quinta-feira, 16 de abril de 2026

SEM CONVIVER, NADA EVOLUI

 

Maçonaria é convivência, preceitua José Linhares de Vasconcelos Filho, renomado Médico cearense e atual Past Grão-Mestre de Honra Ad Aeternum da Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará (GLMECE) e Soberano Grande Inspetor Litúrgico da 1ª e da 3ª Inspetoria Litúrgica do Ceará do Rito Escocês Antigo e Aceito para a República Federativa do Brasil, status quo que envolvem, claro, conviver bem e melhor a todo tempo.


Conviver é preciso, indubitavelmente. E esta agência se faz prior mesmo perante às diferenças, pois, “ser fraterno”, empático e altero é um dever fundamental que precisa ser praticado para fortalecer, inicialmente o indivíduo, que robustecido dota de força, beleza e sabedoria as instituições e as sociedades que dependem de suas moções para existir e promover o melhor para o ecossistema Terra, onde a humanidade viceja e prolifera.


Conviver é preciso" porque o homem é um ser social e lapidar a própria pedra bruta exige o espelhamento e o convívio com o outro. Tal consciência, nos permite ser mais prósperos e equilibrados, pois, agimos como pensamos e pensamos como agimos. Sob este auspício, Pecotche, criador da ciência, faz-se espelho quando diz que o ser humano é herdeiro de si mesmo. Assim, “lapidar” o ser é "lançar" ao futuro uma herança de capacidades e valores mais elevados.


Assim pensar e, principalmente, assim agir transforma a vida, ao passo que com máxima exatidão torna o individuo um espelho ativo dos próprios aprendizados, focando-os em uma continua mudança interna para influenciar o mundo externo. Ao (re)organizarmos nosso mundo interno, nossas conquistas deixam de ser apenas teorias e para assumir o lugar que lhes compete em nossa essência. Somos o que fazemos habitualmente, sejamos o melhor!


Neste contexto, nossos hábitos imprimem nossa imagem, que reconhecida consolida nosso próprio "eu", nossa identidade (MMIICTMRR) – o olhar do outro molda nossa percepção pessoal. Ao assumirmos a responsabilidade pelo que o espelho (o outro) reflete, transformamos interações em oportunidades de amadurecimento, em vez de julgamento. Precisamos desse contraste para delimitar onde começamos e onde o mundo termina, cuidando para não perder nossa autenticidade.


Leonardo Da Vinci popularizou essa ideia de que o olhar reflete sinceridade e verdade, constituindo um "espelho da alma" que expressa sentimentos genuínos – a autenticidade envolve aceitarmos nosso "eu" integral, incluindo emoções e limitações. Viver autenticamente envolve alinhar as ações aos valores pessoais, em vez de viver para agradarmos a terceiros ou nos moldarmos às expectativas externas. O verdadeiro poder está no uso do espelho para autoconhecimento.


É uma "evolução consciente" – conheça-te a ti mesmo e domine seu mundo interno. O "homem integral" é aquele que alcançou o equilíbrio harmônico entre corpo, mente e espírito, agindo de forma coerente com suas virtudes. Como "espelho", ele reflete valores éticos e maturidade emocional, vetores excelsos para construção de convivências dignas e inclusivas que servem de exemplo de integridade e consciência desperta para a coletividade, fomentando o desenvolvimento humano holístico.


Um exemplo que agiganta quem o contempla. Assim, o abnegado “homem integral”, reúne harmoniosamente as dimensões bio-psico-sociais-emocionais e espirituais, superando a fragmentação da personalidade e a "infância espiritual" (egoísmo, impulsividade) para alcançar a autoconsciência, o amadurecimento emocional e ser um exemplo de equilíbrio, serenidade e alteridade, ajudando outrem a enxergarem o potencial de sua própria evolução, pois, assumiu-se espelho.



Segundo James Clear – Hábitos Atômicos –, cada ação que realizamos é como um "voto" para o tipo de pessoa que queremos ser. São a materialização dos nossos valores, portanto, a legitimidade ("assinatura") de nossa moralidade e de nossos objetivos de vida. Elas fornecem ao cérebro evidências concretas de nossa realidade, o que acaba imprimindo nossa autoimagem, pois, indubitavelmente, nosso cérebro ao observar nosso comportamento (hábitos) para concluir quem somos.


Ser um espelho para os demais implica "o desenvolvimento harmônico do pensar, do sentir e do querer", pois, somente assim, emerge ambiências para o convívio feliz abrigando a humanidade em sua formidável diversidade. O homem integral não culpa o mundo pelos seus problemas, ele assume o leme da própria vida e mostra aos outros que a mudança começa na reforma íntima, que resulta do “conviver”. Aquele que acende a luz do outro é o primeiro a dela se beneficiar.


Em um mundo de extremos, quem cultiva a empatia, a autenticidade e a alteridade torna-se um ponto de referência (um landmark) para quem ainda está perdido em conflitos íntimos e externos. Ao atingirmos esse estado, nossa simples presença "denuncia" o que falta nos outros, porém, "anuncia-lhes", também o que virão a ser. Envolve a sintonia do ser humano com as leis universais e a (re)conciliação do que se pensa, sente e faz, além de auferir virtudes, conhecimentos, sabedoria.


Sob o olhar do Construtor Social, a legitimação ocorre no "nós", onde a preocupação ética com o outro se torna possível ao compreendê-lo como parte de nossa coletividade, não apenas como um indivíduo isolado. O outro é quem nos legitima, ao nos confirmar como seres válidos, com um mundo interno único e digno de respeito, o que é fundamental para o amor, o pertencimento e a construção de relações saudáveis – de boas convivências –, contrapondo o individualismo egoísta.


Sob o fito do reconhecimento do ser, o outro não somente nos vê, ele aceita nosso mundo interno, nossas escolhas e comportamentos – mesmo que diferentes dos dele, sem reduzi-los aos seus erros ou inconsistências – e nos valida em nossa singularidade, ajudando a solidificar quem somos, especialmente em momentos de dúvida. Essa legitimação emerge como um ato de humanidade, construindo uma base de apoio e confiança mútua, ao passo que identifica o indivíduo.


Ver o outro como "legítimo na convivência" é fundamental para o amarmos, cônscios de que não se tenta mudar o outro, mas que se permite que ele seja. Essa aceitação do outro nos torna pertencidos ao grupo social que com ele formamos. O outro é essencial para nossa legitimação ao nos oferecer o espelho e o reconhecimento que nos confirmam como seres humanos completos e valiosos, fortalecidos naquilo identifica e estabelece nosso lugar no mundo que, assim, nos pertence.


A legitimação pelo outro nos traz a sensação de pertencimento. Ser ignorado ou "invisibilizado" é uma das formas mais profundas de sofrimento humano, pois, retira essa validação da nossa existência, o que nos faz perceber que os papéis que desempenhamos (filho, profissional, amigo, irmão) só existem na relação com as outras pessoas. Somente nós nos tornamos "alguém" através do olhar e da resposta que recebemos do mundo ao nosso redor.


Nossa identidade é construída socialmente. Segundo filósofos como Hegel, a consciência de si depende do reconhecimento do outro. Só passamos a ter plena noção de quem somos quando somos "vistos" e validados por outra consciência. Isso reverbera um conceito fundamental da filosofia e da psicologia social: a intersubjetividade que eflui das interações e da comunicação criando significados, experiências comuns e espaços de entendimento recíproco.


O conceito africano de Ubuntu sedimenta perfeitamente a relevância da convivência: "Eu sou porque nós somos", enfatizando que é a teia de conexões que define a identidade de um indivíduo e a interconexão essencial de toda a humanidade. Filósofos como Martin Buber, com seu conceito de relação "Eu-Tu", aduzem que a verdadeira humanidade é fruto do encontro dialógico com o outro. Dialogar pede conviver. Essa ideia é um pilar do existencialismo e do comunitarismo.


O crescimento individual retroalimenta o bem-estar coletivo, e vice-versa. E a comunidade oferece um espaço seguro para partilhar vulnerabilidades, sucessos e desafios. Ouvir narrativas semelhantes ajuda a validar as próprias emoções e a perceber que não se está sozinho nos próprios questionamentos. Através do diálogo, do feedback e de diferentes perspectivas, expande-se consciências e descobre-se novos caminhos para a felicidade social.


Há mais felicidade em dar do que em receber" é certificação de que a generosidade traz uma alegria mais profunda e duradoura do que o ato de receber, pois ao dar, expressamos amor, ajudamos os outros e manifestamos um caráter de abundância, o que gera um ciclo de felicidade e satisfação que supera o prazer momentâneo de ser beneficiado. É um princípio que foca na vida de quem compartilha tempo, bens e amor sem esperar retorno algum. 


Nessa troca: “é dando que se recebe” encontramos um poderoso senso de propósito, pois, mostra que os feitos têm um impacto real e positivo na vida de outras pessoas ou causas. E percebemos que a gratidão surge naturalmente – tanto a gratidão de quem recebe a ajuda quanto a de quem estende a mão a ofertá-la – imprimindo ao significado e satisfação que, somente, a convivência gera. Conviver é um experienciamento que desperta novos propósitos de vida.


Neste toar, a
reflexão do Dr. José Linhares de Vasconcelos Filho sintetiza o verdadeiro espírito da Ordem: o crescimento individual só se concretiza por meio da partilha e da vida em comunidade, robustecendo a certeza de que a maçonaria não é apenas um conjunto de rituais, mas sim, um exercício prático de convivência, fraternidade e união recíproca. Ela é um um modo de vida e um dever para o maçom, que se aplica ao progresso individual e coletivo da sociedade que o acolhe.


Maranguape, Ceará, 16 de Abril de 2026


Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE

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