Em tempo de eleição, o corruto ganha dimensão. Todo
corruto prega contra si. São os atos falhos gritando a dor de suas consciências
feridas por atos ignóbeis que praticam contra a razão, os bons costumes e contra o que
estabelece o contrato social a partir do qual toda humanidade entregou sua liberdade
natural em prol de um viver feliz onde os homens comungam de interesses comuns ao
desenvolvimento e à felicidade de todos.
Desesperado,
o corruto tenta de todas os modus e formas digredir sua real imagem como a
dizer: “só fiz isso por causa dele; não sabia que precisava disto; etc. Ao agir
contra a razão e os bons costumes, o corruto carrega uma culpa que o próprio
aparato psíquico não consegue calar, vazando em tropeços, contradições e falhas
de fala e de gestos que tipificam seu real caráter.
Atos
falhos são o ponto onde o Superego (a instância moral internalizada) rompe a
censura e se faz ouvir. A consciência "grita" porque a repressão não
sustenta o peso da transgressão, afinal, se até mesmo um rato tem consciência, que
dirá o corruto. Ele reflete a mais pura essência do adágio popular que prenuncia:
“quem disso usa, disso cuida”!
Surtado
pelo vitimismo que o veste em suas incursões convencimento, o corruto afirma
sua “santidade” e declara que está sendo crucificado por algozes que o perseguem
exatamente por sua pureza, generosidade e abnegação em servir – mas, somente a si.
Acometido da Síndrome do Mártir, ele abusa da manipulação psicológica e do falso altruísmo como alavanca do progresso de si sozinho.
Desprovido
da vergonha, o corruto elege um ícone impoluto dentre os humanos – respeitável
o suficiente para ficar-lhe à sua sombra – em nome do qual, descabidamente,
encontra a proteção e a respeitabilidade que seu “caráter” jamais comportará. O
escolhido geralmente é um membro enlevado da família. Família que o atura por
não ter como contê-lo.
O
corruto inverte o postulado de Rousseau: “o homem, no estado de natureza, é
livre e guiado por uma piedade natural; ao ingressar na sociedade civil,
abdica dessa liberdade natural em troca da liberdade civil, regida pela vontade
geral’ – a qual deve visar o bem-estar coletivo e a justiça. Em sede de oportunismo
invigiado, o corruto toma à força o que não é seu.
Seus
"atos ignóbeis" violam não apenas a consciência individual, mas, o
próprio pacto que fundamenta a coexistência. Agindo contra a lógica, o bom
senso e o bem comum, ele não fere apenas a si – ele degenera a cláusula do
contrato social que estabelece o “viver feliz onde os homens comungam de
interesses comuns à felicidade de todos”.
Cego
não percebe – e, mesmo que percebesse, não aceitaria jamais – que sua “divinal
pureza de caráter” tão efusivamente propagada e que sua “mestria” tão proficiente
a difundir os fundamentos da vida e as regras da natureza são exatamente a luz da
qual ele se evade, como o diabo foge da cruz, já que, seus atos egóicos são sempre
praticados contrariando sua pregação, à plena obscurescência.
Olhar
para um corruto dá-nos a ver uma triangulação: a dimensão psíquica (ato falho
como sintoma de culpa), a dimensão moral (consciência ferida pela transgressão)
e a dimensão política (violação do estatuto social) que convergem num único gesto –
o da corrupção que, ao agir contra si mesma, denuncia a si mesma. Quem com
ferro fere, com ferro é ferido.
O
"grito" dos atos falhos é, ao mesmo tempo, o grito do indivíduo e o
grito da comunidade traída. A culpa do agente corrupto não é uma culpa privada
que, por acaso, fere também a comunidade. Ela é, desde o início, uma ferida no
tecido que o sustenta. O "grito" não sai de um indivíduo, ele sai do
ponto de interseção entre os dois, porque esse ponto é onde o sujeito existe.
A
comunidade é a substantivação do corruto – o "eu" que ele tem é o
"nós" que ele trai. Por isso a corrupção "prega contra
si": não é hipocrisia do “dizer uma coisa e fazer outra”, mas sim, é o ato
de violar o laço que o constitui, violando a si mesmo na raiz. O grito do ato
falho é o som de um nó sendo puxado de dentro, e o nó é, ao mesmo tempo, o
indivíduo e a comunidade.
Quando
o corrupto tropeça, o que se lhe escapa não é apenas "o que ele sente por
dentro". É o que o laço não conseguiu processar. A comunidade ouve no
tropeço o próprio pacto sendo violado, porque o pacto é a condição de
possibilidade da fala que tropeça. O "grito" é duplo porque a dor é
uma só dor, partilhada por dois polos de um mesmo nó. Somente no “nós” existe o
“eu”!
Essa
simultaneidade não é uma metáfora bonita. É a topologia do sujeito social: um
único ponto de dor, dois nomes. O corruto grita porque a comunidade foi ferida;
a comunidade grita porque o corruto é ela. O ato falho é o lugar onde os dois
nomes se tocam e a dor se torna inaudível se não for lida em ambas as chaves ao
mesmo tempo. Não há rei sem súdito; nem súdito sem rei.
O
corruto é rei que muito bem usa o sofrimento – quase nunca real, porém, sempre
avantajado – como uma vestimenta ("que o veste") para manipular, gerar
culpa e dobrar a vontade dos outros ("incursões de convencimento"). Tomado
pelo “Complexo do Messias”, ele se autodeclara um “santo” incompreendido e
ultrajado por quem expõe suas atrocidades ético-morais.
Executando a tática clássica de gaslighting, o corruto argumenta que seus supostos defeitos são, na verdade, zelo pelo bem comum, pois, somente ele e suas virtudes supra-humanas são capazes de fazer a diferença, transformar os dias e tornar feliz todo o universo. Alega sofrer não por seus erros, mas porque o mundo é "mau" ou "invejoso" demais para suportar seu altruísmo.
Autodeclarado santo, faz-se o intemerato defensor de si próprio, sendo pra si mesmo o seu mais formidável aplaudidor; sempre disposto a pôr na “cruz” – das perfídias, preconceitos, erros e mal falações que prolata – quaisquer que sejam aqueles que o virão sem a maquiagem que disfarça sua verdadeira imagem. Ave! São Corruto das Pragas dos Últimos Dias.
Maranguape, Ceará, 17 de Setembro de 2026
Bruno
Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado
à ACI - Associação Cearense de Imprensa
Associado
à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

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