Embora
eu perceba, acate e respeite a relevância do mar como primeiro lar de todas as criaturas
que, hoje, se movem por sobre a terra, assim como, é sempre a casa daqueles que
ele acalanta em suas águas; tenho verdadeiro encanto e amor pelo sertão, onde
estou neste momento a cortejar sua graça e imponência que tão bem alimentam os
prodígios da litorânea parte de nosso Ceará, pois, bem olhando grande diferença
e destaque faz em todo canto que estiver aquele que sertão viu crescer sob sua
guia.
O
sertão é por demais inspirador da ousadia que faz o pequeno maior – espelhando Davi
a derribar o Golias – manifestando a magia por detrás da criatividade que faz a
beleza para os olhos ver e para mente aprender a mestria sertaneja resplandecer
do litoral ao meio do mar. Tudo volta pro mar, ninguém há de negar essa regra
tão clara da natureza. E se volta, é porque é de lá, de lá veio ao sabor do sol
e à busca da boa sombra onde a serenidade apaga o fogo do juízo e faz o coração
se perceber na valia que imprime mesmo pra quem não a quer ver.
Fascina-me
contemplar nosso Ceará não como duas partes distintas – o litoral e o sertão –,
mas como um ciclo contínuo, onde a força bruta, criativa e resiliente do
interior alimenta e dá identidade até mesmo à calmaria da praia. A metáfora de
Davi e Golias resume perfeitamente o sertanejo: a pequenez geográfica ou
econômica diante da imensidão dos desafios, superada pela gigantice da astúcia
e da arte, que somente o cálido sertão tem o condão de forjar tão proficiente
alavanca a mover o progresso e a felicidade brasileira.
Esse
"ir e vir" do mar ao sertão e do serão ao mar, onde tudo nasce no
mar, ganha corpo e têmpera no calor do sertão, e depois retorna transformado em
mestria, traduz a própria essência da cultura cearense. O sertão não é
escassez; é o berço da engenhosidade que reluz em todos os rincões do Brasil
não arrogantemente a dar “quinau”, mas sim, com as águas do mar que abraça a terra
por igual estabelecendo na sinergia da troca o habitat para a sabedoria de ser
brasileiro.
Aqui
onde repousam os restos mortais de Bárbara de Alencar, a primeira presa
política do Brasil, heroína de revoluções e avó do escritor José de Alencar,
viceja Campos Sales, situada no extremo oeste da Chapada do Araripe, na
transição do sul cearense com o Piauí e Pernambuco, a cidade respira a bravura
dos fortes, pois, carrega na própria terra o peso da história e a têmpera e enche-me
a mente de coragem para arquitetar o melhor e o coração de determinação para
cumprir o traçado.
A
imponência de Campos Sales se materializa também na fé e na paisagem, guardada
pelo imponente Monumento de Nossa Senhora da Penha que se ergue sobre o
horizonte sertanejo, o lugar atua como o útero de pedra que molda os homens
antes de devolver suas águas espirituais ao mar. Aqui verdades são cultuadas: como
o sangue de Bárbara Pereira de Alencar, uma sertaneja à frente do seu tempo, que
gerou a mestria literária de José de Alencar, que tão bem pintou o Ceará para o
resto do país?
A
resiliência de Bárbara de Alencar manifesta com rutilância plena o conceito de
"pequeno que se faz maior diante de Golias". É a pequenez da gota
d'água desafiando a imensidão do calor, tecendo seu caminho com a astúcia e a
engenhosidade que são típicas de quem o sertão viu crescer. Ela reflete, ainda
hoje, o valor da mulher, da mãe e da líder que adotou a tantos sob o manto da
vivaz coragem com que defendeu os mais basilares interesses ao sabor do vento
da liberdade tão bem difundida por seu legado.
A
ousadia e a criatividade forjadas na adversidade do semiárido manifestam no
litoral a capacidade de inventar beleza com pouco: a arte popular, as festas, a
gastronomia que mistura leguminosas do sertão com a fauna do fundo do mar. O
Ceará tem sua força na sinergia sertão-serra-litoral provando que a beleza da
praia depende, inteiramente, da ousadia e da majestade que resplandecem no
coração do interior. Um ecossistema vivo onde a escassez do interior alimenta a
abundância criativa da costa.
No
Ceará, o sertão não tem uma faixa de mata costeira que o separe do mar – como
diz o adágio popular: "o sertão vai bater no mar". Com 93% do território em semiaridez, a
caatinga chega praticamente à linha de costa, e a vegetação litorânea é de
dunas, não de mata atlântica. Essa proximidade física torna a troca cultural portentosa
e inevitável. A urbanização cearense (mais de 70% da população em cidades) é
fruto dessa exportação de gentes do sertão que vem à capital aportar seu
valioso capital humano em prol da prosperidade de todos.
A
música do Ceará pegou o peso do bumbo do sertão e o misturou com a brisa do
mar, criando uma sonoridade única que conquistou o Brasil. Embora pernambucano,
o Legado de Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião, tem viril influência no
Ceará onde consolidou o triângulo, a zabumba e a sanfona como os tradutores do
"fogo do juízo" e da poeira da estrada. O Forró Eletrônico,
nascido no coração do estado, modernizou a tradição, provando que a
criatividade sertaneja se adapta, se agiganta e dita o ritmo do mercado musical
brasileiro.
Nos
anos 70, artistas como Belchior, Fagner e Ednardo uniram a crueza e o
existencialismo do sertão com o movimento das ondas do litoral, gerando
clássicos que cantam a partida (o êxodo em direção ao mar/sul) e o eterno
desejo de retorno. A estética do sertão cearense se manifesta na música e no
cordel através da exaltação da resiliência, do misticismo e da oralidade,
transformando a aparente escassez em uma riqueza poética inigualável, onde a arte
do cordel – literatura, xilogravura e cantoria – são estudados mundialmente.
Curiosamente,
o Cordel chega além-mar para que o povo de lá se enriqueça com os tesouros de
cá, do sertão confirmando com fervorosidade que há muito mais felicidade em dar
do que em receber. O sertanejo é farto como é a fartura, não lhe falta tiú (tejo),
nem tatú, muito menos preá – de coice ligeiro ou não –, além da comida boa, há
sorrisos e abraços de montão para aquecer e aliar o coração da gente boa que
vai ou vem do mar pro sertão, não importa a direção, mais sim, o amor em ato e expressão
unindo a todos como irmão.
Maranguape,
Ceará, 09 de Setembro de 2026
Bruno
Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado
à ACI - Associação Cearense de Imprensa
Associado
à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas
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