quinta-feira, 10 de setembro de 2026

PIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO SE ENXERGA

 

Diz o povo que o pior cego é aquele que não quer enxergar, porém, penso ser este adágio apenas levanta a ponta do tapete a desvelar a cegueira dos incautos, dos pérfidos e dos absolutamente vaidosos até a tampa que turvam a graça da vida.

 

Ocorre que a maior da cegueira de fato não é somente a da visão, pois, ela se agrava quando cego resolve nada ouvir – tão pouco querer ouvir. Pior ainda quando esse flagelo do decoro resolve nada discernir ainda que veja e/ou ouça bem o suficiente.

 

Cego assim, desta imensa envergadura é visto apenas com a ajuda do microscópio , embora atravanque o progresso, faça o mundo infeliz, poia, como humano nada condiz. Somente tem arranque... igual a codorniz. A vida sempre lhe contradiz.

 

Ao dizer "Com o humano nada condiz" reforço a estranheza: ele não pertence ao mundo humano, é um intruso que não se ajusta à lógica das vidas que parasita. Este microrganismo é um obstáculo ao progresso civilizatório.

 

Na Bíblia (Mateus 13:13-15), o Cristo alerta que aqueles que têm olhos e ouvidos, mas, se recusam a compreender, estão em uma condição espiritual pior que a cegueira física, sendo considerada mais prejudicial que a deficiência física.

 

A verdadeira escuridão não mora na falta de visão física. Reside de forma graciosa e bem acomodada no autoengano a que se submete o vaidoso que pensa poder estar onde lhe falta competente mérito que lhe faça caber.

 

Nietzsche, enxerga que a vaidade e a falsa visão de si como detentora de "única verdade" e elas corrompem a boa consciência, criando uma escuridão moral e existencial que coíbe o reconhecimento da própria insuficiência.

 

Essa torpeza alcança o ápice dramático quando o cego, desprovido de qualquer decoro ou bom senso, decide anular o discernimento, o pactuado e o aceito por todos. Ele olha na cara da realidade e ouve o clamor dos fatos, mas, os ignora.

 

Desumano de nascença, é um fardo para o mundo. Sua postura arrogante e alienada nada condiz com a essência do que deveríamos ser enquanto humanos. Infeliz de protuberante essência espalha infelicidade pelos quatro cantos da Terra.

 

A vida não o "derrota" – ela o contradiz, o torna incoerente com a ordem do mundo. Há nele um tom de desdém cósmico: o patógeno é ao mesmo tempo ameaça e figura quase cômica, um gigante que não consegue decolar. 

 

Incapaz e sem talentos, falta-lhe fôlego para voos mais largos que sua mediocridade. Salta curto, faz um barulho danado, desajeitado, e logo cai “de imaturo” no chão. Vive em desalinho com a realidade, sem perceber a mestria vida.

 

A vida, em sua totalidade, é antinômica ao patógeno. O sistema imune, a evolução, a própria definição de "vivo" (autonomia, adaptação, continuidade) contradiz a lógica do parasita, que carece de outrem para existir e, por isso, nunca se sustenta sozinho.

 

A mestria da vida ensina que ao agir-se com total e voraz apatia, ocorre uma deterioração moral que embaça o caráter, a honra e a moral, impedindo o crescimento individual e coletivo, que somente ocorre em plenitude quando há pureza de atitudes.

 

Em Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, a cegueira branca simboliza a incapacidade de ver os males humanos. A cegueira da alma ou do espírito envolve a escolha consciente de ignorar evidências claras e inquestionáveis.

 

Eis uma postura portentosa a gerar consequências negativas para o crescimento coletivo e a tomada de decisões conscientes, pois, ao "furar os próprios olhos" vive-se uma mentira para evitar responsabilidades ou desconforto.

 

Se a ignorância é autoimposta, o ato volta a ser voluntário. O homem bêbado que comete um delito é punido com pena dobrada, porque "o princípio da ofensa reside no próprio agente". Ou seja, é uma decisão, e como decisão, é imputável.

 

O vaidoso não finge diante de outrem; ele acredita de boa-fé que o que exibe é o que é. A "falta de crença em si" que o caracteriza é uma arquitetura ativa: ele constrói uma imagem de si tão convincente que a própria consciência se torna cúmplice. 

 

A mentira que se conta em silêncio não mente, ela cativa revestida do semblante da verdade para melhor mentir. O vaidoso não foi cegado; ele escolheu, sem perceber que escolheu, a penumbra em que sua autoimagem se sustenta. 

 

A "vontade de aparência" que Nietzsche chama de "vontade fundamental do espírito" opera justamente assim – não como imposição, mas, como atração. Ela opera nossa capacidade que temos de sentir e de acreditar de boa-fé que somos o que não somos.

 

A aparência, uma vez internalizada, passa a ser tratada como substância. Quanto mais o vaidoso ocupa o lugar, mais a ocupação reforça a crença de que ele pertence ali, e mais a crença reforça a ocupação, num perene círculo vicioso.

 

O mérito que lhe falta é conhecimento recortado: ele sabe o suficiente para saber o que não sabe, e é exatamente esse excesso de luz parcial que torna a cegueira mais densa que a do cego físico, que ao menos não tem o contraste.

 

A verdadeira escuridão, então, não é o que se sofre no escuro, mas, o que se desfruta nele – e o gozo é o que impede a saída. E é precisamente porque é confortável que é a mais perigosa: ninguém foge do que lhe faz bem, ainda que aparentemente.

 

Neste toar, o vez as contas: a luz custa caro – custa admitir o limite, o erro, a insuficiência. A sombra é gratuita, confortável, e ainda por cima flattered pela opinião dos que, por conveniência ou por cegueira própria, confirmam que cegar é melhor. 

 

Maranguape, Ceará, 10 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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