Em tem de eleição, um cordel do Matuto do Carrasco sobre a
cegueira de quem se deixa martelar
Vou contar uma história
Que parece brincadeira,
Mas carrega em seu sentido
Uma verdade traiçoeira:
É a história de um prego
Que se julga majestade,
Sem saber que sua coroa
É a própria cegueira em grade.
O prego tem sua cabeça,
Mas cabeça não é mente;
Tem formato, tem tamanho,
Mas não pensa, infelizmente.
Quando o martelo lhe bate,
Ele aceita sorridente,
E confunde a pancada
Com um afago comovente.
“Bate, bate, meu senhor,
Que eu recebo satisfeito!”
E o martelo vai descendo,
Sem piedade, sobre o peito.
Cada golpe é uma ordem,
Cada toque, uma prisão,
Mas o prego chama carinho
Aquilo que é submissão.
Sua cabeça é achatada,
Para o golpe suportar;
Tem cabeça, mas não sabe
Quando é hora de pensar.
Não pergunta quem o bate,
Nem por que vai apanhar;
Só espera que outra força
Venha e possa o governar.
Esse prego representa
Quem não busca discernir,
Quem entrega a própria vida
Sem sequer querer agir.
Fica à espera de um salvador
Que lhe diga aonde ir,
E depois chama de escolha
O que mandaram cumprir.
A mão que bate é o poder,
É o sistema, é a pressão;
Pode ser uma ideologia,
Uma ordem, uma instituição.
Pode vir como promessa,
Como medo ou proteção;
E o prego, domesticado,
Diz que tudo é afeição.
Não percebe a própria cela,
Nem pergunta pelo chão;
Julga livre a sua escolha,
Sendo escravo da imposição.
Pensa agir por vontade própria,
Mas não vê a direção:
Quem segura o seu martelo
É quem move sua ação.
Eis aí a grande cegueira
Do que pensa que já vê:
Não enxergar dentro de si
O que fizeram dele ser.
O cego não é quem não olha,
Mas quem olha sem perceber;
É aquele que nunca indaga
Quem o manda obedecer.
O prego espera inerte
Por alguém que o faça andar;
Não constrói seu próprio rumo,
Não procura se organizar.
Se aparece uma mão forte,
Logo corre a acompanhar,
Pois desaprendeu consigo
A coragem de lutar.
E assim nasce o usurpador,
Com desejo desmedido:
Quer o trono, quer o céu,
Quer o aplauso merecido —
Mesmo quando nada tem
Que o faça ser escolhido.
Se não entra pela porta,
Entra à força, convencido.
Quer subir até o céu
Sem possuir legitimidade;
Quer chamar de seu direito
O que é pura vaidade.
Não conquista pelo mérito,
Nem alcança por verdade:
Arromba a porta do templo
E chama isso de majestade.
Mas há algo ainda mais triste
Nessa estranha relação:
O prego não é só vítima,
Também presta colaboração.
Sem o prego que consente,
Não trabalha o martelão;
Sem quem aceita a pancada,
Não prospera a opressão.
O golpe vira costume,
O costume vira lei;
A violência vira afago,
E o servil diz: “Eu gostei!”
De tanto ouvir a pancada,
Já nem sabe o que aceitei;
E defende o próprio algoz
Como se fosse o seu rei.
É assim que a dominação
Pode entrar sem fazer guerra:
Vai se alojando na mente,
Vai criando raiz na terra.
Quando o dominado a defende,
A opressão já não desterra;
O carrasco perde o rosto,
E a corrente vira espera.
Há quem chame isso de ordem,
Há quem chame de dever;
Há quem diga: “É necessário,
Não adianta combater.”
E o prego, de tão contente,
Nem pergunta o seu porquê;
Vai pregando a própria vida
Sem saber que vai morrer.
Também existe o medo
De pensar e discordar:
“Se eu sair dessa fileira,
Quem irá me acompanhar?”
Então fica todo mundo
Com receio de mudar;
Melhor ser prego obediente
Que sozinho questionar.
A submissão dá conforto,
Pois dispensa decisão;
Quem nunca escolhe o caminho
Não responde pela direção.
Se o erro vem de outro alguém,
Fica limpa a própria mão.
É mais fácil ser martelo
Quando se foge da razão.
E o prego segue contente,
Pois lhe deram um papel:
Ser aquele que obedece,
Esperando um prêmio no céu.
Enquanto sonha com glória,
Vai cumprindo o carrossel;
Cada volta mais profundo,
Cada golpe mais cruel.
O céu vira recompensa,
A promessa vira anzol;
“Continue suportando,
Que depois virá o sol.”
E o prego, esperançoso,
Vai seguindo o arrebol,
Sem notar que enquanto espera
Vai perdendo o próprio farol.
Há também outra mão oculta
Que ninguém consegue ver:
Não é mão de carne e osso,
Mas nos manda obedecer.
É o mercado, é o costume,
É o modo de consumir;
Cada clique é uma pancada
Que nos manda prosseguir.
Compra aqui, deseja aquilo,
Corre atrás de outra ilusão;
Uma tela chama a outra,
Uma oferta dá a mão.
E o prego pensa ser livre
Porque escolhe a prestação,
Sem notar que seus desejos
Foram feitos pela pressão.
A mão pode ser a escola,
Pode ser televisão,
Pode ser Estado e mercado,
Pode ser religião;
Pode ser a própria família,
Pode ser a opinião.
Quando pensamos com a mente
Que nos impõe a direção.
Tem cabeça, mas não pensa
Com a cabeça que possui;
Fala muito, repete muito,
Mas não sabe o que constrói.
É papagaio do martelo,
Que repete o que ele instrui;
E acredita ser discurso
Aquilo que alguém lhe impôs.
O prego não é simplesmente
Um sujeito sem valor;
É produto de uma estrutura
Que o moldou desde o alvor.
Por isso a pergunta correta
Não é: “Por que não lutou?”
Mas: “Que mundo foi esse
Que o deixou como ficou?”
Não é só preguiça ou medo,
Nem somente estupidez;
É também condicionamento
Repetido muitas vezes.
Quando a ação parece inútil,
Morre a força da altivez,
E o indivíduo se acostuma
Com a própria pequenez.
E o mal pode ser banal,
Sem demônio e sem trovão;
Pode vestir terno e gravata,
Pode assinar um papelão.
Pode apenas cumprir ordens
Sem pensar na decisão;
O perigo está justamente
Na ausência de reflexão.
Ninguém se julga culpado,
Cada qual diz: “Eu cumpri.”
Um aperta algum botão,
Outro diz: “Foi ele ali.”
E o sistema segue inteiro,
Sem que alguém diga: “Eu vi!”
Quando todos são responsáveis,
Ninguém sabe quem feriu.
Assim o prego vai vivendo,
Orgulhoso da prisão;
Pensa ter personalidade,
Mas repete a multidão.
Pensa ter pensamento próprio,
Mas recebe a direção.
Sua voz parece livre,
Mas pertence ao martelão.
Eis a grande ironia
Da majestade do prego:
Ele pensa ser soberano,
Quando é súdito do medo.
Usa a própria cabeça
Para defender o enredo
De quem bate, quem comanda,
Quem o mantém no degredo.
Há celerados que vivem
Numa festa de ilusão;
Fazem do errado o correto,
Do abuso uma exaltação.
Já não ouvem o que é justo,
Nem respeitam a razão;
Sua alegria é ensurdecedora,
Mas não vence a consciência, não.
Porque o justo tem beleza,
E o correto tem vigor;
Ser honesto é andar reto,
Sem precisar do opressor.
E a força mais verdadeira
Não nasce de imposição:
Nasce quando o ser humano
Tem respeito por seu irmão.
Quem respeita a si próprio
Não precisa humilhar;
Quem conhece a própria força
Não precisa dominar.
Quem compreende a liberdade
Não deseja acorrentar;
E quem pensa por si mesmo
Não se deixa martelar.
Por isso, ó nobre prego,
Escute esta conclusão:
Não confunda uma pancada
Com carinho ou proteção.
Nem transforme submissão
Em virtude ou devoção.
Pois quem aceita toda ordem
Abandona a própria razão.
Se o martelo vem descendo,
Antes dele lhe bater,
Pergunte de onde ele veio,
Pergunte o seu porquê.
Quem segura essa mão firme?
Quem mandou ela descer?
E se ninguém lhe responder,
É melhor não se mover.
Pois ter cabeça é muito pouco
Para alguém se libertar;
É preciso ter consciência,
É preciso questionar.
Quem somente tem a cabeça
Para o martelo alcançar
Pode até ser majestade —
Mas nasceu para se curvar.
Sua Majestade, o Prego,
Tem coroa de ilusão;
Seu palácio é uma tábua,
Seu cetro é o martelão.
Sua glória é ser batido,
Sua honra é submissão;
E ele aplaude o próprio algoz
Com sincera satisfação.
Mas talvez ainda haja tempo
De o prego despertar,
De olhar para o próprio corpo
E a si mesmo perguntar:
“Se eu tenho cabeça e penso,
Por que deixo alguém mandar?
Será que o golpe que eu aceito
É aquilo que devo amar?”
E quando o prego desperta,
Já começa a transformação:
Não precisa quebrar o mundo,
Nem incendiar o chão.
Basta erguer a própria mente,
Dar trabalho à reflexão,
E impedir que qualquer mão
Faça dele instrumento vão.
Pois o prego que discerne
Já não é prego qualquer;
Pode até continuar sendo
O objeto que alguém quer,
Mas agora sabe o preço
Daquilo que ele escolher.
Quem desperta a consciência
Não se curva a qualquer fé.
E fica esta derradeira
Lição para meditar:
Não há força de martelo
Que consiga governar
Aquele que, consciente,
Aprendeu a questionar.
Porque o homem que pensa livre
Já começou a se soltar.
Portanto, se alguém disser
Que nasceu para obedecer,
Olhe bem para esse homem
E pergunte o seu porquê.
Talvez tenha uma cabeça,
Mas precise compreender:
Cabeça que não discerne
É só lugar para bater.
E se um dia o usurpador
Quiser o céu conquistar,
Não lhe entregue a sua escada,
Nem o ajude a lá chegar.
Pois o céu da legitimidade
Não se pode usurpar:
Quem não merece a coroa
Não a deve carregar.
Que desperte, então, o prego,
Antes do último martelar;
Que transforme o seu silêncio
Em coragem de pensar.
Pois o pior dos cativeiros
Não é aquele que tem grade:
É aquele em que o cativo
Ama a própria liberdade.
Maranguape, 15 de Setembro de 2026
Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

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