sábado, 19 de setembro de 2026

O SERTÃO E O HOMEM: ESPELHO E FORJA

 

Por fim, mais uma vez, longe dos ares litorâneos, recebendo a purificação dos ventos quentes do sertão que sibilam em torno de nós limpando as mazelas da metrópole: competição desenfreada para ser o que não se é e/ou que não se pode ser – seja por incompetência, seja por não atender a legalidade exigida a todos nós.

 

Aqui, o sertão e o homem são um só no desbravar que fazem da natureza um do outro, onde se desenvolve o homem em sua majestade – ser um empréstimo de Deus à Terra – e se enaltece o sertão – como a mais excelsa escola de homens fortes e determinados a ser o orgulho da nação brasileira pelo testemunho que dão si a tudo que os orbita.

 

Quando afirmo que "o sertão e o homem são um só" evoco a Euclides da Cunha que em Os Sertões conceitua: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte", porém, garanto nossa interdependência com a espiritualidade de forma muito particular ao definir o homem como um "empréstimo de Deus à Terra".  Se somos de Deus, puros devemos estar.

 

Este empréstimo implica devolução. O homem sertanejo, formado pelo sertão, existe para "ser o orgulho da nação brasileira" – não por mérito próprio, mas por destinação. O sertão é a escola, mas o professor é Deus que o capacita para uma finalidade institucional ou militante – a de definir quem é o "verdadeiro brasileiro" e onde ele se forma.

 

O exemplo é o gabarito que forja o veraz humano – brasileiro ou não –, como diz o adágio do povo: o exemplo arrasta, quando palavras apenas convencem. E, claro, há uma enorme distância entre o que se faz e o que se diz. O sertão, como depurador encurta essa distância para que o sertanejo se devolva ao Criador na condição original de empréstimo divino.

 

Ainda que tenhamos dificuldade de perceber e/ou de aceitar essa riqueza em sua pujança plena, o homem jamais será dono de si, muito menos produto da história, tão pouco da biologia – é empréstimo, ou seja, pertence a Deus e foi cedido à Terra por tempo determinado, onde deve cumprir a missão de apresentar a Deus e os homens dignamente aprovado.

 

Envolve ser portador de uma dignidade inalienável, ou seja, se o homem é de Deus, nenhuma "mazela da metrópole" (competição, ilegalidade, incompetência) pode definir seu valor, dizer-lhe quem ele é, muito menos que deve ser. Conhecer-se a si mesmo e aprimora-se no vigor dos quatro elementos é o dever primaz do homem são moralmente.

 

Este influxo ecoa a mestria de Euclides da Cunha: “o homem é uma variável dependente no jogar dos elementos" – a terra determina o homem, porém, o homem também transfigura a terra. O sertão é, ao mesmo tempo, forja e obra. Nele o homem atua com total autonomia, mas, reage como uma consequência direta das forças da natureza.

 

Exalto até aqui, como sigo fazendo, a resiliência e a dignidade dos bravos que vivem e se desenvolvem longe das aparências e das competições desenfreadas das grandes cidades, onde o ócio é o ópio dos muitos que se iludem ao som do “canto das sereias” e naufragam nos mares da prosperidade por não terem braços habilitados ao nado.

 

A vida fora do ritmo apressado da metrópole guarda o verdadeiro sentido das coisas e a essência da dignidade humana. O sertanejo retrata aquele que laureado pela simplicidade vive com autenticidade, longe das pressões que artificialidade impele – em a cobrança constante de exibir o que não se é. O sertanejo é aquilo que pratica habitualmente.

 

O labor real do sertanejo manifesta a dignidade de construir o próprio sustento com o suor sincero e sem artifícios, numa resistência silenciosa: a capacidade de se manter firme e enraizado, mesmo diante das dificuldades, estando verdejante e dando frutos, ainda que em meio mais severa das secas como o “juá” – árvore juazeiro – assim o faz prestimosamente.

 

Assim como o Ziziphus joazeiro – o “juá” –, o sertanejo extrai força de suas raízes culturais – memória, ancestralidade e técnica adaptativa – e de sua determinação para prosperar e dar frutos onde a escassez desafia a vida. O sertanejo não somente habita o mundo; ele se funde a ele. Sua resistência não é uma teimosia cega, mas um enraizamento ontológico.

 

Arquitetar e construir seu sustento sem artifícios – oportunismos, marmeladas e/ou garapas – concede ao sertanejo a autoria sobre a própria vida. Afastando-se da alienação: seu esforço é direto, tangível e moralmente íntegro. Lembra-nos do conatus de fala Espinoza: o esforço contínuo que cada coisa faz para perseverar no seu próprio ser.

 

O sertanejo mostra-nos que a escassez exterior (a seca) não se traduz em miséria existencial; ao contrário, ela tensiona o espírito para que ele produza sua própria abundância interna. Dar frutos no deserto é um ato de subversão metafísica: mostra que a generosidade e a dignidade não são filhas da facilidade, mas, frutos maduros da abnegação e da coragem.

 

Enquanto a modernidade hiper tecnológica vorazmente promove uma existência fluida, superficial e descolada da terra, o sertanejo manifesta o que o filósofo Martin Heidegger chamaria de habitar poético. O "labor real" do sertanejo distingue o artifício – a simulação, a burocracia vazia ou a exploração estética — e a sinceridade do suor.

 

O suor é o perfume do mérito, pois, é sua essência é extraída no efluir dos feitos e dos efeitos, conforme a ética do trabalho em Hannah Arendt, onde a ação humana transforma o mundo e confere sentido à existência. A dignidade humana máxima do sertanejo é retratada em suas ação, como homem livre e igual a seus pares, com quem constrói o mundo.

 

Jamais será livre aqueles que se perderam no oceano do querer por querer, do ter por ter, como também, jamais gozará da sinceridade dos iguais aqueles que na penumbra do tempo e do olhar empenham sua inventividade a digredir a realidade. Estas agências são o sutil veneno que fenece a alma sertaneja, ao passo que manifestam o viril perjúrio no homem.

 

O sertanejo é muito mais que amigo, é fraterno. Sua fraternidade vige alteridade e propícia a inclusão de todos sob o teto bons costumes que acolhe os irmãos. Irmãos que preferem honram uns outros com seu respeito ao respeitável. E respeitáveis são aqueles que pautam seu caminhar no cumprimento à legalidade que nos imputa o sagrado e os homens.

 

Ainda que sinuosos os caminhos onde transita o sertanejo, seus passos são sempre retos e próspero é o lar onde habita, pois, ele é cônscio que somente é seu o que ele pode levar consigo aonde for. O sertanejo é leve pela pureza d’alma que ar do sertão assim faz perene; mas, também, pelo desapego daquilo que não alimenta seu espírito, nem lhe faz feliz.

 

A felicidade do sertanejo é o abraço fervoroso ao que é belo, robusto e sábio. Não há beleza maior que ser exemplo. Força maior que o exemplo é o amor como que agimos dia a dia ao sabor do sol abrasador do sertão que nos forja corpo e alma como exemplo vivo das determinações divinas. Sabedorias que o sertanejo espelha no sorriso franco.

 

Uma franqueza que somente o sertão ensina, pois, sob seus auspícios maquiagens não duram no rosto, portanto, inverdades não respiram seu ar. Seu fervor verdadeiro não permite o levantar do voo dos Ícaros, pois, a cera derrete e cai por terra antes que as penas a toquem, assim, as asas da usurpação nem se formam. O sertão e o sertanejo espelho um do outro.

 

Maranguape, Ceará, 19 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

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