segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ENTRE A INDEPENDÊNCIA E A LIBERDADE A INTERDEPENDÊNCIA GANHA A VIDA

 

Algo estranho acontece quando alcançamos a tão deseja independência. Quando olhamos em volta percebemos uma teia imensa à qual estamos interdependentes e da qual não podemos nos desligar sob pena de perdemos nossa liberdade de ser o que nos tornamos a cada passo que demos rumo à independência. Eis a maior ironia da vida: descobrir que a independência absoluta é uma ilusão.

 

A liberdade é não precisar de ninguém? Ao conquistar a autonomia financeira, geográfica ou emocional, descobrimos que sustentá-la exige uma rede complexa de conexões. Depende do agricultor que produz o alimento, do técnico que mantém a internet e das leis que garantem no mínimo o direito de ir e vir. A verdadeira liberdade não é viver sem amarras, mas ter a autonomia de escolher os próprios nós.

 

A independência não é o destino final, mas, o passaporte para escolhermos conscientemente de quais teias queremos fazer parte. Cada escolha cria laços afetivos que nos prendem pelo afeto e pela responsabilidade. A busca pela independência absoluta esbarra num fato estrutural: a identidade que construímos ao longo da vida já é, em si, um tecido de relações – linguagem, cultura, vínculos, trabalho.

 

Na tradição budista, o conceito de anatta (não-eu) vai ainda mais longe: não existe um "eu" autônomo a ser libertado, apenas processos interdependentes. A "teia imensa" não é uma prisão, mas, a própria condição de existência. Ironicamente, a independência como ilusão é, na verdade, a chave: a liberdade não está em se desvencilhar da teia, mas, em agir conscientemente dentro dela.

 

A liberdade não é um estado interior de independência; é um fenômeno que só existe entre pessoas. Ela é a ação no espaço público – aparecer diante de outros, falar, prometer, fundar algo novo, que se conecta à metáfora dos nós: a autonomia que "escolhe os próprios nós" não é solitária. A diferença entre um nó que escolhemos e um nó que nos prende não está na existência do nó, mas, na transparência e reversibilidade da conexão.

 

A liberdade, nesse sentido, não é a ausência de amarras nem a posse de recursos, mas, a capacidade de participar ativamente na construção, renegociação e, quando necessário, dissolução das conexões que estruturam a vida – sem que ninguém decida por outrem quais “nós” são "verdadeiros" e quais são "ilusões". A liberdade positiva, pois, é a capacidade de agir em conformidade com os próprios fins racionais. 

 

O perigo reside quando decidimos por outrem o que é seu "verdadeiro eu" e o que é sua "liberdade autêntica", transfigurando a liberdade positiva em permissão para coerção. O totalitarismo se alimenta dessa retórica – "libertar o trabalhador de suas ilusões burguesas". A liberdade negativa, neste momento, atua como freio de ajuste: ninguém pode impor uma visão única do bem em nome da sua autonomia.

 

Contemporaneamente, somos "empresários de nós mesmos", o que nos desvincula das ordens alheias – mas, em vez de galgarmos emancipação, convertemos essa desvinculação em novas coações autoimpostas.  O paradoxo é exato: a liberdade se inverte em autoexploração. Somos, simultaneamente, senhores e servos de nós mesmos. Rumamos nos mares do “bem” ao soprar da melhor oportunidade.

 

Isso aclara diretamente a frase: a "independência absoluta" não esbarra num obstáculo externo, mas, numa contradição interna – aquele que busca ser totalmente autossuficiente está, na prática, se explorando com a mesma intensidade que o sistema imporia. O esgotamento que resulta (burnout, depressão) manifesta uma liberdade que não é liberdade, mas, é coerção sem opressor visível.

 

A "independência absoluta" não é mero mito filosófico; é uma imposição política. A promessa de que podemos ser "livres" no sentido liberal – autossuficiente, desvinculado, dono de si – é, historicamente, o laço que ata o colonizado ao colonizador: seja como nós, separe-se da teia, e então serás livre. E a teia que pretende romper é, quase sempre, a teia comunitária, ancestral, territorial – a teia que te sustenta como pertencente ao lugar que escolheste pertencer.

 

O "passaporte", neste influxo, não é um documento que me dá liberdade para sair, mas, a prova de que pertences a algum lugar. Ela “não é um estado que se atinge (a independência absoluta), nem um dado que se tem (a dependência); é uma prática – e essa prática é, por definição, relacional”, afirma Paulo Freire. A independência não é o destino final, o passaporte só funciona quando há outro para quem você pode ir.

 

O pensamento decolonial reflete a virada de uma ontologia de substâncias (indivíduos, Estados-nação) para uma ontologia de relações – que, em termos políticos, é a recusa dessa imposição.  Não se trata de retornar romântico ao coletivo; mas, de reconhecer que a própria noção de "indivíduo" é um constructo histórico, e que outras ontologias – relacionalistas, rizomáticas, comunitárias – são igualmente (ou mais) válidas.

 

Ao dizer "cada escolha cria laços afetivos que nos prendem pelo afeto e pela responsabilidade" retrato, em termos levinasianos, a ideia de que a responsabilidade precede a liberdade: “não escolho primeiro e depois me responsabilizo; é na responsabilidade que a escolha se torna possível”. Eis a diferença entre a "teia" que se escolhe conscientemente e aquela que se aceita passivamente.

 

A "teia" de vínculos, portanto, nunca será um obstáculo a ser rompido, pois, ela é a própria estrutura que permite a existência humana; a autonomia é uma ilusão quando entendida como isolamento, sendo a dependência dialética a verdadeira condição da liberdade, que não reside na negação de determinações (história, cultura, tradição), mas, na apropriação consciente desses legados, atuando como parte de uma totalidade viva.

 

Tudo que vive viceja interdependência, sem a qual a igualdade não identifica os iguais, ainda que em suas desigualdades. A vida exige conexão. Sem o reconhecimento de que dependemos uns dos outros, a própria igualdade falha. Afinal, reconhecer o outro como "igual" exige olhar para ele e requer entender que somente através da comparação e da convivência melhor entendemos as desigualdades individuais.

 

Uso da metáfora de que a fraternidade "carece dos braços doutrem", quando percebo que ela deixa de ser um conceito abstrato, para assumir-se como uma ação prática: não existe solidariedade ou afeto sem o outro. É um eco da filosofia Ubuntu ("Eu sou porque nós somos") cuja mestria ensina que a vida de um depende da vida de outrem, num vívido e permanente coorbitar. Praticar o bem é reconhecer que a dor do outro também afeta a comunidade inteira.

 

Neste diapasão, a liberdade não é um ato puramente individual ou egoísta. Ela só reina plenamente quando mediada pela fraternidade. Sem o respeito fraterno, a liberdade de um vira a opressão do outro. É a fraternidade que garante que a liberdade de todos seja manifestada de forma justa, sustentando (fulcrando) a soberania da igualdade. A liberdade e a igualdade são impossíveis de se sintonizarem sem a engrenagem da fraternidade e da interdependência.

 

A independência não é sinônimo de liberdade. São conceitos distintos, e a confusão entre eles é o que impede a passagem para a interdependência. A evolução humana passa da dependência para a independência (vitória particular) e culmina na interdependência (vitória pública), onde o trabalho em grupo e a cooperação permitem resultados maiores do que a autossuficiência isolada, afirma Stephen R. Covey.

 

A interdependência é um estágio superior de maturidade e realização humana em relação à independência, sendo o objetivo ideal para relacionamentos e cooperação. Conceitos como a "dependência moral" de Joaquim Nabuco e a visão cristã do corpo como um todo destacam que a vida plena se realiza através da troca mútua, partilha e reconhecimento da nossa conexão com os outros e com o meio ambiente, superando a ideia de que o homem é um indivíduo solitário.

 

Afirmar que "entre a independência e a liberdade, a interdependência ganha a vida" chamo à recuperação do sentido original de liberdade que a liquidez de Baumann, ao isolá-la no indivíduo, acabou por perder. A vida ganha na interdependência porque a liberdade, em sua real magnificência, jamais é individual.  Ela é, desde Aristóteles, um bem que se realiza no "entre" – no nós que se integraliza, se robustece e se inova a cada (re)conexão humana.

 

Neste toar, a independência, embora necessária – sem ela, não se ergue a madureza no homem –, é ineficaz como resultado. A liberdade é a habilidade de as experienciarmos sem perder a nós mesmo. O ser humano se constrói a partir das relações. O ser-para-outro não é um acidente da liberdade – é a condição de sua realização. Esta é a majestade da interdependência: a vida ganha porque o "eu" encontra, no "nós", a condição de ser verdadeiramente livre.

 

Maranguape, Ceará, 07 de Setembro de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS

Assessoria Especial da Presidência

Cléber Tomás Vianna

Diretoria de Comunicação Social

Bruno Bezerra de Macedo


INDEPENDÊNCIA: A VERDADE QUE AINDA NOS FALTA

 

Há datas que o calendário registra, mas há outras que a consciência nacional insiste em perguntar. O 7 de Setembro pertence às duas categorias. É a celebração de uma independência proclamada às margens do Ipiranga, mas também, a oportunidade de indagar se, quase dois séculos depois, aprendemos verdadeiramente a ser independentes.

 

Porque independência requer verdade?

 

Sem verdade, nada é autêntico. E uma nação pode ostentar bandeira, hino, brasão e discursos patrióticos, mas continuará incompleta enquanto não tiver coragem de olhar para si mesma com olhos límpidos.

 

Talvez esteja aí uma das nossas maiores contradições. Somos uma terra de homens e mulheres capazes de feitos extraordinários, mas, frequentemente conduzida por aqueles que parecem sofrer de uma espécie de astigmatismo moral: enxergam o que lhes convém e turvam deliberadamente aquilo que deveriam ver com clareza.

 

A verdade, quando incomoda, é afastada. A fidedignidade torna-se inconveniente. O mérito é muitas vezes submetido ao interesse, enquanto a corrupção encontra caminhos, atalhos e justificativas. E assim, pouco a pouco, aquilo que deveria ser exceção transforma-se em método.

 

O Brasil, então, parece caminhar entre o imenso potencial de sua grandeza e as pequenas conveniências de seus vícios.

 

Basta lembrar de Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, símbolo de uma visão empreendedora que ousou imaginar um Brasil moderno, industrial e economicamente soberano. Sua trajetória nos lembra que o desenvolvimento de uma nação não nasce apenas de discursos, mas da coragem de criar, investir, produzir e acreditar no próprio país.

 

Ainda assim, quantas vezes o valor nacional foi deixado ao léu?

 

Quantas vezes aqueles que poderiam construir foram sufocados por estruturas que preferiram conservar privilégios a abrir caminhos?

 

E quantas vezes o legislador, que deveria representar a pátria e servir ao interesse público, terminou por produzir normas que protegem mais os arranjos do poder do que a dignidade do cidadão?

 

É nesse ponto que a independência deixa de ser apenas um acontecimento histórico e passa a ser uma exigência diária.

 

Não basta termos nos tornado independentes de uma metrópole. É preciso que nos tornemos independentes da mentira, do favorecimento, da corrupção, da mediocridade e da submissão intelectual.

Não podemos continuar repetindo que “ninguém mexe em time vencedor” quando, tantas vezes, o time sequer está vencendo. O país que se acomoda aos próprios erros transforma a repetição em tradição e a tradição em destino.

 

Seguimos, assim, inexatos e torpes, muitas vezes dependentes daquele que vem de fora para nos dizer quanto valemos, o que devemos produzir, como devemos pensar e para onde devemos caminhar.

 

Mas uma pátria verdadeiramente independente não precisa negar o mundo; precisa apenas deixar de negar a si mesma.

 

Independência não é fechar portas. É ter dignidade para atravessá-las sem abandonar a própria identidade.

 

É saber receber conhecimento sem renunciar à própria inteligência. É acolher o estrangeiro sem desprezar o nacional. É admirar o que vem de fora sem acreditar que tudo o que é nosso seja inferior.

 

Sobretudo, é aprender a enxergar.

 

Enxergar nossas virtudes sem soberba.

 

Enxergar nossas mazelas sem covardia.

 

Enxergar nossos heróis sem transformá-los em mitos intocáveis.

 

Enxergar nossos erros sem procurar eternamente um culpado distante.

 

Talvez o verdadeiro grito de independência que o Brasil ainda precise ouvir não seja aquele que ecoou às margens do Ipiranga, mas aquele que precisa nascer dentro de cada consciência:

 

independência é ter coragem de escolher a verdade, mesmo quando a verdade nos obriga a mudar.

 

Neste 7 de Setembro, que a bandeira brasileira não seja apenas um símbolo que tremula ao vento, mas um espelho diante do qual possamos perguntar, com honestidade:

 

somos realmente independentes?

 

A resposta não estará nos discursos.

 

Estará naquilo que fizermos quando ninguém estiver olhando.

 

Porque uma nação somente se torna verdadeiramente independente quando seus cidadãos já não precisam escolher entre a verdade e a conveniência.

 

E talvez seja justamente aí que comece a verdadeira independência do Brasil.

 

Essa excelsa independência, é o que faz desta Academia Internacional dos Maçons sui generis dentre as demais arcádias que os mais recônditos celeiros culturais do Brasil.

 

Livre, garante a liberdade de pensamento dos seus mais de duzentos confrades – distribuídos nas categorias: fundadores, correspondestes nacional, correspondentes estrangeiros e membros honorários.

Equânimes em seus direitos e obrigações eles compartilham entre si os mais augustos saberes maçônicos, que são a matéria-prima ótima para cada um dos constructos literários que produzem – conjunta e/ou individualmente.

 

Cada obra produzida sob os auspícios da AIMI é um tijolo a mais alocado na construção íntima de cada maçom em todo o planeta Terra.

 

Fraternidade é o que faz existir tão alargado alcance majorado dia a dia pela AIMI à medida de mais e mais se internacionaliza a partir de cada correspondente internacional que chega aportando seus prodígios a bem crescimento e continuísmo da cultura maçônica em todo o mundo.

 

Uma cultura que tem por fertilizante a verdade e como irrigação a transparência nos feitos e efeitos, jamais contrariaria a determinação de: combater preconceitos, tirania e erros, pois, seria um demérito ao orgulho de quem assume-se com autêntica defensora da justiça e da verdade a bem da pátria e da humanidade.

 

Princípios robustos assim mantém impolutas as colunas que sustentam a maçonaria em sua vocação de ser espelho da independência esperada daqueles cujo coração foi tocado pela luz que vem alto. Cada coração um dom e cada dom um préstimo à disposição da emancipação do homem e da humanidade.


Maranguape, Ceará, 07 de Setembro de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS

Assessoria Especial da Presidência

Cléber Tomás Vianna

Diretoria de Comunicação Social

Bruno Bezerra de Macedo

domingo, 6 de setembro de 2026

FELICIDADE É UM DEVER INALIENÁVEL

 

Majestoso domingo este que inicia sua carreira e ser feliz, ao passo que patrocina a alegria de tantos quantos, que como eu podem dele gozar este proveitoso dever.

 

E não seria direito?

 

Sim, um direito inalienável é este de ser feliz. Porém, a real felicidade passa, por vezes, longe das digressões criadas a seu desfavor: desejos ilógicos, inexatos e desprovidos do mérito vertem todos para quaisquer outros fins, menos para a felicidade.

 

Vencer estas paixões e submeter tais vontades é a meta dos sãos moralmente constituídos!

 

Sendo meta, é dever em busca de cumprimento.

 

Por isso, afirmo que a felicidade desta meta resultante é um dever, que deve ser cumprindo conforme arquitetado pela mente, como afirma Trismegistus, no Princípio do Mentalismo, “tudo é mente de Deus”.

 

E somos Deus(es)?

 

Claro, que sim, afirma isso Yeshua bar Yoseph, em púlpito aberto a todo o universo. Porém, desde que o amor nos permeie, pois, “Deus é amor”, afirma João, o Evangelista em sua primeira epístola.

 

Amar, pois, é a maior moção de felicidade praticada por aqueles – ainda que poucos sejamos – que alcançaram o maior índice de humanidade em seu viver neste planeta Terra. Ocorre que onde não há amor tudo é efêmero.

 

Como plântulas bem nutridas nos lançamos à luz – do discernimento, da sabedoria – que, além de aquecer a alma com as melhores aspirações, aclaram os caminhos onde o progresso é venturoso companheiro de jornada.

 

Uma estrada longa, que percorrida toda, desviando-se dos atalhos a que nos chamam as aparentes “facilidades”, chegamos à vitória sobre nós mesmos. Como afirma Paulo de Tarso a Timóteo: “nenhum atleta é coroado como vencedor se não competir de acordo com as regras”.

 

Nenhuma regra é ataca para as mãos diligentes, cujo bem-fazer é felicidade em franca oferta.

 

Há mais felicidade em dar do que em receber, regra d’ouro estabelecida por aquele que tem sempre muito mais a dar do que a receber, é âncora segura para as naus transeuntes no mar das ilusões egóicas.

 

A ilusão é doce, mas, ao final, amarga a vida como a diabetes.

 

Queremos o que não precisamos, corremos atrás de prazeres que evaporam antes do anoitecer e, no fim, culpamos a vida pela nossa própria insatisfação.

 

Mudar isso é o excelso labor de quem decidiu ser exemplo. Envolve vencer as pequenas tiranias do ego, as vontades sem lógica que nos desviam do que realmente importa.

 

É um dever da mente. E sendo o universo um constructo da mente – como dizem os sábios antigos –, a arquitetura da nossa alegria começa no pensamento.

 

Resolutamente, como fagulhas do sagrado exerçamos nossa realeza investidos da única capa que nos torna verdadeiramente deuses: o amor.

 

Fora dele, tudo é pressa, fumaça e efemeridade.

 

As facilidades que o mundo oferece geralmente cobram um preço alto demais na curva seguinte. Não há atalhos nessa jornada em busca de si.

 

Viver com sabedoria é como o girassol que busca a luz. A vitória real não é sobre o vizinho ou sobre o relógio, mas, sobre nós mesmos.

 

No fundo, a grande chave que abre o domingo – e todos os outros dias – é a mais pura das lições: a felicidade não está no que acumulamos na bagagem, mas no que distribuímos pelo caminho. Há mais vida em estender a mão do que em esperar receber.

 

Levantar a cabeça, dominar a nós mesmos e transformar essa jornada no mais aprazível espetáculo de progresso é o mais augurioso dever a que nos concita este domingo e todos os outros dias que virão depois de hoje.

 

É a oportunidade soberana de cumprir a missão mais nobre da nossa existência: o dever inalienável de ser feliz!

 

Maranguape, Ceará, 06 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


sábado, 5 de setembro de 2026

CARIDOSO DIA PARA TODOS NÓS!

 

Eis que o dia hoje (05/09) resplandece, é Dia do Irmão! Cuidem, pois, o primeiro irmão a ser festejado somos nós mesmos, já que, somente quando nos amarmos o suficiente poderemos amar aos demais entes humanos com a primazia que merecem. Talvez por isso, neste 05 de setembro, celebremos conjuntamente a caridade em manifestação internacional, ratificando que a primeira caridade a se praticar sempre será em benefício de nós próprios, pois, quem não se apieda nem mesmo de si, como pode ter dó de outrem?

 

O amor-próprio é o robusto alicerce da fraternidade está desde sempre em sintonia com o espírito da data: o 5 de setembro foi escolhido justamente em homenagem à Madre Teresa de Calcutá, falecida nessa data em 1997, cuja vida foi dedicada à caridade e ao cuidado com o próximo.  A celebração começou em 2007, no 10º aniversário de sua morte, por iniciativa da Igreja Católica. Corroborativo com esta excelsitude, o ato de exercer a primeira caridade sobre nós mesmos ecoa a ideia de que a fraternidade  valor central da data – só se concretiza plenamente quando partimos de uma relação de cuidado e respeito conosco mesmos, para então estendê-los a todos os demais.

 

Que amor temos por nós próprios quando repentinamente ofuscados pelos holofotes da vaidade invadimos do direito de outrem, de uma coletividade inteira e nos assentamos no trono real dos hipócritas a dar-lhes ordens sem o devido amparo legal, tão pouco da aceitação plena e inequívoca de, ao menos, cinquenta por cento mais um dos constituintes desta coletividade, contabilizado ao final do devido processo democrático de eleição? Não é amor, mas, sim tirana usurpação, pois, amor, amar, etc. não é combustível para conflito, definem-se assim!

 

Figura nisto um argumento coerente com uma tradição clássica da filosofia política: a ideia de que legitimidade de poder exige base legal e consentimento democrático – a referência a "cinquenta por cento mais um" evoca diretamente o princípio da maioria simples como critério mínimo de validade eleitoral. A distinção entre amor e usurpação põe na difusora a crítica de pensadores como Maquiavel (que já descrevia o tirano como aquele que "transtorna a república e se apodera de tudo sem respeitar as leis") e, mais tarde, o liberalismo de Locke, para quem o governo sem consentimento do povo é tirania por definição.

 

Ao dizer "não é amor, mas tirana usurpação" condensa-se bem a tese de que poder exercido sem amparo legal nem mandato popular é, por natureza, ato de dominação – não de cuidado. A vaidade, nesse enquadramento, funciona como o motor que transforma o desejo de reconhecimento em vontade de subjugação, que somente aqueles incapazes “ser” e/ou conquistar por mérito tem a chave para acioná-lo a demérito dos bons costumes que sustentam a liberdade do melhor convívio para os buscadores da verdade e para os obreiros da paz esparsos sobre os continentes do planeta Terra.


Essa detestável vaidade – que transforma o desejo de reconhecimento em vontade de subjugação – encontra eco preciso em Étienne de La Boétie (1549), que em Dissertação sobre a Servidão Voluntária descreve o tirano como alguém que "não tem poder sobre vós senão graças a vós".  O tirano, ali retratado, não é meramente um infame que invade o direito alheio: é quem se alimenta do consentimento que extrai por vaidade, e o povo, por sua vez, "concede tudo ao tirano antes mesmo que este exija sua parte". A vaidade, nessa percepção , é o combustível que faz o tirano crer que o trono lhe é de direito – quando, na verdade, este assento é um empréstimo, como tudo na vida, que ele se apropria sem o lastro do mérito e/ou da permissão consensual a si concedida pela coletividade que assente.

 

Rousseau radicaliza tal exigência em Do Contrato Social (1762): o pacto social, como ato fundador, exige consentimento unânime – cada associado abdicando de seus direitos em favor do corpo coletivo.  Já nas deliberações ordinárias, a vontade geral se expressa pela maioria, e "todos ficam obrigados pelo acordo estabelecido pela maioria". A sua exigência de "cinquenta por cento mais um" situa-se exatamente nesse ponto: é o mínimo que transforma uma imposição individual em ato coletivo legítimo. Bobbio, a seu tempo, sintetiza: "o poder político legítimo é exercido mediante o consentimento da maioria, não podendo, por isso, extrapolar os limites fixados pelo estatuto político". Legalidade e legitimidade, para ele, são indissociáveis – uma pertence à doutrina do poder, a outra à do direito, e juntas constituem a summa potestas.


Em Platão (República, Livro IX), a tirania é o regime que "leva às últimas consequências o domínio do mais forte", e o tirano é descrito como o homem mais infeliz de todos, precisamente porque a sua relação com os outros é de domínio, não de cuidado – onde não caridade, haverá amor?  O tirano não ama: ele consome. A vaidade cega este laureado pela má-fé para a diferença entre ser reconhecido (amor, reciprocidade) e ser obedecido (dominação, unilateralidade). Aristóteles reforça: a monarquia justa governa "pelo bem do conjunto", enquanto a tirania governa "pelo interesse do tirano". A diferença não é de grau, mas, de natureza – exatamente como externei acima a oposição entre amor e usurpação. O amor político, na tradição contratualista, é a obediência livre à lei que se impõe a si mesmo (Rousseau); a usurpação é a imposição de uma vontade particular sobre a vontade geral.

 

Há ainda uma camada que toquei de raspão, mas que é crucial à percepção dos fatos com a clareza que exigem: Tocqueville adverte que "quando vejo concederem o direito e a faculdade de fazer tudo a uma força qualquer, seja ela chamada povo ou rei, democracia ou aristocracia, digo: aí está o germe da tirania". A tirania não exige a ausência de eleições – pode nascer dentro delas, quando a vaidade de um líder o leva a se assentar "no trono real dos hipócritas" mesmo com o aval formal da maioria, sem que haja "aceitação plena e inequívoca" do corpo constituinte.  É a diferença entre ser escolhido e ser aceito – e é nessa fenda que a usurpação se instala.

 

Tal usurpação pintada nesta imagem do "assentar-se no trono real" é, em psicologia, a externalização do que Heinz Kohut chamou de narcisismo grandioso: o indivíduo que não suporta a própria finitude projeta sobre o mundo uma posição de supremacia que o alivie do vazio interno. O trono não é um lugar que se ocupa – é um espelho que se constrói sob os auspícios dos melhores feitos e dos mais auguriosos efeitos. A vaidade, nesse enquadramento, não é um excesso de amor-próprio: é a falta de amor-próprio que tenta ser preenchida por uma posição externa. O "holofote" é o suprimento narcísico, sem o qual o sujeito colapsa no que Otto Kernberg descreve como a "vulnerabilidade narcísica oculta" sob a armadura de grandiosidade. Lembrei-me que Dona Eunice – minha avó – dizia: “todo penso é torto”. E se é torto cai, ruindo consigo sua impertinência e corrupção.

 

Em teoria das relações objetais (Melanie Klein, D. W. Winnicott), o desenvolvimento saudável exige que o sujeito reconheça o outro como separado de si – com vontade, direito e integridade próprias. O narcisista patológico não consegue fazer esse reconhecimento. Para ele, o outro não é um sujeito, é um objeto: um meio para a própria validação. Quando digo da "invasão do direito de outrem, de uma coletividade inteira”, aclaro a falha fundamental: a incapacidade de tolerar a alteridade. O outro não é amado – é apropriadamente, pois, não se ama uma “coisa”, a desejamos. Isso explica a "usurpação" no sentido psicológico: o tirano não invade por maldade calculada. Ele invade porque não distingue o próprio limite do limite alheio. A coletividade inteira, para ele, é extensão do próprio ego  e, como tal, pode ser "ordenada" sem amparo, porque, na sua experiência interna, não é outra.

 

Fromm preceitua uma inversão com precisão cirúrgica: "Os narcisistas não se amam demais – amam-se de menos." O mito de Narciso dá-nos a perceber sua tamanha solidão, pois, somente ele vê a si próprio belo, amorável, reconhecível, etc. O narcisista congelou o amor-próprio na forma de grandiosidade: ele não se ama, ele se defende. O amor-próprio saudável, em contraponto, é a capacidade de se aceitar sem necessidade de espelho externo – e é exatamente isso que desativa a máquina da usurpação: sem a necessidade de holofotes, fenece a vaidade e a usurpação não há, pois, somos plenos em tudo e de tudo quando nos amamos veraz e sobriamente. O trono – “dos hipócritas” – desmonta-se porque o que o sustentava – o vazio interno – foi preenchido pelo autocuidado (caridade por si próprio).

 

Eis o vetor que a maioria das moralidades erra: a caridade não é a negação do amor-próprio. Ela a sua continuação natural. Se o amor-próprio saudável me diz "eu tenho valor", a caridade me diz "e o outro também tem". Fromm bate o prego e vira a ponta: "aqueles que são capazes de se amar são também capazes de amar os outros; aqueles que são incapazes de se amar são também incapazes de amar os outros." Portanto, a caridade, nesse diapasão, não é um sacrifício, mas sim, a mais irrefutável prova de que o amor-próprio está funcionando. Quem se sacrifica não ama: foge de si. Quem dá com plenitude não perde: expande-se! É dando que se recebe, tem o condão de multiplicar os pães ofertados.

 

O pão-amor concita-nos a mesa dos iguais, portanto, irmãos, onde alimenta-nos a alma e limpa-nos a visão: se a usurpação é o "eu" impondo sua vontade sobre o "nós" sem consentimento, é a inversão naturalmente é o "nós" constituído a partir de "eus" que se reconhecem mutuamente pelo amor os identifica. Rousseau já o via: a compaixão é "a emoção democrática por excelência", porque "cria laços de afeto através do sofrimento compartilhado".  Não é a lei que impõe a solidariedade – é o reconhecimento mútuo que a torna possível. A força dos iguais é descomunal e apta a transfigurar realidades caóticas em aprazíveis ambiências onde pelo amor aprimoram-se os costumes, semeia-se respeito à fé e a autoridade de cada um e se estabelece a alteridade como Norte de amorabilidade.

 

Evoco meu Jovem Irmão Francisco Jackson Arruda Cavalcante que tem sido formidável em sua perene busca por estabelecer entre nós a mais robusta das virtudes maçônicas, que se solidifica no silêncio de sua prática, afinal, a alteridade não permeia nenhum escrito ritual, embora ela esteja neles intrínseca e em efusivo exercício de sua mestria. Ele nos chama a olhar para o outro não para o julgar, pois, incontáveis são nossas hipocrisias e amoralidades a nos impedir de fazê-lo com a necessária isenção. Com sagacidade, Jackson convence-nos a abrir os olhos a perceber o invisível aos nossos olhos até que o ouçamos: o outro é nosso retrato mais digno.


Quando o enxergado é atroz maior atrocidade há em nossas entranhas psico-espirituais; quando o visto é aprazivelmente belo, tudo em nosso entorno viceja graça, prosperidade e alegrias, como preceitua o meu Irmão Jackson. Com singeleza ele nos apresenta o mal e o bem na fluída sinergia que une estas duas antagônicas forças na cocriação das realidades conforme arquiteta nossa índole. As práticas de Jackson robustecem o adágio popular que sentencia: "quem disso usa, disso cuida". Quem é capaz de penetrar nos locais mais recônditos do coração bem formado dos entes humanos a ver se há lá acesa a tênue luz que identifica, os iguais, os irmãos  sendo também apto a acendê-la, quando vista apagada – é potencialmente capaz de ver-se exuberante em cada um de nós.

 

Um irmão assim, como Jackson, enche-nos de orgulho, com a mesma intensidade com que nos motivamos a manifestar a melhor versão de nós, os mais auguriosos feitos e efeitos; e a revelar a mais autêntica imagem de nós mesmos. Uma clara manifestação do Princípio da Correspondência: assim como Jackson é, também nós o somos. E somos todos aquilo que habitualmente fazemos. Nussbaum nisto efloresce: a compaixão é uma virtude cívica, não um sentimento privado.  Para ela, "ser um bom cidadão exige estar confiavelmente alerta à injustiça, ser motivado a promover a justiça e ser motivado a garantir que todos tenham os bens básicos para uma vida boa". A compaixão política não é piedade – é a capacidade institucionalizada de reconhecer a vulnerabilidade alheia e responder a ela. E a melhor resposta sempre será a caridade – vinda do latim caritas, caritatis, que significa afeto, estima, amor ou ternura – que abraça a todos por igual na constante busca do tornar feliz a humanidade.

 

Maranguape, Ceará, 05 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

BRASIL ENTRE VERDADE E DEPENDÊNCIA

 

A independência requer verdade

Sem verdade nada é autêntico

Dela afugenta-se a fidedignidade

Por isso todo o Brasil é caótico

 

Terra de próceres astigmatas

Amantes da turva visão

Negando-se coisas impolutas

Preferindo vil corrupção

 

Sucumbe Mauá, o empreendedor

Ao léu o valor nacional

Massacra-nos o pátrio legislador

 

Ninguém mexe em time vencedor

Seguimos inexatos e torpes

Sempre dependentes do expatriador

 

Maranguape, Ceará, 04 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

É O FIM DA PICADA!?

 

Não sei se é o fim dos dias, mas, garanto que atende muito bem ao adágio popular que diz: “é o fim da picada”. Ocorre que chora o ladrão alegando que tudo é culpa do roubado, que facilitou o roubo, pasmem! Munido do mais profissional dos vitimismos, o errado lastima em teatro a céu aberto cobrando o correto por prejuízos que somente suas agências fora das regras, do contratado, da lei puderam causar a ele próprio e àqueles que embora nenhum prejuízo tivesse, mas, mesmo assim, são apontados pelo sagaz vitimista como lesados. É tempo no qual morto se finge de vivo e vivo não aguenta vivê-lo.

 

Ecoa nisto o conceito de simulacro de Jean Baudrillard, onde o agente do erro não nega o fato, mas, manipula a narrativa (a retórica) para transferir a responsabilidade ao lesado. A verdade factual é sacrificada no altar da conveniência moral. O sofrimento é transformado em capital político ou social. Psicologia diagnostica por Nietzsche ao formular a moral do ressentimento, quando o incapaz de agir com grandeza e assumir a responsabilidade por seus atos, adota modus vis a rebaixar as virtudes do outro. Quem domina a narrativa do sofrimento domina o julgamento público.

 

O "errado" culpa o "roubado" porque, na lógica do ressentimento, a própria existência da retidão alheia serve como uma acusação silenciosa ao seu caráter. Transformar o correto em culpado é uma tentativa desesperada de nivelar todos por baixo. Envolve viver sob o império da hipocrisia a suportar o que os existencialistas chamavam de náusea ou absurdo. Quando as agências atuam "fora das regras, do contratado, da lei", o contrato social de Thomas Hobbes colapsa. Sem regras compartilhadas, a convivência humana regride à barbárie disfarçada de civilidade.

 

A filosofia ensina que o "fim da picada" ocorre quando falece a linguagem ao perder sua função de revelar a realidade, passando a servir espuriamente para mascarar o poder e a delinquência. O cansaço do "vivo" nasce exatamente da exigência constante de sanidade em um ambiente que premia o cinismo com a mesma intensidade com que causa frustração e manifesta impunidade ou a inversão da justiça. Esse fenômeno gera um forte sentimento de desgaste social e estranhamento coletivo. A discussão sobre o erro real é substituída por um espetáculo de indignação.

 

Sociologicamente, este caos ético-moral descrito acima não é um desvio isolado de caráter, mas sim, um sintoma de uma profunda crise nas instituições e nos laços sociais da modernidade tardia. A inversão de papéis e o teatro do vitimismo refletem como as estruturas de poder, a opinião pública e as regras do jogo social foram profundamente alteradas. O vitimismo estratégico tornou-se uma moeda social de alto valor, o que chamamos de “capital de simpatia”. Para o desviante, performar vulnerabilidade em público funciona como uma blindagem que neutraliza as sanções sociais e institucionais.

  

O "teatro a céu aberto" encontra sua explicação teórica no conceito de Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord. Na era hiper conectada, fatos concretos perdem centralidade para as narrativas performáticas, pueris, ancoradas em meias verdades. Como a sociedade julga mais pela imagem do que pelo processo legal ou factual, manipulam-se os códigos culturais para transferir a indignação coletiva do ato criminoso para a "falha" do lesado. Essas "agências fora das regras, do contratado, da lei" dão ingresso ao território que Émile Durkheim chamou de Anomia.

 

A anomia ocorre quando as normas sociais e leis perdem sua força reguladora e os indivíduos ou corporações passam a agir unicamente por interesse próprio, sem senso de responsabilidade coletiva. Lembrei-me duma Instituição Zumbi, mais ou menos como aquela que descreve o sociólogo Ulrich Beck: “instituições que mesmo existindo legalmente, perderam a capacidade real de garantir a ordem, a justiça e o cumprimento dos contratos, desde aquele lhe deu origem – o Estatuto Social – até o ordenamento jurídico do país que a abriga – resultando em um sentir de desamparo e impunidade.

 

Incontestavelmente, “é tempo no qual morto se finge e vivo não aguenta vivê-lo" o que resume perfeitamente o esgotamento gerado pela Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman, na qual reina institucionalização do Cinismo. Os laços são frágeis e as regras mudam constantemente para proteger quem tem poder, o cinismo torna-se a mais excelente estratégia de sobrevivência, elegendo como portentosos como mecanismos de defesa a apatia social e a alienação: "fingir-se de morto". É sofrido viver nesse tempo em que agir de forma correta e seguir as regras passa a ser visto como ingenuidade ou "facilitação".

 

Sociologicamente, o "fim da picada" representa o momento em que a anomia e a espetacularização se fundem, permitindo que o agressor colonize a linguagem dos direitos e da justiça para perpetuar a própria impunidade. As "agências fora das regras" e as corporações que violam contratos utilizam o que a sociologia das organizações chama de legitimidade cerimonial. Se um escândalo ou prejuízo se torna público, a corporação rapidamente isola o problema apontando para um "prestador de serviço terceirizado", um "funcionário dissidente" ou um "erro pontual de algoritmo", fingindo que a própria estrutura da empresa é idônea e foi lesada por agentes externos.

 

Nas conexões humanas e nos relacionamentos interpessoais, esse teatro – de horrores – de inversão de culpa assume sua forma mais íntima, dolorosa e psicologicamente desgastante. O que no mercado se chama de "gerenciamento de crise" ou no direito de "litígio", na convivência pessoal transforma-se em manipulação emocional crônica – um choro copioso ao picar cebolas. No momento visto num comportamento inadequado, uma quebra de acordo ou uma mentira, o interlocutor não se defende do fato. Ele muda o foco para a sua reação ao fato, uma contraofensiva teatral ao estilo das epopeias gregas.

 

Rapidamente emerge o candidato ao Oscar – o agressor – a encenar um sofrimento maior. Frases como: "Você está me perseguindo"; "Você nunca esquece o passado"; "Você está me fazendo passar por monstro" ou “você está causando prejuízo à coletividade” servem para que ele ocupe o lugar de vítima. O lesado original, perplexo, se vê na posição de ter que consolar ou pedir desculpas a quem o machucou vorazmente. Eis o ápice do cinismo nas relações afetivas, familiares ou de amizade: o causador do dano argumenta que o seu comportamento foi meramente uma consequência de uma falha de outrem, que deve ser reparada urgentemente.

 

Nas conexões humanas, o "fim da picada" é a morte da empatia. Quando a empatia morre em uma relação, a convivência perde sua função original de acolhimento e se transforma em uma arena de violência psicológica sutil. O "fim da picada" ocorre porque o canalizador da agressão não usa a força física, mas sim, as ferramentas mais sagradas do vínculo humano – o amor, a confiança e o afeto – como armas de manipulação. A linguagem do afeto é sequestrada para servir ao egoísmo e à impunidade, a convivência se torna um jogo de sobrevivência psicológica. É o início do processo de "fingir-se de morto" por pura exaustão.

 

"Fingir-se de morto", ainda que por exaurimento pleno, não é estar morto. Neste instante psíquico-corpóreo onde a fluidez metabólica alcança menor velocidade, o cérebro encontra na serena aceitação do “não há mais nada a fazer” sua vitalidade mais plena a partir da qual emergem lampejos de coragem e exatidão manifestados em atos que põem os pingos nos “is” como devem ser e a casa íntima começa a adornar-se de sabedoria para o necessário enfretamento ao caos vitimista simplesmente enchendo sua “terra arrasada” com a beleza das mais amoráveis rosas de perfume transformador e de tez ressignificadora.

 

O "caos vitimista" não é o caos da vítima – que é legítimo, doloroso e necessário em sua fase. É o caos que permanece na posição de vítima como estrutura identitária: o loop em que o dano é re-narrado infinitamente não para ser compreendido, mas, para ser mantido como estado permanente. É o trauma que se recusa a virar memória. O enfretamento não é "superar" (que pressupõe que o outro lado é defeito); é adornar a casa íntima de sabedoria – ou seja, construir dentro uma ordem rica o bastante para que o caos externo perca a capacidade de ser a única referência. A rosa na terra arrasada não apaga a arrasação; ela adiciona uma camada de sentido que torna a arrasação suportável, e no suportável cabe a ação.

 

A metáfora das "rosas de perfume transformador" ilustra perfeitamente o conceito de Crescimento Pós-Traumático. A psicologia mostra que o sofrimento intenso, se elaborado, pode disparar mudanças positivas profunda. Cada rosa prenuncia que a vida passa a ser adornada não pelo que é utilitário ou exigido pelos outros, mas pelo que é belo, autêntico e curativo para que "casa íntima" seja uma ambiência segura, feliz e plena em todos os aspectos pertinentes a um viver onde a aprazível tez da rosa manifeste a igualdade, filha do pertencimento que não só identifica os iguais em suas desigualdades, com o mesmo fervor com que lhes dota da liberdade uma experienciação do amor autêntico que a tudo transforma em sabedoria existencial.

 

O perfume transformador das rosas semeadas não se impõe, se espalha. O perfume não precisa ser aceito; ele muda o ambiente apenas por estar ali. É a sabedoria que atua sem coerção, que reorganiza o campo perceptivo de quem a respira. A tez ressignificadora destas rosas é o que se torna visível. O perfume age no invisível (o ar, o interior); a tez age no visível (a superfície, o rosto). Juntas, dizem: a transformação é interna e se anuncia externamente. Não se esconde. Assim o adágio: “é o fim da picada” deixa de ter (ser) fim, pois, cumpre-lhe ser o corte necessário que abre a terra – ou o coração - para que novas rosas floresçam para aspergir aos dias o perfume da sabedoria do invisível que molda o visível sem que haja resistência.

 

Maranguape, Ceará, 03 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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