domingo, 13 de setembro de 2026

A VIDA RECOMPENSA QUEM AMA SEU CAMINHAR

 

Recompensa-me a vida, mais uma vez, com a mestria galante de Júlio César Pereira de Paula que neste domingo (13/09) diz que “a grande lição é esta: devemos sim buscar o conhecimento, estudar, evoluir, crescer espiritualmente. Mas, devemos fazê-lo pelo caminho em si, não pelos aplausos que receberemos ao final”. Envolve aceitar e cultuar o gracioso antagonismo: conhecer quem somos cônscios de que nada somos que não um empréstimos de Deus.

 

Um mestre sábio, em sua docência, lembra a todo instante que o orgulho e a vaidade humana não têm fundamento real, pois somos limitados. Nós apenas administramos a vida que nos foi concedida por um período determinado. Tudo o que temos e somos veio do divino e, claramente, voltará para Ele, conforme adverte Salomão: “... o pó voltará à Terra como é; e o espírito a Deus que o deu” (Eclesiastes 12:7). Qualquer coisa fora deste eixo é pura extrapolação dos vaidosos em sua puerilidade.

 

Reconhecer nossa pequenez diante da imensidão do universo e da eternidade transcende à mera necessidade de desvelar por desvelar o desconhecido, de saciar a curiosidade, assumindo-se como dever de compreender nossa essência, defeitos, virtudes e propósito; de identificar o que nos move e qual é o nosso papel no mundo para assim sabendo arquitetarmos em nossos dias as melhores ambiências onde a sabedoria adorna os dias com suas primícias.

 

O topo da sabedoria humana é entender que somos totalmente dependentes do Criador, que confirma isso ao dizer: atrai-os com cordas humanas, com laços de amor; e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e me inclinei para lhes dar de comer” (Oséias 11:4). Nisto, somos (inter)dependentes uns dos outros nesta cadeia de união (laços de amor) que nos abraça e move. Envolve abandonar a arrogância, valorizar cada dia como um presente e viver com mais gratidão e desapego.

 

O autoconhecimento verdadeiro exige reconhecer que não somos donos de nós mesmos, mas sim, uma criação temporária que pertence a Deus. Aceitando que nossa existência, talentos, corpo e tempo na Terra não são propriedades definitivas usamos melhor a régua de 24 polegadas com a qual damos a cada hora seu momento de gloriosa proficuidade no exercício daquilo que lhe compete.

 

Sob a ótica da filosofia desvela-se paralelos surpreendentes e contrastes profundos, especialmente quando olhamos para o Estoicismo e o Existencialismo. Os estoicos (como Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio) concordariam quase integralmente com a frase, substituindo apenas o termo "Deus" pela "Natureza" ou pelo "Cosmos" (a Razão Universal). Eles se veem como uma pequena engrenagem em um mecanismo gigante, gerando um profundo senso de dever e serenidade (ataraxia).

 

O existencialismo (de Sartre, Camus e Beauvoir) enxerga de forma inversa, focando na crise e na responsabilidade que essa afirmação gera, dividindo-se entre a vertente ateia e a cristã. Para Sartre, "a existência precede a essência", portanto, não somos "nada" inicialmente, porém, temos plena liberdade para construir quem somos através de nossas ações. A falta de um dono divino gera a angústia da responsabilidade total, a carência da “mão” que nos atravesse a rua em segurança.

 

Kierkegaard, nisto, fitaria o paradoxo. Conhecer a si mesmo diante de Deus gera um "temor e tremor". Reconhecer-se como um nada diante do Absoluto é o que permite ao indivíduo dar o "salto da fé" para encontrar seu verdadeiro significado, não na sociedade, mas, na sua relação solitária com o divino. Aceitar que somos deuses e filhos do Altíssimo (Salmos 82:6) orgulha-nos ao ponto de praticarmos tudo menos aquilo que nos deserde desta realeza, enfrentando o orgulho egóico que nos cega.

 

Emerge, pois, a ética da responsabilidade: ver a vida como um "empréstimo" transforma o ser humano em um administrador (ou "mordomo") dos bens divinos e lhe imputa a obrigação de agir de forma correta, racional e produtiva para prestar contas ao "Dono" original. Essa postura se assemelha à ética protestante analisada por Weber, onde o desapego vaidoso e o trabalho árduo são vistos como formas de honrar a Deus, impulsionando transformações econômicas e sociais históricas.

 

Estar "cônscio de que nada somos" cria uma consciência coletiva de humildade. Isso refreia o egoísmo e o individualismo, que Durkheim via como perigos para a ordem social. Ao reconhecerem a vida como um "empréstimo de Deus", os indivíduos compartilham um valor comum sagrado. Isso gera solidariedade e reduz a anomia (a falta de regras e rumo na sociedade). Ninguém “é coroado como vencedor se não competir de acordo com as regras” (2 Timóteo 2:5).

 

Dura lex sed lex: “uma andorinha só não faz verão, afirma o Povo. Direta ou indiretamente permanecemos (inter)ligados a pessoas – quer as conheçamos ou não – para a realização de rutilantes feitos, para nos alimentar e termos forças para, ao menos, arquitetarmos tais realizações, para compartir experiencias, alegrias e conhecimentos, pois, disto emerge a sabedoria que faz todos nós fortes, belos e amoráveis; e para que o amor viceje e reine, pois, amar carece a presença de outrem.

 

Não há força mais letalmente formidável a combater os preconceitos, os erros e os vícios do que o amor. Nascido no solo mais fértil na mais recôndita parte do coração humano, o amor-próprio, como toda boa plântula ergue-se rumo à luz, que o faz conhecer a essência do corpo que o acolhe, seus sentimentos e pensamentos, valores e primícias, conhecimentos e habilidades, desejos e competências, para com este conhecimento, burilado e polido, melhor amar o mundo.

 

Esse amor é uma ferramenta ativa e poderosa contra males sociais e individuais, superando a rigidez do preconceito e a repetição de erros ou vícios, pois, é estabelecedor da ética da alteridade (Levinas), onde, juntamente, com responsabilidade pelo "Outro" quebram o egoísmo. O rosto do outro convoca a agir-se com justiça, desarmando preconceitos automáticos. Ele nos impulsiona do mundo das aparências (erros e preconceitos) em direção à verdade, à beleza e ao bem fazer, afirma Platão.

 

A máxima "Ama e faz o que quiseres" de Agostinho de Hipona preceitua que as ações guiadas pelo amor autêntico são intrinsecamente boas. Elas eliminam o vício e o erro na raiz. Quaisquer leis externas tornam-se desnecessária, pois o bem é exercido de forma espontânea. Manifesta-se nisto o caritas (amor benevolente e desinteressado), não eros (desejo de posse), pois, quem ama como Deus ama perde o desejo de ferir, enganar ou pecar. Onde o amor reina a vaidade não respira.

 

Amar assim é o ápice da maturidade espiritual. É a compreensão de que nossa busca por expansão, estudo e evolução não serve para nos inflar, mas, para nos polir como instrumentos daquilo que recebemos por empréstimo divino. Somos tudo em potencial, mas nada por nós mesmos. Estudar e evoluir serve para transformar o chumbo da nossa ignorância no ouro do serviço ao próximo. Quem busca o aplauso da plateia torna-se refém do humor dos outros; quem busca o caminho encontra a liberdade.

 

Maranguape, Ceará, 13 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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