Entre
a espiga de trigo e a corrente d’água – manifestações descritas pelo termo Shibboleth
– viceja o labor do semeador que escolhe a melhor semente, o modus operandi
mais apropriado para plantá-la e cultivar seu crescimento desde plântula até a
robusta árvore de copa larga, boa sombra e dulcíssimos frutos que logo chega no
melhor tempo para acolher e saciar os anseios de muitos. Não dispensando, claro, o fluxo
d’água perene para que este esmero se realize a contento.
Shibboleth
embora seja a palavra-chave que separa o "nós" do "eles", o
idêntico do diferente, determinando quem vive e quem morre na margem do rio e
assume uma subversão filosófica genial: deixa de ser uma barreira de
discriminação e passa a delimitar um entre-lugar de criação. Entre a rigidez da
espiga colhida (o factual, o dado) e a fluidez do rio (o devir, o tempo),
estabelece-se o espaço da práxis humana. Transforma-se de um símbolo de
segregação em um horizonte de possibilidades.
O
labor do semeador encarna a perfeita harmonia entre dois conceitos gregos
fundamentais. Primeiro, Manifesta-se no modus operandi, na escolha racional da
semente e no método de plantio. É a razão instrumental colocada a serviço da
vida. E segundo, é a força intrínseca da plântula que busca o ser, o mistério
do crescimento que o homem não pode fabricar, apenas assistir e proteger. O
semeador não domina a natureza tiranicamente; ele a decifra e coopera com ela.
Há
aqui uma ética do cuidado (próxima ao conceito de Sorge em Heidegger). O
agir humano legítimo é aquele que potencializa o ser do outro, permitindo que a
plântula cumpra sua própria essência até se tornar uma árvore de copa larga.
Corrobora com o conceito de que uma andorinha só não faz verão – que estabelece
a certeza de que evoluir e progredir requer mergulhar com abnegação e coragem na
interdependência que conduz a tudo criado em seu rio.
Essa
evolução da plântula até a árvore que gera "dulcíssimos frutos" evoca
a teleologia aristotélica: tudo se move em direção ao seu fim mais nobre (a sua
enteléquia). A semente carrega a potência de ser uma árvore; a árvore madura e
o fruto representam o ato (a realização do seu telos ou fim). O fim da
árvore não é acumular para si, mas a generosidade ontológica de doar sombra e
alimento para "saciar os anseios de muitos". A realização do ser
culmina na comunidade (a Polis).
Fitar
o "fluxo d'água perene" abre a compreensão da dimensão do tempo e da
impermanência (o rio de Heráclito). A técnica mais refinada (o esmero) e a
melhor semente permanecem estéreis se isoladas do fluxo contínuo da vida. A
água é a contingência necessária, a Graça, ou as condições históricas que alimentam
o esforço humano. O esforço humano (o esmero) precisa do contexto
histórico e da oportunidade (a água) para realizar seu potencial, sem a
qual tudo resseca.
Não
basta possuir sementes de qualidade, conhecer os métodos de cultivo ou desejar
uma colheita abundante. É necessário compreender o terreno, reconhecer as
estações, respeitar os limites da natureza e aceitar que cada etapa exige seu
tempo. A impaciência pode destruir aquilo que a dedicação começou a construir.
A precipitação, por sua vez, pode comprometer o desenvolvimento de uma árvore
que, se respeitada em seu ritmo, ofereceria frutos por muitos anos. A sabedoria
reside discernir quando agir, quando esperar e quando intervir para proteger o
que está em crescimento.
Essa
lição ultrapassa os limites da agricultura e alcança a formação humana. Educar,
orientar, liderar e transmitir conhecimentos são modalidades do mesmo trabalho
de semeadura. O educador não pode exigir que todos floresçam simultaneamente,
assim como o mestre não deve pretender que seus discípulos reproduzam
mecanicamente suas próprias convicções. Cabe-lhe oferecer instrumentos,
cultivar o discernimento, despertar a curiosidade e criar condições para que
cada consciência encontre o próprio caminho. A verdadeira mestria que se mede pela
qualidade daqueles que aprendem a pensar, escolher e agir com responsabilidade.
Neste
influxo, nenhuma organização alcança consistência apenas pela imponência de
seus símbolos, pela antiguidade de suas tradições ou pela solenidade de seus
discursos. Sua grandeza manifesta-se, sobretudo, na capacidade de transformar
valores proclamados em atitudes concretas, de acolher diferenças sem abandonar
princípios e de fazer do conhecimento uma ferramenta de aperfeiçoamento
coletivo. Quando deixar de inspirar ações e passar a servir apenas à distinção
entre os que pertencem e os que são excluídos, a espiga perde sua capacidade de
alimentar e o rio deixa de aproximar suas margens.
É
nesse ponto que Shibboleth recupera sua força simbólica e nos convida a uma
reflexão sobre as fronteiras que erguemos entre os seres humanos. As diferenças
existem, as identidades possuem valor e os princípios precisam ser
reconhecidos; contudo, nada disso justifica converter a diversidade em
instrumento de humilhação ou a pertença em certificado de superioridade. A
palavra que historicamente serviu para identificar e separar pode, sob uma
consciência renovada, tornar-se convite à compreensão dos códigos, das
experiências e das circunstâncias que constituem cada indivíduo. Distinguir não
precisa significar desprezar, assim como reconhecer o outro não exige abdicar
da própria identidade.
O
semeador que compreende essa verdade não escolhe suas sementes para construir
um jardim fechado, inacessível aos demais. Planta para que a vida se
multiplique, para que a sombra acolha quem necessita de descanso e para que os
frutos alimentem até mesmo aqueles cujas mãos não participaram diretamente do
cultivo. Sua obra possui uma dimensão que ultrapassa a recompensa imediata,
porque ele reconhece que o valor de uma realização também se encontra nos
benefícios que ela continuará proporcionando quando seu autor já não estiver
presente. Há, nessa atitude, uma forma elevada de permanência: viver não apenas
para deixar marcas, mas para deixar condições favoráveis à continuidade da
vida.
Entretanto,
nenhuma árvore permanece vigorosa se suas raízes forem esquecidas. A
generosidade não elimina a necessidade de cuidado, e a abundância não dispensa
a responsabilidade de preservar as fontes que a tornam possível. É preciso
proteger o solo, manter o curso das águas e evitar que a busca desmedida por
resultados destrua os fundamentos da própria prosperidade. A sociedade que
consome sem renovar, que exige sem contribuir e que colhe sem replantar
compromete o futuro em nome de uma satisfação passageira. A verdadeira evolução
requer reciprocidade: receber da existência, oferecer à coletividade e
conservar para as gerações que ainda encontrarão seu lugar à margem do mesmo
rio.
Entre
a espiga e a água, portanto, encontra-se o ser humano em sua condição mais
autêntica: limitado pelas circunstâncias, mas capaz de agir sobre elas;
herdeiro de um passado, mas responsável por construir o futuro; portador de
potencialidades, mas dependente de condições que favoreçam seu desenvolvimento.
Não escolhemos todas as características do terreno em que nascemos, nem
controlamos a correnteza que atravessa nossa existência. Podemos, contudo,
aprimorar nossas escolhas, aperfeiçoar nossos métodos e contribuir para que o
ambiente comum seja menos árido e mais fecundo.
Eis
a grande lição do semeador: a excelência não consiste em dominar todas as
forças da natureza, mas em compreender a relação entre aquilo que depende de
nós e aquilo que precisamos aprender a respeitar. A semente representa a
possibilidade; o trabalho, a responsabilidade; a água, a continuidade; a
árvore, a realização; e os frutos, a dimensão social de uma existência que
alcançou sua maturidade. Quando esses elementos se harmonizam, o esforço
individual deixa de ser uma atividade isolada e passa a integrar uma obra
maior, cujo alcance se estende para além dos limites de uma única vida.
Que
saibamos, pois, escolher boas sementes, cultivar com inteligência e
perseverança e preservar as águas que alimentam nossos projetos. Que não
transformemos nossas diferenças em barreiras intransponíveis, nem nossos
conhecimentos em instrumentos de vaidade. Acima de tudo, que tenhamos a
generosidade de compreender que a grandeza de uma árvore não se revela somente
em sua altura, mas também na sombra que oferece e nos frutos que compartilha.
Afinal,
o verdadeiro sentido da semeadura não está apenas em fazer germinar uma
semente, mas em contribuir para que a vida encontre condições de florescer,
multiplicar-se e beneficiar a coletividade. Entre a espiga de trigo e a
corrente d’água, entre a permanência dos princípios e a transformação do tempo,
constrói-se a arquitetura de uma existência fecunda: aquela que reconhece no
próprio crescimento não um privilégio a ser ostentado, mas uma responsabilidade
a ser exercida em favor de todos.
Maranguape, Ceará, 21 de Outubro de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo,
O
Matuto do Carrasco.




