Por fim, mais uma vez,
longe dos ares litorâneos, recebendo a purificação dos ventos quentes do sertão
que sibilam em torno de nós limpando as mazelas da metrópole: competição
desenfreada para ser o que não se é e/ou que não se pode ser – seja por incompetência,
seja por não atender a legalidade exigida a todos nós.
Aqui, o sertão e o homem
são um só no desbravar que fazem da natureza um do outro, onde se desenvolve o
homem em sua majestade – ser um empréstimo de Deus à Terra – e se enaltece o
sertão – como a mais excelsa escola de homens fortes e determinados a ser o
orgulho da nação brasileira pelo testemunho que dão si a tudo que os orbita.
Quando afirmo que "o
sertão e o homem são um só" evoco a Euclides da Cunha que em Os Sertões conceitua:
"O sertanejo é, antes de tudo, um forte", porém, garanto nossa interdependência
com a espiritualidade de forma muito particular ao definir o homem como um
"empréstimo de Deus à Terra". Se somos de Deus, puros devemos estar.
Este empréstimo implica devolução.
O homem sertanejo, formado pelo sertão, existe para "ser o orgulho da
nação brasileira" – não por mérito próprio, mas por destinação. O sertão é
a escola, mas o professor é Deus que o capacita para uma finalidade institucional
ou militante – a de definir quem é o "verdadeiro brasileiro" e onde
ele se forma.
O exemplo é o gabarito
que forja o veraz humano – brasileiro ou não –, como diz o adágio do povo: o
exemplo arrasta, quando palavras apenas convencem. E, claro, há uma enorme
distância entre o que se faz e o que se diz. O sertão, como depurador encurta essa
distância para que o sertanejo se devolva ao Criador na condição original de
empréstimo divino.
Ainda que tenhamos dificuldade
de perceber e/ou de aceitar essa riqueza em sua pujança plena, o homem jamais
será dono de si, muito menos produto da história, tão pouco da biologia – é
empréstimo, ou seja, pertence a Deus e foi cedido à Terra por tempo determinado,
onde deve cumprir a missão de apresentar a Deus e os homens dignamente
aprovado.
Envolve ser portador de
uma dignidade inalienável, ou seja, se o homem é de Deus, nenhuma "mazela
da metrópole" (competição, ilegalidade, incompetência) pode definir seu
valor, dizer-lhe quem ele é, muito menos que deve ser. Conhecer-se a si mesmo e
aprimora-se no vigor dos quatro elementos é o dever primaz do homem são
moralmente.
Este influxo ecoa a
mestria de Euclides da Cunha: “o homem é uma variável dependente no jogar dos
elementos" – a terra determina o homem, porém, o homem também transfigura
a terra. O sertão é, ao mesmo tempo, forja e obra. Nele o homem atua com total
autonomia, mas, reage como uma consequência direta das forças da natureza.
Exalto até aqui, como sigo
fazendo, a resiliência e a dignidade dos bravos que vivem e se desenvolvem
longe das aparências e das competições desenfreadas das grandes cidades, onde o
ócio é o ópio dos muitos que se iludem ao som do “canto das sereias” e naufragam
nos mares da prosperidade por não terem braços habilitados ao nado.
A vida fora do ritmo
apressado da metrópole guarda o verdadeiro sentido das coisas e a essência da
dignidade humana. O sertanejo retrata aquele que laureado pela simplicidade vive
com autenticidade, longe das pressões que artificialidade impele – em a
cobrança constante de exibir o que não se é. O sertanejo é aquilo que pratica
habitualmente.
O labor real do sertanejo
manifesta a dignidade de construir o próprio sustento com o suor sincero e sem
artifícios, numa resistência silenciosa: a capacidade de se manter firme e
enraizado, mesmo diante das dificuldades, estando verdejante e dando frutos,
ainda que em meio mais severa das secas como o “juá” – árvore juazeiro – assim
o faz prestimosamente.
Assim como o Ziziphus
joazeiro – o “juá” –, o sertanejo extrai força de suas raízes culturais – memória,
ancestralidade e técnica adaptativa – e de sua determinação para prosperar e
dar frutos onde a escassez desafia a vida. O sertanejo não somente habita o
mundo; ele se funde a ele. Sua resistência não é uma teimosia cega, mas um enraizamento
ontológico.
Arquitetar e construir
seu sustento sem artifícios – oportunismos, marmeladas e/ou garapas – concede ao
sertanejo a autoria sobre a própria vida. Afastando-se da alienação: seu
esforço é direto, tangível e moralmente íntegro. Lembra-nos do conatus de fala Espinoza:
o esforço contínuo que cada coisa faz para perseverar no seu próprio ser.
O sertanejo mostra-nos
que a escassez exterior (a seca) não se traduz em miséria existencial; ao
contrário, ela tensiona o espírito para que ele produza sua própria abundância
interna. Dar frutos no deserto é um ato de subversão metafísica: mostra que a
generosidade e a dignidade não são filhas da facilidade, mas, frutos maduros da
abnegação e da coragem.
Enquanto a modernidade hiper
tecnológica vorazmente promove uma existência fluida, superficial e descolada
da terra, o sertanejo manifesta o que o filósofo Martin Heidegger chamaria de
habitar poético. O "labor real" do sertanejo distingue o artifício –
a simulação, a burocracia vazia ou a exploração estética — e a sinceridade do
suor.
O suor é o perfume do mérito,
pois, é sua essência é extraída no efluir dos feitos e dos efeitos, conforme a ética
do trabalho em Hannah Arendt, onde a ação humana transforma o mundo e confere
sentido à existência. A dignidade humana máxima do sertanejo é retratada em
suas ação, como homem livre e igual a seus pares, com quem constrói o mundo.
Jamais será livre aqueles
que se perderam no oceano do querer por querer, do ter por ter, como também,
jamais gozará da sinceridade dos iguais aqueles que na penumbra do tempo e do
olhar empenham sua inventividade a digredir a realidade. Estas agências são o
sutil veneno que fenece a alma sertaneja, ao passo que manifestam o viril perjúrio
no homem.
O sertanejo é muito mais
que amigo, é fraterno. Sua fraternidade vige alteridade e propícia a inclusão
de todos sob o teto bons costumes que acolhe os irmãos. Irmãos que preferem
honram uns outros com seu respeito ao respeitável. E respeitáveis são aqueles
que pautam seu caminhar no cumprimento à legalidade que nos imputa o sagrado e
os homens.
Ainda que sinuosos os
caminhos onde transita o sertanejo, seus passos são sempre retos e próspero é o
lar onde habita, pois, ele é cônscio que somente é seu o que ele pode levar
consigo aonde for. O sertanejo é leve pela pureza d’alma que ar do sertão assim
faz perene; mas, também, pelo desapego daquilo que não alimenta seu espírito,
nem lhe faz feliz.
A felicidade do sertanejo
é o abraço fervoroso ao que é belo, robusto e sábio. Não há beleza maior que
ser exemplo. Força maior que o exemplo é o amor como que agimos dia a dia ao
sabor do sol abrasador do sertão que nos forja corpo e alma como exemplo vivo
das determinações divinas. Sabedorias que o sertanejo espelha no sorriso franco.
Uma franqueza que somente
o sertão ensina, pois, sob seus auspícios maquiagens não duram no rosto,
portanto, inverdades não respiram seu ar. Seu fervor verdadeiro não permite o
levantar do voo dos Ícaros, pois, a cera derrete e cai por terra antes que as penas a toquem, assim, as asas da usurpação nem se formam. O sertão e o sertanejo espelho
um do outro.
Maranguape, Ceará, 19 de
Setembro de 2026
Bruno Bezerra de Macêdo,
o Matuto do Carrasco
Jornalista – Portador do
CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado à ACI -
Associação Cearense de Imprensa
Associado à ACEJ –
Associação Cearense de Jornalistas

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