quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O SERTÃO ALIMENTA DE AMOR ESSE MUNDÃO


Embora eu perceba, acate e respeite a relevância do mar como primeiro lar de todas as criaturas que, hoje, se movem por sobre a terra, assim como, é sempre a casa daqueles que ele acalanta em suas águas; tenho verdadeiro encanto e amor pelo sertão, onde estou neste momento a cortejar sua graça e imponência que tão bem alimentam os prodígios da litorânea parte de nosso Ceará, pois, bem olhando grande diferença e destaque faz em todo canto que estiver aquele que sertão viu crescer sob sua guia.

 

O sertão é por demais inspirador da ousadia que faz o pequeno maior – espelhando Davi a derribar o Golias – manifestando a magia por detrás da criatividade que faz a beleza para os olhos ver e para mente aprender a mestria sertaneja resplandecer do litoral ao meio do mar. Tudo volta pro mar, ninguém há de negar essa regra tão clara da natureza. E se volta, é porque é de lá, de lá veio ao sabor do sol e à busca da boa sombra onde a serenidade apaga o fogo do juízo e faz o coração se perceber na valia que imprime mesmo pra quem não a quer ver.

 

Fascina-me contemplar nosso Ceará não como duas partes distintas – o litoral e o sertão –, mas como um ciclo contínuo, onde a força bruta, criativa e resiliente do interior alimenta e dá identidade até mesmo à calmaria da praia. A metáfora de Davi e Golias resume perfeitamente o sertanejo: a pequenez geográfica ou econômica diante da imensidão dos desafios, superada pela gigantice da astúcia e da arte, que somente o cálido sertão tem o condão de forjar tão proficiente alavanca a mover o progresso e a felicidade brasileira.

 

Esse "ir e vir" do mar ao sertão e do serão ao mar, onde tudo nasce no mar, ganha corpo e têmpera no calor do sertão, e depois retorna transformado em mestria, traduz a própria essência da cultura cearense. O sertão não é escassez; é o berço da engenhosidade que reluz em todos os rincões do Brasil não arrogantemente a dar “quinau”, mas sim, com as águas do mar que abraça a terra por igual estabelecendo na sinergia da troca o habitat para a sabedoria de ser brasileiro.

 

Aqui onde repousam os restos mortais de Bárbara de Alencar, a primeira presa política do Brasil, heroína de revoluções e avó do escritor José de Alencar, viceja Campos Sales, situada no extremo oeste da Chapada do Araripe, na transição do sul cearense com o Piauí e Pernambuco, a cidade respira a bravura dos fortes, pois, carrega na própria terra o peso da história e a têmpera e enche-me a mente de coragem para arquitetar o melhor e o coração de determinação para cumprir o traçado.

 

A imponência de Campos Sales se materializa também na fé e na paisagem, guardada pelo imponente Monumento de Nossa Senhora da Penha que se ergue sobre o horizonte sertanejo, o lugar atua como o útero de pedra que molda os homens antes de devolver suas águas espirituais ao mar. Aqui verdades são cultuadas: como o sangue de Bárbara Pereira de Alencar, uma sertaneja à frente do seu tempo, que gerou a mestria literária de José de Alencar, que tão bem pintou o Ceará para o resto do país?

 

A resiliência de Bárbara de Alencar manifesta com rutilância plena o conceito de "pequeno que se faz maior diante de Golias". É a pequenez da gota d'água desafiando a imensidão do calor, tecendo seu caminho com a astúcia e a engenhosidade que são típicas de quem o sertão viu crescer. Ela reflete, ainda hoje, o valor da mulher, da mãe e da líder que adotou a tantos sob o manto da vivaz coragem com que defendeu os mais basilares interesses ao sabor do vento da liberdade tão bem difundida por seu legado.

 

A ousadia e a criatividade forjadas na adversidade do semiárido manifestam no litoral a capacidade de inventar beleza com pouco: a arte popular, as festas, a gastronomia que mistura leguminosas do sertão com a fauna do fundo do mar. O Ceará tem sua força na sinergia sertão-serra-litoral provando que a beleza da praia depende, inteiramente, da ousadia e da majestade que resplandecem no coração do interior. Um ecossistema vivo onde a escassez do interior alimenta a abundância criativa da costa.

 

No Ceará, o sertão não tem uma faixa de mata costeira que o separe do mar – como diz o adágio popular: "o sertão vai bater no mar".  Com 93% do território em semiaridez, a caatinga chega praticamente à linha de costa, e a vegetação litorânea é de dunas, não de mata atlântica. Essa proximidade física torna a troca cultural portentosa e inevitável. A urbanização cearense (mais de 70% da população em cidades) é fruto dessa exportação de gentes do sertão que vem à capital aportar seu valioso capital humano em prol da prosperidade de todos.

 

A música do Ceará pegou o peso do bumbo do sertão e o misturou com a brisa do mar, criando uma sonoridade única que conquistou o Brasil. Embora pernambucano, o Legado de Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião, tem viril influência no Ceará onde consolidou o triângulo, a zabumba e a sanfona como os tradutores do "fogo do juízo" e da poeira da estrada. O Forró Eletrônico, nascido no coração do estado, modernizou a tradição, provando que a criatividade sertaneja se adapta, se agiganta e dita o ritmo do mercado musical brasileiro.

 

Nos anos 70, artistas como Belchior, Fagner e Ednardo uniram a crueza e o existencialismo do sertão com o movimento das ondas do litoral, gerando clássicos que cantam a partida (o êxodo em direção ao mar/sul) e o eterno desejo de retorno. A estética do sertão cearense se manifesta na música e no cordel através da exaltação da resiliência, do misticismo e da oralidade, transformando a aparente escassez em uma riqueza poética inigualável, onde a arte do cordel – literatura, xilogravura e cantoria – são estudados mundialmente.

 

Curiosamente, o Cordel chega além-mar para que o povo de lá se enriqueça com os tesouros de cá, do sertão confirmando com fervorosidade que há muito mais felicidade em dar do que em receber. O sertanejo é farto como é a fartura, não lhe falta tiú (tejo), nem tatú, muito menos preá – de coice ligeiro ou não –, além da comida boa, há sorrisos e abraços de montão para aquecer e aliar o coração da gente boa que vai ou vem do mar pro sertão, não importa a direção, mais sim, o amor em ato e expressão unindo a todos como irmão.

 

Maranguape, Ceará, 09 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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O SERTÃO ALIMENTA DE AMOR ESSE MUNDÃO

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