Diz
o povo que o pior cego é aquele que não quer enxergar, porém, penso ser este
adágio apenas levanta a ponta do tapete a desvelar a cegueira dos incautos, dos
pérfidos e dos absolutamente vaidosos até a tampa que turvam a graça da vida.
Ocorre
que a maior da cegueira de fato não é somente a da visão, pois, ela se agrava quando cego resolve nada ouvir – tão pouco querer ouvir. Pior ainda quando esse flagelo do decoro resolve nada discernir ainda que veja e/ou ouça bem o suficiente.
Cego
assim, desta imensa envergadura é visto apenas com a ajuda do microscópio , embora atravanque o progresso, faça o mundo infeliz, poia, como humano nada condiz. Somente
tem arranque... igual a codorniz. A vida sempre lhe contradiz.
Ao
dizer "Com o humano nada condiz" reforço a estranheza: ele não
pertence ao mundo humano, é um intruso que não se ajusta à lógica das vidas que
parasita. Este microrganismo é um obstáculo ao progresso civilizatório.
Na
Bíblia (Mateus 13:13-15), o Cristo alerta que aqueles que têm olhos e ouvidos,
mas, se recusam a compreender, estão em uma condição espiritual pior que a
cegueira física, sendo considerada mais prejudicial que a deficiência física.
A
verdadeira escuridão não mora na falta de visão física. Reside de forma
graciosa e bem acomodada no autoengano a que se submete o vaidoso que pensa
poder estar onde lhe falta competente mérito que lhe faça caber.
Nietzsche,
enxerga que a vaidade e a falsa visão de si como detentora de "única
verdade" e elas corrompem a boa consciência, criando uma escuridão moral e
existencial que coíbe o reconhecimento da própria insuficiência.
Essa
torpeza alcança o ápice dramático quando o cego, desprovido de qualquer decoro
ou bom senso, decide anular o discernimento, o pactuado e o aceito por todos.
Ele olha na cara da realidade e ouve o clamor dos fatos, mas, os ignora.
Desumano
de nascença, é um fardo para o mundo. Sua postura arrogante e alienada nada
condiz com a essência do que deveríamos ser enquanto humanos. Infeliz de
protuberante essência espalha infelicidade pelos quatro cantos da Terra.
A
vida não o "derrota" – ela o contradiz, o torna incoerente com
a ordem do mundo. Há nele um tom de desdém cósmico: o patógeno é ao
mesmo tempo ameaça e figura quase cômica, um gigante que não consegue
decolar.
Incapaz
e sem talentos, falta-lhe fôlego para voos mais largos que sua mediocridade. Salta curto, faz um barulho danado, desajeitado, e logo cai “de imaturo” no chão.
Vive em desalinho com a realidade, sem perceber a mestria vida.
A
vida, em sua totalidade, é antinômica ao patógeno. O sistema imune, a evolução,
a própria definição de "vivo" (autonomia, adaptação, continuidade)
contradiz a lógica do parasita, que carece de outrem para existir e, por isso,
nunca se sustenta sozinho.
A
mestria da vida ensina que ao agir-se com total e voraz apatia, ocorre uma
deterioração moral que embaça o caráter, a honra e a moral, impedindo o
crescimento individual e coletivo, que somente ocorre em plenitude quando há pureza
de atitudes.
Em
Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, a cegueira branca simboliza a
incapacidade de ver os males humanos. A cegueira da alma ou do espírito envolve
a escolha consciente de ignorar evidências claras e inquestionáveis.
Eis
uma postura portentosa a gerar consequências negativas para o crescimento
coletivo e a tomada de decisões conscientes, pois, ao "furar os
próprios olhos" vive-se uma mentira para evitar responsabilidades ou
desconforto.
Se a ignorância é autoimposta, o ato volta a ser voluntário. O homem bêbado que comete um delito é punido com pena dobrada, porque "o princípio da ofensa reside no próprio agente". Ou seja, é uma decisão, e como decisão, é imputável.
O
vaidoso não finge diante de outrem; ele acredita de boa-fé que o que
exibe é o que é. A "falta de crença em si" que o caracteriza é uma
arquitetura ativa: ele constrói uma imagem de si tão convincente que a própria
consciência se torna cúmplice.
A
mentira que se conta em silêncio não mente, ela cativa revestida do semblante
da verdade para melhor mentir. O vaidoso não foi cegado; ele escolheu,
sem perceber que escolheu, a penumbra em que sua autoimagem se sustenta.
A
"vontade de aparência" que Nietzsche chama de "vontade
fundamental do espírito" opera justamente assim – não como imposição, mas,
como atração. Ela opera nossa capacidade que temos de sentir e de
acreditar de boa-fé que somos o que não somos.
A
aparência, uma vez internalizada, passa a ser tratada como substância. Quanto
mais o vaidoso ocupa o lugar, mais a ocupação reforça a crença de que ele
pertence ali, e mais a crença reforça a ocupação, num perene círculo vicioso.
O
mérito que lhe falta é conhecimento recortado: ele sabe o suficiente para saber
o que não sabe, e é exatamente esse excesso de luz parcial que torna a
cegueira mais densa que a do cego físico, que ao menos não tem o contraste.
A
verdadeira escuridão, então, não é o que se sofre no escuro, mas, o que se
desfruta nele – e o gozo é o que impede a saída. E é precisamente porque é
confortável que é a mais perigosa: ninguém foge do que lhe faz bem, ainda que
aparentemente.
Neste
toar, o vez as contas: a luz custa caro – custa admitir o limite, o erro, a
insuficiência. A sombra é gratuita, confortável, e ainda por cima flattered
pela opinião dos que, por conveniência ou por cegueira própria, confirmam que
cegar é melhor.
Maranguape, Ceará, 10 de Setembro de 2026
Bruno
Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado
à ACI - Associação Cearense de Imprensa
Associado
à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

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