sexta-feira, 11 de setembro de 2026

ÍCAROS E PARAQUEDISTAS SOCIAIS MATAM O “HOMEM”

 

Uma das agências mais formidáveis do homem, principalmente daquele dotado do excelentíssimo bom senso, é a inventividade. Que pena que a inventividade, por vezes, ofusca a si própria na forma dos invencionismos e mentiras que cocriamos para satisfazer nosso próprio ego, esconder nossas incapacidades e, como não dizer, para sermos grandes em nossa mediocridade. Mentir incessantemente pode criar verdades?

 

Bastante bem faria o homem a si próprio se olhasse para o passado com mesmo fito desbravador que os moradores daquele tempo empregaram enquanto postulavam os vetores de (do) futuro nas fabulas, contos e estórias míticas que chegam aos nossos dias com a mesma força de sempre ensinando-nos os arquétipos e fundos morais que guardam como mestria para as novas gerações.

 

Carl Gustav Jung e outros pensadores defendem que os mitos e as fábulas não são relíquias inertes, mas, veículos vivos de estruturas psíquicas universais que codificam dilemas morais e existências que se repetem em cada geração. Os povos antigos, ao criar narrativas míticas usavam o passado como laboratório projetivo, antecipando conflitos, virtudes e falhas que o futuro traria. Antecipar é melhor que remediar.

 

O olhar visionário é justamente o oposto da nostalgia, ou seja, perceber o mito não como um museu, mas, como um mapa, reconhecendo que os mesmos arquétipos (o herói, o traidor, o sábio, a sombra etc.) operam hoje em contextos novos. A força "de sempre" que essas narrativas mantêm vem do fato de que o conteúdo psicológico que carregam não obsoletiza; muda a roupagem, não o fundo moral, que fica mais rico quando compartido.

 

O mito guarda para as novas gerações não um "código de conduta" fixo, mas, um proeminente sistema operacional: um conjunto de programas (arquétipos) que a consciência pode executar em qualquer situação. A criança que ouve Hansel e Gretel não aprende "cuidado com a bruxa", ela internaliza o programa da tentação, da perda do caminho e da saída pela inteligência no emprego correto do que aprendera.

 

Joseph Campbell radicalizou isso ao mostrar que a "jornada do herói" (partida → iniciação → retorno) é o monomito, ou seja, o esqueleto comum a quase toda narrativa humana, de Homero a Star Wars.  O que muda é a cenografia; o que permanece é a arquitetura moral da escolha, da prova e da transformação, cujos resultados são mais exuberantes a cada novo geração que passa por esse “rito de passagem”.

 

Uma destas fábulas, a de Ícaro, me é bastante instrutiva a todo momento em que vislumbro o sol de uma nova oportunidade. Ícaro é o grande símbolo da ambição desmedida, da busca humana pelos limites e do perigo de desafiar as forças superiores, tendo na protuberante inventividade de Dédalo sua aliada mais portentosa, ao lado da sua coragem desmedida, somente curadas com moderação e prudência.

 

Dédalo projeta e constrói as asas; Ícaro as usa sem compreendê-las. Isso muda a geometria da advertência. A inovação, no mito, não é a falha – é a condição de possibilidade. A falha é o uso desconsciente da inovação: Ícaro não sabe o que a cera é, não sabe o que o calor faz nela, não sabe que a distância ao sol é uma variável, não um cenário. Ninguém em sã consciência põe a mão em cumbuca alheia.

 

A cera é o elemento que torna o mito tão preciso: ela não é fraca, é condicional. É o material perfeito para uma alegoria sobre a mediação humana entre a ambição e o cósmico – toda a nossa tecnologia, toda a nossa capacidade de "voar", opera numa faixa de condições que não controlamos. A cera não trai Ícaro; ela é o limite dele. O perigo está em não saber que se está mediado por algo que tem um ponto de ruptura.

 

Ao dizer "sol de uma nova oportunidade" retrato exatamente o que o mito faz com o sol: ele é simultaneamente a meta e a ameaça. Não há como buscar a luz sem se aproximar do calor; não há como aspirar a altura sem entrar na zona onde a cera falha. A moderação, neste contexto, não é uma virtude moral abstrata – é um cálculo de a(l)titude.  Ícaro não morre por ter subido demais, morre por não ter sabido onde estava enquanto subia.

 

É fascinante como o mito de Ícaro ressoa tão fortemente quando estamos diante de novos horizontes. Essa história nos lembra que a mesma audácia que nos tira do chão pode nos derrubar se esquecermos as nossas vulnerabilidades. Envolve usar a criatividade e a coragem de Dédalo e Ícaro para construir caminhos inovadores, sair de situações limitantes e não deixar o entusiasmo cegar você para os riscos reais.

 

Ícaro representa a dualidade entre o desejo humano de transcendência (de ser aparecido) e os perigos da ambição desmedida (hubris). Na mitologia grega, ao tentar escapar do Labirinto de Creta com asas de cera e penas feitas por seu pai, Dédalo, Ícaro ignora os avisos de prudência, voa perto demais do Sol, tem suas asas derretidas e despenca no mar, trazendo consigo o sonho mal arquitetado e executado.

 

Isso explica a "mesma força de sempre", pois, o conteúdo psicológico que o mito de Ícaro carrega é atemporal por construção. Seu dilema (ambição vs. limite) reaparece em cada geração com nova roupagem – hoje é o hacker que escala sem ética, o investidor que alavancagem além do limite, o paraquedista que se assenta no trono sem o mérito aferido pelo cumprimento do devido processo legal.

 

A coragem desmedida do transgressor, do usurpador, do paraquedista social – de Ícaro – não é a coragem de voar; é a coragem de ignorar a faixa. O mito de Ícaro não é uma condenação da ousadia. É uma lição de instrumentação: quem voa precisa de um horizonte que inclua o próprio limite, não apenas a meta. Afinal, a dor das frustrações (queda) não cessão com qualquer morfinazinha não, pois, o dano é irreparável.

 

Consequência do que a sociedade moderna fez ao relegar essas histórias ao entretenimento ou ao contexto religioso, negando-lhes o poder que possuem na formação ético-moral dos mais jovens. Urge, portanto, um viril resgate funcional: devolver ao mito o papel que sempre teve, o de ser a escola moral que opera não pela pregação, mas, pela identificação emocional com a narrativa. Refletimos o exemplo que nos cativa.

 

A admiração desperta pelo herói da tela quando redirecionada para figuras do mundo real (médicos, bombeiros, professores), e os dilemas dos quadrinhos (o que fazer quando o poder corrompe? quando a justiça conflita com a lei?) abrem espaço para questionamentos filosóficos que a pregação moral convencional não alcança e fulcram relevantes pontos de partida para discussões éticas reais.

 

A mentira incessante não cria verdade, mas cria algo que, para quem a absorve (e muitas vezes para quem a produz), funciona como verdade – até que a realidade, irredutível, a confronte. A ambição só se torna destrutiva quando perde a conexão com a realidade. Neste toar, com moderação e prudência, quaisquer asas serão perfeitamente capazes de chegar ao destino planejado certificadas pela inventividade e glorificadas pelo mérito.


Maranguape, Ceará, 11 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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