segunda-feira, 21 de setembro de 2026

NÃO SER PÃ, NEM PÂNICO, É A META DOS BRAVOS

  

Nesta segunda-feira (21/09), o vento soprando a poeira lembra Pã, o deus da natureza, dos pastores, dos rebanhos e dos lugares selvagens, que costumeiramente dormia durante o meio-dia, e os pastores sabiam que não deviam perturbá-lo nesse horário, pois, ele tinha um temperamento volúvel. Esse medo irracional, súbito e coletivo deu origem à palavra pânico.

 

Os redemoinhos de poeira emergentes do nada em dias quentes e secos (especialmente ao meio-dia) eram tidos pelos antigos como manifestações físicas da fúria de Pã, espantando o vento e levantando a areia. Entrar em um redemoinho ou profaná-lo atrai a ira do deus, resultando em loucura ou possessão divina (conhecida como panolepsia).

 

Há pessoas, como Pã, fazendo redemoinhos e furacões em suas vidas. Sempre bem no olho deles, a poeira estigmatiza suas visões com tamanha pujança que já não distinguem o certo, do errado. Suspensos no ar, ainda que sem alicerce firme para seus constructos, erigem suntuosos castelos, que logo ruem, como caem-lhes as máscaras e ilusões.

 

Desesperados, como os possessos de Pã, não aceitam a dura realidade que a máxima Sic Transit Glória Mundi estabelece a todos, dementes ou não. A única coisa que fica, se for aprazível, sábia e transformadora de mundos, vidas e gentes, é a memória e/ou legado de testemunhos que damos de nós àqueles que orbitam em torno de nós.

 

Furiosos, além de Pã, esperneiam e gritam ser o que não são, o que jamais foram, nem serão, inescrupulosos, que sob portentosa força da vaidade criam realidades somente reconhecidas por suas visões turvas e aceitas unicamente por aqueles deles dependentes por algum favor devido e/ou financeiramente. Um favor, por vezes, tem aprisiona almas sãs.

 

Nas antigas tradições, o ar representa o elemento primordial associado à vida, mas também, à inconstância e às flutuações do mundo. Na alquimia, o ar relaciona-se à operação da sublimatio (elevação e volatilização), transformando a matéria densa em algo sutil. Purificado pelo ar, o iniciado para deixar para trás as paixões e os vícios do mundo exterior.

 

Envolve serenidade – no sentido de estar pronto receber, discernir e empregar os inefáveis ensinamentos que a natureza oportuniza – e a confiança na retidão, no bom e no verdadeiro para vencer os ruídos do mundo. “Tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Filipenses 4:8).

 

A serenidade não é passividade, mas, uma escuta atenta que nos prepara para aprender com o ambiente e com a vida. Ao pensar no que é verdadeiro, puro, amável e de boa fama, nós mudamos nossa perspectiva e nossas atitudes perante os outros. A calmaria interior funciona como um filtro para o que realmente importa em um mundo digressivo.

 

A serenidade não é ausência de movimento, mas ordem interior. É o estado em que a mente, livre da urgência reativa, consegue distinguir o sinal do ruído. A natureza "oportuniza" – não impõe, não grita —; ela oferece padrões, ciclos, repetições que só se tornam legíveis a partir de uma certa quietude. Quem está agitado não vê o padrão; vê apenas o estímulo.

 

O "ruído do mundo" – opinião alheia, urgência artificial, comparação, medo – funciona porque opera na camada da reação. A “confiança na retidão” não é ingenuidade – é a convicção de que o que é verdadeiro não depende da aprovação alheia para existir. Isso libera: não é preciso defender, não é preciso vencer, é preciso apenas agir de acordo com a sã moral.

 

O "ruído do mundo" é, na linguagem heideggeriana, o domínio do pensamento calculativo – que representa, classifica, domina – sobre a experiência. A Gelassenheit – o deixar-ser – é a saída: não um rejeitar a tecnologia e o mundo, mas, um "sim e não" simultâneo – usar o mundo, porém, mantê-lo à distância; estar nele, não sendo por ele determinado.

 

A serenidade não é um estado, é prática. Para os estoicos, é prosoché – atenção vigilante ao que depende de nós.  Para Heidegger, é Gelassenheit — o deixar-ser que é, paradoxalmente, a forma mais alta de ação. O "nisso pensai" de Paulo é, em cada uma dessas chaves, a mesma coisa: uma disciplina da abertura. Sem disciplina não há fé na criatura.

 

Assim, a fé inabalável no bem, na justiça e na verdade como as forças definitivas capazes de silenciar os ruídos, os caos e as ilusões do mundo exterior – e um coração calmo e a mente aberta para acolher – direcionam intencionalmente a mente para pensamentos limpos, honestos e livres de malícia, cultivando uma integridade que protege a alma.

 

A Prova do Ar ensina que, apesar das turbulências e contradições da vida, o foco sempre repousa no autoaperfeiçoamento guiado por princípios justos que restabelecem o equilíbrio interno. “Todo penso é torto”, reafirma Eunice Macedo. Nada fica em pé muito tempo se não estiver devidamente aprumado e nivelado pelas leis que estabelecem a felicidade.

 

"Todo penso é torto" do folclore popular e na música (aparece em Aceito Tudo, de Di Melo), estabelece uma epistemologia: nenhum pensamento, por si só, é reto, completo ou definitivo. Toda percepção é enviesada pelo contexto, pela emoção do momento, pela limitação do ponto de vista, ou seja, a primeira leitura da realidade é sempre incompleta.

 

"Nada fica em pé muito tempo se não estiver devidamente aprumado e nivelado" evoca os pedreiros e transposta para a vida interior, a ideia é que os princípios funcionam como o prumo e o nível – não como regras rígidas externas, mas como critérios internos de alinhamento. Sem eles, a pessoa "fica torta" e, cedo ou tarde, desmorona sob a pressão das circunstâncias.

 

A felicidade não é ausência de turbulência, mas a capacidade de manter o eixo interno mesmo quando o entorno está em caos. Isso reverbera com a ideia budista de que o sofrimento vem da resistência ao que não se pode mudar, não do evento em si. Portanto, não ser Pã, nem pânico, e laborar do “meio-dia à meia-noite” para não o ser é a meta.

 

Maranguape, Ceará, 21 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


domingo, 20 de setembro de 2026

SONHEI QUE EU ERA UM TROVADOR

 

Um domingo (20/09) embalado ao som do seresteiro nacional que canta: “sonhei que eu era um dia trovador, dos velhos tempos que não voltam mais” a me confirmar que nesta inglória modernidade menino manifesta a precocidade que envelhece um imortal e velho age com a irreverência e matreirice dos meninos pançudos e não chega a imortalidade, pois, como a poeira, bem ali vira areia para atender aos gatos.

 

A precocidade do menino moderno não é maturidade, mas sim, o esgotamento prematuro do espanto. Ao pular etapas, o jovem perde a capacidade de contemplação que fundamenta a sabedoria (o "imortal"). O velho que age com a "matreirice dos meninos pançudos" abdica do papel de guardião da memória. Quando a ancestralidade se recusa a envelhecer com dignidade, a sociedade perde sua âncora metafísica. Rompe-se o pacto entre as gerações.

 

Há neste expressar um eco do Eclesiastes ("tudo é vaidade", "do pó vieste e ao pó voltarás"), mas, esvaziado de solenidade religiosa. O destino final do ser humano não é o julgamento divino ou a memória eterna, mas, a utilidade biológica e doméstica mais profana: servir de liteira para felinos. É o triunfo do absurdo de Albert Camus, onde a existência humana é desprovida de qualquer propósito cósmico superior.

 

A reflexão sobre o menino que envelhece antes de ser imortal e o velho que age com a "irreverência e matreirice dos meninos pançudos" sem chegar a essa imortalidade dialoga diretamente com o lamento da canção. O trovador de "O Trovador" sonha com os velhos tempos, mas acorda na consciência de que eles não voltam mais. A "flor mais bela em tristes ais na janela, vista de um lampião a gás", é a imagem perfeita da beleza que se sabe passageira — tal como a precocidade do menino e a irreverência do velho que, no fim, "vira areia para os gatos", como poeira que o vento espalha. 

 

Sociólogos da infância apontam que os meios digitais e o mercado de consumo expõem as crianças precocemente ao mundo adulto. O "menino" absorve códigos, ansiedades e dinâmicas de performance que outrora pertenceriam à maturidade, gerando um esgotamento psicossocial prematuro (o "envelhecer" antes do tempo). A infância deixa de ser um espaço protegido de desenvolvimento e torna-se uma etapa colonizada pela lógica da produtividade. 

 

Inversamente, o "velho que age com a irreverência e matreirice dos meninos pançudos" reflete o fenômeno do juvenilismo institucionalizado. Na sociedade industrial e pós-industrial, o conhecimento acumulado perde valor rapidamente para a inovação tecnológica. O idoso, destituído de seu papel tradicional de "sábio" ou conselheiro comunitário (o "imortal"), é empurrado a mimetizar os comportamentos da juventude para manter-se socialmente visível ou integrado.

 

Zygmunt Baumann teoriza sobre esses "vieses colaterais" da modernidade, onde os indivíduos que não servem mais à engrenagem de produção e consumo tornam-se "vidas desperdiçadas". Não há espaço para a memória histórica ou para a construção de um legado ("imortalidade"); no tecido social hiperindividualista, o indivíduo é atomizado, fragmentado e rapidamente substituído, retornando ao ciclo ecológico de forma crua, sem rituais de permanência. 


A destituição da transcendência do sujeito moderno reduz o ser humano à sua utilidade material mais imediata. Quando os adultos e idosos renunciam à responsabilidade da mediação cultural e agem com a "matreirice" infantil, ocorre uma quebra na transmissão intergeracional de valores, gerando o que Émile Durkheim chamaria de anomia – a ausência de referenciais normativos claros. Revela uma sociedade que atropela o tempo biológico e social para alimentar suas demandas imediatas, resultando em crianças exaustas, idosos desorientados e uma completa banalização da biografia humana.

 

O desejo humano de transcendência (a imortalidade, a glória, o nome cravado na história) é confrontado com a imanência mais rasteira. São dias de contrariedade aos velhos tempos onde cada “macaco no seu galho” era a ordem dia. Meninos tinham sua acreditação como futuro da nação e a educação dos bons usos e dos melhores costumes garantia-lhes tal predição, pois, felizes praticavam habitualmente a disciplina e a razão. Neste tempo, eu colhia referências, como a feita uma senhor que meu avô dizia ser a dignidade de Missão Velha, pois, são elas são as âncoras que me impedem de navegar no “Mar dos Comuns”. Velhos gozavam da mais aquilatada respeitabilidade, ancorados na perene prática da sã moral e da retidão. 


Por isso, rejeito a "inglória modernidade" em prol dos "velhos tempos" e, nisto, manifesto, não somente, a recusa a ser colonizado pela cultura de massa contemporânea, como também, o alerta para as mudanças tecnológicas, sociais e de ritmos de vida que acontecem em uma velocidade tamanha que o "presente" encolhe. O menino precisa ser precoce porque a sociedade exige dele competências para o futuro antes mesmo que ele entenda o presente. O velho adota a "matreirice dos meninos" porque envelhecer com lentidão e contemplação virou sinônimo de obsolescência produtiva.

 

Nesta liquidez contemporânea, somos impulsionados no desembesto arretado para não ficar para trás, subvertendo idades biológicas, em busca, não somente, de “permanecer”, mas, para ser o que os novéis tempos não lhes oportunizam: morre os escrúpulos para nascer vilezas de todas as ordens, tamanhos e repercussões. Nas sociedades tradicionais, galgava-se a "imortalidade" através do nome, da família ou dos testemunhos de si deixado para a comunidade. Na sociedade do desempenho atual, o indivíduo vale apenas pelo que produz hoje – não há limites para a prática dos vilipêndios ético-morais, vale tudo!

 

Quando digo "vira areia para atender aos gatos", denuncio a total funcionalização e mercantilização da existência. Sem rituais de transcendência, sem laços comunitários profundos que preservem a memória dos que se vão, nos permitimos reduzir à matéria-prima utilitária. Perdemos o direito ao luto histórico; somos rapidamente reciclados pela engrenagem social. Este o retrato sociológico de uma crise de pertencimento avassaladora. 


Estamos, pois, impotentes diante das forças macroestruturais da modernidade, por isso uso da ironia, da nostalgia e da crueza poética para digerir o incontestável fato de que a sociedade atual não foi feita para durar, e com a mesma efusividade evoco bússolas morais como meu avô – como aquele a quem meu avô diz ser a dignidade de Missão Velha –, meu pai e tantos vultos sócio-históricos que devem ser resgatados e cultuados, pois, seus exemplos tem o condão de arrastar consciências para a construção do mundo erigido sob a solidez dos são princípios da moral e da razão.

 

Maranguape, Ceará, 20 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

 


sábado, 19 de setembro de 2026

O SERTÃO E O HOMEM: ESPELHO E FORJA

 

Por fim, mais uma vez, longe dos ares litorâneos, recebendo a purificação dos ventos quentes do sertão que sibilam em torno de nós limpando as mazelas da metrópole: competição desenfreada para ser o que não se é e/ou que não se pode ser – seja por incompetência, seja por não atender a legalidade exigida a todos nós.

 

Aqui, o sertão e o homem são um só no desbravar que fazem da natureza um do outro, onde se desenvolve o homem em sua majestade – ser um empréstimo de Deus à Terra – e se enaltece o sertão – como a mais excelsa escola de homens fortes e determinados a ser o orgulho da nação brasileira pelo testemunho que dão si a tudo que os orbita.

 

Quando afirmo que "o sertão e o homem são um só" evoco a Euclides da Cunha que em Os Sertões conceitua: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte", porém, garanto nossa interdependência com a espiritualidade de forma muito particular ao definir o homem como um "empréstimo de Deus à Terra".  Se somos de Deus, puros devemos estar.

 

Este empréstimo implica devolução. O homem sertanejo, formado pelo sertão, existe para "ser o orgulho da nação brasileira" – não por mérito próprio, mas por destinação. O sertão é a escola, mas o professor é Deus que o capacita para uma finalidade institucional ou militante – a de definir quem é o "verdadeiro brasileiro" e onde ele se forma.

 

O exemplo é o gabarito que forja o veraz humano – brasileiro ou não –, como diz o adágio do povo: o exemplo arrasta, quando palavras apenas convencem. E, claro, há uma enorme distância entre o que se faz e o que se diz. O sertão, como depurador encurta essa distância para que o sertanejo se devolva ao Criador na condição original de empréstimo divino.

 

Ainda que tenhamos dificuldade de perceber e/ou de aceitar essa riqueza em sua pujança plena, o homem jamais será dono de si, muito menos produto da história, tão pouco da biologia – é empréstimo, ou seja, pertence a Deus e foi cedido à Terra por tempo determinado, onde deve cumprir a missão de apresentar a Deus e os homens dignamente aprovado.

 

Envolve ser portador de uma dignidade inalienável, ou seja, se o homem é de Deus, nenhuma "mazela da metrópole" (competição, ilegalidade, incompetência) pode definir seu valor, dizer-lhe quem ele é, muito menos que deve ser. Conhecer-se a si mesmo e aprimora-se no vigor dos quatro elementos é o dever primaz do homem são moralmente.

 

Este influxo ecoa a mestria de Euclides da Cunha: “o homem é uma variável dependente no jogar dos elementos" – a terra determina o homem, porém, o homem também transfigura a terra. O sertão é, ao mesmo tempo, forja e obra. Nele o homem atua com total autonomia, mas, reage como uma consequência direta das forças da natureza.

 

Exalto até aqui, como sigo fazendo, a resiliência e a dignidade dos bravos que vivem e se desenvolvem longe das aparências e das competições desenfreadas das grandes cidades, onde o ócio é o ópio dos muitos que se iludem ao som do “canto das sereias” e naufragam nos mares da prosperidade por não terem braços habilitados ao nado.

 

A vida fora do ritmo apressado da metrópole guarda o verdadeiro sentido das coisas e a essência da dignidade humana. O sertanejo retrata aquele que laureado pela simplicidade vive com autenticidade, longe das pressões que artificialidade impele – em a cobrança constante de exibir o que não se é. O sertanejo é aquilo que pratica habitualmente.

 

O labor real do sertanejo manifesta a dignidade de construir o próprio sustento com o suor sincero e sem artifícios, numa resistência silenciosa: a capacidade de se manter firme e enraizado, mesmo diante das dificuldades, estando verdejante e dando frutos, ainda que em meio mais severa das secas como o “juá” – árvore juazeiro – assim o faz prestimosamente.

 

Assim como o Ziziphus joazeiro – o “juá” –, o sertanejo extrai força de suas raízes culturais – memória, ancestralidade e técnica adaptativa – e de sua determinação para prosperar e dar frutos onde a escassez desafia a vida. O sertanejo não somente habita o mundo; ele se funde a ele. Sua resistência não é uma teimosia cega, mas um enraizamento ontológico.

 

Arquitetar e construir seu sustento sem artifícios – oportunismos, marmeladas e/ou garapas – concede ao sertanejo a autoria sobre a própria vida. Afastando-se da alienação: seu esforço é direto, tangível e moralmente íntegro. Lembra-nos do conatus de fala Espinoza: o esforço contínuo que cada coisa faz para perseverar no seu próprio ser.

 

O sertanejo mostra-nos que a escassez exterior (a seca) não se traduz em miséria existencial; ao contrário, ela tensiona o espírito para que ele produza sua própria abundância interna. Dar frutos no deserto é um ato de subversão metafísica: mostra que a generosidade e a dignidade não são filhas da facilidade, mas, frutos maduros da abnegação e da coragem.

 

Enquanto a modernidade hiper tecnológica vorazmente promove uma existência fluida, superficial e descolada da terra, o sertanejo manifesta o que o filósofo Martin Heidegger chamaria de habitar poético. O "labor real" do sertanejo distingue o artifício – a simulação, a burocracia vazia ou a exploração estética — e a sinceridade do suor.

 

O suor é o perfume do mérito, pois, é sua essência é extraída no efluir dos feitos e dos efeitos, conforme a ética do trabalho em Hannah Arendt, onde a ação humana transforma o mundo e confere sentido à existência. A dignidade humana máxima do sertanejo é retratada em suas ação, como homem livre e igual a seus pares, com quem constrói o mundo.

 

Jamais será livre aqueles que se perderam no oceano do querer por querer, do ter por ter, como também, jamais gozará da sinceridade dos iguais aqueles que na penumbra do tempo e do olhar empenham sua inventividade a digredir a realidade. Estas agências são o sutil veneno que fenece a alma sertaneja, ao passo que manifestam o viril perjúrio no homem.

 

O sertanejo é muito mais que amigo, é fraterno. Sua fraternidade vige alteridade e propícia a inclusão de todos sob o teto bons costumes que acolhe os irmãos. Irmãos que preferem honram uns outros com seu respeito ao respeitável. E respeitáveis são aqueles que pautam seu caminhar no cumprimento à legalidade que nos imputa o sagrado e os homens.

 

Ainda que sinuosos os caminhos onde transita o sertanejo, seus passos são sempre retos e próspero é o lar onde habita, pois, ele é cônscio que somente é seu o que ele pode levar consigo aonde for. O sertanejo é leve pela pureza d’alma que ar do sertão assim faz perene; mas, também, pelo desapego daquilo que não alimenta seu espírito, nem lhe faz feliz.

 

A felicidade do sertanejo é o abraço fervoroso ao que é belo, robusto e sábio. Não há beleza maior que ser exemplo. Força maior que o exemplo é o amor como que agimos dia a dia ao sabor do sol abrasador do sertão que nos forja corpo e alma como exemplo vivo das determinações divinas. Sabedorias que o sertanejo espelha no sorriso franco.

 

Uma franqueza que somente o sertão ensina, pois, sob seus auspícios maquiagens não duram no rosto, portanto, inverdades não respiram seu ar. Seu fervor verdadeiro não permite o levantar do voo dos Ícaros, pois, a cera derrete e cai por terra antes que as penas a toquem, assim, as asas da usurpação nem se formam. O sertão e o sertanejo espelho um do outro.

 

Maranguape, Ceará, 19 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

OS SIMBOLOS NACIONAIS NOS IDENTIFICAM ONDE ESTIVERMOS

 

Pertencer é identificar-se naquilo desperta o senso de pertencimento, que é uma das forças mais potentes da experiência humana. Quando nos identificamos com um grupo ou espaço de forma autêntica – sem máscaras, inverdades ou omissões –, nossa identidade é validada e fortalecida. É essa base de respeito mútuo e igualdade de direitos que transforma uma simples conexão em um profundo "orgulho de ser".

 

Envolve encontrar eco no outro, em um grupo ou em um espaço por meio das conexões que construímos, que não se erigem sobre o alicerce da negligência com os direitos que tornam “iguais” aqueles a quem alcançam. O senso de pertencimento ao imprimir o “orgulho de ser” tem nos símbolos – sejam eles bandeiras, rituais, linguagens comuns ou tradições – o renovador permanente de seu abraço.

 

O pertencimento que "não se erige sobre o alicerce das inverdades" reverbera diretamente o alerta da professora Miriam Debieux Rosa, do IPUSP, sobre grupos que condicionam o pertencimento a uma "adesão acrítica" e se auto enaltecem em detrimento do outro. O pertencimento genuíno, como ela define, exige que o sujeito seja reconhecido como sujeito de direitos – dignidade, cultura e diferenças respeitadas.

 

Na Fenomenologia do Espírito, a consciência-de-si não se constitui sozinha: ela precisa de outra consciência que a confirme. Só sabemos o que somos quando outrem retratam nossa imagem. Não se trata de espelhamento passivo, mas de uma luta – a dialética do senhor e do escravo mostra que o reconhecimento unilateral (um que se submete, outro que domina) é uma forma degenerada, uma "inverdade" estrutural.

 

Acontece que um pertencimento construído sobre a subordinação de um ao outro não é pertencimento, é dominação disfarçada de vínculo. O pertencimento genuíno, no sentido hegeliano, exige que ambos se reconheçam como sujeitos de igual dignidade. Alinha-se com as tradições, saberes e expressões artísticas compartilhadas por uma nação, unindo gerações pelo afeto, pela memória e pelos símbolos que nos enaltece.

 

Os símbolos (cores, rituais, linguagens, bandeiras, músicas) funcionam como marcadores que tornam tangível a pertença e reforçam o vínculo coletivo. Ocorre quando o eco e a validação acontecem no nível mais profundo de quem nós somos (gênero, sexualidade, raça, neurodivergência). Conecta o indivíduo à sua terra natal, à sua ancestralidade geográfica e ao território onde fincou suas raízes.

 

Quando essas conexões são rompidas ou postas em xeque por violações de direitos, o "orgulho de ser" se desfaz junto com o pertencimento – e é aí que o sentimento vira uma construção sobre inverdades. E tudo que é assim construído logo rui.  Esse "orgulho de ser", em termos de Honneth, retrata a experiência de uma relação positiva consigo mesmo que só é possível quando se é reconhecido pelos demais.

 

Neste sentido, os símbolos nacionais são cruciais para o desenvolvimento do senso de pertencimento, pois, representam a história, os valores e a identidade de uma nação, proporcionando um sentimento de união e orgulho para os cidadãos.  Eles funcionam como elementos de reconhecimento mútuo, reforçando a sensação de que se faz parte de um mesmo coletivo. Somos o que nos identifica.

 

Símbolos, como bandeiras, músicas (hinos, inclusive) ou monumentos nacionais etc., funcionam como representações visuais ou auditivas da identidade coletiva. Eles ajudam a perpetuar memórias históricas compartilhadas e criam um senso de continuidade entre o passado e o presente. Unem o passado ao futuro, ao passo que, se arraigam no presente, onde servem como um referencial valioso a orientar nossas escolhas e ações.

 

Os símbolos nacionais carregam em si a essência da independência e da formação da nação, conectando os cidadãos à sua trajetória e cultura, promovendo a coesão social e o reconhecimento de uma identidade coletiva comum. Ao celebrar e ensinar sobre os símbolos nacionais, criam-se pontes entre as novas gerações e a história do país, garantindo a continuidade da identidade nacional do legado da nação que representam.

 

Etimologicamente, a palavra símbolo foi formada de syn (junção, junto, concomitantemente) e bolleos (cujo sentido mais próprio concerne a laçadeira); desse modo, synbolon concerne a sinal de reconhecimento, e muito próximo a senha.  Importante lembrar, ainda, que a palavra latina sina (signa, plural de signum ou signo) significa, também, sinal:  tanto é o processo quanto o resultado da transmissão de dados. 

 

Representando os ideais e os valores de uma nação, como o patriotismo e a busca por um futuro próspero, os símbolos nacionais são compartilhados por todos os membros da sociedade, sendo usados para expressar o espírito cívico como estabelecem a Lei nº 5.700/1971 regulamenta a forma e a apresentação desses símbolos e a Lei nº 12.472/2011 inclui o estudo dos símbolos nacionais no currículo escolar.

 

A educação e a cultura, em suas diversas formas, artes e saberes são, portanto, pilares essenciais para a construção de um povo livre, próspero e soberano, que reconhecendo e valorizando sua própria cultura, fortalece a sua identidade e cria uma base sólida para construir o futuro, evitando o risco de ser subjugado por outras culturas ou de perder a sua essência. Uma cultura forte não habita numa sociedade fraca.

 

No Brasil, os símbolos nacionais são quatro: a bandeira, as armas, o selo e o hino. Eles representam o nosso país em cerimônias, eventos, documentos importantes e missões oficiais. Aliás, esses símbolos carregam consigo significados profundos, servindo como elementos de união e orgulho, por isso, são respeitados por todos os cidadãos brasileiros. Em alguns momentos, esses símbolos nacionais nos falam muito alto ao coração!

 

Por isso, neste dia 18 de setembro, honramos nossos símbolos nacionais e reafirmamos nosso compromisso com a pátria e fortalecemos o sentimento de pertencimento e orgulho entre todos os brasileiros. Nesta ocasião, cultuamos a Bandeira, o Brasão de Armas, o Hino e Selo Nacional e contemplamos suas relevâncias como emblemas que representam nossa identidade e valores como nação.

 

Maranguape, Ceará, 18 de Setembro de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS

Assessoria Especial da Presidência

Cléber Tomás Vianna

Diretoria de Comunicação Social

Bruno Bezerra de Macedo

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

SÃO CORRUTO DAS PRAGAS DOS ÚLTIMOS DIAS

 

Em tempo de eleição, o corruto ganha dimensão. Todo corruto prega contra si. São os atos falhos gritando a dor de suas consciências feridas por atos ignóbeis que praticam contra a razão, os bons costumes e contra o que estabelece o contrato social a partir do qual toda humanidade entregou sua liberdade natural em prol de um viver feliz onde os homens comungam de interesses comuns ao desenvolvimento e à felicidade de todos.

 

Desesperado, o corruto tenta de todas os modus e formas digredir sua real imagem como a dizer: “só fiz isso por causa dele; não sabia que precisava disto; etc. Ao agir contra a razão e os bons costumes, o corruto carrega uma culpa que o próprio aparato psíquico não consegue calar, vazando em tropeços, contradições e falhas de fala e de gestos que tipificam seu real caráter.

 

Atos falhos são o ponto onde o Superego (a instância moral internalizada) rompe a censura e se faz ouvir. A consciência "grita" porque a repressão não sustenta o peso da transgressão, afinal, se até mesmo um rato tem consciência, que dirá o corruto. Ele reflete a mais pura essência do adágio popular que prenuncia: “quem disso usa, disso cuida”!

 

Surtado pelo vitimismo que o veste em suas incursões convencimento, o corruto afirma sua “santidade” e declara que está sendo crucificado por algozes que o perseguem exatamente por sua pureza, generosidade e abnegação em servir – mas, somente a si. Acometido da Síndrome do Mártir, ele abusa da manipulação psicológica e do falso altruísmo como alavanca do progresso de si sozinho.

 

Desprovido da vergonha, o corruto elege um ícone impoluto dentre os humanos – respeitável o suficiente para ficar-lhe à sua sombra – em nome do qual, descabidamente, encontra a proteção e a respeitabilidade que seu “caráter” jamais comportará. O escolhido geralmente é um membro enlevado da família. Família que o atura por não ter como contê-lo. 

 

O corruto inverte o postulado de Rousseau: “o homem, no estado de natureza, é livre e guiado por uma piedade natural; ao ingressar na sociedade civil, abdica dessa liberdade natural em troca da liberdade civil, regida pela vontade geral’ – a qual deve visar o bem-estar coletivo e a justiça. Em sede de oportunismo invigiado, o corruto toma à força o que não é seu.

 

Seus "atos ignóbeis" violam não apenas a consciência individual, mas, o próprio pacto que fundamenta a coexistência. Agindo contra a lógica, o bom senso e o bem comum, ele não fere apenas a si – ele degenera a cláusula do contrato social que estabelece o “viver feliz onde os homens comungam de interesses comuns à felicidade de todos”.

 

Cego não percebe – e, mesmo que percebesse, não aceitaria jamais – que sua “divinal pureza de caráter” tão efusivamente propagada e que sua “mestria” tão proficiente a difundir os fundamentos da vida e as regras da natureza são exatamente a luz da qual ele se evade, como o diabo foge da cruz, já que, seus atos egóicos são sempre praticados contrariando sua pregação, à plena obscurescência.

 

Olhar para um corruto dá-nos a ver uma triangulação: a dimensão psíquica (ato falho como sintoma de culpa), a dimensão moral (consciência ferida pela transgressão) e a dimensão política (violação do estatuto social) que convergem num único gesto – o da corrupção que, ao agir contra si mesma, denuncia a si mesma. Quem com ferro fere, com ferro é ferido.

 

O "grito" dos atos falhos é, ao mesmo tempo, o grito do indivíduo e o grito da comunidade traída. A culpa do agente corrupto não é uma culpa privada que, por acaso, fere também a comunidade. Ela é, desde o início, uma ferida no tecido que o sustenta. O "grito" não sai de um indivíduo, ele sai do ponto de interseção entre os dois, porque esse ponto é onde o sujeito existe.

 

A comunidade é a substantivação do corruto – o "eu" que ele tem é o "nós" que ele trai. Por isso a corrupção "prega contra si": não é hipocrisia do “dizer uma coisa e fazer outra”, mas sim, é o ato de violar o laço que o constitui, violando a si mesmo na raiz. O grito do ato falho é o som de um nó sendo puxado de dentro, e o nó é, ao mesmo tempo, o indivíduo e a comunidade.

 

Quando o corrupto tropeça, o que se lhe escapa não é apenas "o que ele sente por dentro". É o que o laço não conseguiu processar. A comunidade ouve no tropeço o próprio pacto sendo violado, porque o pacto é a condição de possibilidade da fala que tropeça. O "grito" é duplo porque a dor é uma só dor, partilhada por dois polos de um mesmo nó. Somente no “nós” existe o “eu”!

 

Essa simultaneidade não é uma metáfora bonita. É a topologia do sujeito social: um único ponto de dor, dois nomes. O corruto grita porque a comunidade foi ferida; a comunidade grita porque o corruto é ela. O ato falho é o lugar onde os dois nomes se tocam e a dor se torna inaudível se não for lida em ambas as chaves ao mesmo tempo. Não há rei sem súdito; nem súdito sem rei.

 

O corruto é rei que muito bem usa o sofrimento – quase nunca real, porém, sempre avantajado – como uma vestimenta ("que o veste") para manipular, gerar culpa e dobrar a vontade dos outros ("incursões de convencimento"). Tomado pelo “Complexo do Messias”, ele se autodeclara um “santo” incompreendido e ultrajado por quem expõe suas atrocidades ético-morais.


Executando a tática clássica de gaslighting, o corruto argumenta que seus supostos defeitos são, na verdade, zelo pelo bem comum, pois, somente ele e suas virtudes supra-humanas são capazes de fazer a diferença, transformar os dias e tornar feliz todo o universo. Alega sofrer não por seus erros, mas porque o mundo é "mau" ou "invejoso" demais para suportar seu altruísmo.


Autodeclarado santo, faz-se o intemerato defensor de si próprio, sendo pra si mesmo o seu mais formidável aplaudidor; sempre disposto a pôr na “cruz” – das perfídias, preconceitos, erros e mal falações que prolata – quaisquer que sejam aqueles que o virão sem a maquiagem que disfarça sua verdadeira imagem.
Ave! São Corruto das Pragas dos Últimos Dias.

 

Maranguape, Ceará, 17 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

CORDEL SUA MAJESTADE, “O PREGO”

 

Em tem de eleição, um cordel do Matuto do Carrasco sobre a cegueira de quem se deixa martelar

Vou contar uma história
Que parece brincadeira,
Mas carrega em seu sentido
Uma verdade traiçoeira:
É a história de um prego
Que se julga majestade,
Sem saber que sua coroa
É a própria cegueira em grade.

O prego tem sua cabeça,
Mas cabeça não é mente;
Tem formato, tem tamanho,
Mas não pensa, infelizmente.
Quando o martelo lhe bate,
Ele aceita sorridente,
E confunde a pancada
Com um afago comovente.

“Bate, bate, meu senhor,
Que eu recebo satisfeito!”
E o martelo vai descendo,
Sem piedade, sobre o peito.
Cada golpe é uma ordem,
Cada toque, uma prisão,
Mas o prego chama carinho
Aquilo que é submissão.

Sua cabeça é achatada,
Para o golpe suportar;
Tem cabeça, mas não sabe
Quando é hora de pensar.
Não pergunta quem o bate,
Nem por que vai apanhar;
Só espera que outra força
Venha e possa o governar.

Esse prego representa
Quem não busca discernir,
Quem entrega a própria vida
Sem sequer querer agir.
Fica à espera de um salvador
Que lhe diga aonde ir,
E depois chama de escolha
O que mandaram cumprir.

A mão que bate é o poder,
É o sistema, é a pressão;
Pode ser uma ideologia,
Uma ordem, uma instituição.
Pode vir como promessa,
Como medo ou proteção;
E o prego, domesticado,
Diz que tudo é afeição.

Não percebe a própria cela,
Nem pergunta pelo chão;
Julga livre a sua escolha,
Sendo escravo da imposição.
Pensa agir por vontade própria,
Mas não vê a direção:
Quem segura o seu martelo
É quem move sua ação.

Eis aí a grande cegueira
Do que pensa que já vê:
Não enxergar dentro de si
O que fizeram dele ser.
O cego não é quem não olha,
Mas quem olha sem perceber;
É aquele que nunca indaga
Quem o manda obedecer.

O prego espera inerte
Por alguém que o faça andar;
Não constrói seu próprio rumo,
Não procura se organizar.
Se aparece uma mão forte,
Logo corre a acompanhar,
Pois desaprendeu consigo
A coragem de lutar.

E assim nasce o usurpador,
Com desejo desmedido:
Quer o trono, quer o céu,
Quer o aplauso merecido —
Mesmo quando nada tem
Que o faça ser escolhido.
Se não entra pela porta,
Entra à força, convencido.

Quer subir até o céu
Sem possuir legitimidade;
Quer chamar de seu direito
O que é pura vaidade.
Não conquista pelo mérito,
Nem alcança por verdade:
Arromba a porta do templo
E chama isso de majestade.

Mas há algo ainda mais triste
Nessa estranha relação:
O prego não é só vítima,
Também presta colaboração.
Sem o prego que consente,
Não trabalha o martelão;
Sem quem aceita a pancada,
Não prospera a opressão.

O golpe vira costume,
O costume vira lei;
A violência vira afago,
E o servil diz: “Eu gostei!”
De tanto ouvir a pancada,
Já nem sabe o que aceitei;
E defende o próprio algoz
Como se fosse o seu rei.

É assim que a dominação
Pode entrar sem fazer guerra:
Vai se alojando na mente,
Vai criando raiz na terra.
Quando o dominado a defende,
A opressão já não desterra;
O carrasco perde o rosto,
E a corrente vira espera.

Há quem chame isso de ordem,
Há quem chame de dever;
Há quem diga: “É necessário,
Não adianta combater.”
E o prego, de tão contente,
Nem pergunta o seu porquê;
Vai pregando a própria vida
Sem saber que vai morrer.

Também existe o medo
De pensar e discordar:
“Se eu sair dessa fileira,
Quem irá me acompanhar?”
Então fica todo mundo
Com receio de mudar;
Melhor ser prego obediente
Que sozinho questionar.

A submissão dá conforto,
Pois dispensa decisão;
Quem nunca escolhe o caminho
Não responde pela direção.
Se o erro vem de outro alguém,
Fica limpa a própria mão.
É mais fácil ser martelo
Quando se foge da razão.

E o prego segue contente,
Pois lhe deram um papel:
Ser aquele que obedece,
Esperando um prêmio no céu.
Enquanto sonha com glória,
Vai cumprindo o carrossel;
Cada volta mais profundo,
Cada golpe mais cruel.

O céu vira recompensa,
A promessa vira anzol;
“Continue suportando,
Que depois virá o sol.”
E o prego, esperançoso,
Vai seguindo o arrebol,
Sem notar que enquanto espera
Vai perdendo o próprio farol.

Há também outra mão oculta
Que ninguém consegue ver:
Não é mão de carne e osso,
Mas nos manda obedecer.
É o mercado, é o costume,
É o modo de consumir;
Cada clique é uma pancada
Que nos manda prosseguir.

Compra aqui, deseja aquilo,
Corre atrás de outra ilusão;
Uma tela chama a outra,
Uma oferta dá a mão.
E o prego pensa ser livre
Porque escolhe a prestação,
Sem notar que seus desejos
Foram feitos pela pressão.

A mão pode ser a escola,
Pode ser televisão,
Pode ser Estado e mercado,
Pode ser religião;
Pode ser a própria família,
Pode ser a opinião.
Quando pensamos com a mente
Que nos impõe a direção.

Tem cabeça, mas não pensa
Com a cabeça que possui;
Fala muito, repete muito,
Mas não sabe o que constrói.
É papagaio do martelo,
Que repete o que ele instrui;
E acredita ser discurso
Aquilo que alguém lhe impôs.

O prego não é simplesmente
Um sujeito sem valor;
É produto de uma estrutura
Que o moldou desde o alvor.
Por isso a pergunta correta
Não é: “Por que não lutou?”
Mas: “Que mundo foi esse
Que o deixou como ficou?”

Não é só preguiça ou medo,
Nem somente estupidez;
É também condicionamento
Repetido muitas vezes.
Quando a ação parece inútil,
Morre a força da altivez,
E o indivíduo se acostuma
Com a própria pequenez.

E o mal pode ser banal,
Sem demônio e sem trovão;
Pode vestir terno e gravata,
Pode assinar um papelão.
Pode apenas cumprir ordens
Sem pensar na decisão;
O perigo está justamente
Na ausência de reflexão.

Ninguém se julga culpado,
Cada qual diz: “Eu cumpri.”
Um aperta algum botão,
Outro diz: “Foi ele ali.”
E o sistema segue inteiro,
Sem que alguém diga: “Eu vi!”
Quando todos são responsáveis,
Ninguém sabe quem feriu.

Assim o prego vai vivendo,
Orgulhoso da prisão;
Pensa ter personalidade,
Mas repete a multidão.
Pensa ter pensamento próprio,
Mas recebe a direção.
Sua voz parece livre,
Mas pertence ao martelão.

Eis a grande ironia
Da majestade do prego:
Ele pensa ser soberano,
Quando é súdito do medo.
Usa a própria cabeça
Para defender o enredo
De quem bate, quem comanda,
Quem o mantém no degredo.

Há celerados que vivem
Numa festa de ilusão;
Fazem do errado o correto,
Do abuso uma exaltação.
Já não ouvem o que é justo,
Nem respeitam a razão;
Sua alegria é ensurdecedora,
Mas não vence a consciência, não.

Porque o justo tem beleza,
E o correto tem vigor;
Ser honesto é andar reto,
Sem precisar do opressor.
E a força mais verdadeira
Não nasce de imposição:
Nasce quando o ser humano
Tem respeito por seu irmão.

Quem respeita a si próprio
Não precisa humilhar;
Quem conhece a própria força
Não precisa dominar.
Quem compreende a liberdade
Não deseja acorrentar;
E quem pensa por si mesmo
Não se deixa martelar.

Por isso, ó nobre prego,
Escute esta conclusão:
Não confunda uma pancada
Com carinho ou proteção.
Nem transforme submissão
Em virtude ou devoção.
Pois quem aceita toda ordem
Abandona a própria razão.

Se o martelo vem descendo,
Antes dele lhe bater,
Pergunte de onde ele veio,
Pergunte o seu porquê.
Quem segura essa mão firme?
Quem mandou ela descer?
E se ninguém lhe responder,
É melhor não se mover.

Pois ter cabeça é muito pouco
Para alguém se libertar;
É preciso ter consciência,
É preciso questionar.
Quem somente tem a cabeça
Para o martelo alcançar
Pode até ser majestade —
Mas nasceu para se curvar.

Sua Majestade, o Prego,
Tem coroa de ilusão;
Seu palácio é uma tábua,
Seu cetro é o martelão.
Sua glória é ser batido,
Sua honra é submissão;
E ele aplaude o próprio algoz
Com sincera satisfação.

Mas talvez ainda haja tempo
De o prego despertar,
De olhar para o próprio corpo
E a si mesmo perguntar:
“Se eu tenho cabeça e penso,
Por que deixo alguém mandar?
Será que o golpe que eu aceito
É aquilo que devo amar?”

E quando o prego desperta,
Já começa a transformação:
Não precisa quebrar o mundo,
Nem incendiar o chão.
Basta erguer a própria mente,
Dar trabalho à reflexão,
E impedir que qualquer mão
Faça dele instrumento vão.

Pois o prego que discerne
Já não é prego qualquer;
Pode até continuar sendo
O objeto que alguém quer,
Mas agora sabe o preço
Daquilo que ele escolher.
Quem desperta a consciência
Não se curva a qualquer fé.

E fica esta derradeira
Lição para meditar:
Não há força de martelo
Que consiga governar
Aquele que, consciente,
Aprendeu a questionar.
Porque o homem que pensa livre
Já começou a se soltar.

Portanto, se alguém disser
Que nasceu para obedecer,
Olhe bem para esse homem
E pergunte o seu porquê.
Talvez tenha uma cabeça,
Mas precise compreender:
Cabeça que não discerne
É só lugar para bater.

E se um dia o usurpador
Quiser o céu conquistar,
Não lhe entregue a sua escada,
Nem o ajude a lá chegar.
Pois o céu da legitimidade
Não se pode usurpar:
Quem não merece a coroa
Não a deve carregar.

Que desperte, então, o prego,
Antes do último martelar;
Que transforme o seu silêncio
Em coragem de pensar.
Pois o pior dos cativeiros
Não é aquele que tem grade:
É aquele em que o cativo
Ama a própria liberdade.

 

Maranguape, 15 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

terça-feira, 15 de setembro de 2026

SUA MAJESTADE “O PREGO”

 

O prego tem cabeça, porém, nada discerne, por isso, aceita contente o afago da mão que lhe bate cadente, isto retrata a alienação, a submissão e a falta de consciência crítica do “cego” que nem a si próprio vê, da massa que aguarda inerte por aquele que a faça mover-se e, claro, também notabiliza a força do usurpador que deseja entrar no céu de qualquer jeito e forma, impondo-se a tudo e a todos que o orbita em sua vileza, porém, totalmente desprovido do justo mérito.

 

Embora tendo “cabeça” (a parte achatada onde o martelo bate), essa cabeça é puramente física; o prego "não discerne" (não tem capacidade de pensar, julgar ou entender a realidade). Por não conseguir raciocinar, o prego confunde a violência do martelo com um "afago" (um carinho), aceitando o golpe de forma "contente", sem perceber que aquilo que parece um toque ritmado ("cadente") é, na verdade, a força que o está destruindo ou submetendo.

 

A cabeça do prego, que "aceita", representa a consciência superficial daquele que recebe o golpe (o afago, a batida) sem discernir sua origem, nem seu sentido. A "mão que lhe bate cadente" é a força externa – o poder, a ideologia dominante, o martelo histórico – que age sobre o prego sem que este o questione. Uma passividade aceita com satisfação – não sofrida. Isso ecoa a noção gramsciana de hegemonia: o dominado internaliza a dominação a ponto de não a enxergar como violência.

 

Essa cegueira não é ausência de olhos, mas, perene ausência de autorreflexão. O prego não se percebe como objeto de uma ação externa; ele se toma por sujeito passivo legítimo. Há aqui reverberação da noção de falsa consciência e da maleducabilidade (Adorno). O prego não age, não se organiza, aguarda que outrem o faça: o salvador, o "mão que bate". É essa autonegligência que torna possível a usurpação por quem "à força desejar entrar no céu”.

 

Em termos clínicos, nessa falsa consciência, o prego acredita que pensa, que escolhe, que está "aceitando" – mas, o processo decisório é externo. O "cego que nem a si próprio vê" é o prego que não se percebe como objeto de uma relação de poder. Ele se torna agente porque "aceita contente", porém, a aceitação é produzida pela mão. É a má-fé sartreana: o prego se esconde atrás do papel d"aquele que aceita" para não enfrentar o fato de que não escolheu.

 

O céu é o lugar da transcendência, da legitimidade última. O usurpador não tem direito próprio ao céu – ele invade pela força. Este fito retrata que a dominação é, em última instância, uma violação de ordem: quem entra no céu por força não é o escolhido, é o agressor. O agressor alterna punição e recompensa (reforço intermitente), e a vítima passa a desejar o estímulo que a machuca, porque o afago é a única fonte de “reconhecimento” disponível. O prego tudo faz para aparecer.

 

Aceitar o céu no seu papel de legitimador e que o usurpador não tem direito ao céu – ele o invade –, psicologicamente, vemos nisso o narcisismo patológico: ele não se contenta com o poder (a mão que bate); ele quer a transcendência (o céu). O líder carismático, na análise de Erich Fromm (A Anatomia da Destrutividade Humana), precisa do seguidor tanto quanto o seguidor precisa do líder: é uma simbiose. O prego não é vítima passiva – ele é cúmplice da usurpação, porque sem o prego que "aceita contente", não existe mão que bate.

 

O prego,  que "aguarda inerte por aquele o faça mover-se", manifesta o desamparo aprendido em escala coletiva: após repetidas experiências em que a ação individual não produziu mudança, o sujeito internaliza a convicção de que agir é inútil. A inércia não é preguiça – é aprendizado. A massa não é "burra"; ela é condicionada. O “salvador”, a "mão que bate" é a figura que rompe a inércia – e é exatamente por isso que é insubstituível: sem ele, o prego não se move.

 

A psicologia social mostra que a submissão ao grupo não é (apenas) covardia – é regulação da ansiedade. O prego "aceita contente" porque a alternativa – discordar, discernir, resistir – gera uma angústia intolerável. O conformismo é um mecanismo de defesa: melhor ser martelado do que ser o prego que se recusa a ser martelado, porque a recusa implica responsabilidade, e a responsabilidade implica a possibilidade de erro. A passividade é confortável – com precisão cirúrgica: "contente".

 

Nesta imagem do prego que "aceita contente o afago da mão que lhe bate cadente" ecoa a definição exata do que Michel Foucault chama de corpo dócil: o corpo que não resiste à disciplina porque a disciplina foi internalizada como prazer. O prego não é forçado; ele aceita. A mão que bate não é o carrasco – é a instituição: escola, fábrica, Estado (com seu ordenamento jurídico), mídia, usos e costumes, etc.) que molda o sujeito a ponto dele desejar a própria moldagem.

 

O "afago" é a biopolítica em sua forma mais sutil: não se mata o prego, cuida-se dele enquanto se o martela. Segundo Baumann, o prego é o consumidor: ele "aguarda inerte" porque não tem projeto – ele tem desejos (que a mão produz) e reações (que a mão dispara). A "mão cadente" é o mercado: não é uma mão única, é um sistema de estímulos que bate "cadente" – repetitivo, mecânico, sem intenção. O prego "aceita contente" porque o consumo é o afago: cada batida é uma compra, um clique, uma notificação.

 

O prego, lido sociologicamente, não é um indivíduo — é um produto da estrutura. Ele não é "burro", não é "preguiçoso", não é "vítima" no sentido passivo: ele é o resultado de um sistema que produz sujeitos que "aceitam contente". Nisso indagamos não o "por que o prego não resiste?", mas sim, "que estrutura produz o prego?" A resposta está na mão, não no prego. E a "mão que bate cadente" não é uma mão – é a ordem social em si: impessoal, mecânica, cadente, e absolutamente indistinguível do afago.

 

O mal não é necessariamente monstruoso – é banal, burocrático, inerte –, preceitua Hannah Arandt. Não sendo um vilão; o prego é um colaborador que "aceita contente" porque não pensa. A "mão que bate cadente" não é um demônio – é uma função, um procedimento, etc. O usurpador que "à força desejar entrar no céu" é o burocrata que executa a ordem sem discernir a ordem – e é essa ausência de discernimento que torna o sistema inescrutável: ninguém é o "vilão", todos somos pregos que "aceitam contentes".

 

A "aceitação contente" é o fetichismo em miniatura: o prego acredita que sua existência vem dele ("eu aceito"), quando na verdade vem da relação externa (a mão). A massa "inerte" é o capital humano que só se move quando o capital econômico o contrata (a mão a bate). O céu é o paraíso prometido que o capital usa para justificar a exploração: "aguarde, o céu virá" – e enquanto aguarda, o prego é martelado. Ele "tem cabeça, porém, não discerne" – foi reduzido a função: ele é o que a mão faz dele. 

 

O prego não se move, pois, não compreende a norma coletiva que lhe diz para onde. Ele aguarda quem o conduza, a "mão que bate" – porque sem referência normativa externa, o prego não sabe o que fazer consigo mesmo. Sua inércia não é apatia; é desorganização moral.  O prego é o homem moderno desarrancado dos laços orgânicos (família, comunidade, ofício) e sem os laços mecânicos (tradição, religião, hierarquia) – fica só a mão externa. É meramente uma marionete.

 

O prego "tem cabeça" – ele fala, pensa, discursa – porém, "não discerne" porque o sistema de classificação que ele usa para pensar é o da mão. Ele pensa com as categorias do dominador. É a violência simbólica: o prego não é silenciado; ele fala, mas, fala na língua de quem o martela. A "cabeça" que "não discerne" é o habitus colonizado: o sujeito tem aparência de autonomia cognitiva, mas, o conteúdo do pensamento é importado – o prego é tolamente um papagaio à mão.

 

O prego não é um escravo – é um cidadão satisfeito com a própria submissão. A "mão cadente" não é o tirano; é a sociedade civil (a escola, a família, a religião, a mídia, etc.) que produz o consenso antes que o Estado precise agir. O usurpador que "à força desejar entrar no céu" é, nesse quadro, o intelectual orgânico que não constrói consenso – invade a legitimidade que deveria ser organicamente produzida. O prego é um camaleão (transmorfo) travestido nas fantasias que sua mente cria.

 

Nesta alegria vivem os celerados, como o prego, num zurro ensurdecedor do que é justo – do ordenamento jurídico que dita as regras do bem-viver –; do que é aprazível – o belo que é ser correto, incorruto e andar reto –; e do que força real – nada é mais robusto do que o respeito com que respeitamos a nós mesmos, pois, o autorespeito nos impele a respeitar tudo que há na interdependência que o respeito enlaça. Essa "alegria dos celerados” é, portanto, uma alegria surda e cega, descolada do que é justo, aprazível e robusto. O prego não vê que prega contra si mesmo. Ele é seu próprio algoz.

 

Maranguape, Ceará, 15 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

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A VERDADE NÃO SE CURVA À OPINIÃO

  Entre o certo e o errado há o ponto de vista. Verdades existem muitas, mas uma supera todas: a verdadeira. Afirma Tiago — filho do trovão,...