segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ENTRE A INDEPENDÊNCIA E A LIBERDADE A INTERDEPENDÊNCIA GANHA A VIDA

 

Algo estranho acontece quando alcançamos a tão deseja independência. Quando olhamos em volta percebemos uma teia imensa à qual estamos interdependentes e da qual não podemos nos desligar sob pena de perdemos nossa liberdade de ser o que nos tornamos a cada passo que demos rumo à independência. Eis a maior ironia da vida: descobrir que a independência absoluta é uma ilusão.

 

A liberdade é não precisar de ninguém? Ao conquistar a autonomia financeira, geográfica ou emocional, descobrimos que sustentá-la exige uma rede complexa de conexões. Depende do agricultor que produz o alimento, do técnico que mantém a internet e das leis que garantem no mínimo o direito de ir e vir. A verdadeira liberdade não é viver sem amarras, mas ter a autonomia de escolher os próprios nós.

 

A independência não é o destino final, mas, o passaporte para escolhermos conscientemente de quais teias queremos fazer parte. Cada escolha cria laços afetivos que nos prendem pelo afeto e pela responsabilidade. A busca pela independência absoluta esbarra num fato estrutural: a identidade que construímos ao longo da vida já é, em si, um tecido de relações – linguagem, cultura, vínculos, trabalho.

 

Na tradição budista, o conceito de anatta (não-eu) vai ainda mais longe: não existe um "eu" autônomo a ser libertado, apenas processos interdependentes. A "teia imensa" não é uma prisão, mas, a própria condição de existência. Ironicamente, a independência como ilusão é, na verdade, a chave: a liberdade não está em se desvencilhar da teia, mas, em agir conscientemente dentro dela.

 

A liberdade não é um estado interior de independência; é um fenômeno que só existe entre pessoas. Ela é a ação no espaço público – aparecer diante de outros, falar, prometer, fundar algo novo, que se conecta à metáfora dos nós: a autonomia que "escolhe os próprios nós" não é solitária. A diferença entre um nó que escolhemos e um nó que nos prende não está na existência do nó, mas, na transparência e reversibilidade da conexão.

 

A liberdade, nesse sentido, não é a ausência de amarras nem a posse de recursos, mas, a capacidade de participar ativamente na construção, renegociação e, quando necessário, dissolução das conexões que estruturam a vida – sem que ninguém decida por outrem quais “nós” são "verdadeiros" e quais são "ilusões". A liberdade positiva, pois, é a capacidade de agir em conformidade com os próprios fins racionais. 

 

O perigo reside quando decidimos por outrem o que é seu "verdadeiro eu" e o que é sua "liberdade autêntica", transfigurando a liberdade positiva em permissão para coerção. O totalitarismo se alimenta dessa retórica – "libertar o trabalhador de suas ilusões burguesas". A liberdade negativa, neste momento, atua como freio de ajuste: ninguém pode impor uma visão única do bem em nome da sua autonomia.

 

Contemporaneamente, somos "empresários de nós mesmos", o que nos desvincula das ordens alheias – mas, em vez de galgarmos emancipação, convertemos essa desvinculação em novas coações autoimpostas.  O paradoxo é exato: a liberdade se inverte em autoexploração. Somos, simultaneamente, senhores e servos de nós mesmos. Rumamos nos mares do “bem” ao soprar da melhor oportunidade.

 

Isso aclara diretamente a frase: a "independência absoluta" não esbarra num obstáculo externo, mas, numa contradição interna – aquele que busca ser totalmente autossuficiente está, na prática, se explorando com a mesma intensidade que o sistema imporia. O esgotamento que resulta (burnout, depressão) manifesta uma liberdade que não é liberdade, mas, é coerção sem opressor visível.

 

A "independência absoluta" não é mero mito filosófico; é uma imposição política. A promessa de que podemos ser "livres" no sentido liberal – autossuficiente, desvinculado, dono de si – é, historicamente, o laço que ata o colonizado ao colonizador: seja como nós, separe-se da teia, e então serás livre. E a teia que pretende romper é, quase sempre, a teia comunitária, ancestral, territorial – a teia que te sustenta como pertencente ao lugar que escolheste pertencer.

 

O "passaporte", neste influxo, não é um documento que me dá liberdade para sair, mas, a prova de que pertences a algum lugar. Ela “não é um estado que se atinge (a independência absoluta), nem um dado que se tem (a dependência); é uma prática – e essa prática é, por definição, relacional”, afirma Paulo Freire. A independência não é o destino final, o passaporte só funciona quando há outro para quem você pode ir.

 

O pensamento decolonial reflete a virada de uma ontologia de substâncias (indivíduos, Estados-nação) para uma ontologia de relações – que, em termos políticos, é a recusa dessa imposição.  Não se trata de retornar romântico ao coletivo; mas, de reconhecer que a própria noção de "indivíduo" é um constructo histórico, e que outras ontologias – relacionalistas, rizomáticas, comunitárias – são igualmente (ou mais) válidas.

 

Ao dizer "cada escolha cria laços afetivos que nos prendem pelo afeto e pela responsabilidade" retrato, em termos levinasianos, a ideia de que a responsabilidade precede a liberdade: “não escolho primeiro e depois me responsabilizo; é na responsabilidade que a escolha se torna possível”. Eis a diferença entre a "teia" que se escolhe conscientemente e aquela que se aceita passivamente.

 

A "teia" de vínculos, portanto, nunca será um obstáculo a ser rompido, pois, ela é a própria estrutura que permite a existência humana; a autonomia é uma ilusão quando entendida como isolamento, sendo a dependência dialética a verdadeira condição da liberdade, que não reside na negação de determinações (história, cultura, tradição), mas, na apropriação consciente desses legados, atuando como parte de uma totalidade viva.

 

Tudo que vive viceja interdependência, sem a qual a igualdade não identifica os iguais, ainda que em suas desigualdades. A vida exige conexão. Sem o reconhecimento de que dependemos uns dos outros, a própria igualdade falha. Afinal, reconhecer o outro como "igual" exige olhar para ele e requer entender que somente através da comparação e da convivência melhor entendemos as desigualdades individuais.

 

Uso da metáfora de que a fraternidade "carece dos braços doutrem", quando percebo que ela deixa de ser um conceito abstrato, para assumir-se como uma ação prática: não existe solidariedade ou afeto sem o outro. É um eco da filosofia Ubuntu ("Eu sou porque nós somos") cuja mestria ensina que a vida de um depende da vida de outrem, num vívido e permanente coorbitar. Praticar o bem é reconhecer que a dor do outro também afeta a comunidade inteira.

 

Neste diapasão, a liberdade não é um ato puramente individual ou egoísta. Ela só reina plenamente quando mediada pela fraternidade. Sem o respeito fraterno, a liberdade de um vira a opressão do outro. É a fraternidade que garante que a liberdade de todos seja manifestada de forma justa, sustentando (fulcrando) a soberania da igualdade. A liberdade e a igualdade são impossíveis de se sintonizarem sem a engrenagem da fraternidade e da interdependência.

 

A independência não é sinônimo de liberdade. São conceitos distintos, e a confusão entre eles é o que impede a passagem para a interdependência. A evolução humana passa da dependência para a independência (vitória particular) e culmina na interdependência (vitória pública), onde o trabalho em grupo e a cooperação permitem resultados maiores do que a autossuficiência isolada, afirma Stephen R. Covey.

 

A interdependência é um estágio superior de maturidade e realização humana em relação à independência, sendo o objetivo ideal para relacionamentos e cooperação. Conceitos como a "dependência moral" de Joaquim Nabuco e a visão cristã do corpo como um todo destacam que a vida plena se realiza através da troca mútua, partilha e reconhecimento da nossa conexão com os outros e com o meio ambiente, superando a ideia de que o homem é um indivíduo solitário.

 

Afirmar que "entre a independência e a liberdade, a interdependência ganha a vida" chamo à recuperação do sentido original de liberdade que a liquidez de Baumann, ao isolá-la no indivíduo, acabou por perder. A vida ganha na interdependência porque a liberdade, em sua real magnificência, jamais é individual.  Ela é, desde Aristóteles, um bem que se realiza no "entre" – no nós que se integraliza, se robustece e se inova a cada (re)conexão humana.

 

Neste toar, a independência, embora necessária – sem ela, não se ergue a madureza no homem –, é ineficaz como resultado. A liberdade é a habilidade de as experienciarmos sem perder a nós mesmo. O ser humano se constrói a partir das relações. O ser-para-outro não é um acidente da liberdade – é a condição de sua realização. Esta é a majestade da interdependência: a vida ganha porque o "eu" encontra, no "nós", a condição de ser verdadeiramente livre.

 

Maranguape, Ceará, 07 de Setembro de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS

Assessoria Especial da Presidência

Cléber Tomás Vianna

Diretoria de Comunicação Social

Bruno Bezerra de Macedo


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