segunda-feira, 21 de setembro de 2026

NÃO SER PÃ, NEM PÂNICO, É A META DOS BRAVOS

  

Nesta segunda-feira (21/09), o vento soprando a poeira lembra Pã, o deus da natureza, dos pastores, dos rebanhos e dos lugares selvagens, que costumeiramente dormia durante o meio-dia, e os pastores sabiam que não deviam perturbá-lo nesse horário, pois, ele tinha um temperamento volúvel. Esse medo irracional, súbito e coletivo deu origem à palavra pânico.

 

Os redemoinhos de poeira emergentes do nada em dias quentes e secos (especialmente ao meio-dia) eram tidos pelos antigos como manifestações físicas da fúria de Pã, espantando o vento e levantando a areia. Entrar em um redemoinho ou profaná-lo atrai a ira do deus, resultando em loucura ou possessão divina (conhecida como panolepsia).

 

Há pessoas, como Pã, fazendo redemoinhos e furacões em suas vidas. Sempre bem no olho deles, a poeira estigmatiza suas visões com tamanha pujança que já não distinguem o certo, do errado. Suspensos no ar, ainda que sem alicerce firme para seus constructos, erigem suntuosos castelos, que logo ruem, como caem-lhes as máscaras e ilusões.

 

Desesperados, como os possessos de Pã, não aceitam a dura realidade que a máxima Sic Transit Glória Mundi estabelece a todos, dementes ou não. A única coisa que fica, se for aprazível, sábia e transformadora de mundos, vidas e gentes, é a memória e/ou legado de testemunhos que damos de nós àqueles que orbitam em torno de nós.

 

Furiosos, além de Pã, esperneiam e gritam ser o que não são, o que jamais foram, nem serão, inescrupulosos, que sob portentosa força da vaidade criam realidades somente reconhecidas por suas visões turvas e aceitas unicamente por aqueles deles dependentes por algum favor devido e/ou financeiramente. Um favor, por vezes, tem aprisiona almas sãs.

 

Nas antigas tradições, o ar representa o elemento primordial associado à vida, mas também, à inconstância e às flutuações do mundo. Na alquimia, o ar relaciona-se à operação da sublimatio (elevação e volatilização), transformando a matéria densa em algo sutil. Purificado pelo ar, o iniciado para deixar para trás as paixões e os vícios do mundo exterior.

 

Envolve serenidade – no sentido de estar pronto receber, discernir e empregar os inefáveis ensinamentos que a natureza oportuniza – e a confiança na retidão, no bom e no verdadeiro para vencer os ruídos do mundo. “Tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Filipenses 4:8).

 

A serenidade não é passividade, mas, uma escuta atenta que nos prepara para aprender com o ambiente e com a vida. Ao pensar no que é verdadeiro, puro, amável e de boa fama, nós mudamos nossa perspectiva e nossas atitudes perante os outros. A calmaria interior funciona como um filtro para o que realmente importa em um mundo digressivo.

 

A serenidade não é ausência de movimento, mas ordem interior. É o estado em que a mente, livre da urgência reativa, consegue distinguir o sinal do ruído. A natureza "oportuniza" – não impõe, não grita —; ela oferece padrões, ciclos, repetições que só se tornam legíveis a partir de uma certa quietude. Quem está agitado não vê o padrão; vê apenas o estímulo.

 

O "ruído do mundo" – opinião alheia, urgência artificial, comparação, medo – funciona porque opera na camada da reação. A “confiança na retidão” não é ingenuidade – é a convicção de que o que é verdadeiro não depende da aprovação alheia para existir. Isso libera: não é preciso defender, não é preciso vencer, é preciso apenas agir de acordo com a sã moral.

 

O "ruído do mundo" é, na linguagem heideggeriana, o domínio do pensamento calculativo – que representa, classifica, domina – sobre a experiência. A Gelassenheit – o deixar-ser – é a saída: não um rejeitar a tecnologia e o mundo, mas, um "sim e não" simultâneo – usar o mundo, porém, mantê-lo à distância; estar nele, não sendo por ele determinado.

 

A serenidade não é um estado, é prática. Para os estoicos, é prosoché – atenção vigilante ao que depende de nós.  Para Heidegger, é Gelassenheit — o deixar-ser que é, paradoxalmente, a forma mais alta de ação. O "nisso pensai" de Paulo é, em cada uma dessas chaves, a mesma coisa: uma disciplina da abertura. Sem disciplina não há fé na criatura.

 

Assim, a fé inabalável no bem, na justiça e na verdade como as forças definitivas capazes de silenciar os ruídos, os caos e as ilusões do mundo exterior – e um coração calmo e a mente aberta para acolher – direcionam intencionalmente a mente para pensamentos limpos, honestos e livres de malícia, cultivando uma integridade que protege a alma.

 

A Prova do Ar ensina que, apesar das turbulências e contradições da vida, o foco sempre repousa no autoaperfeiçoamento guiado por princípios justos que restabelecem o equilíbrio interno. “Todo penso é torto”, reafirma Eunice Macedo. Nada fica em pé muito tempo se não estiver devidamente aprumado e nivelado pelas leis que estabelecem a felicidade.

 

"Todo penso é torto" do folclore popular e na música (aparece em Aceito Tudo, de Di Melo), estabelece uma epistemologia: nenhum pensamento, por si só, é reto, completo ou definitivo. Toda percepção é enviesada pelo contexto, pela emoção do momento, pela limitação do ponto de vista, ou seja, a primeira leitura da realidade é sempre incompleta.

 

"Nada fica em pé muito tempo se não estiver devidamente aprumado e nivelado" evoca os pedreiros e transposta para a vida interior, a ideia é que os princípios funcionam como o prumo e o nível – não como regras rígidas externas, mas como critérios internos de alinhamento. Sem eles, a pessoa "fica torta" e, cedo ou tarde, desmorona sob a pressão das circunstâncias.

 

A felicidade não é ausência de turbulência, mas a capacidade de manter o eixo interno mesmo quando o entorno está em caos. Isso reverbera com a ideia budista de que o sofrimento vem da resistência ao que não se pode mudar, não do evento em si. Portanto, não ser Pã, nem pânico, e laborar do “meio-dia à meia-noite” para não o ser é a meta.

 

Maranguape, Ceará, 21 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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