O
ano 1935 emergiu revolucionário dando vida ao Programa Nacional, hoje
denominado “A Voz do Brasil. um marco fundamental na comunicação, política e
cultura brasileira, sendo o programa de rádio mais antigo do país e do
hemisfério sul ainda em exibição. Criado em 22 de julho de 1935, durante o
governo de Getúlio Vargas, o programa tem um caráter cívico, focando em narrar
eventos da história nacional e promover a unidade do país.
Dotado
de uma pontualidade britânica, o programa garantia que o mesmo conteúdo
informativo chegasse a todo o território nacional, das 19h às 20h, além de
inaugurar um canal direto de comunicação com as massas, sem filtros da imprensa
privada, promover o civismo e a cultura brasileira. Em sua fase inicial,
dedicava espaço para músicas brasileiras consideradas de "bom gosto"
para a época. Enlevou-se a patrocinador da integração nacional.
Apesar
de ser popularmente chamado de "fala sozinho" pelos críticos que viam
suas transmissões como um extensão da ditadura, o programa foi essencial para
moldar a opinião pública e criar um senso de unidade nacional durante um
período de profundas transformações no Brasil. Hoje, o programa evoluiu para A
Voz do Brasil, mantendo a obrigatoriedade de transmissão para divulgar os atos
dos três poderes da República.
No
Ceará, no ano 1935 o Bode Ioiô entrou para a história cultural
do Estado ao ser incorporado ao acervo do Museu do Estado. Chegado em 1915,
vindo do interior com retirantes da seca, e foi adquirido pela empresa
britânica Rossbach Brazil Company. Ganhou o nome "Ioiô" por percorrer
diariamente o trajeto entre a Praia de Iracema e a Praça do Ferreira. Era
frequentador assíduo dos cafés e teatros, além de amigo dos boêmios, tornando-se
mascote da cidade.
O
Bode Ioiô é uma das figuras mais folclóricas e símbolos da irreverência
popular cearense, representando a inteligência e o protesto da população que
nele votou para vereador de Fortaleza neste início do século XX. Após sua morte
em 1931, foi taxidermizado (empalhado) e é uma das peças mais importantes do
Museu do Ceará. Além do Museu do Ceará, existe o Museu do Bode Ioiô (inaugurado
em 2022) que preserva sua memória.
O
Bode Ioiô que é tema de cordéis, músicas de carnaval é considerado um símbolo
da irreverência e do humor do povo cearense. Pela primeira vez em quase 100
anos, o bode saiu de Fortaleza para ser tratado no Museu de História Natural do
Ceará (MHNCE), em fevereiro de 2024. O trabalho que durou 15 dias foi conduzido
pelo taxidermista Emerson Boaventura e oportunizou o
documentário "O Restauro do Bode Ioiô" lançado em janeiro
de 2025.
Em
1935, a Ponte Velha do Poço da Draga (anteriormente Ponte Metálica) funcionava
como o principal porto da cidade de Fortaleza, reconstruída em concreto em
1929. O porto do Mucuripe ainda não havia assumido o papel principal. A revista
Vida Doméstica de maio de 1935 descreveu Fortaleza como uma cidade em
progresso, destacando a hospitalidade cearense, a quantidade de colégios e a
organização da cidade.
Economicamente,
a produção municipal era diversificada, abrangendo 11 fábricas de tecidos, 5 de
calçados, 6 de bebidas, 5 de torrefação de café e 12 de panificação, com a
agricultura focada em cereais, farinha de mandioca e açúcar. Na área esportiva,
o Fortaleza Esporte Clube, então com 17 anos de fundação (1918), ainda usava o
nome original de Fortaleza Sporting Club; a mudança para o nome atual só
ocorreria em 1940.
A
paisagem urbana incluía a movimentação característica da época, documentada em
registros fotográficos como os de Robert S. Platt, que retrataram a
movimentação na Praça do Ferreira – que se tornava como o coração social e
político. A cidade possuía uma frota ativa de 54 ônibus, 80 automóveis de
praça, 128 caminhões de praça e 115 bicicletas, conectando bairros
como Messejana e Porangaba
Fortaleza
vivia um período de intensa transição urbana e política sob o governo
de Felipe Moreira Lima. A cidade já superava os 126 mil habitantes e a
área leste da cidade começava a se desenvolver, com destaque para a área
da Aldeota (então grafada "Aldeiota"). Neste ano (1935)
deu-se a gênese dos primeiros edifícios de apartamentos, mudando o perfil
arquitetônico até então horizontal da cidade, iniciando uma tendência de 1935 a
1986.
Em
1935, o bairro que hoje conhecemos como Joaquim Távora era chamado popularmente
de Piedade, embora oficialmente esse nome nunca tenha existido nos registros
formais da prefeitura como um bairro autônomo na época. Era administrativamente
parte do distrito de Alto da Balança, que posteriormente foi anexado ao
distrito sede de Fortaleza. O nome vinha da Igreja de Nossa Senhora da Piedade,
o principal ponto de referência da região.
Em
1935, a área era composta por antigas propriedades rurais e vilas que ainda não
formavam um bairro unificado com denominação oficial única. Na região, lagoas e
corpos d'água naturais ou seminaturais permitiam a pesca para o abastecimento
doméstico. Nomes populares como Piedade, Vila Monteiro e Vila Zoraide, que
ainda existiam como unidades distintas antes de serem incorporadas ao núcleo
que em décadas seguintes chamar-se ia Joaquim Távora.
A
área era estratégica por onde passava uma das primeiras linhas de bonde da
Companhia Ferro Carril do Ceará, conectando Fortaleza a Messejana. Essa
infraestrutura facilitava o deslocamento de moradores, especialmente os que
trabalhavam no centro funcional, cuja locomoção era centrada na Praça do
Ferreira. Existia ali o "Parque Americano" (situado entre a Rua Padre
Valdevino e a Piedade), um ponto de lazer que marcou a época.
Fortaleza,
em 11 de janeiro de 1935, atingiu a maior temperatura já registrada (35,2 °C)
na década de 1930, enquanto a menor foi de 17,7 °C em agosto do mesmo ano,
segundo o INMET. Neste interim, nasce Zelito Nunes Magalhães, filho do
farmacêutico homeopata Manuel Nunes Magalhaes e Maria Dora da Silva, herdando do
pai alteridade e altruísmo e da mãe determinação e coragem. Atributos que o
distinguem desde sua mais tenra idade.
Predestinado,
Zelito recebeu suas primeiras letras na escolinha de Dona Gloria – que mais
passaria a chamar-se Escolas Reunidas do Arraial da Glória – na Rua da Bomba –
hoje Rua João Brígido, exatamente à frente de sua residência. Aos trezes anos
(1948) encantou discentes e docentes com a poesia “O Sol” com a qual enaltecia a
diretora da escola, Dona Mariinha que aniversariava. “O Sol trouxe à luz o
talento inato do menino Zelito.
Notabilizado
em toda a Piedade por seu veio literário fértil e cativante, na Semana Santa daquele
ano (1948), Zelito foi convidado a redigir “O Testamento de Judas” onde, em
três laudas, determinou que receberia heranças de Judas. Foi seu primeiro texto
que já dava mostras de sua habilidade literária. Uma arte que jamais extinguiu sua
inventividade e capacidade de tornar notória a cultura popular cearense.
No
ano de 1953, sob a liderança de Roberto Átila do Amaral Vieira – que mais
tarde viria a ser Ministro de Ciência e Tecnologia (2004) – Zelito e seus pares
Cid Saboia de Carvalho, Linhares Filho, Sânzio de Azevedo, Carvalho Nogueira e
Antonio Pompeu, dentre outros, fundaram a Academia dos Novos – do Liceu do
Ceará – que representava o topo do aprendizado “liceuista”, onde se depositava
a excelência e se formava a "elite mandatária" da região.
A
academia era o espaço onde os "liceuistas" debatiam literatura,
filosofia e política, muitas vezes servindo de berço para futuros escritores e
políticos renomados do Ceará. E frutos colhidos eram compartilhados com o
público estudantil e geral a partir do periódico “O Democrata”, órgão oficial
do Centro Liceal de Educação e Cultura (CLEC), era editado por alunos que
faziam parte da elite intelectual do Liceu do Ceará e da Academia dos Novos.
A
“ACADEMIA DOS NOVOS” nasceu do espírito criador de um pugilo de jovens
protagonistas e audaciosos, como Zelito, cujas vitórias alcançadas transmitem a
força expressiva da Poesia como vetor de transformação das sociedades e do
mundo. O esmero e a proficuidade desta arcádia repousam na abnegação e coragem de
Sidney Neto a serviço do futuro do Ceará e da Nação Brasileira: ensinando os
caminhos, onde os sonhos e se realizam.
No
ano de 1955, a Academia dos Novos compôs “Peque na Antologia”, que foi editada
pela Editora Instituto do Ceará. Trazia um “Prólogo” com a assinatura do
presidente que dizia nas suas palavras iniciais: A “ACADEMIA DOS NOVOS”
apresenta à mocidade e aos homens de letras de nossa terra esta ANTOLOGIA,
primeira mensagem de fé literária no momento atual de decadência e utilitarismo
imediato.
Vitorioso
no concurso de reportagem promovido pelo vespertino “O Povo”, Zelito, aos 23
anos, encontrou-se com seu companheiro mais fiel, que com ele construiria seu
invejável legado: o jornal. No ano de 1959, mais precisamente na edição de 14
de setembro, saía o seu primeiro artigo de sentido literário – Dois Escritores,
onde comentava sobre o romance “A Beata Maria do Egito”, de Raquel de Queiroz e
“Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado.
Essencialmente
trovador, em 1959, Zelito presentou aos cearenses com um pequeno opúsculo
poético – “Canções de um Menestrel” editado pelo Monitor Comercial. A obra é um
pequeno volume de poesias que marcou o início da trajetória literária do autor
na cultura do Ceará. Ela reflete o lirismo inicial do autor, abordando temas
como a paz, o amor e a sensibilidade do "menestrel", prenunciando o
que Zelito viria a desempenha futuramente.
Ainda
que dissolvida a “Academia dos Novos”, pois, seus fundadores rumaram ao futuro
por caminhos diferentes, embora entrecruzados por vezes, Zelito jamais afastou-se
do mundo cultural cearense, principalmente, da Casa Juvenal Galeno, que serviu
de “startup” para a Academia dos Novos sob a Mestria de Sidnei Neto e com o apoio
moral, intelectual e estrutural da Família Galeno – fomento que viceja nos dias
atuais a bem da cultura do Ceará.
Frequentador
assíduo dos saraus promovidos por Dona Henriqueta Galeno, Zelito, destaca o
“Natal dos Poetas” onde se ouvia os mais ilustres bardos, como Filgueiras Lima,
Sidney Neto, Carlyle Martins, Dolores Furtado, Pedro Bandeira (poeta popular e
folclorista do Cariri) Cruz Filho (que detinha o título de Príncipe dos poetas
Cearenses), além de Euclydes Cesar, fundador da Academia Polimática, cujo lema
era:” Amai-vos e educai-vos uns aos outros”
Com
o falecimento de Dona Henriqueta Galeno em 1964, a Casa de Juvenal Galeno passou
a ser gerida por sua sobrinha Nenzinha Galeno, cuja percepção humanista voltada
para as letras a fez protagonizar novos desígnios para a casa. Sabedor da morte
do Cego Aderaldo (1967), Zelito, ancorado por Nenzinha Galeno e Rogaciano Leite
promoveu na Casa de Juvenal Galeno a “Noite dos Cantadores”, onde a
musicalidade cearense homenageou o Ilustre Cego.
Cativada
com a sonoridade cearense que cativa a alma e anuncia o futuro, em 11 de novembro
de 1969, Dona Cândida Maria Santiago Galeno cria a União Brasileira de
Trovadores, com o objetivo de cultual, preservar e disseminar esta arte popular
arraigada na Terra da Luz desde o Brasil colônia. Sua diretoria foi assim
composta: presidente Vasques Filho, secretária Nenzinha Galeno e diretores: Carlyle
Martins, Zelito Magalhães, César Coelho, dentre outros.
Essencial
mobilizadora cultural, Dona Cândida Maria Santiago Galeno (Nenzinha Galeno)
instituiu a Editora Henriqueta Galeno (1965), cuja gestão gráfica ficou a cargo
do operoso Oscar Moreira. A editora produziu incontáveis livros de intelectuais
da terra, além de jornais, revista e outros impressos, inclusive, a Antologia
do Clube dos Poetas de 1970 (também referenciada como Antologia dos Novos
Poetas do Ceará), na qual figura o Poeta Zelito.
Essa
antologia foi um marco importante na literatura cearense da década de 70,
reunindo membros de um grupo literário fundado originalmente por alunos do
Colégio Liceu do Ceará em 1955. O Clube dos Poetas do Ceará efloresceu entre as
décadas de 1970 e 1980, tendo como primeiro presidente o poeta Carneiro
Portela. Portela levou o nome do Clube a todo o Brasil, até do exterior
chegavam cartas de elogios e boas-vindas à agremiação.
O
Clube dos Poetas do Ceará funciona como um espaço de intercâmbio e divulgação
para artistas independentes e veteranos, servindo de palco para figuras como
Luciano Arruda e Zelito Magalhães, ajudando a consolidar a carreira de diversos
articuladores das palavras na formação do verso. Apoiado pela Casa de Juvenal
Galeno, serviu de berço para diversos poetas locais, como o icônico Mário Gomes
e muitos outros luzidias figuras cearenses.
Cônscio
de que um “homem de letras” deve aprofundar-se no conhecimento de si mesmo,
Zelito passa integrar o quadro de Construtores Sociais da Maçonaria (1993),
onde desconstruiu a si mesmo das indiscrições mundanas, para que a
espiritualização de si lhe apresentasse o formidável mundo dos homens justos e
perfeitos. Na Maçonaria, Zelito, mais uma vez, rutilou seu talento in nato escrevendo
a “História da Maçonaria no Ceará” em 2008.
Incontestavelmente,
a história da maçonaria cearense está profundamente interligada à história do
Ceará, com atuação marcante nos principais movimentos políticos, sociais e
culturais do estado desde o início do século XIX. Os maçons cearenses foram
fundamentais para que o Ceará se tornasse a primeira província brasileira a
abolir a escravidão, em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea, ancorando a
Sociedade Cearense Libertadora em suas moções.
A
primeira loja regular, "Fraternidade Cearense n° 136", foi fundada em
1º de dezembro de 1859, funcionando no endereço mais antigo da maçonaria
cearense, marcado por Adolfo Herbster em 1888. Essa loja reuniu intelectuais e
políticos como Antonio Bezerra de Menezes, João Cordeiro, João Brígido,
Justiniano de Serpa, Tomás Pompeu de Sousa Brasil, Araripe Junior, dentre
muitos outros abnegados Construtores Socias.
A
maçonaria no Ceará teve, portanto, grande capilaridade, defendendo ideais de
liberalismo, republicanismo e o Estado laico, além de atuar em confrontos com a
Igreja Católica no final do século XIX, a partir de instituições como a Grande
Loja Maçônica do Estado do Ceará foi fundada em 19 de março de 1928, o Grande
Oriente do Brasil do Estado do Ceará (GOB-CE) foi fundado em 24 de agosto de
1937 e o Grande Oriente do Estado do Ceará, fundado em 2 de junho de 1973.
Venturoso,
Zelito ao idealizar a Academia Maçônica de Letras do Estado do Ceará – AMLEC buscava
estabelecer um elo entre os intelectuais maçons e a sociedade em geral, fulcrar
o lema de união da "Arte Real" (Maçonaria) com o cultivo das letras e
das artes. A AMLEC foi fundada em 4 de junho de 1997, em Fortaleza, Ceará,
conforme registros cadastrais, e, desde então fomenta a produção da literatura
de caráter maçônico e geral para a posteridade.
Gratamente
reconhecido, Zelito é intitulado Historiador pela Grande Academia Maçônica de
Letras do Estado do Ceará, circunscrita à Mui Respeitável Grande Loja Maçônica
do Estado do Ceará, com fulcro no diploma exarado no dia 29 de maio de 2004.
Neste mesmo ano, Zelito ascende à presidência da Associação Cearense de
Imprensa – ACI. Sua primeira iniciativa foi a criação o ACI Informativo que
divulgaria os feitos da entidade desde seu cioforria em 1925.
A
Associação Cearense de Imprensa (ACI) desempenha um papel fundamental no
estado do Ceará, com uma trajetória de 100 anos (completados em 2025) focada na
defesa do jornalismo, na preservação da memória histórica e na articulação
profissional. A instituição é testemunha dos ciclos políticos e sociais do
Ceará, sendo parte da memória coletiva da imprensa cearense, além de defensora perpetua
dos interesses do povo do Ceará.
Propositalmente,
Zelito reservou a última página do jornal para a História da ACI, que foi
narrada em sínteses em 26 edições dando conhecimento aos leitores sobre a vida
da entidade desde sua cioforria. Como modus de preservação da memoria da instituição,
criou a galeria dos presidentes: César Teles de Magalhães, Gilberto Câmara,
Aldo Prado, Teodoro Cabral, Kerginaldo Cavalcanti de Albuquerque, Perboyre e
Siva, inclusive Zelito e quem vier depois.
Hoje,
aos 91 anos, Zelito é um referencial da cultura popular cearense. Presidente de
Honra e Ad Aeternum da Academia Cearense de Literatura, sua última criação, instituída
em 19 de Janeiro de 2019, que reúne intelectuais maçons e não maçons na
continua busca da preservação da memoria cultural, da incentivação à inventividade
nas artes, principalmente, na literatura, e da disseminação do fértil veio
cultura do Estado do Ceará.
Maranguape,
Ceará, 24 de Abril de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo
Jornalista CRP/MTE
nº 0005168/CE
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