quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

CRUZ CABUGÁ E O BERÇO DA DEMOCRACIA BRASILEIRA

 

Pernambuco do termo tupi paranãbuku – "rio comprido" – é clara alusão ao Rio Capibaribe (ou "rio das capivaras" em tupi), assinalado "rio Pernambuco" nos mapas primitivos, situado ao norte do Cabo de Santo Agostinho. Pernambuco, a província mais rica do Brasil no século XIX, financiava luxos da Corte Real, como iluminação pública no Rio, sem receber retorno algum em infraestrutura ou políticas públicas.


A população, desde a elite agrária até as camadas populares, via o aumento de tributos como uma forma de sustentar a corte de D. João VI, gerando um forte sentimento antilusitano, acentuado pelo crescente favorecimento aos comerciantes portugueses. Cargos de prestígio eram ocupados por portugueses, enquanto os brasileiros – especialmente a elite local – sentiam-se marginalizados.


A economia da região, baseada no açúcar e no algodão, estava em viril decadência devido à concorrência internacional – especialmente com a Jamaica e as Antilhas – e à queda de preços após o fim das guerras napoleônicas. A seca de 1816 agravou a ainda mais a miséria, destruindo plantações e rebanhos, enquanto os impostos só permaneciam sendo cobrados pela Coroa portuguesa, como aumentavam significativamente.


Viviam os pernambucanos naquele jovem século XIX um cenário de extrema tensão social, crise econômica e efervescência política que logo culminaria na Revolução Pernambucana. Naquele 06 de Março de 1817, Pernambuco respirou por um curto período de 75 dias os ares da liberdade providos pela República Pernambucana, onde reina a liberdade de imprensa e a tolerância religiosa, dentre outros vetores do progresso.


Pernambuco consolidava-se dia a dia como polo intelectual. Ideias de liberdade e república veiculadas no Seminário de Olinda e em lojas maçônicas, influenciadas pelas revoluções Francesa e Americana, construíam a jovem República Pernambucana desde o robustecimento das fundações, até o bem-estar que trazia o sentimento de igualdade e justiça anunciado pelos clérigos para a felicidade de todos.


A esperança rutilava ordem e progresso no horizonte – liberdade de imprensa e de culto; e reforma tributária –, e o povo, especialmente os pobres e trabalhadores, como também comerciantes, militares e intelectuais, aderiu parcialmente ao movimento revolucionário, motivado não somente pela tragédia econômica in voga (fome, seca, etc), mas, principalmente, pelo sentimento de abandono que do centralismo português emergia.


Um projeto político ambicioso, que embora brutalmente reprimido pela da Coroa Portuguesa, executando seus cocriadores em praças públicas, confiscando seus bens e impondo ao povo um regime de medo, jamais ruiu os sólidos alicerces da liberdade que dá cioforia à inventividade, da igualdade que dá ciese aos propósitos comuns e fraternidade que vida à inclusão e coesão social que sustentam a sociedade justa, feliz e próspera.


Nestes dias viveu Antônio Gonçalves da Cruz, mais conhecido como Cruz Cabugá. A alcunha Cabugá é uma herança familiar vinda de seu pai, Manuel Gonçalves da Cruz – próspero ourives –, e surgiu por causa da Rua do Cabugá (atualmente uma travessa próxima à Rua do Imperador, no Recife), onde seu pai possuía imóveis. Envolve o uso e costume do povo: incorporar nomes de locais ao próprio nome para melhor identifica-se.


O termo “Cabugá”, portanto, funciona estritamente como um identificador geográfico e familiar que distingue Antônio Gonçalves da Cruz de outros "Gonçalves da Cruz" da elite recifense, embora, pareça ter sonoridade indígena e, curiosamente, seja também, uma onomatopeia ou referência à maneira como seu pai, o Ourives Manuel Gonçalves da Cruz pronunciava certas palavras, devido a uma certa dificuldade na fala.


Considerado um "jacobino" em sede da Revolução Pernambucana de 1817 devido ao seu caráter radical e republicano, mas principalmente, por conta de sua audaciosa tentativa de buscar apoio internacional para consolidar a República no Brasil, incluindo o plano de trazer Napoleão Bonaparte, moção que o liga diretamente à França e o torna um fervoroso e loquaz difusor dos ideais iluministas naqueles dias de (R)evolução.


Ao voltar de uma de suas idas à França, em 1797, por exemplo, Cabugá trouxe retratos dos heróis da Revolução de 1789 e os pendurou ostensivamente nas paredes do sobrado onde vivia e onde funcionava a loja maçônica “Pernambuco do Oriente”. Eram frequentes as festas realizadas em sua residência, para aliciar adeptos para a Maçonaria, o que oportunizou a fundação das lojas​: “Guatimosin”, “Restauração” e “Patriotismo”.​


Em 1816, havia em Pernambuco um grande número de Lojas, que cumpriram a tradição da velha terra: com o crescimento das lojas, fez-se necessário instituir uma loja que centralizasse e unificasse todas elas, daí então cunhou-se a primeira Loja Principal, ou Grande Loja em solo brasileiro, a Grande Loja Provincial, filiada ao Governo Supremo, tendo como Grão Mestre Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva.


Por oportuno e justo, afirmo que dos três irmãos Andrada, José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos, este último foi o que menos recebeu atenção da historiografia moderna, mesmo tendo sido ele um dos principais organizadores da Revolução Pernambucana em 1817. ​Mas, essa é outra história que contaremos um dia destes, a Epopeia aqui pertence a outro protagonista, que fez história escrevendo-a galhardamente.​


Com Cabugá à frente do Erário da Jovem República Pernambucana, operou-se, de fato, uma revolução na economia local: ​estabeleceu-se plena liberdade de comércio com todas as nações estrangeiras. ​Isentou-se de taxas os produtos de primeira necessidade como grãos, armas e equipamentos científicos. ​Democratizou-se a concessão de alvarás, revogou-se impostos sobre os pequenos, oportunizando a todos equanimemente.


Dentre outras medidas de grande impacto, tomadas em apenas duas semanas de gestão profícua,​a República Pernambucana, em mãos de Cabugá, passou a comprar alimentos e revendê-los à população a preço de custo, acabando com o monopólio dos mascates lusos que compravam em grosso, estocavam, esperavam a fome crescer para depois revendê-las aos retalheiros, hoje por cinco, amanhã por dez, depois por quinze etc.​


Rendido por Gervásio Pires, que assumiu prontamente a gestão financeira da Jovem República, Cabugá embarcou, finalmente, em 25 de Março de 1817, com destino ao Estados Unidos. Do seu labor em solo americano dependia o futuro do regime democrático que se implantará no Brasil, a partir de Pernambuco: Conseguir o reconhecimento americano e a defesa dos direitos da República Pernambucana junto a Inglaterra.


Cabugá, na verdade, não alimentava grandes esperanças de sucesso, pois, já fora alertado de que o espírito daquela nação era mercantil - ideais revolucionários eram uma coisa e negócios, outra. Se os brasileiros se libertassem sozinhos, ótimo; seriam saudados como irmãos. Até por que, a jovem República Pernambucana somente tinha a oferecer em troca a isenção de impostos para as mercadorias norte-americanas, por vinte anos.​


Até lá, os estadunidenses, que disputavam com ingleses e franceses o valiosíssimo mercado do Brasil para produtos industrializados, não correriam o risco de prejudicar suas relações com Portugal que ainda mandava por aqui - por causa de alguns rebeldes iniciantes na política.​ Ainda assim, uma aparência de reconhecimento foi percebida com a nomeação do seu amigo Charles Ray para a função de cônsul-geral no Recife.


Também fez um bom trabalho junto à imprensa. Apenas algumas vozes anônimas – ou seja, o Abade Serra – tentaram negar o valor do movimento pernambucano pelos jornais americanos – e até desestimulá-lo e quaisquer apoiadores – ao dizer que se tratava de rebeldia isolada, ao contrário da América Espanhola, que se levantara de norte a sul.


Porém, outras vozes, mais loquazes – ou seja, o Cabugá – responderam que Boston também começara a revolução norte-americana sozinha, com uma população ainda menor que a do Recife, cativando a atenção de Thomas Jefferson, um dos “pais fundadores” dos Estados Unidos, que em carta ao Marquês de Lafayette disse-lhe: “Lisboa perdeu sua melhor província, não será de se admire se todo o Brasil se levantar.”


Cabugá fez História e seu legado fulcra a História no livro "1808" Cap.23 (A República Pernambucana), de Laurentino Gomes: "Em maio de 1817, um misterioso personagem percorria as ruas batidas pelo vento frio da primavera na cidade de Filadélfia, a antiga capital dos Estados Unidos. O comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, era o agente secreto de uma conspiração em andamento em Pernambuco."​


Com ajuda dos seus irmãos maçons e dos sessenta contos de réis que levou consigo, Cabugá comprou dez mil fuzis e os despachou para Pernambuco. E ainda convenceu alguns militares franceses, exilados na América do Norte após a derrota de Napoleão em Waterloo, em 1814, a vir treinar nossos soldados, que lutavam contra os portugueses. Em troca, eles ganhariam uma flotilha, para com ela tentar libertar seu imperador.


Lamentavelmente, ao chegar em Pernambuco com os reforços, Cabugá descobriu que o movimento havia durado apenas 75 dias e líderes haviam sido presos ou executados. Condenado à morte pela coroa portuguesa, ele conseguiu escapar e se exilar nos Estados Unidos. ​Após a Independência do Brasil, em 1822, ele teve sua pena de morte revogada e foi dignamente nomeado cônsul-geral do Brasil nos Estados Unidos.


Mais tarde, Cabugá atuou como cônsul geral no Peru e na Bolívia, onde faleceu em 1833. Sua figura é homenageada na Avenida Cruz Cabugá, principal via do Recife, que liga a cidade a Olinda. Cruz Cabugá é lembrado em nossos dias como um dos heróis da pátria pernambucana, e sua trajetória exemplifica como a Maçonaria atuou como o "braço intelectual" dos movimentos emancipacionistas no Brasil do século XIX.


Antônio Gonçalves da Cruz “Cabugá”, mulato rico e revolucionário nascido no Recife em 1775, é uma das figuras centrais na formação da identidade brasileira, especialmente no que diz respeito ao sentimento de pertença e soberania, antes mesmo da Independência oficial do Brasil. Sua trajetória simboliza a resistência, a ousadia e o espírito republicano que permeiam a construção da identidade brasileira.


A República Pernambucana é pioneira por instituir: um governo próprio, armadas próprias (exército e marinha), bandeira própria e uma Lei Orgânica (constituição), na qual ideais como a separação dos poderes, liberdade de imprensa – e de credo – e a democracia representativa manifestavam o brasilidade de um povo abnegadamente notável, razão pela qual a República Pernambucana é chamada de berço da democracia brasileira.


Pernambuco de hoje tem em si arraigado esse legado simbólico. A data de 6 de março é comemorada como Data Magna, feriado estadual, e a bandeira oficial do estado é uma reprodução direta da bandeira da república revolucionária. Em seu imaginário, o pernambucano se construiu em torno de figuras como Cruz Cabugá e suas histórias são celebradas no Carnaval, no hino estadual e em símbolos públicos, para que neles vivam sempre.


Maranguape, Ceará, 26 de Fevereiro de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9

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