sexta-feira, 17 de julho de 2026

O FOLCLORE TRANSFORMA A NATUREZA EM SUJEITO DE DIREITOS

 

Folclore é tudo mais que o abrasileiramento do termo inglês folklore (de folk, "povo", e lore, "sabedoria"), que, literalmente, significa "saber popular". E sabedoria popular é o que guarda, preserva e difunde academias como a ACELP – Academia Cearense de Literatura Popular, como ditados populares, trava-línguas, adivinhas, a literatura de cordel, o repente, a trova e, claro, a literatura folclórica.

 

Caracterizada pelo segredo da autoria, por evoluir com a coletividade – a quem também vê evoluir –, por manter viva a identidade cultural dos povos – guardadas as regionalidades e as etnias – e por semear de forma vivaz e singular o pertencimento que une a todos debaixo da árvore de contar histórias, ao calor da fogueira e sob luar e estrelas, onde aprendemos o real valor de “ser gente” de valor.

 

Manifestar-se com o povo (ou a partir dele), estabelece o poder unificador e inspirador da cultura que o folclore inculta nas mentes por ele cativadas. É o que dá vida, significado e caráter a um povo, sendo-lhe o coração pulsante, um elemento que o encanta a tudo que o orbita, definindo-o e enaltecendo-o, portanto, inseparável de sua existência, é sua alma – costumes e tradições – que a cultura anuncia.

 

Neste augurioso diapasão, a cultura fornece as "regras do jogo" e a ambiência social é o "campo de jogo" onde essas regras são aplicadas, vividas e, por vezes, transformadas. A ambiência é o contexto onde a cultura se manifesta, e é reforçada ou transformada, a partir do que é experienciado. Ela é uma construção social que cria um sentimento de pertencimento e coesão que identifica o que toca.

 

A cultura e as artes – escritas e/ou plásticas – são formidáveis ferramentas de inclusão, cocriando novas perspectivas e oportunidades para pessoas marginalizadas, especialmente quando o acesso é facilitado por meio da educação. Da inexistência da conexão cultural emerge a marginalização de indivíduos e grupos, o enfraquecimento da harmonia social, além de os fazer extinguir-se.

 

A conexão cultural não se trata de homogeneização, mas sim, de criar pontes de entendimento e valorização da diversidade, o que, por sua vez, é a base para uma sociedade mais inclusiva, justa e harmoniosa. Esse entendimento mútuo e a identificação com a cultura local firmam laços sociais e geram um senso de unidade e solidariedade, essenciais para sinergia social que faz todos notáveis.

 

A cultura fornece valores, crenças, padrões e tradições que servem como referências comuns para os membros de uma sociedade, ancorados nos arquétipos difundidos pela literatura folclórica. Poder transformador, a cultura é um vetor crucial para o desenvolvimento brasileiro em múltiplas dimensões: econômica, social e na consolidação da identidade nacional interna e externamente.

 

A cultura no Brasil é um ativo estratégico para o desenvolvimento sustentável, a geração de riqueza e a construção de uma nação mais justa, criativa, consciente e orgulhosa de ser brasileira. Daí por que no dia 17 de julho o Brasil celebre o Dia de Proteção às Florestas, associada ao Dia do Protetor de Florestas (ou Dia do Curupira), figura icônica do folclore brasileiro conhecida por defender as matas.

 

Como transformador de paradigmas, desafiando a visão eurocêntrica e evolucionista que ainda pejora a cultura popular como atrasada, arcaica ou mero vestígio do passado, o folclore faz-se reconhecido como um processo dinâmico de inovação e recombinação, fundamental para uma educação que descoloniza o ensino, entendendo a cultura popular como uma construção viva e diuturna.

 

Demonstrando como as tradições se atualizam, o folclore leva a escola e a sociedade aprenderem com conhecimentos antes encobertos pela modernidade ocidental. A representação do Curupira vai além do mito; ela funciona como um alerta ancestral sobre a necessidade de viver em harmonia com a natureza, respeitando os ciclos da fauna e da flora, para que viva perenemente o ecossistema Terra.

 

A lenda do Cururpira é uma das mais antigas do Brasil, tendo os primeiros registros escritos datados de 1560, escritos pelo padre José de Anchieta. Ao longo do tempo, o Curupira tornou-se um símbolo oficial de preservação ambiental. O Estado de São Paulo, o consagrou como símbolo estadual do guardião das florestas por força de lei. A COP-30 o fez mascote oficial de conferências internacionais sobre o clima.

 

O cabelo ruivo ou flamejante do Curupira representa o poder vital, a energia indomável da floresta e o calor da vida, mas também, a destruição para aqueles que não respeitam o meio ambiente. Seus pés virados para trás repletem o engano e a ilusão que assombram os usurpadores e gananciosos. Ele personifica a resistência cultural indígena e a conexão ancestral do povo brasileiro com a floresta.

 

O folclore brasileiro está repleto de guardiões da natureza, cujas lendas funcionam como mecanismos culturais de regulação ambiental e sobrevivência humana. A simbologia do Boitatá o liga à preservação contra queimadas, atuando como um alerta vivo sobre os perigos do fogo descontrolado. Considerado um dos primeiros "ambientalistas" do imaginário popular ele pune que ateia fogo nas florestas.

 

Confundida ou associada ao Curupira, a Caipora (do tupi "habitante do mato"), manifestada por uma índia montada em porco-do-mato e/ou como um ser pequeno e ágil, é a protetora dos animais e das florestas. Sua função simbólica é regular a caça predatória, garantir que a fauna não seja exterminada e assegurar a sobrevivência alimentar das comunidades a longo prazo.

 

O Mapinguari é uma criatura gigantesca, coberta de pelos, com um olho só e uma boca no ventre, que habita a Amazônia, representando o medo reverencial necessário para manter áreas intocadas e preservar a biodiversidade crítica para o equilíbrio climático. Sua lenda atua como um forte dissuasor contra a exploração madeireira ilegal e a caça excessiva nas profundezas da floresta.

 

Essas narrativas folclóricas ao personificarem elementos naturais, transformam a conservação em um imperativo moral e espiritual. As entidade entidades cultuadas pelo folclore transformam a natureza de "recurso a ser explorado" para "sujeito de direitos", fomentando o estabelecimento de uma consciência ecológica afetiva que a ciência técnica, por si só, muitas vezes, jamais conseguiria implementar. 

 

Indubitavelmente, o folclore não é, meramente, uma coletânea de lendas, porém, é um portentoso sistema de saberes tradicionais que codifica práticas de conservação e ética ecológica. Ajuda a ressignificar a relação entre seres humanos e natureza, deslocando a visão de dominação para uma de pertencimento e reciprocidade, o folclore assume-se como cocriador do melhor futuro para o homem.

 

Instituições como a Academia Cearense de Literatura Popular (ACELP) desempenham um papel fundamental na preservação e difusão dessa "ciência do povo", o folclore. Guardiãs da sabedoria popular, coleciona-as e as dissemina por diversas formas de expressão. Reforçando que um povo sem memória cultural perde sua conexão com o futuro, não chegando, por vezes, a alcança-lo.

 

Maranguape, Ceará, 17 de Julho de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE

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