sábado, 5 de setembro de 2026

CARIDOSO DIA PARA TODOS NÓS!

 

Eis que o dia hoje (05/09) resplandece, é Dia do Irmão! Cuidem, pois, o primeiro irmão a ser festejado somos nós mesmos, já que, somente quando nos amarmos o suficiente poderemos amar aos demais entes humanos com a primazia que merecem. Talvez por isso, neste 05 de setembro, celebremos conjuntamente a caridade em manifestação internacional, ratificando que a primeira caridade a se praticar sempre será em benefício de nós próprios, pois, quem não se apieda nem mesmo de si, como pode ter dó de outrem?

 

O amor-próprio é o robusto alicerce da fraternidade está desde sempre em sintonia com o espírito da data: o 5 de setembro foi escolhido justamente em homenagem à Madre Teresa de Calcutá, falecida nessa data em 1997, cuja vida foi dedicada à caridade e ao cuidado com o próximo.  A celebração começou em 2007, no 10º aniversário de sua morte, por iniciativa da Igreja Católica. Corroborativo com esta excelsitude, o ato de exercer a primeira caridade sobre nós mesmos ecoa a ideia de que a fraternidade  valor central da data – só se concretiza plenamente quando partimos de uma relação de cuidado e respeito conosco mesmos, para então estendê-los a todos os demais.

 

Que amor temos por nós próprios quando repentinamente ofuscados pelos holofotes da vaidade invadimos do direito de outrem, de uma coletividade inteira e nos assentamos no trono real dos hipócritas a dar-lhes ordens sem o devido amparo legal, tão pouco da aceitação plena e inequívoca de, ao menos, cinquenta por cento mais um dos constituintes desta coletividade, contabilizado ao final do devido processo democrático de eleição? Não é amor, mas, sim tirana usurpação, pois, amor, amar, etc. não é combustível para conflito, definem-se assim!

 

Figura nisto um argumento coerente com uma tradição clássica da filosofia política: a ideia de que legitimidade de poder exige base legal e consentimento democrático – a referência a "cinquenta por cento mais um" evoca diretamente o princípio da maioria simples como critério mínimo de validade eleitoral. A distinção entre amor e usurpação põe na difusora a crítica de pensadores como Maquiavel (que já descrevia o tirano como aquele que "transtorna a república e se apodera de tudo sem respeitar as leis") e, mais tarde, o liberalismo de Locke, para quem o governo sem consentimento do povo é tirania por definição.

 

Ao dizer "não é amor, mas tirana usurpação" condensa-se bem a tese de que poder exercido sem amparo legal nem mandato popular é, por natureza, ato de dominação – não de cuidado. A vaidade, nesse enquadramento, funciona como o motor que transforma o desejo de reconhecimento em vontade de subjugação, que somente aqueles incapazes “ser” e/ou conquistar por mérito tem a chave para acioná-lo a demérito dos bons costumes que sustentam a liberdade do melhor convívio para os buscadores da verdade e para os obreiros da paz esparsos sobre os continentes do planeta Terra.


Essa detestável vaidade – que transforma o desejo de reconhecimento em vontade de subjugação – encontra eco preciso em Étienne de La Boétie (1549), que em Dissertação sobre a Servidão Voluntária descreve o tirano como alguém que "não tem poder sobre vós senão graças a vós".  O tirano, ali retratado, não é meramente um infame que invade o direito alheio: é quem se alimenta do consentimento que extrai por vaidade, e o povo, por sua vez, "concede tudo ao tirano antes mesmo que este exija sua parte". A vaidade, nessa percepção , é o combustível que faz o tirano crer que o trono lhe é de direito – quando, na verdade, este assento é um empréstimo, como tudo na vida, que ele se apropria sem o lastro do mérito e/ou da permissão consensual a si concedida pela coletividade que assente.

 

Rousseau radicaliza tal exigência em Do Contrato Social (1762): o pacto social, como ato fundador, exige consentimento unânime – cada associado abdicando de seus direitos em favor do corpo coletivo.  Já nas deliberações ordinárias, a vontade geral se expressa pela maioria, e "todos ficam obrigados pelo acordo estabelecido pela maioria". A sua exigência de "cinquenta por cento mais um" situa-se exatamente nesse ponto: é o mínimo que transforma uma imposição individual em ato coletivo legítimo. Bobbio, a seu tempo, sintetiza: "o poder político legítimo é exercido mediante o consentimento da maioria, não podendo, por isso, extrapolar os limites fixados pelo estatuto político". Legalidade e legitimidade, para ele, são indissociáveis – uma pertence à doutrina do poder, a outra à do direito, e juntas constituem a summa potestas.


Em Platão (República, Livro IX), a tirania é o regime que "leva às últimas consequências o domínio do mais forte", e o tirano é descrito como o homem mais infeliz de todos, precisamente porque a sua relação com os outros é de domínio, não de cuidado – onde não caridade, haverá amor?  O tirano não ama: ele consome. A vaidade cega este laureado pela má-fé para a diferença entre ser reconhecido (amor, reciprocidade) e ser obedecido (dominação, unilateralidade). Aristóteles reforça: a monarquia justa governa "pelo bem do conjunto", enquanto a tirania governa "pelo interesse do tirano". A diferença não é de grau, mas, de natureza – exatamente como externei acima a oposição entre amor e usurpação. O amor político, na tradição contratualista, é a obediência livre à lei que se impõe a si mesmo (Rousseau); a usurpação é a imposição de uma vontade particular sobre a vontade geral.

 

Há ainda uma camada que toquei de raspão, mas que é crucial à percepção dos fatos com a clareza que exigem: Tocqueville adverte que "quando vejo concederem o direito e a faculdade de fazer tudo a uma força qualquer, seja ela chamada povo ou rei, democracia ou aristocracia, digo: aí está o germe da tirania". A tirania não exige a ausência de eleições – pode nascer dentro delas, quando a vaidade de um líder o leva a se assentar "no trono real dos hipócritas" mesmo com o aval formal da maioria, sem que haja "aceitação plena e inequívoca" do corpo constituinte.  É a diferença entre ser escolhido e ser aceito – e é nessa fenda que a usurpação se instala.

 

Tal usurpação pintada nesta imagem do "assentar-se no trono real" é, em psicologia, a externalização do que Heinz Kohut chamou de narcisismo grandioso: o indivíduo que não suporta a própria finitude projeta sobre o mundo uma posição de supremacia que o alivie do vazio interno. O trono não é um lugar que se ocupa – é um espelho que se constrói sob os auspícios dos melhores feitos e dos mais auguriosos efeitos. A vaidade, nesse enquadramento, não é um excesso de amor-próprio: é a falta de amor-próprio que tenta ser preenchida por uma posição externa. O "holofote" é o suprimento narcísico, sem o qual o sujeito colapsa no que Otto Kernberg descreve como a "vulnerabilidade narcísica oculta" sob a armadura de grandiosidade. Lembrei-me que Dona Eunice – minha avó – dizia: “todo penso é torto”. E se é torto cai, ruindo consigo sua impertinência e corrupção.

 

Em teoria das relações objetais (Melanie Klein, D. W. Winnicott), o desenvolvimento saudável exige que o sujeito reconheça o outro como separado de si – com vontade, direito e integridade próprias. O narcisista patológico não consegue fazer esse reconhecimento. Para ele, o outro não é um sujeito, é um objeto: um meio para a própria validação. Quando digo da "invasão do direito de outrem, de uma coletividade inteira”, aclaro a falha fundamental: a incapacidade de tolerar a alteridade. O outro não é amado – é apropriadamente, pois, não se ama uma “coisa”, a desejamos. Isso explica a "usurpação" no sentido psicológico: o tirano não invade por maldade calculada. Ele invade porque não distingue o próprio limite do limite alheio. A coletividade inteira, para ele, é extensão do próprio ego  e, como tal, pode ser "ordenada" sem amparo, porque, na sua experiência interna, não é outra.

 

Fromm preceitua uma inversão com precisão cirúrgica: "Os narcisistas não se amam demais – amam-se de menos." O mito de Narciso dá-nos a perceber sua tamanha solidão, pois, somente ele vê a si próprio belo, amorável, reconhecível, etc. O narcisista congelou o amor-próprio na forma de grandiosidade: ele não se ama, ele se defende. O amor-próprio saudável, em contraponto, é a capacidade de se aceitar sem necessidade de espelho externo – e é exatamente isso que desativa a máquina da usurpação: sem a necessidade de holofotes, fenece a vaidade e a usurpação não há, pois, somos plenos em tudo e de tudo quando nos amamos veraz e sobriamente. O trono – “dos hipócritas” – desmonta-se porque o que o sustentava – o vazio interno – foi preenchido pelo autocuidado (caridade por si próprio).

 

Eis o vetor que a maioria das moralidades erra: a caridade não é a negação do amor-próprio. Ela a sua continuação natural. Se o amor-próprio saudável me diz "eu tenho valor", a caridade me diz "e o outro também tem". Fromm bate o prego e vira a ponta: "aqueles que são capazes de se amar são também capazes de amar os outros; aqueles que são incapazes de se amar são também incapazes de amar os outros." Portanto, a caridade, nesse diapasão, não é um sacrifício, mas sim, a mais irrefutável prova de que o amor-próprio está funcionando. Quem se sacrifica não ama: foge de si. Quem dá com plenitude não perde: expande-se! É dando que se recebe, tem o condão de multiplicar os pães ofertados.

 

O pão-amor concita-nos a mesa dos iguais, portanto, irmãos, onde alimenta-nos a alma e limpa-nos a visão: se a usurpação é o "eu" impondo sua vontade sobre o "nós" sem consentimento, é a inversão naturalmente é o "nós" constituído a partir de "eus" que se reconhecem mutuamente pelo amor os identifica. Rousseau já o via: a compaixão é "a emoção democrática por excelência", porque "cria laços de afeto através do sofrimento compartilhado".  Não é a lei que impõe a solidariedade – é o reconhecimento mútuo que a torna possível. A força dos iguais é descomunal e apta a transfigurar realidades caóticas em aprazíveis ambiências onde pelo amor aprimoram-se os costumes, semeia-se respeito à fé e a autoridade de cada um e se estabelece a alteridade como Norte de amorabilidade.

 

Evoco meu Jovem Irmão Francisco Jackson Arruda Cavalcante que tem sido formidável em sua perene busca por estabelecer entre nós a mais robusta das virtudes maçônicas, que se solidifica no silêncio de sua prática, afinal, a alteridade não permeia nenhum escrito ritual, embora ela esteja neles intrínseca e em efusivo exercício de sua mestria. Ele nos chama a olhar para o outro não para o julgar, pois, incontáveis são nossas hipocrisias e amoralidades a nos impedir de fazê-lo com a necessária isenção. Com sagacidade, Jackson convence-nos a abrir os olhos a perceber o invisível aos nossos olhos até que o ouçamos: o outro é nosso retrato mais digno.


Quando o enxergado é atroz maior atrocidade há em nossas entranhas psico-espirituais; quando o visto é aprazivelmente belo, tudo em nosso entorno viceja graça, prosperidade e alegrias, como preceitua o meu Irmão Jackson. Com singeleza ele nos apresenta o mal e o bem na fluída sinergia que une estas duas antagônicas forças na cocriação das realidades conforme arquiteta nossa índole. As práticas de Jackson robustecem o adágio popular que sentencia: "quem disso usa, disso cuida". Quem é capaz de penetrar nos locais mais recônditos do coração bem formado dos entes humanos a ver se há lá acesa a tênue luz que identifica, os iguais, os irmãos  sendo também apto a acendê-la, quando vista apagada – é potencialmente capaz de ver-se exuberante em cada um de nós.

 

Um irmão assim, como Jackson, enche-nos de orgulho, com a mesma intensidade com que nos motivamos a manifestar a melhor versão de nós, os mais auguriosos feitos e efeitos; e a revelar a mais autêntica imagem de nós mesmos. Uma clara manifestação do Princípio da Correspondência: assim como Jackson é, também nós o somos. E somos todos aquilo que habitualmente fazemos. Nussbaum nisto efloresce: a compaixão é uma virtude cívica, não um sentimento privado.  Para ela, "ser um bom cidadão exige estar confiavelmente alerta à injustiça, ser motivado a promover a justiça e ser motivado a garantir que todos tenham os bens básicos para uma vida boa". A compaixão política não é piedade – é a capacidade institucionalizada de reconhecer a vulnerabilidade alheia e responder a ela. E a melhor resposta sempre será a caridade – vinda do latim caritas, caritatis, que significa afeto, estima, amor ou ternura – que abraça a todos por igual na constante busca do tornar feliz a humanidade.

 

Maranguape, Ceará, 05 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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