Nesta segunda-feira (21/09),
o vento soprando a poeira lembra Pã, o deus da natureza, dos pastores, dos
rebanhos e dos lugares selvagens, que costumeiramente dormia durante o
meio-dia, e os pastores sabiam que não deviam perturbá-lo nesse horário, pois,
ele tinha um temperamento volúvel. Esse medo irracional, súbito e coletivo deu
origem à palavra pânico.
Os redemoinhos de poeira emergentes
do nada em dias quentes e secos (especialmente ao meio-dia) eram tidos pelos antigos
como manifestações físicas da fúria de Pã, espantando o vento e levantando a
areia. Entrar em um redemoinho ou profaná-lo atrai a ira do deus, resultando em
loucura ou possessão divina (conhecida como panolepsia).
Há pessoas, como Pã,
fazendo redemoinhos e furacões em suas vidas. Sempre bem no olho deles, a
poeira estigmatiza suas visões com tamanha pujança que já não distinguem o
certo, do errado. Suspensos no ar, ainda que sem alicerce firme para seus
constructos, erigem suntuosos castelos, que logo ruem, como caem-lhes as máscaras
e ilusões.
Desesperados, como os
possessos de Pã, não aceitam a dura realidade que a máxima Sic Transit Glória
Mundi estabelece a todos, dementes ou não. A única coisa que fica, se for aprazível,
sábia e transformadora de mundos, vidas e gentes, é a memória e/ou legado de
testemunhos que damos de nós àqueles que orbitam em torno de nós.
Furiosos, além de Pã, esperneiam
e gritam ser o que não são, o que jamais foram, nem serão, inescrupulosos, que sob
portentosa força da vaidade criam realidades somente reconhecidas por suas
visões turvas e aceitas unicamente por aqueles deles dependentes por algum
favor devido e/ou financeiramente. Um favor, por vezes, tem aprisiona almas sãs.
Nas antigas tradições, o
ar representa o elemento primordial associado à vida, mas também, à
inconstância e às flutuações do mundo. Na alquimia, o ar relaciona-se à
operação da sublimatio (elevação e volatilização), transformando a
matéria densa em algo sutil. Purificado pelo ar, o iniciado para deixar para
trás as paixões e os vícios do mundo exterior.
Envolve serenidade – no
sentido de estar pronto receber, discernir e empregar os inefáveis ensinamentos
que a natureza oportuniza – e a confiança na retidão, no bom e no verdadeiro
para vencer os ruídos do mundo. “Tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o
que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Filipenses
4:8).
A serenidade não é
passividade, mas, uma escuta atenta que nos prepara para aprender com o
ambiente e com a vida. Ao pensar no que é verdadeiro, puro, amável e de boa
fama, nós mudamos nossa perspectiva e nossas atitudes perante os outros. A
calmaria interior funciona como um filtro para o que realmente importa em um
mundo digressivo.
A serenidade não é
ausência de movimento, mas ordem interior. É o estado em que a mente, livre da
urgência reativa, consegue distinguir o sinal do ruído. A natureza
"oportuniza" – não impõe, não grita —; ela oferece padrões, ciclos,
repetições que só se tornam legíveis a partir de uma certa quietude. Quem está
agitado não vê o padrão; vê apenas o estímulo.
O "ruído do
mundo" – opinião alheia, urgência artificial, comparação, medo – funciona
porque opera na camada da reação. A “confiança na retidão” não é ingenuidade –
é a convicção de que o que é verdadeiro não depende da aprovação alheia para
existir. Isso libera: não é preciso defender, não é preciso vencer, é preciso
apenas agir de acordo com a sã moral.
O "ruído do
mundo" é, na linguagem heideggeriana, o domínio do pensamento calculativo –
que representa, classifica, domina – sobre a experiência. A Gelassenheit – o
deixar-ser – é a saída: não um rejeitar a tecnologia e o mundo, mas, um "sim
e não" simultâneo – usar o mundo, porém, mantê-lo à distância; estar
nele, não sendo por ele determinado.
A serenidade não é um estado,
é prática. Para os estoicos, é prosoché – atenção vigilante ao
que depende de nós. Para Heidegger, é Gelassenheit — o deixar-ser
que é, paradoxalmente, a forma mais alta de ação. O "nisso pensai" de
Paulo é, em cada uma dessas chaves, a mesma coisa: uma disciplina da abertura.
Sem disciplina não há fé na criatura.
Assim, a fé inabalável no
bem, na justiça e na verdade como as forças definitivas capazes de silenciar os
ruídos, os caos e as ilusões do mundo exterior – e um coração calmo e a mente
aberta para acolher – direcionam intencionalmente a mente para pensamentos
limpos, honestos e livres de malícia, cultivando uma integridade que protege a
alma.
A Prova do Ar ensina que,
apesar das turbulências e contradições da vida, o foco sempre repousa no
autoaperfeiçoamento guiado por princípios justos que restabelecem o equilíbrio
interno. “Todo penso é torto”, reafirma Eunice Macedo. Nada fica em pé muito
tempo se não estiver devidamente aprumado e nivelado pelas leis que estabelecem
a felicidade.
"Todo penso é
torto" do folclore popular e na música (aparece em Aceito Tudo, de Di
Melo), estabelece uma epistemologia: nenhum pensamento, por si só, é reto,
completo ou definitivo. Toda percepção é enviesada pelo contexto, pela emoção
do momento, pela limitação do ponto de vista, ou seja, a primeira leitura da
realidade é sempre incompleta.
"Nada fica em pé
muito tempo se não estiver devidamente aprumado e nivelado" evoca os pedreiros
e transposta para a vida interior, a ideia é que os princípios funcionam como o
prumo e o nível – não como regras rígidas externas, mas como critérios internos
de alinhamento. Sem eles, a pessoa "fica torta" e, cedo ou tarde,
desmorona sob a pressão das circunstâncias.
A felicidade não é
ausência de turbulência, mas a capacidade de manter o eixo interno mesmo quando
o entorno está em caos. Isso reverbera com a ideia budista de que o sofrimento
vem da resistência ao que não se pode mudar, não do evento em si. Portanto, não
ser Pã, nem pânico, e laborar do “meio-dia à meia-noite” para não o ser é a
meta.
Maranguape, Ceará, 21 de
Setembro de 2026
Bruno Bezerra de Macêdo,
o Matuto do Carrasco
Jornalista – Portador do
CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado à ACI -
Associação Cearense de Imprensa
Associado à ACEJ –
Associação Cearense de Jornalistas

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