Recompensa-me
a vida, mais uma vez, com a mestria galante de Júlio César Pereira de Paula que
neste domingo (13/09) diz que “a grande lição é esta: devemos sim buscar o
conhecimento, estudar, evoluir, crescer espiritualmente. Mas, devemos fazê-lo
pelo caminho em si, não pelos aplausos que receberemos ao final”. Envolve
aceitar e cultuar o gracioso antagonismo: conhecer quem somos cônscios de que
nada somos que não um empréstimos de Deus.
Um
mestre sábio, em sua docência, lembra a todo instante que o orgulho e a vaidade
humana não têm fundamento real, pois somos limitados. Nós apenas administramos
a vida que nos foi concedida por um período determinado. Tudo o que temos e
somos veio do divino e, claramente, voltará para Ele, conforme adverte Salomão:
“... o pó voltará à Terra como é; e o espírito a Deus que o deu” (Eclesiastes
12:7). Qualquer coisa fora deste eixo é pura extrapolação dos vaidosos em sua
puerilidade.
Reconhecer
nossa pequenez diante da imensidão do universo e da eternidade transcende à mera
necessidade de desvelar por desvelar o desconhecido, de saciar a curiosidade, assumindo-se
como dever de compreender nossa essência, defeitos, virtudes e propósito; de identificar
o que nos move e qual é o nosso papel no mundo para assim sabendo arquitetarmos
em nossos dias as melhores ambiências onde a sabedoria adorna os dias com suas
primícias.
O
topo da sabedoria humana é entender que somos totalmente dependentes do Criador,
que confirma isso ao dizer: atrai-os com cordas humanas, com laços de
amor; e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas
queixadas, e me inclinei para lhes dar de comer” (Oséias 11:4). Nisto, somos (inter)dependentes
uns dos outros nesta cadeia de união (laços de amor) que nos abraça e move.
Envolve abandonar a arrogância, valorizar cada dia como um presente e viver com
mais gratidão e desapego.
O
autoconhecimento verdadeiro exige reconhecer que não somos donos de nós mesmos,
mas sim, uma criação temporária que pertence a Deus. Aceitando que nossa
existência, talentos, corpo e tempo na Terra não são propriedades definitivas
usamos melhor a régua de 24 polegadas com a qual damos a cada hora seu momento
de gloriosa proficuidade no exercício daquilo que lhe compete.
Sob
a ótica da filosofia desvela-se paralelos surpreendentes e contrastes
profundos, especialmente quando olhamos para o Estoicismo e o Existencialismo. Os
estoicos (como Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio) concordariam quase
integralmente com a frase, substituindo apenas o termo "Deus" pela
"Natureza" ou pelo "Cosmos" (a Razão Universal). Eles se
veem como uma pequena engrenagem em um mecanismo gigante, gerando um profundo
senso de dever e serenidade (ataraxia).
O
existencialismo (de Sartre, Camus e Beauvoir) enxerga de forma inversa, focando
na crise e na responsabilidade que essa afirmação gera, dividindo-se entre a
vertente ateia e a cristã. Para Sartre, "a existência precede a
essência", portanto, não somos "nada" inicialmente, porém, temos
plena liberdade para construir quem somos através de nossas ações. A falta de
um dono divino gera a angústia da responsabilidade total, a carência da “mão”
que nos atravesse a rua em segurança.
Kierkegaard,
nisto, fitaria o paradoxo. Conhecer a si mesmo diante de Deus gera um
"temor e tremor". Reconhecer-se como um nada diante do Absoluto é o
que permite ao indivíduo dar o "salto da fé" para encontrar seu
verdadeiro significado, não na sociedade, mas, na sua relação solitária com o
divino. Aceitar que somos deuses e filhos do Altíssimo (Salmos 82:6) orgulha-nos
ao ponto de praticarmos tudo menos aquilo que nos deserde desta realeza,
enfrentando o orgulho egóico que nos cega.
Emerge,
pois, a ética da responsabilidade: ver a vida como um "empréstimo"
transforma o ser humano em um administrador (ou "mordomo") dos bens
divinos e lhe imputa a obrigação de agir de forma correta, racional e produtiva
para prestar contas ao "Dono" original. Essa postura se assemelha à
ética protestante analisada por Weber, onde o desapego vaidoso e o trabalho
árduo são vistos como formas de honrar a Deus, impulsionando transformações
econômicas e sociais históricas.
Estar
"cônscio de que nada somos" cria uma consciência coletiva de
humildade. Isso refreia o egoísmo e o individualismo, que Durkheim via como
perigos para a ordem social. Ao reconhecerem a vida como um "empréstimo de
Deus", os indivíduos compartilham um valor comum sagrado. Isso gera
solidariedade e reduz a anomia (a falta de regras e rumo na sociedade). Ninguém
“é coroado como vencedor se não competir de acordo com as regras” (2 Timóteo
2:5).
Dura
lex sed lex: “uma andorinha só não faz verão, afirma o Povo. Direta ou
indiretamente permanecemos (inter)ligados a pessoas – quer as conheçamos ou não
– para a realização de rutilantes feitos, para nos alimentar e termos forças
para, ao menos, arquitetarmos tais realizações, para compartir experiencias,
alegrias e conhecimentos, pois, disto emerge a sabedoria que faz todos nós fortes,
belos e amoráveis; e para que o amor viceje e reine, pois, amar carece a presença
de outrem.
Não
há força mais letalmente formidável a combater os preconceitos, os erros e os
vícios do que o amor. Nascido no solo mais fértil na mais recôndita parte do
coração humano, o amor-próprio, como toda boa plântula ergue-se rumo à luz, que
o faz conhecer a essência do corpo que o acolhe, seus sentimentos e pensamentos,
valores e primícias, conhecimentos e habilidades, desejos e competências, para com
este conhecimento, burilado e polido, melhor amar o mundo.
Esse
amor é uma ferramenta ativa e poderosa contra males sociais e individuais,
superando a rigidez do preconceito e a repetição de erros ou vícios, pois, é
estabelecedor da ética da alteridade (Levinas), onde, juntamente, com responsabilidade
pelo "Outro" quebram o egoísmo. O rosto do outro convoca a agir-se
com justiça, desarmando preconceitos automáticos. Ele nos impulsiona do mundo
das aparências (erros e preconceitos) em direção à verdade, à beleza e ao bem
fazer, afirma Platão.
A
máxima "Ama e faz o que quiseres" de Agostinho de Hipona preceitua
que as ações guiadas pelo amor autêntico são intrinsecamente boas. Elas
eliminam o vício e o erro na raiz. Quaisquer leis externas tornam-se
desnecessária, pois o bem é exercido de forma espontânea. Manifesta-se nisto o caritas
(amor benevolente e desinteressado), não eros (desejo de posse), pois, quem
ama como Deus ama perde o desejo de ferir, enganar ou pecar. Onde o amor reina
a vaidade não respira.
Amar
assim é o ápice da maturidade espiritual. É a compreensão de que nossa busca
por expansão, estudo e evolução não serve para nos inflar, mas, para nos polir
como instrumentos daquilo que recebemos por empréstimo divino. Somos tudo em
potencial, mas nada por nós mesmos. Estudar e evoluir serve para transformar o
chumbo da nossa ignorância no ouro do serviço ao próximo. Quem busca o aplauso
da plateia torna-se refém do humor dos outros; quem busca o caminho encontra a
liberdade.
Maranguape,
Ceará, 13 de Setembro de 2026
Bruno
Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado
à ACI - Associação Cearense de Imprensa
Associado
à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas
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