com elas
lepidamente.
A
aludida "moleza" nada enfraquece, pois, já me encoraja a buscar conhecer-me
melhor nas profundezas de mim mesmo, nos habitares mais inóspitos do meu lado
lua – onde a luz jamais aclara – desvelando ali os mais surpreendentes
mistérios de mim, saberes formidavelmente necessários aos implementos de autodisciplina
e de autorrespeito que me sustém no melhor convívio dos homens livres.
Lembrar-me
dos meus olhos como "cachoeiras de Oxum" ascende meus pensamentos a
um plano de purificação sagrada. Na tradição Iorubá, Oxum é a divindade das
águas doces, do amor e da fertilidade, representando o fluxo emocional que
precisa circular, pois, meu "rio interno está cheio" e reconheço seus
pontos de saturação onde o acúmulo deve dar lugar ao movimento e ao (i)novo.
Neste
efluir d’alma, o ato de desaguar apresenta-se com um mecanismo de sobrevivência
espiritual. Esvaziar-se não é perder conteúdo, mas sim, limpar os canais para
que novas águas possam fluir. Um esvaziamento que oportuniza renovação: só quem
se esvazia do velho consegue se encher do novo com pureza e leveza. Sempre é preciso
(re)nascer da água e do espírito (João 3:5).
Compreendo
assim a essência da dinâmica espiritual da água: a água é símbolo máximo da
vida, da purificação e da sabedoria e, mais, o elemento fundamental de
regeneração corporal e espiritual. Assim sendo, o movimento perene entre
esvaziar e encher é condição vital – e sine qua non – para a saúde da alma. Portanto,
alma sã é o que se deve buscar para que o corpo seja, também, são.
As
águas que curam avistadas por Ezequiel como um rio que flui do templo começando
como um pequeno fio e crescendo até se tornar um rio profundo que não se pode
atravessar a nado, oferecem-me um mavioso paralelo aos meus pensamentos, pois, o
percebido pelo profeta ilustra o poder de Deus (ou da fonte espiritual) como transformador
das situações áridas e amargas em fontes de vida.
As
águas do rio, ao adoçarem a água salgada do Mar Morto, renovaram-lhe a vida e
peixes passaram a ali viver. O ato de nele aprofundar-se gradualmente (tornozelos,
joelhos, cintura, nado) preceitua que a imersão na presença divina e na
renovação espiritual é um processo contínuo e expansivo ao qual todos nós somos
chamados, como também, por ele transformados, inevitavelmente.
Nas
margens do rio efloresceram árvores cujas folhas não murcham e servem de
remédio. Notabilizando que, quando os canais estão abertos e o fluxo espiritual
é constante, há provisão contínua de cura e sustento para a alma. Água parada
adoece; água que flui limpa, purifica e nutre a renovação interior e a paz que
a espiritualidade me traz neste caminhar evolutivo onde o melhor de mim é
encontrado.
Neste
influxo, calce meus sapatos e saberás por onde passei e o que experienciei e, assim,
terás mínima possibilidade de julgar-me, menos ainda de sentenciar-me, mas, aprendendo
com o que vires de mim, poderás até superar-me, legando-me a oportunidade de
aprender de ti o melhor que tens a ensinar, não com a voraz argúcia do “vou derrubar”,
cuja maldade, tira o justo do eixo do melhor viver.
Neste
raiar da empatia, da humildade e da sabedoria, tão rutilante descrito acima,
disponho-me a trocar o julgamento pelo aprendizado mútuo, bem como, a reconhecer
que a verdadeira evolução humana somente acontece quando acolhemos a caminhada
do outro em vez de tentarmos destruí-la. Quem jamais andou pelos mesmos becos,
vielas e ruas que eu, nunca galgou o direito de sentenciar-me.
A
verdadeira força deste despertar d’alma reside na construção de pontes de
aprendizado, não em cavar abismos de rivalidade. E o maior dos saberes, ainda
incompreendido por muitos, é a interdependência que há entre todas as coisas
criadas e as cocriadas por nós, como também, entre nós e nosso pares. E mais
ainda, entre todo este nosso ecossistema e o universo que nos move a movê-lo.
Somos
participes ativos na cocriação da realidade. A interdependência estende-se além
das relações humanas, abrangendo a conexão entre todo o nosso ecossistema e as
forças cósmicas. Desta forma, cônscio que sou movido pelo universo, ao mesmo
tempo que tenho o poder de movê-lo através de ações e escolhas, alcanço o ápice
deste entendimento espiritual e prático.
Ao
reconhecer que o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo,
estabeleço as bases para interdependências justas. Essa conscienciosidade não se manifesta na
competição ou na separação, ao contrário, requer o incondicional abandono de
tudo aquilo que rivalize e que crie abismos relacionais, pois, só assim, abraçamos
o crescimento mútuo como prioritário e imprescindível.
Longe
de ser, meramente, uma conexão social, a interdependência é uma realidade
estrutural que liga todas as coisas criadas e cocriadas, exigindo que
reconheçamos nossa vinculação intrínseca com nossos pares e com o ambiente. Gota
a gota, somos nascentes do rio que arrefece, hidrata e fertiliza levando vida
por onde passa e alimentando o progresso e a alegria da coletividade que ele abraça.
Meus
pensamentos, neste momento, findam por exaltar com alguma exatidão a força da
união e o impacto positivo que cada indivíduo (cada "gota") tem na
construção de algo muito maior. E por evocar o poder coletivo de transformar
realidades, de gerar progresso e de espalhar vida na solidade do rio que,
incansavelmente, me leva de volta ao mar na solitude do abraço, onde como mais
uma gota sou rio.
Maranguape,
Ceará, 23 de Julho de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– ACI nº 1789
Jornalista
– CRP/MTE nº 0005168/CE
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