Uma
das agências mais formidáveis do homem, principalmente daquele dotado do excelentíssimo
bom senso, é a inventividade. Que pena que a inventividade, por vezes, ofusca a
si própria na forma dos invencionismos e mentiras que cocriamos para satisfazer
nosso próprio ego, esconder nossas incapacidades e, como não dizer, para sermos
grandes em nossa mediocridade. Mentir incessantemente pode criar verdades?
Bastante
bem faria o homem a si próprio se olhasse para o passado com mesmo fito desbravador
que os moradores daquele tempo empregaram enquanto postulavam os vetores de
(do) futuro nas fabulas, contos e estórias míticas que chegam aos nossos dias
com a mesma força de sempre ensinando-nos os arquétipos e fundos morais que
guardam como mestria para as novas gerações.
Carl
Gustav Jung e outros pensadores defendem que os mitos e as fábulas não são
relíquias inertes, mas, veículos vivos de estruturas psíquicas universais que
codificam dilemas morais e existências que se repetem em cada geração. Os povos
antigos, ao criar narrativas míticas usavam o passado como laboratório
projetivo, antecipando conflitos, virtudes e falhas que o futuro traria. Antecipar
é melhor que remediar.
O
olhar visionário é justamente o oposto da nostalgia, ou seja, perceber o mito
não como um museu, mas, como um mapa, reconhecendo que os mesmos arquétipos (o
herói, o traidor, o sábio, a sombra etc.) operam hoje em contextos novos. A
força "de sempre" que essas narrativas mantêm vem do fato de que o
conteúdo psicológico que carregam não obsoletiza; muda a roupagem, não o fundo
moral, que fica mais rico quando compartido.
O
mito guarda para as novas gerações não um "código de conduta" fixo,
mas, um proeminente sistema operacional: um conjunto de programas (arquétipos)
que a consciência pode executar em qualquer situação. A criança que ouve Hansel
e Gretel não aprende "cuidado com a bruxa", ela internaliza o
programa da tentação, da perda do caminho e da saída pela inteligência no emprego
correto do que aprendera.
Joseph
Campbell radicalizou isso ao mostrar que a "jornada do herói"
(partida →
iniciação → retorno) é o monomito, ou seja, o
esqueleto comum a quase toda narrativa humana, de Homero a Star Wars. O que muda é a cenografia; o que permanece é a arquitetura
moral da escolha, da prova e da transformação, cujos resultados são mais exuberantes
a cada novo geração que passa por esse “rito de passagem”.
Uma
destas fábulas, a de Ícaro, me é bastante instrutiva a todo momento em que vislumbro
o sol de uma nova oportunidade. Ícaro é o grande símbolo da ambição desmedida,
da busca humana pelos limites e do perigo de desafiar as forças superiores, tendo
na protuberante inventividade de Dédalo sua aliada mais portentosa, ao lado da sua
coragem desmedida, somente curadas com moderação e prudência.
Dédalo
projeta e constrói as asas; Ícaro as usa sem compreendê-las. Isso muda a
geometria da advertência. A inovação, no mito, não é a falha – é a condição de
possibilidade. A falha é o uso desconsciente da inovação: Ícaro não sabe o que
a cera é, não sabe o que o calor faz nela, não sabe que a distância ao sol é
uma variável, não um cenário. Ninguém em sã consciência põe a mão em
cumbuca alheia.
A
cera é o elemento que torna o mito tão preciso: ela não é fraca, é condicional.
É o material perfeito para uma alegoria sobre a mediação humana entre a ambição
e o cósmico – toda a nossa tecnologia, toda a nossa capacidade de
"voar", opera numa faixa de condições que não controlamos. A cera não
trai Ícaro; ela é o limite dele. O perigo está em não saber que se está mediado
por algo que tem um ponto de ruptura.
Ao
dizer "sol de uma nova oportunidade" retrato exatamente o que o mito
faz com o sol: ele é simultaneamente a meta e a ameaça. Não há como buscar a
luz sem se aproximar do calor; não há como aspirar a altura sem entrar na zona
onde a cera falha. A moderação, neste contexto, não é uma virtude moral
abstrata – é um cálculo de a(l)titude. Ícaro não morre por ter subido
demais, morre por não ter sabido onde estava enquanto subia.
É
fascinante como o mito de Ícaro ressoa tão fortemente quando estamos diante de
novos horizontes. Essa história nos lembra que a mesma audácia que nos tira do
chão pode nos derrubar se esquecermos as nossas vulnerabilidades. Envolve usar
a criatividade e a coragem de Dédalo e Ícaro para construir caminhos inovadores,
sair de situações limitantes e não deixar o entusiasmo cegar você para os
riscos reais.
Ícaro
representa a dualidade entre o desejo humano de transcendência (de ser
aparecido) e os perigos da ambição desmedida (hubris). Na mitologia grega, ao
tentar escapar do Labirinto de Creta com asas de cera e penas feitas por seu
pai, Dédalo, Ícaro ignora os avisos de prudência, voa perto demais do Sol, tem
suas asas derretidas e despenca no mar, trazendo consigo o sonho mal
arquitetado e executado.
Isso
explica a "mesma força de sempre", pois, o conteúdo psicológico que o
mito de Ícaro carrega é atemporal por construção. Seu dilema (ambição vs.
limite) reaparece em cada geração com nova roupagem – hoje é o hacker que
escala sem ética, o investidor que alavancagem além do limite, o paraquedista
que se assenta no trono sem o mérito aferido pelo cumprimento do devido
processo legal.
A
coragem desmedida do transgressor, do usurpador, do paraquedista social – de
Ícaro – não é a coragem de voar; é a coragem de ignorar a faixa. O mito de
Ícaro não é uma condenação da ousadia. É uma lição de instrumentação: quem voa
precisa de um horizonte que inclua o próprio limite, não apenas a meta. Afinal,
a dor das frustrações (queda) não cessão com qualquer morfinazinha não, pois, o
dano é irreparável.
Consequência
do que a sociedade moderna fez ao relegar essas histórias ao entretenimento ou
ao contexto religioso, negando-lhes o poder que possuem na formação ético-moral
dos mais jovens. Urge, portanto, um viril resgate funcional: devolver ao mito o
papel que sempre teve, o de ser a escola moral que opera não pela pregação, mas,
pela identificação emocional com a narrativa. Refletimos o exemplo que nos
cativa.
A
admiração desperta pelo herói da tela quando redirecionada para figuras do
mundo real (médicos, bombeiros, professores), e os dilemas dos quadrinhos (o
que fazer quando o poder corrompe? quando a justiça conflita com a lei?) abrem
espaço para questionamentos filosóficos que a pregação moral convencional não
alcança e fulcram relevantes pontos de partida para discussões éticas reais.
A
mentira incessante não cria verdade, mas cria algo que, para quem a absorve (e
muitas vezes para quem a produz), funciona como verdade – até que a realidade,
irredutível, a confronte. A ambição só se torna destrutiva quando perde a
conexão com a realidade. Neste toar, com moderação e prudência, quaisquer asas
serão perfeitamente capazes de chegar ao destino planejado certificadas pela
inventividade e glorificadas pelo mérito.
Maranguape,
Ceará, 11 de Setembro de 2026
Bruno
Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado
à ACI - Associação Cearense de Imprensa
Associado
à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

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