Folclore
é tudo mais que o abrasileiramento do termo inglês folklore (de folk,
"povo", e lore, "sabedoria"), que, literalmente, significa
"saber popular". E sabedoria popular é o que guarda, preserva e difunde
academias como a ACELP – Academia Cearense de Literatura Popular, como ditados
populares, trava-línguas, adivinhas, a literatura de cordel, o repente, a trova
e, claro, a literatura folclórica.
Caracterizada
pelo segredo da autoria, por evoluir com a coletividade – a quem também vê
evoluir –, por manter viva a identidade cultural dos povos – guardadas as
regionalidades e as etnias – e por semear de forma vivaz e singular o
pertencimento que une a todos debaixo da árvore de contar histórias, ao calor
da fogueira e sob luar e estrelas, onde aprendemos o real valor de “ser gente”
de valor.
Manifestar-se
com o povo (ou a partir dele), estabelece o poder unificador e inspirador da
cultura que o folclore inculta nas mentes por ele cativadas. É o que dá vida,
significado e caráter a um povo, sendo-lhe o coração pulsante, um elemento que
o encanta a tudo que o orbita, definindo-o e enaltecendo-o, portanto,
inseparável de sua existência, é sua alma – costumes e tradições – que a cultura
anuncia.
Neste
augurioso diapasão, a cultura fornece as "regras do jogo" e a
ambiência social é o "campo de jogo" onde essas regras são aplicadas,
vividas e, por vezes, transformadas. A ambiência é o contexto onde a
cultura se manifesta, e é reforçada ou transformada, a partir do que é
experienciado. Ela é uma construção social que cria um sentimento de pertencimento
e coesão que identifica o que toca.
A
cultura e as artes – escritas e/ou plásticas – são formidáveis ferramentas de
inclusão, cocriando novas perspectivas e oportunidades para pessoas
marginalizadas, especialmente quando o acesso é facilitado por meio da
educação. Da inexistência da conexão cultural emerge a marginalização de
indivíduos e grupos, o enfraquecimento da harmonia social, além de os fazer extinguir-se.
A
conexão cultural não se trata de homogeneização, mas sim, de criar pontes de
entendimento e valorização da diversidade, o que, por sua vez, é a base para
uma sociedade mais inclusiva, justa e harmoniosa. Esse entendimento mútuo
e a identificação com a cultura local firmam laços sociais e geram um senso de
unidade e solidariedade, essenciais para sinergia social que faz todos notáveis.
A
cultura fornece valores, crenças, padrões e tradições que servem como
referências comuns para os membros de uma sociedade, ancorados nos arquétipos difundidos
pela literatura folclórica. Poder transformador, a cultura é um vetor crucial
para o desenvolvimento brasileiro em múltiplas dimensões: econômica, social e na
consolidação da identidade nacional interna e externamente.
A
cultura no Brasil é um ativo estratégico para o desenvolvimento sustentável, a
geração de riqueza e a construção de uma nação mais justa, criativa, consciente
e orgulhosa de ser brasileira. Daí por que no dia 17 de julho o Brasil celebre
o Dia de Proteção às Florestas, associada ao Dia do
Protetor de Florestas (ou Dia do Curupira), figura icônica do folclore
brasileiro conhecida por defender as matas.
Como
transformador de paradigmas, desafiando a visão eurocêntrica e evolucionista
que ainda pejora a cultura popular como atrasada, arcaica ou mero vestígio do
passado, o folclore faz-se reconhecido como um processo dinâmico de inovação e
recombinação, fundamental para uma educação que descoloniza o ensino,
entendendo a cultura popular como uma construção viva e diuturna.
Demonstrando
como as tradições se atualizam, o folclore leva a escola e a sociedade aprenderem
com conhecimentos antes encobertos pela modernidade ocidental. A representação
do Curupira vai além do mito; ela funciona como um alerta ancestral sobre a
necessidade de viver em harmonia com a natureza, respeitando os ciclos da fauna
e da flora, para que viva perenemente o ecossistema Terra.
A
lenda do Cururpira é uma das mais antigas do Brasil, tendo os primeiros
registros escritos datados de 1560, escritos pelo padre José de Anchieta. Ao
longo do tempo, o Curupira tornou-se um símbolo oficial de preservação
ambiental. O Estado de São Paulo, o consagrou como símbolo estadual do guardião
das florestas por força de lei. A COP-30 o fez mascote oficial de conferências
internacionais sobre o clima.
O
cabelo ruivo ou flamejante do Curupira representa o poder vital, a energia
indomável da floresta e o calor da vida, mas também, a destruição para aqueles
que não respeitam o meio ambiente. Seus pés virados para trás repletem o engano
e a ilusão que assombram os usurpadores e gananciosos. Ele personifica a
resistência cultural indígena e a conexão ancestral do povo brasileiro com a
floresta.
O
folclore brasileiro está repleto de guardiões da natureza, cujas lendas
funcionam como mecanismos culturais de regulação ambiental e sobrevivência
humana. A simbologia do Boitatá o liga à preservação contra queimadas, atuando
como um alerta vivo sobre os perigos do fogo descontrolado. Considerado um dos
primeiros "ambientalistas" do imaginário popular ele pune que ateia
fogo nas florestas.
Confundida
ou associada ao Curupira, a Caipora (do tupi "habitante do
mato"), manifestada por uma índia montada em porco-do-mato e/ou como um
ser pequeno e ágil, é a protetora dos animais e das florestas. Sua função
simbólica é regular a caça predatória, garantir que a fauna não seja
exterminada e assegurar a sobrevivência alimentar das comunidades a longo prazo.
O
Mapinguari é uma criatura gigantesca, coberta de pelos, com um olho só e uma
boca no ventre, que habita a Amazônia, representando o medo reverencial
necessário para manter áreas intocadas e preservar a biodiversidade crítica
para o equilíbrio climático. Sua lenda atua como um forte dissuasor contra a
exploração madeireira ilegal e a caça excessiva nas profundezas da floresta.
Essas
narrativas folclóricas ao personificarem elementos naturais, transformam a
conservação em um imperativo moral e espiritual. As entidade entidades cultuadas
pelo folclore transformam a natureza de "recurso a ser explorado"
para "sujeito de direitos", fomentando o estabelecimento de uma consciência
ecológica afetiva que a ciência técnica, por si só, muitas vezes, jamais conseguiria
implementar.
Indubitavelmente,
o folclore não é, meramente, uma coletânea de lendas, porém, é um portentoso sistema
de saberes tradicionais que codifica práticas de conservação e ética ecológica.
Ajuda a ressignificar a relação entre seres humanos e natureza, deslocando a
visão de dominação para uma de pertencimento e reciprocidade, o folclore
assume-se como cocriador do melhor futuro para o homem.
Instituições
como a Academia Cearense de Literatura Popular (ACELP) desempenham um papel
fundamental na preservação e difusão dessa "ciência do povo", o
folclore. Guardiãs da sabedoria popular, coleciona-as e as dissemina por
diversas formas de expressão. Reforçando que um povo sem memória cultural perde
sua conexão com o futuro, não chegando, por vezes, a alcança-lo.
Maranguape,
Ceará, 17 de Julho de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– ACI nº 1789
Jornalista
– CRP/MTE nº 0005168/CE
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