terça-feira, 21 de abril de 2026

TIRADENTES E OS HERÓIS DA INCONFIDÊNCIA MINEIRA

 

Neste dia 21 de abril relembramos os heróis brasileiros que, em 1789, ergueram da justiça a clava forte para criar uma república no Brasil, implementar a liberdade comercial, acabar com os impostos excessivos e formar universidades, protagonismos que a médio e longo possibilitaria ao Brasil similitudes com o velho mundo. Falar da Inconfidência Mineira requer que evoquemos Hipólita Jacinta Teixeira de Mello, a mais rica proprietária rural na região do Rio das Mortes, em Minas Gerais, no Brasil, que se destacou por seu envolvimento neste movimento, sendo uma das mulheres pioneiras do panteão da, também, assim chamada Conjuração Mineira.

 

Deste providencial rompimento da dependência com as metrópoles no velho mundo, emergiria uma identidade de agências genuinamente brasileira. As propostas sociais dos inconfidentes, embora limitadas a um caráter elitista, indiretamente trariam incontestáveis melhorias às condições de vida, a médio e longo prazos: educação de base como forma de alavancagem de universidades, implantação de hospitais atrelados às universidades favorecendo com isso as pesquisas e descobertas de novos fármacos e métodos de tratamento de endemias e epidemias, industrialização que oportunizaria empregos e melhor distribuição de renda.

 

A Inconfidência Mineira emergia e ganhava forças sob os auspícios Arcádia Ultramarina, criada com a finalidade de inspirar o povo a enfrentar desafios diários e a lutar por causas importantes, representando a coragem e a busca pela liberdade, tendo por lema um fragmento do verso 27 das Éclogas do poeta romano Virgílio: “Libertas Quae Sera Tamen” que significa "Liberdade, ainda que tardia".   Cativada pelos ideais humanistas vindos do Iluminismo Dona Hipólita Jacinta, tão bravamente quanto a rainha amazona que lhe empresta o nome, envidou o melhor dos seus esforços para que a inconfidência lograsse êxitos total.

 

Hipólita, não somente financiou diversas iniciativas revolucionárias da Arcádia Ultramarina, como também, cedeu-lhe sua fazenda da Ponta do Morro para que lá se reunissem os inconfidentes. Destemida, Hipólita é autora da carta que denúncia Joaquim Silvério dos Reis com traidor. “Mais vale morrer com honra do que viver com desonra”, afirma Hipólita em carta que enviou ao Padre Toledo dizendo-lhe da prisão de Tiradentes no Rio de Janeiro, em 1789. Voz altiva e exemplo-mor de defesa da liberdade, da independência, da república, da democracia e da equanimidade das relações, Hipólita, a partir da Lei Federal nº 15.086/2025, é reconhecida Heroína do Brasil.

 

Apesar de não ser um intelectual, Tiradentes, por sua paixão ao defender o nacionalismo face a usura europeia, atraia a atenção de personalidades intelectuais como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, ambos poetas e conhecedores das ideias filosóficas do iluminismo francês, que a pedido do engenheiro de minas José Alvares Maciel Filho, acolheram Tiradentes na Arcadia Ultramarina e o fizeram um de seus pares.​ A conspiração dos inconfidentes começou a ser preparada em 1788 para que as ações passassem a se realizar no ano seguinte. Tiradentes, por sua personalidade agitada, ficou conhecido como o mais radical deles:

  

Um radical entre moderados, um franco entre dissimulados, ele defendia – publicamente e em qualquer lugar (de bordéis a residências de ricos mercadores) – uma revolução que tornasse Minas Gerais independente de Portugal. “Era pena”, dizia o alferes, “que uns países tão ricos como estes [as Minas Gerais] estivessem reduzidos à maior miséria, só porque a Europa, como esponja, lhe estivesse chupando toda a substância”​ (Figueiredo, Lucas. Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil –1697-1810)

 

O drama principal que animava Tiradentes e seus pares envolvidos na Inconfidência a se levantarem contra o Império Português, foi a derrama, um dispositivo fiscal opressor – cobrança forçada e extraordinária de impostos – instituído pela Coroa Portuguesa no Brasil Colônia, principalmente, em Minas Gerais, a partir de 1751, porém, somente a parir de 1760 passou a ser utilizado. A derrama ocorria sempre que a meta anual de 100 arrobas de ouro (cerca de 1.500 kg, o "quinto") não era atingida, obrigando a população a pagar a diferença repartida entre todos os habitantes, mesmo os que não trabalhavam com mineração. O confisco se dava de forma truculenta e violenta por parte dos soldados da coroa.

 

A convocação da derrama, em 1789, a fim de assegurar o piso de cem arrobas anuais na arrecadação do quinto - retenção de 20% do ouro em pó, ou folhetas e/ou pepitas – coisa que dia a dia se tornava mais difícil de cumprir por conta do exaurimento do veio de ouro, obrigava os mineradores a cobrirem suas dívidas com suas posses, ou seja, a entregar tudo aquilo que lhes pertencia como objeto de valor para cobrir o que faltava na quantia estipulada do quinto. O medo da cobrança de dívidas atrasadas gerou forte insatisfação na capitania e fortaleceu a imediata insurreição que uniu intelectuais, militares e mineradores contra o domínio português.

 

Embora a “derrama” tenha sido suspensa pelo Governador Visconde de Barbacena ao tomar conhecimento da conspiração, mediante a delação Joaquim Silvério dos Reis em troca do perdão de suas próprias dívidas, a tensão social e a crise econômica descritas foram, de fato, as principais motivações dessa revolta, cujos inconfidentes foram severamente punidos no “Devassa”, processo judicial que se estendeu por anos e resultou em sentenças proferidas em 1792, inicialmente, com 11 condenações à morte e o degredo perpétuo na África para os demais, porém a Rainha Maria I perdoou a maioria dos condenados à morte, comutou as penas para exílio.

 

A única exceção foi Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que, por ser de origem popular e não ter conseguido o perdão real, foi enforcado em 21 de abril de 1792.  Seu corpo foi esquartejado e as partes distribuídas pelas estradas e praças de Minas Gerais para servir de exemplo e dissuadir futuras revoltas. “Nascido à margem direita do Rio das Mortes, na Fazenda do Pombal, entre a Vila de São José – hoje, cidade de Tiradentes – e São João d’El Rey, sendo o quarto filho entre seis a sete irmãos, filhos do lavrador português Domingos da Silva Santos e a Afrodescendente Antônia da Encarnação Xavier”, afirma Marco Antônio de Moraes à Revista Ciência e Maçonaria (2014).

 

Moraes diz, ainda, que aos nove anos de idade, ele residia em São João d’El Rey, em casa de parentes, quando sua mãe veio a falecer. Aos 15 anos perdeu seu pai, tendo então retornado a Pombal para trabalhar na lavoura, com o seu padrinho, que também lhe ensinou, o então, raro ofício de “por e tirar dentes”, daí o apelido Tiradentes. Já adulto, além da atividade de dentista leigo, Tiradentes tentou a sorte como tropeiro (condutor de tropas de animais transportadoras de mercadorias), minerador e mascate (mercador ambulante), porém, em nenhuma delas progrediu.​ A única profissão que lhe rendeu estabilidade foi a de alferes da cavalaria de Dragões Reais de Minas.

 

Tiradentes, chegou a comandar a tropa que monitorava o Caminho Novo, estrada que ligava Vila Rica ao Rio de Janeiro, porém, por sua pouca instrução, por manter a atividade de “arrancador de dentes” e ter a “língua solta”, além do vício do alcoolismo, não chegou a ser promovido a oficial e logo foi destituído do cargo de Comandante do Destacamento do Caminho do Rio. Magoado, “não perdia a oportunidade de mal falar, abertamente, do governo português”, destaca Moraes.​ Sua voz difamante alcançou os ouvidos o Engenheiro de Minas, José Alvares Maciel Filho, recém-formado em Coimbra, Portugal, que o convida a participar da Arcádia Ultramarina, como dito antes.​

 

Fundada em data incerta, porém, anterior a 1769, a Arcádia Ultramarina foi uma sociedade literária brasileira à qual se juntou Tiradentes em agosto de 1788. O grupo estava formado pelas seguintes personalidades da região: o Tenente Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, Comandante do Alferes Xavier; José Alvares Maciel Filho; Vigário e Latifundiário Carlos Correia de Toledo e Mello; o Advogado e Poeta Inácio José de Alvarenga Peixoto; o Poeta José Basílio da Gama; o Poeta Cláudio Manoel da Costa; o Sacerdote, Poeta e Músico, Domingos Caldas Barbosa; e o Cônego Luiz Vieira da Silva; dentre outros que já conspiravam contra a Coroa Portuguesa.​


Reporta Clovis Monteiro (Esboços de história literária, 1961), que o clube foi fundado com a finalidade de sublevar a população a não pagar a derrama, as côngruas e o quinto sobre o ouro minerado. Discutia-se, também, a proclamação de um território independente de Portugal. O lema da bandeira do Clube dos Poetas foi proposto por Cláudio Manoel da Costa, em observância ao verso de Virgílio: “Libertas Quae Sera Tamem” – Liberdade, Ainda que Tardia.​ Representava o desejo de autonomia frente ao absolutismo e à exploração colonial, que teve como principal propagandista deste intento entre a população, foi Joaquim José da Silva Xavier, o difamante.

 

O Mito Tiradentes, no entanto, é fruto do movimento republicano, que interessado em construir heróis para garantir alguma validade histórica para o republicanismo no Brasil, resgatou a imagem de Tiradentes e o fez ser divulgado como um herói. Por conta disso, uma série de pinturas de Tiradentes começaram a ser feitas, muitos associando o militar com Jesus Cristo, fisicamente, e transmitindo a ideia de que ele foi um mártir, a partir do Decreto nº 155-B, exarado pelo Marechal Deodoro da Fonseca em 14 de janeiro de 1890, instituindo o dia 21 de abril como dia dos “precursores da independência brasileira, resumidos em Tiradentes”.

 

Após esta, outras leis decretadas em 1933, 1949 e 1965 reafirmam o caráter festivo do dia 21 de abril. Atualmente, por força da lei nº 10.607, de 19 de dezembro de 2002, o dia 21 de abril é feriado nacional.​ Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos, pois, o ritual é o mito em ação. O mito tem funções determinadas nas sociedades antigas e primitivas. Inicialmente, ele serve para acomodar e tranquilizar o homem num mundo perigoso e assustador, dando-lhe segurança. Além disso, o mito também serve para fixar modelos exemplares de todas as atividades humanas. ​O que acontece no mundo natural passa a depender dos atos humanos.

 

A importância de celebrarmos o Dia de Tiradentes (21/04) reside em preservar a memória de quem se sacrificou contra a opressão em todos os tempos, não somente no Brasil Colonial, como no Brasil contemporâneo, pois, estes atos de abnegação e coragem servem como marcos na construção da identidade nacional e da consciência política brasileira. É um lembrete duradouro de que a luta por um país justo e igualitário é um processo contínuo. Ao festejarmos o 21 de abril, reafirmamos valores que desejamos ver no DNA brasileiro: a busca pela autonomia, o questionamento do status quo e a valorização da soberania nacional, pois, a luta pela liberdade é dever de todos.

 

Maranguape, Ceará, 20 de Abril de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Diretoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social



Nenhum comentário:

Postar um comentário

CORRESPONDER

  Corresponder é o que fazemos – ou buscamos fazê-lo – durante três quintos de nossa existência. Força contumaz do princípio que leva seu no...