Algo
estranho acontece quando alcançamos a tão deseja independência. Quando olhamos
em volta percebemos uma teia imensa à qual estamos interdependentes e da qual
não podemos nos desligar sob pena de perdemos nossa liberdade de ser o que nos
tornamos a cada passo que demos rumo à independência. Eis a maior ironia da
vida: descobrir que a independência absoluta é uma ilusão.
A
liberdade é não precisar de ninguém? Ao conquistar a autonomia financeira,
geográfica ou emocional, descobrimos que sustentá-la exige uma rede complexa de
conexões. Depende do agricultor que produz o alimento, do técnico que mantém a
internet e das leis que garantem no mínimo o direito de ir e vir. A verdadeira
liberdade não é viver sem amarras, mas ter a autonomia de escolher os próprios
nós.
A
independência não é o destino final, mas, o passaporte para escolhermos
conscientemente de quais teias queremos fazer parte. Cada escolha cria laços
afetivos que nos prendem pelo afeto e pela responsabilidade. A busca pela
independência absoluta esbarra num fato estrutural: a identidade que
construímos ao longo da vida já é, em si, um tecido de relações – linguagem,
cultura, vínculos, trabalho.
Na
tradição budista, o conceito de anatta (não-eu) vai ainda mais longe: não
existe um "eu" autônomo a ser libertado, apenas processos
interdependentes. A "teia imensa" não é uma prisão, mas, a própria
condição de existência. Ironicamente, a independência como ilusão é, na
verdade, a chave: a liberdade não está em se desvencilhar da teia, mas, em
agir conscientemente dentro dela.
A
liberdade não é um estado interior de independência; é um fenômeno que só
existe entre pessoas. Ela é a ação no espaço público – aparecer diante de
outros, falar, prometer, fundar algo novo, que se conecta à metáfora dos nós: a
autonomia que "escolhe os próprios nós" não é solitária. A
diferença entre um nó que escolhemos e um nó que nos prende não está na existência
do nó, mas, na transparência e reversibilidade da conexão.
A liberdade, nesse sentido, não é a ausência de amarras nem a posse de recursos, mas, a capacidade de participar ativamente na construção, renegociação e, quando necessário, dissolução das conexões que estruturam a vida – sem que ninguém decida por outrem quais “nós” são "verdadeiros" e quais são "ilusões". A liberdade positiva, pois, é a capacidade de agir em conformidade com os próprios fins racionais.
O
perigo reside quando decidimos por outrem o que é seu "verdadeiro eu"
e o que é sua "liberdade autêntica", transfigurando a liberdade
positiva em permissão para coerção. O totalitarismo se alimenta dessa retórica –
"libertar o trabalhador de suas ilusões burguesas". A liberdade
negativa, neste momento, atua como freio de ajuste: ninguém pode impor uma
visão única do bem em nome da sua autonomia.
Contemporaneamente,
somos "empresários de nós mesmos", o que nos desvincula das ordens
alheias – mas, em vez de galgarmos emancipação, convertemos essa desvinculação
em novas coações autoimpostas. O paradoxo é exato: a liberdade
se inverte em autoexploração. Somos, simultaneamente, senhores e servos de nós
mesmos. Rumamos nos mares do “bem” ao soprar da melhor oportunidade.
Isso
aclara diretamente a frase: a "independência absoluta" não esbarra
num obstáculo externo, mas, numa contradição interna – aquele que busca ser
totalmente autossuficiente está, na prática, se explorando com a mesma
intensidade que o sistema imporia. O esgotamento que resulta (burnout,
depressão) manifesta uma liberdade que não é liberdade, mas, é coerção sem
opressor visível.
A
"independência absoluta" não é mero mito filosófico; é uma imposição
política. A promessa de que podemos ser "livres" no sentido liberal –
autossuficiente, desvinculado, dono de si – é, historicamente, o laço que ata o
colonizado ao colonizador: seja como nós, separe-se da teia, e então serás
livre. E a teia que pretende romper é, quase sempre, a teia comunitária,
ancestral, territorial – a teia que te sustenta como pertencente ao lugar que
escolheste pertencer.
O
"passaporte", neste influxo, não é um documento que me dá liberdade
para sair, mas, a prova de que pertences a algum lugar. Ela “não é um estado
que se atinge (a independência absoluta), nem um dado que
se tem (a dependência); é uma prática – e essa prática é,
por definição, relacional”, afirma Paulo Freire. A independência não é o
destino final, o passaporte só funciona quando há outro para quem você pode ir.
O
pensamento decolonial reflete a virada de uma ontologia de substâncias
(indivíduos, Estados-nação) para uma ontologia de relações – que, em termos
políticos, é a recusa dessa imposição.
Não se trata de retornar romântico ao coletivo; mas, de reconhecer que a
própria noção de "indivíduo" é um constructo histórico, e que outras
ontologias – relacionalistas, rizomáticas, comunitárias – são igualmente (ou
mais) válidas.
Ao
dizer "cada escolha cria laços afetivos que nos prendem pelo afeto e pela
responsabilidade" retrato, em termos levinasianos, a ideia de que a
responsabilidade precede a liberdade: “não escolho primeiro e depois me
responsabilizo; é na responsabilidade que a escolha se torna possível”. Eis a
diferença entre a "teia" que se escolhe conscientemente e aquela que
se aceita passivamente.
A
"teia" de vínculos, portanto, nunca será um obstáculo a ser rompido,
pois, ela é a própria estrutura que permite a existência humana; a autonomia é
uma ilusão quando entendida como isolamento, sendo a dependência
dialética a verdadeira condição da liberdade, que não reside na negação de
determinações (história, cultura, tradição), mas, na apropriação consciente
desses legados, atuando como parte de uma totalidade viva.
Tudo
que vive viceja interdependência, sem a qual a igualdade não identifica os
iguais, ainda que em suas desigualdades. A vida exige conexão. Sem o
reconhecimento de que dependemos uns dos outros, a própria igualdade falha.
Afinal, reconhecer o outro como "igual" exige olhar para ele e requer
entender que somente através da comparação e da convivência melhor entendemos
as desigualdades individuais.
Uso
da metáfora de que a fraternidade "carece dos braços doutrem", quando
percebo que ela deixa de ser um conceito abstrato, para assumir-se como uma
ação prática: não existe solidariedade ou afeto sem o outro. É um eco da
filosofia Ubuntu ("Eu sou porque nós somos") cuja mestria ensina que
a vida de um depende da vida de outrem, num vívido e permanente coorbitar.
Praticar o bem é reconhecer que a dor do outro também afeta a comunidade
inteira.
Neste
diapasão, a liberdade não é um ato puramente individual ou egoísta. Ela só
reina plenamente quando mediada pela fraternidade. Sem o respeito fraterno, a
liberdade de um vira a opressão do outro. É a fraternidade que garante que a
liberdade de todos seja manifestada de forma justa, sustentando (fulcrando) a
soberania da igualdade. A liberdade e a igualdade são impossíveis de se
sintonizarem sem a engrenagem da fraternidade e da interdependência.
A
independência não é sinônimo de liberdade. São conceitos distintos, e a
confusão entre eles é o que impede a passagem para a interdependência. A
evolução humana passa da dependência para a independência (vitória particular)
e culmina na interdependência (vitória pública), onde o trabalho em grupo e a
cooperação permitem resultados maiores do que a autossuficiência isolada,
afirma Stephen R. Covey.
A
interdependência é um estágio superior de maturidade e realização humana em
relação à independência, sendo o objetivo ideal para relacionamentos e
cooperação. Conceitos como a "dependência moral" de Joaquim
Nabuco e a visão cristã do corpo como um todo destacam que a vida
plena se realiza através da troca mútua, partilha e reconhecimento da nossa
conexão com os outros e com o meio ambiente, superando a ideia de que o homem é
um indivíduo solitário.
Afirmar
que "entre a independência e a liberdade, a interdependência ganha a
vida" chamo à recuperação do sentido original de liberdade que a liquidez de
Baumann, ao isolá-la no indivíduo, acabou por perder. A vida ganha na
interdependência porque a liberdade, em sua real magnificência, jamais é
individual. Ela é, desde Aristóteles, um bem que se realiza no
"entre" – no nós que se integraliza, se robustece e
se inova a cada (re)conexão humana.
Neste
toar, a independência, embora necessária – sem ela, não se ergue a madureza no
homem –, é ineficaz como resultado. A liberdade é a habilidade de as experienciarmos
sem perder a nós mesmo. O ser humano se constrói a partir das relações.
O ser-para-outro não é um acidente da liberdade – é a condição de sua
realização. Esta é a majestade da interdependência: a vida ganha porque o
"eu" encontra, no "nós", a condição de ser verdadeiramente
livre.
Maranguape,
Ceará, 07 de Setembro de 2026
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Especial da Presidência
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