Equilibrar
as polaridades é um caminho antigo pelo qual transitam poucos de nós. Alguns,
dele desistem, outros, dele desviam-se. Porém, àqueles que o seguem há acréscimos
de força, beleza e sabedoria a cada passo dado. E são exemplos para aqueles que
almejam segui-los na mais auguriosa jornada em busca de si próprios.
Integrar opostos – razão e emoção, força e vulnerabilidade e/ou luz e sombra, etc. – exige esforço contínuo e moderação; e o cultivo da inteligência emocional – maior lucidez e sabedoria diante das adversidades da vida –, pois, fulcram o princípio central para o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal.
Psicanalistas
como Carl Jung estudaram como a mente opera através de opostos. O processo de
individuação consiste em integrar os aspectos conscientes e inconscientes,
unificando as polaridades da psique. Já o Caminho do Meio dos Budistas é a rota segura
para uma vida de moderação e lucidez, desviando-se de excessos destrutivos.
Proposto
por Sidarta Gautama (Buda), o Caminho do Meio evita os extremos da busca
desenfreada pelo prazer (hedonismo) e da auto mortificação (ascetismo extremo).
Funciona como a afinação de uma corda de instrumento: não pode estar frouxa
demais (falta de esforço), nem estourando de tão apertada (tensão excessiva).
Sidarta,
percebeu que a mente funciona como um instrumento musical; se as cordas
estiverem muito esticadas (ascetismo rígido), arrebentam-se com facilidade,
porém, estando muito frouxas (hedonismo/indulgência), não produzem som algum. Assim,
o Caminho do Meio manifesta a a afinação perfeita para o melhor som.
Chamado
de Nobre Caminho Óctuplo, o Caminho do Meio abrange o equilíbrio em oito
aspectos: compreensão, pensamento, linguagem, ação, modo de vida, esforço,
atenção plena e concentração, indo além da moralidade para manifestar a
"vacuidade", superando visões dualistas e extremas de existência,
não-existência e nihilismo.
O
Caminho do Meio e a Inteligência Emocional se irmanam no propósito de
equilibrar ao evitar a reatividade e melhor a empatia e a sociabilidade,
virtudes cruciais para evitar conflitos no convívio familiar ou corporativos. Isso
se traduz no gerenciamento das emoções, com base na razão e nos valores, e não
impulsivamente.
O
Caminho do Meio envolve a atenção plena para observar as próprias reações sem
julgamento e o cultivo da que não se abala com o ganho ou a perda. A
Inteligência Emocional usa a auto-observação para identificar gatilhos e
entender a raiz dos sentimentos e desenvolve a resiliência para lidar com
frustrações sem desmoronar.
O
conceito de equilíbrio não é exclusivo do Oriente. Na filosofia ocidental, a
Ética a Nicômaco de Aristóteles apresenta a "Justa Medida" (Mesotes),
definindo a virtude exatamente como o meio-termo entre dois vícios opostos: um
por excesso e outro por falta: a coragem como o ponto ideal entre a covardia e
a temeridade.
Buscar
a justa medida em todas as esferas da vida é procurar a Eudaimonia, traduzida
como a verdadeira felicidade ou florescimento humano. O meio-termo ideal varia
dependendo do agente, das circunstâncias e do momento – a quantidade de comida ideal
para um capataz é diferente da quantidade ótima para um sedentário.
Para
Aristóteles, a virtude (areté) não é uma quantidade estática de algo, mas sim,
uma disposição humana que atinge a excelência ao encontrar o equilíbrio
perfeito entre dois extremos nocivos: o vício por excesso e o vício por falta.
Não sendo inata, ela é uma habilidade consolidada a cada boa ação praticada até
que esta torne o caráter.
A
justa medida (ou justa proporção) e o Teorema de Pitágoras têm ligação intima
com a história da matemática, da filosofia e da construção civil antiga. Na
antiguidade, pedreiros e agrimensores precisavam criar cantos perfeitamente
retos para que as construções não caíssem e a "justa medida" é garante
essa perfeição espacial.
O
Teorema de Pitágoras (a2 + b2 = c2)
sustenta a geometria, porém, sua aplicação e o contexto da escola pitagórica
ancoram a busca de uma vida. Ele prova que a hipotenusa é sempre menor que a
soma dos catetos. A existência da hipotenusa, segundo os pitagóricos, envolve a
harmonia dos catetos. Na vida, isso representa o equilíbrio:
- Cateto
A:
O mundo interno (saúde mental, espiritualidade e autoconhecimento).
- Cateto
B:
O mundo externo (carreira, relacionamentos e contribuição social).
- Hipotenusa: A
vida plena, que só é alcançada e sustentada se os dois "lados"
anteriores estiverem bem fundamentados e em ângulo reto (integridade).
A
conexão entre o Teorema de Pitágoras e o "caminho do meio" ocorre do
forma surpreendente: a linha diagonal que corta uma quadra ou praça (a
hipotenusa) é incontestavelmente o caminho mais curto entre dois pontos. É a
matemática provando que o equilíbrio entre dois extremos economiza tempo e
esforço, e otimiza a vida.
Uma
vida plena exige discernir o que é essencial (o cálculo exato) do que é ruído.
A felicidade não se acha nos caminhos sinuosos e complicados, mas, na
"linha reta": a simplicidade, a verdade e a ação direta em direção à
plenitude que resulta da interdependência entre grupos, cujos valores reais desenvolvem
o intelecto-moral do ser humano.
"A
justa medida" e o "caminho do meio" há milênios equilibram o viver
humano no Ocidente e no Oriente. Na visão de Aristóteles, a virtude é o ponto
de equilíbrio entre o excesso e a falta. No Budismo, manifesta uma vida consciente,
que evita extremos de indulgência e de privação. Essa justa medida reque
discernimento, razão e hábito contínuo.
Essas
filosofias apontam para uma “única” verdade: o equilíbrio é a chave para uma
vida plena e virtuosa. Mesmo tradições diferentes, convergem à ideia de que a
moderação não é sinônimo de mediocridade, mas sim, e portentosamente, de uma
postura ativa e consciente diante das escolhas diárias. É animus vitae.
O
animus vitae é a força motriz essencial para alcançar a vida plena, que jamais
será um estado de ausência de problemas, mas, a capacidade de resiliência e
propósito diante das adversidades. Ele é a energia que nos
encoraja a desbravar caminhos e a agir de forma alinhada aos mais aquilatados
valores.
Para
a psicologia analítica, o arquétipo do animus (o aspecto masculino na
psique feminina) e a busca pela individuação ensinam que o autoconhecimento é
fundamental. Integrar essa força ativa e racional promove o florescer de uma
vida mais autêntica e completa. Uma plenitude que exige hábito, consciência e
humanização.
Dessa
sinergia entre as tradições orientais e ocidentais emerge um sincretismo que imbuí
desde a espiritualidade e a filosofia até a medicina e a vida corporativa, a unir
a praticidade do racionalismo ocidental com a busca por equilíbrio, energia e
autoconhecimento da sabedoria oriental, equilibrando polaridades com um único
propósito: a felicidade.
Maranguape,
Ceará, 18 de Julho de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– ACI nº 1789
Jornalista
– CRP/MTE nº 0005168/CE

Parabéns, Bruno, pela matéria publicada. Muito elucidativa e esclarecedora, a Academia Brasileira de Letras - ABL, bem merece, pelo seu dia e às Arcádia, todas, regosijam-se, pelo reconhecimento e difusão
ResponderExcluirOlha, Bruno, a Associação Cearense de Jornalistas - ACEJ lhe aguarda para integrar o seu quadro social, como sócio efetivo. Cadê você, garoto?
ResponderExcluirJosé Odmar de Lima
Presidente da ACEJ.