Um domingo (20/09) embalado ao som do seresteiro nacional que canta: “sonhei que eu era um dia trovador,
dos velhos tempos que não voltam mais” a me confirmar que nesta inglória modernidade
menino manifesta a precocidade que envelhece um imortal e velho age com a
irreverência e matreirice dos meninos pançudos e não chega a imortalidade, pois,
como a poeira, bem ali vira areia para atender aos gatos.
A precocidade do menino
moderno não é maturidade, mas sim, o esgotamento prematuro do espanto. Ao pular
etapas, o jovem perde a capacidade de contemplação que fundamenta a sabedoria
(o "imortal"). O velho que age com a "matreirice dos meninos
pançudos" abdica do papel de guardião da memória. Quando a ancestralidade
se recusa a envelhecer com dignidade, a sociedade perde sua âncora metafísica.
Rompe-se o pacto entre as gerações.
Há neste expressar um eco
do Eclesiastes ("tudo é vaidade", "do pó vieste e ao pó
voltarás"), mas, esvaziado de solenidade religiosa. O destino final do ser
humano não é o julgamento divino ou a memória eterna, mas, a utilidade
biológica e doméstica mais profana: servir de liteira para felinos. É o triunfo
do absurdo de Albert Camus, onde a existência humana é desprovida de qualquer
propósito cósmico superior.
A reflexão sobre o menino
que envelhece antes de ser imortal e o velho que age com a "irreverência e
matreirice dos meninos pançudos" sem chegar a essa imortalidade dialoga
diretamente com o lamento da canção. O trovador de "O Trovador" sonha
com os velhos tempos, mas acorda na consciência de que eles não voltam mais. A
"flor mais bela em tristes ais na janela, vista de um lampião a gás",
é a imagem perfeita da beleza que se sabe passageira — tal como a precocidade
do menino e a irreverência do velho que, no fim, "vira areia para os
gatos", como poeira que o vento espalha.
Sociólogos da infância
apontam que os meios digitais e o mercado de consumo expõem as crianças
precocemente ao mundo adulto. O "menino" absorve códigos, ansiedades
e dinâmicas de performance que outrora pertenceriam à maturidade, gerando um
esgotamento psicossocial prematuro (o "envelhecer" antes do tempo). A
infância deixa de ser um espaço protegido de desenvolvimento e torna-se uma
etapa colonizada pela lógica da produtividade.
Inversamente, o
"velho que age com a irreverência e matreirice dos meninos pançudos"
reflete o fenômeno do juvenilismo institucionalizado. Na sociedade industrial e
pós-industrial, o conhecimento acumulado perde valor rapidamente para a
inovação tecnológica. O idoso, destituído de seu papel tradicional de
"sábio" ou conselheiro comunitário (o "imortal"), é
empurrado a mimetizar os comportamentos da juventude para manter-se socialmente
visível ou integrado.
Zygmunt Baumann teoriza sobre esses "vieses colaterais" da modernidade, onde os indivíduos que não servem mais à engrenagem de produção e consumo tornam-se "vidas desperdiçadas". Não há espaço para a memória histórica ou para a construção de um legado ("imortalidade"); no tecido social hiperindividualista, o indivíduo é atomizado, fragmentado e rapidamente substituído, retornando ao ciclo ecológico de forma crua, sem rituais de permanência.
A destituição da transcendência do sujeito moderno reduz o ser humano à sua utilidade material mais imediata. Quando os adultos e idosos renunciam à responsabilidade da mediação cultural e agem com a "matreirice" infantil, ocorre uma quebra na transmissão intergeracional de valores, gerando o que Émile Durkheim chamaria de anomia – a ausência de referenciais normativos claros. Revela uma sociedade que atropela o tempo biológico e social para alimentar suas demandas imediatas, resultando em crianças exaustas, idosos desorientados e uma completa banalização da biografia humana.
O desejo humano de transcendência (a imortalidade, a glória, o nome cravado na história) é confrontado com a imanência mais rasteira. São dias de contrariedade aos velhos tempos onde cada “macaco no seu galho” era a ordem dia. Meninos tinham sua acreditação como futuro da nação e a educação dos bons usos e dos melhores costumes garantia-lhes tal predição, pois, felizes praticavam habitualmente a disciplina e a razão. Neste tempo, eu colhia referências, como a feita uma senhor que meu avô dizia ser a dignidade de Missão Velha, pois, são elas são as âncoras que me impedem de navegar no “Mar dos Comuns”. Velhos gozavam da mais aquilatada respeitabilidade, ancorados na perene prática da sã moral e da retidão.
Por
isso, rejeito a "inglória modernidade" em prol dos "velhos
tempos" e, nisto, manifesto, não somente, a recusa a ser colonizado pela
cultura de massa contemporânea, como também, o alerta para as mudanças
tecnológicas, sociais e de ritmos de vida que acontecem em uma velocidade
tamanha que o "presente" encolhe. O menino precisa ser precoce porque
a sociedade exige dele competências para o futuro antes mesmo que ele entenda o
presente. O velho adota a "matreirice dos meninos" porque envelhecer
com lentidão e contemplação virou sinônimo de obsolescência produtiva.
Nesta liquidez
contemporânea, somos impulsionados no desembesto arretado para não ficar para
trás, subvertendo idades biológicas, em busca, não somente, de “permanecer”,
mas, para ser o que os novéis tempos não lhes oportunizam: morre os escrúpulos
para nascer vilezas de todas as ordens, tamanhos e repercussões. Nas sociedades
tradicionais, galgava-se a "imortalidade" através do nome, da família
ou dos testemunhos de si deixado para a comunidade. Na sociedade do desempenho
atual, o indivíduo vale apenas pelo que produz hoje – não há limites para a
prática dos vilipêndios ético-morais, vale tudo!
Quando digo "vira areia para atender aos gatos", denuncio a total funcionalização e mercantilização da existência. Sem rituais de transcendência, sem laços comunitários profundos que preservem a memória dos que se vão, nos permitimos reduzir à matéria-prima utilitária. Perdemos o direito ao luto histórico; somos rapidamente reciclados pela engrenagem social. Este o retrato sociológico de uma crise de pertencimento avassaladora.
Estamos, pois, impotentes diante das forças
macroestruturais da modernidade, por isso uso da ironia, da nostalgia e da
crueza poética para digerir o incontestável fato de que a sociedade atual não
foi feita para durar, e com a mesma efusividade evoco bússolas morais como meu
avô – como aquele a quem meu avô diz ser a dignidade de Missão Velha –, meu pai
e tantos vultos sócio-históricos que devem ser resgatados e cultuados, pois, seus
exemplos tem o condão de arrastar consciências para a construção do mundo erigido
sob a solidez dos são princípios da moral e da razão.
Maranguape, Ceará, 20 de
Setembro de 2026
Bruno Bezerra de Macêdo,
o Matuto do Carrasco
Jornalista – Portador do
CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado à ACI -
Associação Cearense de Imprensa
Associado à ACEJ –
Associação Cearense de Jornalistas

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