quarta-feira, 22 de abril de 2026

CORRESPONDER

 

Corresponder é o que fazemos – ou buscamos fazê-lo – durante três quintos de nossa existência. Força contumaz do princípio que leva seu nome, a correspondência é responsável pela similitude e pela equanimidade ao estabelece que há uma correspondência entre os diferentes planos da existência (físico, mental e espiritual). Para físicos, como Niels Bohr, a física quântica deve reproduzir a física clássica no limite de grandes números quânticos (órbitas grandes e altas energias). O princípio da bijeção, na matemática, enuncia que havendo correspondência biunívoca, dois conjuntos são equivalentes, ou seja, quando cada elemento de um conjunto está associado a, pelo menos, um elemento do outro. Se a física explica a vida e a matemática calcula este viver, a correspondência determina a coerência.


A Lei (ou princípio) da Correspondência preceitua a relação direta entre as leis que regem os planos da realidade, o que permite ao ser humano usar o raciocínio analógico para desvendar mistérios da natureza. Por exemplo, sistema solar é análogo ao átomo: o núcleo (como o Sol) é cercado por elétrons (como planetas), da mesma forma, os rios e correntezas são comparadas à corrente sanguínea e esta às correntes marítimas, por conseguinte; as sociedades, neste influxo, refletem a complexidade dos organismos biológicos, sendo chamadas de organismos sociais. Essas analogias não indicam identidade, mas, semelhança estrutural, o que é o cerne deste princípio que, também, da vida à ciência contábil animando-a na fluidez com que as partidas dobradas registram os movimentos materiais e financeiros das empresas e instituições.


Presente na filosofia quando diz: “conheça-te a te mesmo e conhecerás os deuses e o universo, pois, se o que buscas não achares primeiro em ti, não o acharás em lugar algum”. Religadora com o sagrado ao reconhecer: “assim na terra como no céu”. Interdependente, ao confirmar: “é dando que se recebe”. A correspondência, com o carbono, reúne em si tudo que há criado vicejando toda a criação. Não é mera analogia, é um princípio organizador que assegura que o universo seja inteligível. Assim, ao buscarmos correspondências entre o visível e o invisível, o micro e o macro, o simbólico e o real, estamos, efetivamente, construindo coerência no entendimento da existência. Nesse sentido, o papel carbono torna-se uma metáfora poderosa: assim como ele transfere fielmente uma imagem de um suporte para outro, a realidade sensível "imprime" o padrão do inteligível.


A inteligibilidade do universo, portanto, não é um acidente, mas, uma consequência de sua estrutura profunda. Ao buscarmos correspondências, não estamos apenas interpretando o mundo – estamos reconstruindo sua coerência, alinhando nosso pensamento com o princípio organizador que o rege. É um ato de conhecimento, mas também, de participação ética e ontológica na ordem do todo. O mundo, segundo o Princípio da Coerência, é compreensível porque é regido por uma lógica interna que integra o Uno e o Múltiplo: a coerência não elimina a diversidade, mas a organiza. A correspondência entre diferentes domínios – como o simbólico e o real – é uma forma de participar ativamente desse processo de organização racional. Com diz Plotino: “o mundo sensível (mutável e espacial) é a imagem do mundo inteligível (imutável e anespacial).


Corresponder é preciso, claro! E somos esperados correspondestes às expectativas para nós traçadas por nossos pais, tios, avós, que em médio prazo serão acrescidas padrão médio esperado para um bom amigo, aluno, religioso, profissional, esposo, pai, etc. Expectativas não faltam, mas, correspondências a estas, por vezes, faltam e frustram a nós, pois, para sermos nós mesmos não fizemos felizes a muitos; a outrem, pois, creem ter esperado demais de nós. Talvez por isso, no primeiro quinto de nossas existências nada nos importamos em sermos aquele projetado e esperado por todos que nos órbita. E lhes combatemos com a mais vivaz irreverência e brava autenticidade, ao passo que as regras da coerência são apregoadas e sedimentadas das formas mais inusitadas para a correspondência inaugure a harmonia e o feliz convívio.


Cônscios que corresponder envolve a busca por equilíbrio entre atender às expectativas alheias e manter a fidelidade a si mesmo, pois, é uma marca da formação da identidade, particularmente na juventude. Com o tempo, a necessidade de convívio social exige certa coerência – não apenas textual, mas existencial. A vida em sociedade exige consistência nas atitudes e nos valores. Essa coerência, no entanto, não precisa ser uma submissão às expectativas alheias, mas pode surgir de uma escolha consciente de princípios pessoais. O desafio está em construir uma vida que faça sentido internamente, mesmo que não corresponda inteiramente ao que os outros esperavam. Nesse ponto que a harmonia verdadeira surge: não da conformidade, mas, do alinhamento entre o que se é e o que se faz, antes de assumir papéis sociais mais estáveis.


Chegamos ao segundo quinto de nossas vidas equilibrando dois pratos. De um lado, o desejo de não decepcionar quem amamos, etc; de outro, a necessidade vital de não nos trairmos. A "brava autenticidade" do início da vida – quase um instinto de sobrevivência do "eu" antes que as camadas de expectativas sociais nos soterrem – há muito foi domesticada pelas regras da coerência e sob a necessidade emergente de corresponder para evoluir e conviver. A ironia é que a harmonia e o convívio, muitas vezes, são vendidos ao preço da nossa própria descaracterização. Para sermos aceitos, corremos o risco de nos tornarmos estranhos para nós mesmos. E, quando decidimos ser nós mesmos, lidamos com o peso da frustração alheia – como se tivéssemos quebrado um contrato que jamais assinamos, mas, que herdamos se opção de recusa.


Alcançamos a maturidade emocional com a qual gerenciamos coerentemente a vida correspondendo com ela aos projetos e expectativas de progresso, de alegrias e, principalmente, de crescimento. Embora essa condição não implica ausência de dor ou sofrimento, manifesta a capacidade de tolerar frustrações inevitáveis sem se abalar excessivamente ou descontar emoções negativas nos outros. Pessoas com essa maturidade assumem responsabilidade por seus sentimentos, aprendem com os erros e fracassos, e buscam a realização de seus projetos com ousadia e resiliência, entendendo que cada obstáculo é uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional. A maturidade jamais será um ponto de chegada, mas, sempre será a capacidade de gestão coerente, que muda o jogo e transforma a vida.


Maduros ou não, chegamos ao quinto quinto de nossas vidas com o lombo ardendo por conta das admoestações da coerência sempre normatizando procedimentos para que a correspondência nos faça felizes na devida proporção da alegria que causamos a outrem. É dando que se recebe. Nem sempre, pois, por vezes, sentimo-nos que ofertamos e entregamos muito mais do que jamais receberemos. Alguns de nós, nesta fase da vida, se libertam acreditando que seus esmerados esforços construíram castelos suntuosos no céu. E, assim, param de contabilizar os lucros não gerados pela correspondência empregada. Porém, há muitos que retornam às irreverências do primeiro quinto de vida e com toda força e vigor destroem dia a dia os legados construídos a duras penas e sacrifícios impelidos pela necessidade de corresponder.


Revoltados por não poderem mais exercer a imagem que criaram ao longo da vida, ainda assim, a buscaram fazer notabilizada ao custo de a fazerem desvalorizada, ojerizada e hostilizada. Simplesmente, morrem ainda que vivos, pois, sua insânia não lhes permite ver que na maturidade, até os tropeços viram "matéria-prima" para evolução, em vez de apenas frustração. É o equilíbrio entre o que projetamos e a nossa habilidade de lidar com a realidade como ela se apresenta. É o momento em que a correspondência nos oportuniza responder à vida de forma íntegra e autêntica e não de fazer ruir por mãos próprias e agências que pouco levam em conta o que nossas robustas imagens de homens e mulheres exemplares ainda representam.


Corresponder é necessário mais do que nunca. Precisamos corresponder à nossa essência mais[intima neste quinto quinto de nossas vidas, pois, neste momento a expectativa do por vir é unicamente nossa e não a devemos poluir com os eflúvios já manifestados, sejam estes gloriosos ou não. Abraça-nos a coerência com toda primazia de sua mestria, mais uma vez vetorizando os caminhos para que alcancemos a correspondência conosco mesmos, longe de troféus antigos ou a cicatrizes que já não deveriam doer, já que ambos podem ser igualmente cegantes. A correspondência deixa de ser com o mundo, com a carreira ou com as expectativas alheias, e passa a ser um diálogo privado. É o momento em que o "ser" finalmente vence o "parecer". Nessa etapa da colheita e da síntese passamos por uma espécie de limpeza espiritual e emocional.


Maranguape, Ceará, 22 de Abril de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE

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