quarta-feira, 22 de abril de 2026

CORRESPONDER

 

Corresponder é o que fazemos – ou buscamos fazê-lo – durante três quintos de nossa existência. Força contumaz do princípio que leva seu nome, a correspondência é responsável pela similitude e pela equanimidade ao estabelece que há uma correspondência entre os diferentes planos da existência (físico, mental e espiritual). Para físicos, como Niels Bohr, a física quântica deve reproduzir a física clássica no limite de grandes números quânticos (órbitas grandes e altas energias). O princípio da bijeção, na matemática, enuncia que havendo correspondência biunívoca, dois conjuntos são equivalentes, ou seja, quando cada elemento de um conjunto está associado a, pelo menos, um elemento do outro. Se a física explica a vida e a matemática calcula este viver, a correspondência determina a coerência.


A Lei (ou princípio) da Correspondência preceitua a relação direta entre as leis que regem os planos da realidade, o que permite ao ser humano usar o raciocínio analógico para desvendar mistérios da natureza. Por exemplo, sistema solar é análogo ao átomo: o núcleo (como o Sol) é cercado por elétrons (como planetas), da mesma forma, os rios e correntezas são comparadas à corrente sanguínea e esta às correntes marítimas, por conseguinte; as sociedades, neste influxo, refletem a complexidade dos organismos biológicos, sendo chamadas de organismos sociais. Essas analogias não indicam identidade, mas, semelhança estrutural, o que é o cerne deste princípio que, também, da vida à ciência contábil animando-a na fluidez com que as partidas dobradas registram os movimentos materiais e financeiros das empresas e instituições.


Presente na filosofia quando diz: “conheça-te a te mesmo e conhecerás os deuses e o universo, pois, se o que buscas não achares primeiro em ti, não o acharás em lugar algum”. Religadora com o sagrado ao reconhecer: “assim na terra como no céu”. Interdependente, ao confirmar: “é dando que se recebe”. A correspondência, com o carbono, reúne em si tudo que há criado vicejando toda a criação. Não é mera analogia, é um princípio organizador que assegura que o universo seja inteligível. Assim, ao buscarmos correspondências entre o visível e o invisível, o micro e o macro, o simbólico e o real, estamos, efetivamente, construindo coerência no entendimento da existência. Nesse sentido, o papel carbono torna-se uma metáfora poderosa: assim como ele transfere fielmente uma imagem de um suporte para outro, a realidade sensível "imprime" o padrão do inteligível.


A inteligibilidade do universo, portanto, não é um acidente, mas, uma consequência de sua estrutura profunda. Ao buscarmos correspondências, não estamos apenas interpretando o mundo – estamos reconstruindo sua coerência, alinhando nosso pensamento com o princípio organizador que o rege. É um ato de conhecimento, mas também, de participação ética e ontológica na ordem do todo. O mundo, segundo o Princípio da Coerência, é compreensível porque é regido por uma lógica interna que integra o Uno e o Múltiplo: a coerência não elimina a diversidade, mas a organiza. A correspondência entre diferentes domínios – como o simbólico e o real – é uma forma de participar ativamente desse processo de organização racional. Com diz Plotino: “o mundo sensível (mutável e espacial) é a imagem do mundo inteligível (imutável e anespacial).


Corresponder é preciso, claro! E somos esperados correspondestes às expectativas para nós traçadas por nossos pais, tios, avós, que em médio prazo serão acrescidas padrão médio esperado para um bom amigo, aluno, religioso, profissional, esposo, pai, etc. Expectativas não faltam, mas, correspondências a estas, por vezes, faltam e frustram a nós, pois, para sermos nós mesmos não fizemos felizes a muitos; a outrem, pois, creem ter esperado demais de nós. Talvez por isso, no primeiro quinto de nossas existências nada nos importamos em sermos aquele projetado e esperado por todos que nos órbita. E lhes combatemos com a mais vivaz irreverência e brava autenticidade, ao passo que as regras da coerência são apregoadas e sedimentadas das formas mais inusitadas para a correspondência inaugure a harmonia e o feliz convívio.


Cônscios que corresponder envolve a busca por equilíbrio entre atender às expectativas alheias e manter a fidelidade a si mesmo, pois, é uma marca da formação da identidade, particularmente na juventude. Com o tempo, a necessidade de convívio social exige certa coerência – não apenas textual, mas existencial. A vida em sociedade exige consistência nas atitudes e nos valores. Essa coerência, no entanto, não precisa ser uma submissão às expectativas alheias, mas pode surgir de uma escolha consciente de princípios pessoais. O desafio está em construir uma vida que faça sentido internamente, mesmo que não corresponda inteiramente ao que os outros esperavam. Nesse ponto que a harmonia verdadeira surge: não da conformidade, mas, do alinhamento entre o que se é e o que se faz, antes de assumir papéis sociais mais estáveis.


Chegamos ao segundo quinto de nossas vidas equilibrando dois pratos. De um lado, o desejo de não decepcionar quem amamos, etc; de outro, a necessidade vital de não nos trairmos. A "brava autenticidade" do início da vida – quase um instinto de sobrevivência do "eu" antes que as camadas de expectativas sociais nos soterrem – há muito foi domesticada pelas regras da coerência e sob a necessidade emergente de corresponder para evoluir e conviver. A ironia é que a harmonia e o convívio, muitas vezes, são vendidos ao preço da nossa própria descaracterização. Para sermos aceitos, corremos o risco de nos tornarmos estranhos para nós mesmos. E, quando decidimos ser nós mesmos, lidamos com o peso da frustração alheia – como se tivéssemos quebrado um contrato que jamais assinamos, mas, que herdamos se opção de recusa.


Alcançamos a maturidade emocional com a qual gerenciamos coerentemente a vida correspondendo com ela aos projetos e expectativas de progresso, de alegrias e, principalmente, de crescimento. Embora essa condição não implica ausência de dor ou sofrimento, manifesta a capacidade de tolerar frustrações inevitáveis sem se abalar excessivamente ou descontar emoções negativas nos outros. Pessoas com essa maturidade assumem responsabilidade por seus sentimentos, aprendem com os erros e fracassos, e buscam a realização de seus projetos com ousadia e resiliência, entendendo que cada obstáculo é uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional. A maturidade jamais será um ponto de chegada, mas, sempre será a capacidade de gestão coerente, que muda o jogo e transforma a vida.


Maduros ou não, chegamos ao quinto quinto de nossas vidas com o lombo ardendo por conta das admoestações da coerência sempre normatizando procedimentos para que a correspondência nos faça felizes na devida proporção da alegria que causamos a outrem. É dando que se recebe. Nem sempre, pois, por vezes, sentimo-nos que ofertamos e entregamos muito mais do que jamais receberemos. Alguns de nós, nesta fase da vida, se libertam acreditando que seus esmerados esforços construíram castelos suntuosos no céu. E, assim, param de contabilizar os lucros não gerados pela correspondência empregada. Porém, há muitos que retornam às irreverências do primeiro quinto de vida e com toda força e vigor destroem dia a dia os legados construídos a duras penas e sacrifícios impelidos pela necessidade de corresponder.


Revoltados por não poderem mais exercer a imagem que criaram ao longo da vida, ainda assim, a buscaram fazer notabilizada ao custo de a fazerem desvalorizada, ojerizada e hostilizada. Simplesmente, morrem ainda que vivos, pois, sua insânia não lhes permite ver que na maturidade, até os tropeços viram "matéria-prima" para evolução, em vez de apenas frustração. É o equilíbrio entre o que projetamos e a nossa habilidade de lidar com a realidade como ela se apresenta. É o momento em que a correspondência nos oportuniza responder à vida de forma íntegra e autêntica e não de fazer ruir por mãos próprias e agências que pouco levam em conta o que nossas robustas imagens de homens e mulheres exemplares ainda representam.


Corresponder é necessário mais do que nunca. Precisamos corresponder à nossa essência mais[intima neste quinto quinto de nossas vidas, pois, neste momento a expectativa do por vir é unicamente nossa e não a devemos poluir com os eflúvios já manifestados, sejam estes gloriosos ou não. Abraça-nos a coerência com toda primazia de sua mestria, mais uma vez vetorizando os caminhos para que alcancemos a correspondência conosco mesmos, longe de troféus antigos ou a cicatrizes que já não deveriam doer, já que ambos podem ser igualmente cegantes. A correspondência deixa de ser com o mundo, com a carreira ou com as expectativas alheias, e passa a ser um diálogo privado. É o momento em que o "ser" finalmente vence o "parecer". Nessa etapa da colheita e da síntese passamos por uma espécie de limpeza espiritual e emocional.


Maranguape, Ceará, 22 de Abril de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE

terça-feira, 21 de abril de 2026

A LEITURA FAZ HOMENS PROBOS

 

Neste dia 21 de abril reafirmamos a maçonaria como guardiã e oportunizadora da cultura desde tempos imemoriais, cujo foco reside no aprimoramento intelecto-moral de seus membros, a quem responsabiliza pela preservação das tradições simbólicas, ao passo que os incita o livre pensamento e valorização do estudo das artes, ciências e humanidades. Ela é um espaço composto por "livres pensadores" e amantes da cultura moral, buscando a investigação da verdade.

 

Tradicionalmente associada à "nata intelectual", historicamente, aqueles que sustém a Maçonaria influenciam a cultura e política, como agentes do progresso e “espelhos” que transmitem os conhecimentos que trazem consigo em suas movimentações sociais, com o objetivo de estabelecer uma cultura educacional e de boa conduta, onde o bem-estar do gênero humano e a elevação espiritual são lumes principais da existência maçônica.

 

Como uma "escola de vida" que tenta transformar o homem em um ser mais culto e ético para que ele, individualmente, melhore a sociedade onde está inserido, a maçonaria finda por ultrapassar os limites de seus palácios e templos, assumindo a forma das antigas academias sob o lema "inutilia truncat" (cortar o inútil), eliminando os excessos formais das potências e templos maçônicos, dando vida e foco ao culto do Trivium e ao Quadrivium.

 

O conceito remonta à Grécia Antiga, especificamente à escola de filosofia e ciências fundada por Platão, conhecida como os "Jardins de Academus”. Eram agremiações, tertúlias ou sociedades cultas formadas por intelectuais, escritores, poetas e artistas, com o objetivo de cultivar letras, artes e ciências, promover trocas intelectuais, além de buscar preservar o legado intelectual e perpetuar a memória de seus membros (os "imortais").

 

As academias literárias modernas, consolidadas na Europa (especialmente Itália, França e Espanha) entre os séculos XVI e XVII, servem como centros de resistência ou promoção de normas linguísticas e literárias. Responsáveis pela institucionalização do campo literário e pela organização do pensamento intelectual em diferentes épocas, são guardiãs do patrimônio artístico da humanidade e sua principal comunicadora ao gerações por virem.

 

Propositadas a unir "letrados" para debates, produções literárias, preservação da língua e promoção de atividades culturais em um ambiente de prestígio, emergiram no Brasil a Academia Brasílica dos Esquecidos – fundada na Bahia em 1724 –; a Academia dos Seletos – fundada no Rio de Janeiro em 1752 –; e a Academia dos Renascidos – fundada na Bahia em 1759. Rutilantes exemplos de agremiações que buscavam cultivar a erudição em solo colonial.

 

Com o tempo, o modelo evoluiu para instituições permanentes de estado ou de grande relevância nacional. A Academia Cearense de Letras (ACL) foi fundada em 15 de agosto de 1894, em sessão solene na "Fênix Caixeiral", em Fortaleza, sendo a mais antiga academia de letras do Brasil, criada antes mesmo da Academia Brasileira de Letras, que foi fundada em 1897 sob a imagem da Academia Francesa, com 40 membros perpétuos conhecidos como "imortais".

 

Dispostas a incentivar a leitura e a escrita, além de zelar pela norma culta da língua pátria, as academias artístico-literárias eflorescem decididas a cumprir seus propósitos essenciais e a aurorescer a cultura do Brasil promovem concursos literários, publicações de obras e eventos culturais para fomentar a produção literária e o hábito da leitura. São espaços de legitimação simbólica e reconhecimento cultural, descentralizando atividades para escolas e universidades. 

 

Unindo tradição e reinvenção no cenário contemporâneo, as academias garantem que obras importantes não sejam esquecidas, salvaguardando a herança literária brasileira, mantendo viva a presença de seus patronos para as futuras gerações. Embora historicamente acusadas de elitismo, as academias contemporâneas buscam adaptar-se ao mundo globalizado e digital, superando o corporativismo e tornando-se espaços mais inclusivos de diálogo cultural.

 

Seguindo à risca os passos de suas congêneres, emerge a Academia Maçônica de Letras do Brasil (AMLB) com o desígnio de ser um marco de referência nacional, inspirando a criação de academias maçônicas de letras em diversos estados brasileiros com as quais coexistiria em perspicaz e proeminente sinergia sob o proposito incentivar a leitura, pois, “a leitura faz homens probos”, afirma Morivalde Calvet Fagundes, seu primeiro presidente.

 

Fundada em 21 de abril de 1972, no Rio de Janeiro, e instalada em 24 de junho do mesmo ano, a Academia Maçônica de Letras do Brasil (AMLB), ainda que inativa nos dias atuais, é a essência que anima todas as academias maçônicas nascidas abaixo de sua sombreira e copa em todo território brasileiro, alimentadas pelos doces frutos de suas experienciações e êxitos enquanto em profícua atividade, enlevando a leitura como o vetor de transformação social.

 

Assim, celebrar o Dia da Academia Maçônica de Letras do Brasil (21/04) é, não somente (re)acender as luzes dos seus feitos em prol do desenvolvimento humano maçônico, mas, principalmente, festejar a união dos maçons dedicados à literatura, pesquisa histórica e filosofia, pois, a eles compete o resgate, a valorização e a guarda da História da Maçonaria no Brasil. Também, é momento de incentivar a literatura e as artes que reflitam princípios éticos e humanistas.

 

Maranguape, Ceará, 21 de Abril de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo

TIRADENTES E OS HERÓIS DA INCONFIDÊNCIA MINEIRA

 

Neste dia 21 de abril relembramos os heróis brasileiros que, em 1789, ergueram da justiça a clava forte para criar uma república no Brasil, implementar a liberdade comercial, acabar com os impostos excessivos e formar universidades, protagonismos que a médio e longo possibilitaria ao Brasil similitudes com o velho mundo. Falar da Inconfidência Mineira requer que evoquemos Hipólita Jacinta Teixeira de Mello, a mais rica proprietária rural na região do Rio das Mortes, em Minas Gerais, no Brasil, que se destacou por seu envolvimento neste movimento, sendo uma das mulheres pioneiras do panteão da, também, assim chamada Conjuração Mineira.

 

Deste providencial rompimento da dependência com as metrópoles no velho mundo, emergiria uma identidade de agências genuinamente brasileira. As propostas sociais dos inconfidentes, embora limitadas a um caráter elitista, indiretamente trariam incontestáveis melhorias às condições de vida, a médio e longo prazos: educação de base como forma de alavancagem de universidades, implantação de hospitais atrelados às universidades favorecendo com isso as pesquisas e descobertas de novos fármacos e métodos de tratamento de endemias e epidemias, industrialização que oportunizaria empregos e melhor distribuição de renda.

 

A Inconfidência Mineira emergia e ganhava forças sob os auspícios Arcádia Ultramarina, criada com a finalidade de inspirar o povo a enfrentar desafios diários e a lutar por causas importantes, representando a coragem e a busca pela liberdade, tendo por lema um fragmento do verso 27 das Éclogas do poeta romano Virgílio: “Libertas Quae Sera Tamen” que significa "Liberdade, ainda que tardia".   Cativada pelos ideais humanistas vindos do Iluminismo Dona Hipólita Jacinta, tão bravamente quanto a rainha amazona que lhe empresta o nome, envidou o melhor dos seus esforços para que a inconfidência lograsse êxitos total.

 

Hipólita, não somente financiou diversas iniciativas revolucionárias da Arcádia Ultramarina, como também, cedeu-lhe sua fazenda da Ponta do Morro para que lá se reunissem os inconfidentes. Destemida, Hipólita é autora da carta que denúncia Joaquim Silvério dos Reis com traidor. “Mais vale morrer com honra do que viver com desonra”, afirma Hipólita em carta que enviou ao Padre Toledo dizendo-lhe da prisão de Tiradentes no Rio de Janeiro, em 1789. Voz altiva e exemplo-mor de defesa da liberdade, da independência, da república, da democracia e da equanimidade das relações, Hipólita, a partir da Lei Federal nº 15.086/2025, é reconhecida Heroína do Brasil.

 

Apesar de não ser um intelectual, Tiradentes, por sua paixão ao defender o nacionalismo face a usura europeia, atraia a atenção de personalidades intelectuais como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, ambos poetas e conhecedores das ideias filosóficas do iluminismo francês, que a pedido do engenheiro de minas José Alvares Maciel Filho, acolheram Tiradentes na Arcadia Ultramarina e o fizeram um de seus pares.​ A conspiração dos inconfidentes começou a ser preparada em 1788 para que as ações passassem a se realizar no ano seguinte. Tiradentes, por sua personalidade agitada, ficou conhecido como o mais radical deles:

  

Um radical entre moderados, um franco entre dissimulados, ele defendia – publicamente e em qualquer lugar (de bordéis a residências de ricos mercadores) – uma revolução que tornasse Minas Gerais independente de Portugal. “Era pena”, dizia o alferes, “que uns países tão ricos como estes [as Minas Gerais] estivessem reduzidos à maior miséria, só porque a Europa, como esponja, lhe estivesse chupando toda a substância”​ (Figueiredo, Lucas. Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil –1697-1810)

 

O drama principal que animava Tiradentes e seus pares envolvidos na Inconfidência a se levantarem contra o Império Português, foi a derrama, um dispositivo fiscal opressor – cobrança forçada e extraordinária de impostos – instituído pela Coroa Portuguesa no Brasil Colônia, principalmente, em Minas Gerais, a partir de 1751, porém, somente a parir de 1760 passou a ser utilizado. A derrama ocorria sempre que a meta anual de 100 arrobas de ouro (cerca de 1.500 kg, o "quinto") não era atingida, obrigando a população a pagar a diferença repartida entre todos os habitantes, mesmo os que não trabalhavam com mineração. O confisco se dava de forma truculenta e violenta por parte dos soldados da coroa.

 

A convocação da derrama, em 1789, a fim de assegurar o piso de cem arrobas anuais na arrecadação do quinto - retenção de 20% do ouro em pó, ou folhetas e/ou pepitas – coisa que dia a dia se tornava mais difícil de cumprir por conta do exaurimento do veio de ouro, obrigava os mineradores a cobrirem suas dívidas com suas posses, ou seja, a entregar tudo aquilo que lhes pertencia como objeto de valor para cobrir o que faltava na quantia estipulada do quinto. O medo da cobrança de dívidas atrasadas gerou forte insatisfação na capitania e fortaleceu a imediata insurreição que uniu intelectuais, militares e mineradores contra o domínio português.

 

Embora a “derrama” tenha sido suspensa pelo Governador Visconde de Barbacena ao tomar conhecimento da conspiração, mediante a delação Joaquim Silvério dos Reis em troca do perdão de suas próprias dívidas, a tensão social e a crise econômica descritas foram, de fato, as principais motivações dessa revolta, cujos inconfidentes foram severamente punidos no “Devassa”, processo judicial que se estendeu por anos e resultou em sentenças proferidas em 1792, inicialmente, com 11 condenações à morte e o degredo perpétuo na África para os demais, porém a Rainha Maria I perdoou a maioria dos condenados à morte, comutou as penas para exílio.

 

A única exceção foi Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que, por ser de origem popular e não ter conseguido o perdão real, foi enforcado em 21 de abril de 1792.  Seu corpo foi esquartejado e as partes distribuídas pelas estradas e praças de Minas Gerais para servir de exemplo e dissuadir futuras revoltas. “Nascido à margem direita do Rio das Mortes, na Fazenda do Pombal, entre a Vila de São José – hoje, cidade de Tiradentes – e São João d’El Rey, sendo o quarto filho entre seis a sete irmãos, filhos do lavrador português Domingos da Silva Santos e a Afrodescendente Antônia da Encarnação Xavier”, afirma Marco Antônio de Moraes à Revista Ciência e Maçonaria (2014).

 

Moraes diz, ainda, que aos nove anos de idade, ele residia em São João d’El Rey, em casa de parentes, quando sua mãe veio a falecer. Aos 15 anos perdeu seu pai, tendo então retornado a Pombal para trabalhar na lavoura, com o seu padrinho, que também lhe ensinou, o então, raro ofício de “por e tirar dentes”, daí o apelido Tiradentes. Já adulto, além da atividade de dentista leigo, Tiradentes tentou a sorte como tropeiro (condutor de tropas de animais transportadoras de mercadorias), minerador e mascate (mercador ambulante), porém, em nenhuma delas progrediu.​ A única profissão que lhe rendeu estabilidade foi a de alferes da cavalaria de Dragões Reais de Minas.

 

Tiradentes, chegou a comandar a tropa que monitorava o Caminho Novo, estrada que ligava Vila Rica ao Rio de Janeiro, porém, por sua pouca instrução, por manter a atividade de “arrancador de dentes” e ter a “língua solta”, além do vício do alcoolismo, não chegou a ser promovido a oficial e logo foi destituído do cargo de Comandante do Destacamento do Caminho do Rio. Magoado, “não perdia a oportunidade de mal falar, abertamente, do governo português”, destaca Moraes.​ Sua voz difamante alcançou os ouvidos o Engenheiro de Minas, José Alvares Maciel Filho, recém-formado em Coimbra, Portugal, que o convida a participar da Arcádia Ultramarina, como dito antes.​

 

Fundada em data incerta, porém, anterior a 1769, a Arcádia Ultramarina foi uma sociedade literária brasileira à qual se juntou Tiradentes em agosto de 1788. O grupo estava formado pelas seguintes personalidades da região: o Tenente Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, Comandante do Alferes Xavier; José Alvares Maciel Filho; Vigário e Latifundiário Carlos Correia de Toledo e Mello; o Advogado e Poeta Inácio José de Alvarenga Peixoto; o Poeta José Basílio da Gama; o Poeta Cláudio Manoel da Costa; o Sacerdote, Poeta e Músico, Domingos Caldas Barbosa; e o Cônego Luiz Vieira da Silva; dentre outros que já conspiravam contra a Coroa Portuguesa.​


Reporta Clovis Monteiro (Esboços de história literária, 1961), que o clube foi fundado com a finalidade de sublevar a população a não pagar a derrama, as côngruas e o quinto sobre o ouro minerado. Discutia-se, também, a proclamação de um território independente de Portugal. O lema da bandeira do Clube dos Poetas foi proposto por Cláudio Manoel da Costa, em observância ao verso de Virgílio: “Libertas Quae Sera Tamem” – Liberdade, Ainda que Tardia.​ Representava o desejo de autonomia frente ao absolutismo e à exploração colonial, que teve como principal propagandista deste intento entre a população, foi Joaquim José da Silva Xavier, o difamante.

 

O Mito Tiradentes, no entanto, é fruto do movimento republicano, que interessado em construir heróis para garantir alguma validade histórica para o republicanismo no Brasil, resgatou a imagem de Tiradentes e o fez ser divulgado como um herói. Por conta disso, uma série de pinturas de Tiradentes começaram a ser feitas, muitos associando o militar com Jesus Cristo, fisicamente, e transmitindo a ideia de que ele foi um mártir, a partir do Decreto nº 155-B, exarado pelo Marechal Deodoro da Fonseca em 14 de janeiro de 1890, instituindo o dia 21 de abril como dia dos “precursores da independência brasileira, resumidos em Tiradentes”.

 

Após esta, outras leis decretadas em 1933, 1949 e 1965 reafirmam o caráter festivo do dia 21 de abril. Atualmente, por força da lei nº 10.607, de 19 de dezembro de 2002, o dia 21 de abril é feriado nacional.​ Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos, pois, o ritual é o mito em ação. O mito tem funções determinadas nas sociedades antigas e primitivas. Inicialmente, ele serve para acomodar e tranquilizar o homem num mundo perigoso e assustador, dando-lhe segurança. Além disso, o mito também serve para fixar modelos exemplares de todas as atividades humanas. ​O que acontece no mundo natural passa a depender dos atos humanos.

 

A importância de celebrarmos o Dia de Tiradentes (21/04) reside em preservar a memória de quem se sacrificou contra a opressão em todos os tempos, não somente no Brasil Colonial, como no Brasil contemporâneo, pois, estes atos de abnegação e coragem servem como marcos na construção da identidade nacional e da consciência política brasileira. É um lembrete duradouro de que a luta por um país justo e igualitário é um processo contínuo. Ao festejarmos o 21 de abril, reafirmamos valores que desejamos ver no DNA brasileiro: a busca pela autonomia, o questionamento do status quo e a valorização da soberania nacional, pois, a luta pela liberdade é dever de todos.

 

Maranguape, Ceará, 20 de Abril de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Diretoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social



domingo, 19 de abril de 2026

DIA DOS POVOS INDÍGENAS – UM ATO DE RECONHECIMENTO À ANCESTRALIDADE

Este Dia dos Povos Indígenas (19/04) nos lembra que preservar os povos indígenas vai muito mais além do que cuidar da biodiversidade e do futuro climático do planeta, considerando que seus territórios protegem mais de 20% das florestas no Brasil, agindo como barreiras essenciais ao desmatamento. Cuidar deles é proteger os saberes ancestrais, línguas, culturas únicas e modos de vida sustentáveis que nutrem a terra, mas, principalmente, garantir que este legado se lance ao futuro com o vigor que lhe contribuindo para a formação das gerações que virão.

 

Sem passado não há futuro é uma metáfora-convite a conhecer o passado, pois, aprenderemos com erros e sucessos, constituindo a base para tomada de decisões e para ciese de um futuro melhor. Sem essa referência histórica, o risco de repetir os mesmos erros é grande. A história e as experiências passadas são essenciais para moldar o presente e construir um porvir digno. O saber histórico é fundamental para o exercício da cidadania, pois, sem história, não há compreensão dos movimentos sociais e suas implicações.

 

A ancestralidade é um conceito difícil de ser encerrado em uma única definição, pois, é um princípio filosófico – é não somente uma reflexão –, que rompe os muros da academia e chega até a cadeira de sua avó ou de seu avô como voz de sabedoria que conta através de suas oralituras. Os povos indígenas preservam e transmitem seus conhecimentos ancestrais, como práticas de agricultura, medicina, rituais e saberes sobre a natureza. É a herança, a tradição e a história transmitidas de geração em geração. 

 

Cultuar a ancestralidade, portanto, é um modo de interpretar e produzir a realidade, refletindo a ligação com os antepassados, e de favorecer essa transmissão de cultura, costumes, tradições e conhecimentos ao longo das gerações no presente para que repercuta no futuro. Afinal, Nossa história pessoal, cultural ou social forma a base de quem somos hoje. Identidade construída a partir da ancestralidade de quem herdamos valores, crenças, tradições e uma memória coletiva que sustenta nosso senso de pertencimento.

 

Os povos ancestrais distinguem-se em grupos étnicos e culturais que habitavam um território antes da influência de outros povos ou da chegada de colonizadores. No Brasil, isso se aplica principalmente aos povos indígenas, que eram os habitantes originais do território antes da colonização portuguesa. Esses povos são a base da diversidade cultural e linguística do país, com mais de 391 etnias, um montante de 1,7 milhão de habitantes, mantendo vidas cerca de 300 línguas / idiomas (Censo 2022 – IBGE).

 

Os povos originários do Brasil fazem parte de quatro grandes troncos étnicos, que são: aruak; karib; macro-jê; e tupi. Entre os principais grupos indígenas do Brasil, destacam-se os Karajá, Bororo, Kaingang, Yanomani, Guarani, Ticuna, Caingangue, Macuxi, Terena, Guajajara, Xavante, entre outros. Cada povo tem suas próprias tradições, costumes, rituais, línguas e formas de organização social. (Re)conhecê-los é imprescindível para preservar suas culturas e para garantir a defesa de seus direitos, além de sua sobrevivência.

 

De acordo com o Decreto nº 6.040/2007, os povos e comunidades tradicionais são grupos culturalmente diferenciados que se reconhecem como tais, possuem formas próprias de organização social, e ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa e econômica. A cultura indígena é uma parte fundamental da identidade nacional brasileira, estando presente em diversos aspectos da cultura brasileira como na literatura, na música, nas artes plásticas etc.

 

Longe serem "imagens estáticas de um passado distante”, a cultura indígena adapta-se e transforma-se continuamente. A culinária indígena é rica em ingredientes locais e possui forte influência na culinária brasileira, com pratos à base de mandioca, milho, batata-doce e outros vegetais. O Brasil é um dos países com maior diversidade linguística do mundo. As línguas indígenas são um tesouro cultural, com muitas delas sendo únicas e não relacionadas a outras línguas, embora muitas línguas estejam em risco extinção.

 

Neste fervor, a cultura dos povos indígenas bravamente lança-se ao futuro, enfrentando a perda de território e a imposição de culturas estrangeiras, demonstrando enorme resiliência e adaptabilidade às mudanças – vetores que a mantém viva, desafiando as normas sociais, econômicas e políticas. Ontem, a cultura indígena influenciava a organização social e política, a relação com a natureza e a criação artística. Hoje, valorizada e integrada contribuindo para a riqueza cultural do país, movendo das artes ao turismo.

 

A cultura indígena, com sua visão de mundo e sua relação com a natureza, inspira a busca por um futuro mais justo e sustentável, onde a harmonia entre a humanidade e o planeta seja um valor fundamental.  A vida dos povos indígenas é um mosaico de tradições, saberes e adaptações, onde o passado serve como base para construir um futuro mais justo e sustentável, afinal, sem passado não há futuro. Celebrar, o Dia dos Povos Indígenas é, portanto, um ato de resistência e valorização da diversidade cultural que enriquece a sociedade brasileira, além de reconhecer cidadania destes povos.

 

Historicamente instituída como "Dia do Índio" em 1943, a nomenclatura foi alterada por lei em 2022 para Dia dos Povos Indígenas. Essa mudança é simbólica e respeitosa, pois o termo "indígena" (que significa "originário de um lugar") é considerado mais adequado do que "índio", um termo genérico imposto pelos colonizadores. A escolha do dia 19 de abril remete ao Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, ocorrido no México em 1940, onde lideranças de diversas etnias se reuniram para defender seus direitos. 

 

Embora seja uma data comemorativa, muitos grupos entendem que o 19 de abril é, na verdade, um chamado à luta e resistência, já que ainda persistem desafios significativos como o racismo estrutural e o desmonte de políticas públicas específicas para os povos originários, lembrando que a luta indígena pela sobrevivência de seus territórios é essencial para a preservação da vida de toda a humanidade. Cultuar o Dia dos Povos Indígenas é um ato de reconhecimento à ancestralidade, que serve como horizonte contínuo e não apenas como um registro do passado. 

 

Maranguape, Ceará, 19 de Abril de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIOL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

SEM CONVIVER, NADA EVOLUI

 

Maçonaria é convivência, preceitua José Linhares de Vasconcelos Filho, renomado Médico cearense e atual Past Grão-Mestre de Honra Ad Aeternum da Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará (GLMECE) e Soberano Grande Inspetor Litúrgico da 1ª e da 3ª Inspetoria Litúrgica do Ceará do Rito Escocês Antigo e Aceito para a República Federativa do Brasil, status quo que envolvem, claro, conviver bem e melhor a todo tempo.


Conviver é preciso, indubitavelmente. E esta agência se faz prior mesmo perante às diferenças, pois, “ser fraterno”, empático e altero é um dever fundamental que precisa ser praticado para fortalecer, inicialmente o indivíduo, que robustecido dota de força, beleza e sabedoria as instituições e as sociedades que dependem de suas moções para existir e promover o melhor para o ecossistema Terra, onde a humanidade viceja e prolifera.


Conviver é preciso" porque o homem é um ser social e lapidar a própria pedra bruta exige o espelhamento e o convívio com o outro. Tal consciência, nos permite ser mais prósperos e equilibrados, pois, agimos como pensamos e pensamos como agimos. Sob este auspício, Pecotche, criador da ciência, faz-se espelho quando diz que o ser humano é herdeiro de si mesmo. Assim, “lapidar” o ser é "lançar" ao futuro uma herança de capacidades e valores mais elevados.


Assim pensar e, principalmente, assim agir transforma a vida, ao passo que com máxima exatidão torna o individuo um espelho ativo dos próprios aprendizados, focando-os em uma continua mudança interna para influenciar o mundo externo. Ao (re)organizarmos nosso mundo interno, nossas conquistas deixam de ser apenas teorias e para assumir o lugar que lhes compete em nossa essência. Somos o que fazemos habitualmente, sejamos o melhor!


Neste contexto, nossos hábitos imprimem nossa imagem, que reconhecida consolida nosso próprio "eu", nossa identidade (MMIICTMRR) – o olhar do outro molda nossa percepção pessoal. Ao assumirmos a responsabilidade pelo que o espelho (o outro) reflete, transformamos interações em oportunidades de amadurecimento, em vez de julgamento. Precisamos desse contraste para delimitar onde começamos e onde o mundo termina, cuidando para não perder nossa autenticidade.


Leonardo Da Vinci popularizou essa ideia de que o olhar reflete sinceridade e verdade, constituindo um "espelho da alma" que expressa sentimentos genuínos – a autenticidade envolve aceitarmos nosso "eu" integral, incluindo emoções e limitações. Viver autenticamente envolve alinhar as ações aos valores pessoais, em vez de viver para agradarmos a terceiros ou nos moldarmos às expectativas externas. O verdadeiro poder está no uso do espelho para autoconhecimento.


É uma "evolução consciente" – conheça-te a ti mesmo e domine seu mundo interno. O "homem integral" é aquele que alcançou o equilíbrio harmônico entre corpo, mente e espírito, agindo de forma coerente com suas virtudes. Como "espelho", ele reflete valores éticos e maturidade emocional, vetores excelsos para construção de convivências dignas e inclusivas que servem de exemplo de integridade e consciência desperta para a coletividade, fomentando o desenvolvimento humano holístico.


Um exemplo que agiganta quem o contempla. Assim, o abnegado “homem integral”, reúne harmoniosamente as dimensões bio-psico-sociais-emocionais e espirituais, superando a fragmentação da personalidade e a "infância espiritual" (egoísmo, impulsividade) para alcançar a autoconsciência, o amadurecimento emocional e ser um exemplo de equilíbrio, serenidade e alteridade, ajudando outrem a enxergarem o potencial de sua própria evolução, pois, assumiu-se espelho.



Segundo James Clear – Hábitos Atômicos –, cada ação que realizamos é como um "voto" para o tipo de pessoa que queremos ser. São a materialização dos nossos valores, portanto, a legitimidade ("assinatura") de nossa moralidade e de nossos objetivos de vida. Elas fornecem ao cérebro evidências concretas de nossa realidade, o que acaba imprimindo nossa autoimagem, pois, indubitavelmente, nosso cérebro ao observar nosso comportamento (hábitos) para concluir quem somos.


Ser um espelho para os demais implica "o desenvolvimento harmônico do pensar, do sentir e do querer", pois, somente assim, emerge ambiências para o convívio feliz abrigando a humanidade em sua formidável diversidade. O homem integral não culpa o mundo pelos seus problemas, ele assume o leme da própria vida e mostra aos outros que a mudança começa na reforma íntima, que resulta do “conviver”. Aquele que acende a luz do outro é o primeiro a dela se beneficiar.


Em um mundo de extremos, quem cultiva a empatia, a autenticidade e a alteridade torna-se um ponto de referência (um landmark) para quem ainda está perdido em conflitos íntimos e externos. Ao atingirmos esse estado, nossa simples presença "denuncia" o que falta nos outros, porém, "anuncia-lhes", também o que virão a ser. Envolve a sintonia do ser humano com as leis universais e a (re)conciliação do que se pensa, sente e faz, além de auferir virtudes, conhecimentos, sabedoria.


Sob o olhar do Construtor Social, a legitimação ocorre no "nós", onde a preocupação ética com o outro se torna possível ao compreendê-lo como parte de nossa coletividade, não apenas como um indivíduo isolado. O outro é quem nos legitima, ao nos confirmar como seres válidos, com um mundo interno único e digno de respeito, o que é fundamental para o amor, o pertencimento e a construção de relações saudáveis – de boas convivências –, contrapondo o individualismo egoísta.


Sob o fito do reconhecimento do ser, o outro não somente nos vê, ele aceita nosso mundo interno, nossas escolhas e comportamentos – mesmo que diferentes dos dele, sem reduzi-los aos seus erros ou inconsistências – e nos valida em nossa singularidade, ajudando a solidificar quem somos, especialmente em momentos de dúvida. Essa legitimação emerge como um ato de humanidade, construindo uma base de apoio e confiança mútua, ao passo que identifica o indivíduo.


Ver o outro como "legítimo na convivência" é fundamental para o amarmos, cônscios de que não se tenta mudar o outro, mas que se permite que ele seja. Essa aceitação do outro nos torna pertencidos ao grupo social que com ele formamos. O outro é essencial para nossa legitimação ao nos oferecer o espelho e o reconhecimento que nos confirmam como seres humanos completos e valiosos, fortalecidos naquilo identifica e estabelece nosso lugar no mundo que, assim, nos pertence.


A legitimação pelo outro nos traz a sensação de pertencimento. Ser ignorado ou "invisibilizado" é uma das formas mais profundas de sofrimento humano, pois, retira essa validação da nossa existência, o que nos faz perceber que os papéis que desempenhamos (filho, profissional, amigo, irmão) só existem na relação com as outras pessoas. Somente nós nos tornamos "alguém" através do olhar e da resposta que recebemos do mundo ao nosso redor.


Nossa identidade é construída socialmente. Segundo filósofos como Hegel, a consciência de si depende do reconhecimento do outro. Só passamos a ter plena noção de quem somos quando somos "vistos" e validados por outra consciência. Isso reverbera um conceito fundamental da filosofia e da psicologia social: a intersubjetividade que eflui das interações e da comunicação criando significados, experiências comuns e espaços de entendimento recíproco.


O conceito africano de Ubuntu sedimenta perfeitamente a relevância da convivência: "Eu sou porque nós somos", enfatizando que é a teia de conexões que define a identidade de um indivíduo e a interconexão essencial de toda a humanidade. Filósofos como Martin Buber, com seu conceito de relação "Eu-Tu", aduzem que a verdadeira humanidade é fruto do encontro dialógico com o outro. Dialogar pede conviver. Essa ideia é um pilar do existencialismo e do comunitarismo.


O crescimento individual retroalimenta o bem-estar coletivo, e vice-versa. E a comunidade oferece um espaço seguro para partilhar vulnerabilidades, sucessos e desafios. Ouvir narrativas semelhantes ajuda a validar as próprias emoções e a perceber que não se está sozinho nos próprios questionamentos. Através do diálogo, do feedback e de diferentes perspectivas, expande-se consciências e descobre-se novos caminhos para a felicidade social.


Há mais felicidade em dar do que em receber" é certificação de que a generosidade traz uma alegria mais profunda e duradoura do que o ato de receber, pois ao dar, expressamos amor, ajudamos os outros e manifestamos um caráter de abundância, o que gera um ciclo de felicidade e satisfação que supera o prazer momentâneo de ser beneficiado. É um princípio que foca na vida de quem compartilha tempo, bens e amor sem esperar retorno algum. 


Nessa troca: “é dando que se recebe” encontramos um poderoso senso de propósito, pois, mostra que os feitos têm um impacto real e positivo na vida de outras pessoas ou causas. E percebemos que a gratidão surge naturalmente – tanto a gratidão de quem recebe a ajuda quanto a de quem estende a mão a ofertá-la – imprimindo ao significado e satisfação que, somente, a convivência gera. Conviver é um experienciamento que desperta novos propósitos de vida.


Neste toar, a
reflexão do Dr. José Linhares de Vasconcelos Filho sintetiza o verdadeiro espírito da Ordem: o crescimento individual só se concretiza por meio da partilha e da vida em comunidade, robustecendo a certeza de que a maçonaria não é apenas um conjunto de rituais, mas sim, um exercício prático de convivência, fraternidade e união recíproca. Ela é um um modo de vida e um dever para o maçom, que se aplica ao progresso individual e coletivo da sociedade que o acolhe.


Maranguape, Ceará, 16 de Abril de 2026


Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE

quarta-feira, 15 de abril de 2026

BOA VONTADE – NÚCLEO DA ALQUIMIA MORAL

Todo sucesso alcançado tem suas raízes bem fincadas no solo fértil da boa vontade. A boa vontade é a força motriz. Ela faz a beleza dos teus dias e imprime os exemplos de alteridade e abnegação à frente de nossos olhos. Estes hábitos, dão ao homem a integridade que o identifica. Eis o papel fundamental da boa vontade como alicerce do sucesso e da integridade humana.


Resolutamente, a boa vontade não apenas impulsiona conquistas, como também, molda o caráter, refletindo-se em atitudes de alteridade (voltar-se ao outro) e abnegação (renúncia aos próprios interesses em favor do bem comum). Nesse sentido, ela vai além de um simples desejo de fazer o bem – é uma força motriz constante, que transforma intenções em ações éticas e duradouras.


Ao conectarmos a vontade individual aos valores coletivos como a alteridade (o olhar para o outro) e à abnegação transformamos o sucesso em algo muito maior do que um troféu pessoal para que ele assuma-se como um exercício de integridade e caráter. No fim das contas, o que nos define não é apenas o que alcançamos, mas, a consistência ética dos hábitos que cultivamos no caminho.


A atitude interna – essa "boa vontade" – precede qualquer conquista externa. É ela que sustenta a coerência entre o que se pensa, se diz e se faz, conferindo beleza aos dias não por ausência de desafios, mas, pela presença de propósito. Essa disposição interior é o que permite ao indivíduo deixar um legado de integridade, servindo como exemplo vivo para os que o rodeiam e de sustentação de uma sociedade justa e feliz.


A ideia de que a boa vontade precede qualquer conquista externa está profundamente enraizada em diversas tradições filosóficas e espirituais. Mais do que uma simples intenção, a boa vontade é entendida como uma disposição fundamental da alma, capaz de alinhar pensamento, sentimento e ação. É essa coerência interna que confere sentido e beleza à vida, mesmo diante de adversidades.


Começamos aqui a desvelar a importância da boa vontade como o motor central da conduta ética e pessoal, alinhando-se a conceitos filosóficos onde a intenção interna supera o resultado externo. A disposição interna de agir corretamente – a "boa vontade" – é considerada a única coisa intrinsecamente boa, sendo o fundamento da ética antes de qualquer conquista externa ou consequência.


Segundo Kant, uma ação só tem valor moral quando é realizada por dever, não por inclinação ou por esperar um resultado favorável. Mesmo que uma ação motivada pela boa vontade não alcance seu objetivo, a vontade permanece boa. Em Fundamentação da Metafísica dos Costumes, percebemos que o dever surge do respeito à lei moral e a vontade pura age, unicamente, conforme princípios universais.


Além de Kant, outros filósofos também enfatizaram o papel transformador da vontade. Em Platão, a alma é comparada a uma carruagem puxada por cavalos (desejos e instintos), mas guiada por um cocheiro: a vontade, que deve conduzir com sabedoria. Mestres como Eckhart afirmam que fazer a vontade de Deus é o centro da vida espiritual, exigindo uma vontade reta, livre do egoísmo e alinhada ao divino.


Já em Schopenhauer, a vontade é uma força cega e insaciável, fonte do sofrimento humano, mas também da ação. Nietzsche, por sua vez, desenvolve a noção de vontade de potência, como impulso fundamental de afirmação e superação. A vontade fortalecida permite vencer pequenas batalhas internas – como a procrastinação ou a distração – e viver com propósito – sem ele não nada se move; nada vive.


A beleza da vida não reside na facilidade, mas na capacidade de manter princípios éticos diante de desafios, conferindo valor moral à existência. A boa vontade, sempre voluntariosa sustenta a integridade ao alinhar pensamento, palavra e ação. Práticas como a atenção plena, o autodomínio diário e a reflexão constante ajudam a despertar essa força adormecida, sob os auspícios do “ócio divino” de Platão.


Essa ideia de que a vida ganha valor moral não pela ausência de problemas, mas pela postura ética diante deles, é o cerne da dignidade humana. O desafio é o teste da integridade. A "boa vontade" voluntariosa é o motor que nos impede de ceder à conveniência em detrimento do certo. É uma reflexão profunda e muito bem estruturada sobre a ética, a virtude e a condição humana, que ecoa a filosofia estoica e platônica.


Por justo e oportuno, cumpre ressaltar que o "ócio" (skholé) aqui tratado não é preguiça, mas o tempo livre necessário para a contemplação, a reflexão filosófica e o cultivo da alma, longe das urgências imediatistas. É o contraponto perfeito para a correria moderna; ele não é "não fazer nada", mas sim o silêncio necessário para que a alma consiga distinguir o que é essencial do que é apenas urgente.


Viver com essa integridade, portentosamente, transforma a rotina em um exercício ético constante. É, no fim das contas, a diferença entre apenas existir e florescer. É nesse espaço que a força interior desperta. Muitos filósofos chamam-no de caráter temperado: a ideia de que a virtude não é um estado passivo, mas uma conquista ativa sobre as circunstâncias. Aqui a ética deixa de ser mera regra para ser um ato heroico de integridade.


Ética, moral e virtude são conceitos interligados, mas distintos. A ética é a reflexão crítica sobre o que é justo, certo e bom, buscando princípios universais. Já a moral refere-se aos costumes e normas específicas de uma sociedade ou indivíduo, derivada do latim mores. A virtude, por sua vez, é a disposição habitual de agir bem, como coragem, justiça e honestidade, sendo o alicerce do caráter.


Na Ética a Nicômaco, Aristóteles define a virtude como um meio-termo (ou "justa medida") entre dois extremos viciosos — um de excesso e outro de deficiência. Essa posição equilibrada não é determinada pela natureza, mas alcançada pela razão prática (phronesis), guiada pelo hábito. Por exemplo, entre a covardia (falta de coragem) e a temeridade (excesso de coragem), situa-se a virtude da coragem.


Sócrates a entendia como conhecimento: saber o bem leva naturalmente a fazê-lo. Indiscutivelmente, manter princípios diante de desafios é o exercício concreto da virtude. Portanto, o sábio para Sócrates não é apenas quem acumula informações, mas quem incorpora o saber em uma vida justa e virtuosa. Viver a virtude e aspergi-la ao mundo é uma agência da mais excelsa boa vontade.


Essa "aspersão" da virtude no mundo reflete bem a ideia de que a excelência moral não é um estado estático, mas, uma força contagiosa que transforma o meio. Eis o cerne do debate ético clássico: a tensão entre o intelecto (saber o que é certo) e o caráter (ter a força para agir). Um "agir" prático que busca a eudaimonia (felicidade ou florescimento humano) e o bem comum, sobre os quais a sociedade se harmoniza.


Viver a virtude e influenciar o ambiente ao redor transformando o indivíduo e, por extensão, a sociedade. Um empreendimento buscado por gerações e gerações de pensadores, filósofos, magos, etc., cujo protagonismo se faz pleno, ofuscante e, potencialmente, exequível quando a boa vontade ascende ao seu mais elevado nível de excelência operando com galhardia diuturnamente na moldagem do humano melhor.


Essa transformação social é, naturalmente, um reflexo da transformação individual, que jamais se tornaria fática, real e formadora de legados sem magnanimidade da boa vontade. Não sendo à tôa que pensadores clássicos e contemporâneos indicam que a ação ética de um sujeito virtuoso tem o poder de influenciar a comunidade. Essa abordagem é considerada exequível através da repetição consciente do bem.


Quando o indivíduo atinge esse estado de "excelência da boa vontade" – o que os gregos chamavam de Arete ou os estoicos de vida em conformidade com o Logos – ele deixa de apenas reagir ao ambiente e passa a ser a causa das mudanças. É o conceito do exemplo radiante: a virtude é contagiante porque valida a possibilidade de uma vida mais elevada para os outros. Eis o núcleo da alquimia moral!


Maranguape, Ceará, 15 de Abril de 2026


Bruno Bezerra de Macedo

Patroneado por Álvaro Nunes Weyne

Cadeira AIMI nº 9


 


CORRESPONDER

  Corresponder é o que fazemos – ou buscamos fazê-lo – durante três quintos de nossa existência. Força contumaz do princípio que leva seu no...