quarta-feira, 13 de maio de 2026

ABOLIR É LIBERTAR-SE DO FLAGELO QUE PRENDE A TODOS

Tudo começou no Ceará marcado pela brutalidade da Grande Seca (1877-1879) que forçou uma migração massiva do interior para Fortaleza, superpovoando a capital e criando condições insalubres, culminando na devastadora epidemia de varíola que causou milhares de mortes, com um dia do ano 1878 ficando conhecido como o dos "Mil Mortos". Em meio a este caos in voga, a elite debatia soluções e a literatura registrava a tragédia humanitária, a movimentação abolicionista no Ceará estava em um estágio de crescente organização e ativismo, um passo crucial para os eventos subsequentes que levariam o Ceará a abolir a escravidão em 25 de março de 1884, sendo desde então, historicamente, conhecido como a "Terra da Luz" – título popularizado pelo jornalista e abolicionista José do Patrocínio, que era apelidado de "O Tigre da Abolição".

 

Não haveria o cearense de contentar-se com a Lei Eusébio de Queiroz (1850) que se limitava proibir a entrada de escravos no Brasil. Mais do que isso, ansiava pela sua liberdade. A sociedade cearense não cessava de aplaudir o gesto nobilitante dos maçons (chamados “filhos da viúva”) que alforriavam seus escravos em sessões abertas ao público. O jornalista-maçom João Brígido – cunhado do Dragão do Mar, que desposara sua Irmã Ernesta Brígido do Nascimento – foi o esteta da crônica que descreve a vida social da Fortaleza de antanho. Ei-lo numa de suas descrições: “A Loja Maçônica Fraternidade Cearense, onde estava alistada a opulência da Cidade, nas suas festas alforriava a bom preço levas inteiras de cativos”.

 

Animado com as notícias recebidas do Ceará, o maçom-abolicionista José do Patrocínio veio certificar-se delas pessoalmente, desembarcando no Cais do Porto, na manhã de 30 de novembro de 1882 a bordo do navio “Ceará”, foi recebido pela gente da Sociedade Cearense Libertadora. Recorda Elvira Pinho: “Quando ele pulou na ponte, um escravo o beijou e nós lhe cobrimos a cabeça de rosas, o que havia de melhor nos jardins da cidade. Chamaram-lhe de Marechal Negro. Lembro-me do seu encontro com o Chico da Matilde (Francisco José do Nascimento)… “Então, companheiro, o porto está mesmo bloqueado?” Chico da Matilde respondeu com firmeza: “Não há força neste mundo que o faça reabrir ao tráfico negreiro”, retrata Edmar Morel em O Jangadeiro da Abolição. O Tigre da Abolição o chama de “Dragão do Mar”, para exaltar a bravura e a força do prático-mor que, como um guardião mítico das águas, havia "fechado" o porto do Ceará para o tráfico negreiro.

 

Indubitavelmente, a liberdade é, desde sempre, um bem ainda mais precioso do que a própria vida, sendo vista por muitos como o que define a condição humana e a qual não se deve renunciar. Autores como Rousseau e Allende demonstraram que indivíduos e nações estão dispostos a suportar a morte, o fogo e a fome em nome desse valor, pois renunciar à liberdade é renunciar à própria essência humana. Para pensadores como Hegel, a liberdade não é a simples "ausência de restrições" ou "fazer o que se quer", mas, um conteúdo de valor universal que deve ser distinguido de interesses privados. Manter uma existência livre é custoso para a mente humana, exigindo a aceitação da responsabilidade e do sofrimento, mas o preço de não viver livremente é descrito como ainda mais alto, envolvendo a venda da alma e da própria vida.

 

A candeia da liberdade acesa pelo povo cearense logo se tornou um luzeiro aclarando os passos do Brasil rumo à dignificação do humano. De fato, a província cearense não apenas antecipou a Lei Áurea de 1888 ao abolir a escravidão em 25 de março de 1884, como também, enlevou-se como um farol moral e político para as outras províncias.  Esse pioneirismo rendeu ao estado o título de "Terra da Luz", um reconhecimento que ecoou nacional e internacionalmente, sendo até mesmo saudado pelo escritor francês Victor Hugo, sintetizando com poder simbólico o papel histórico do Ceará no processo de abolição da escravidão no Brasil.

 

Mesmo sendo o último país das Américas a abolir a escravidão, após quase 400 anos de um sistema de trabalho forçado, o Brasil a instituiu a partir da Lei nº 3.353, sancionada em 13 de maio de 1888 pela Princesa Isabel, que com apenas dois artigos buscou extinguir o maior flagelo da humanidade: a Escravidão. No primeiro artigo declarava a abolição e no segundo revogava disposições contrárias. A abolição foi um processo lento e fruto de intensas lutas, sendo precedida por leis intermediárias, como a Lei Eusébio de Queirós (1850 - fim do tráfico), Lei do Ventre Livre (1871) e Lei dos Sexagenários (1885), mas, chegou ao fim pelas mãos diligentes da Princesa Isabel que, além da assinatura, atuou de forma ativa na pressão política, incluindo a destituição de ministros contrários à abolição e o apoio a fugitivos de senzalas.

 

A escravização é universalmente reconhecida como um dos maiores e mais persistentes "flagelos da humanidade", devido ao seu impacto devastador e duradouro na dignidade, liberdade e bem-estar de milhões de pessoas ao longo da história e, infelizmente, ainda hoje em formas modernas. Segundo Stephanie Macedo, comunicadora social da Agência de Notícias da Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe, embora a escravidão formal tenha sido abolida legalmente em todo o mundo, formas modernas de escravidão persistem, como o tráfico humano, o trabalho forçado e a servidão por dívida, o que demonstra que a luta contra esse flagelo continua. Conforme reporta a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2021, 49.6 milhões de pessoas viviam em situação de escravidão moderna (o flagelo alcança uma em cada 150 pessoas no planeta Terra). Desse total, 28 milhões de pessoas realizavam trabalhos forçados e 22 milhões estavam presas em casamentos forçados.

 

Assustadoramente, entre 1995 e 2020, mais de 55 mil pessoas foram libertadas de condições de trabalho análogas à escravidão no Brasil, segundo o Radar da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada à Secretaria Especial de Previdência e Trabalho (SEPRT) do Ministério da Economia. As trabalhadoras e os trabalhadores libertados são, em sua maioria, migrantes internos ou externos, que deixaram suas casas para a região de expansão agropecuária ou para grandes centros urbanos, em busca de novas oportunidades ou atraídos por falsas promessas. A maiorias dos trabalhadores libertados são homens, têm entre 18 e 44 anos de idade e 33% são analfabetos. 

 

No entanto, se ergues da justiça a clava forte, Brasil. Verás que teus augustos filhos não fogem à boa luta. Eis que Luiz Gonzaga Pinto da Gama, Luiz Gama, é luta. É legado! Sua vida acessível e inclusiva, acolhendo a diversidade de hipossuficientes (negros, indígenas, brancos podres, imigrantes) dando-lhes sustentabilidade a partir da educação, lazer, reflexão e compartilhamento de conhecimentos, rendeu-lhe a alcunha: "o amigo de todos". A leitura dos escritos de Luiz Gama, segundo a professora Lígia Fonseca Ferreira, "é de surpreendente atualidade: há 150 anos, Luiz, denunciou o racismo institucional pregando valores antirracistas pelos quais, hoje, boa parte do mundo inteiro se mobiliza". Em um mundo onde o "vil metal" perniciosamente imbui e condiciona inescrupulosamente, labutam homens como Luiz Gama, inaugurando a diferença entre o desencanto e a esperança empreendedoramente associando a boa vontade de seus iguais à ação otimamente projetada ao bem fazer à coletividade, à qual busca felicitar.

 

Hoje (13 de Maio) é o dia mais humano do ano aqui no Brasil, pois, concita aos brasileiros ao cumprimento pleno da lei única: “ama a teu próximo como a ti mesmo”, a partir de moções como o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 323/2023 aprovado pelo Senado em 1º de julho de 2025, que embora não esteja sancionado e esteja, mas, aguardando promulgação, mostra ao mundo a boa intenção brasileira de ratificar a Convenção sobre o Trabalho Forçado da OIT (nº 29), celebrada em 28 de junho de 1930, complementada por um protocolo de 11 de junho de 2014, que atualizam as obrigações dos países para erradicar o trabalho forçado moderno, definindo como forçado “todo trabalho ou serviço que é exigido de qualquer pessoa sob a ameaça de qualquer penalidade e para o qual essa pessoa não se voluntaria”.

 

Portanto, não é sem justa causa que a Academia Internacional dos Maçons Imortais tem em Luiz Gonzaga Pinto da Gama o patrono ideal do Museu da Liberdade (que leva seu nome), por ela instituído em 31 de Julho de 2025 para ser um espaço de acolhimento a quem busca o saber. Um equipamento de cultura, de educação e de compartilhamento de conhecimentos que alavanca a real fraternidade entre os povos, abraçando a diversidade e garantindo-lhes sustentabilidade. Um abraço de pertencimento que une propósitos, empodera e embeleza a sabedoria de sermos amigos de todos, como é Luiz Gama, ainda hoje e no povir. Constituída por mais de 200 exuberantes estrelas que a fazem constelação-guia de incontáveis prodígios nas artes, na música e na literatura, a Academia Internacional de Maçons Imortais enaltece a liberdade com bem maior do ser humano, cuja defesa é dever individual de cada ente humano, a bem da humanidade que nos dignifica.

 

Maranguape, Ceará, 13 de Maio de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo


domingo, 10 de maio de 2026

MAIS UM DIA DAS MÃES – DOS MUITOS JÁ IDOS AOS MUITOS QUE VIRÃO

 


Neste Dia das Mães (10/10), como acontece desde tempos imemoriais, festejamos o sagrado feminino liga a mulher à terra, aos ciclos naturais e à intuição, funcionando como um "portal" pelo qual a vida chega à Terra. Além da procriação biológica, as mulheres são co-criadoras da realidade, efluindo inventividade, dando vida a mundos de ideias, ideais e prodígios. O universo é sua “forma", conforme perspectivas místicas, como quer que ela se assuma (homem ou mulher) é considerada superior. A mulher não somente é a cuidadora, como potencialmente é a primaz detentora da energia criativa essencial.

 

A ancestralidade africana – de quem todo a humanidade descende, como certifica a ciência – tem na deidade Nanã Buruku a divindade mais antiga, portanto, “mãe e avó" de todos, pois, é a mais velha dos Orixás existindo desde a criação do universo. Assim sendo, representa a memória do povo. Ela é responsável pelo barro utilizado por Oxalá para moldar os primeiros seres humanos; sua lama é vista como o berço de toda a vida. Nanã Buruku simboliza a justiça implacável, a austeridade e o respeito profundo e é a guardiã dos segredos e da terra.

 

Jamais esqueçamos Neite (ou Neith), uma das divindades mais antigas do panteão egípcio, conhecida como a criadora do universo. Chamada de "Mãe dos Deuses", "A Grande Deusa" e "Avó dos Deuses". Ela abrange múltiplos domínios: guerra, caça, tecelagem, sabedoria, água, destino e funerais. Por verossimilidade, os gregos a têm como Gaia (ou Geia), mãe de todos os deuses e criadora de todas as coisas vivas, denotando a Terra, magnífico colo que abriga a diversidade de criaturas cuja interdependência manifesta a Deusa.

 

O judaísmo notabiliza Sarah, pois, representa o milagre da maternidade após anos de esterilidade, demonstrando que, para Deus, nada é impossível, transformando seu riso de dúvida em alegria. Ela inspira as mães a acreditarem, mesmo quando a situação parece humanamente impossível, e lembra que cada mãe é um instrumento de Deus para gerar vida e esperança, transformando a esterilidade – física ou espiritual – em fertilidade, ainda que aos 90 anos. Sarah é a “Mãe da Promessa”, uma mulher de fé que se tornou a matriarca de uma grande nação.

 

Por justo e muitíssimo oportuno, principalmente, para os Maçons, lembremos sempre da história de Rute, esposa de Boaz, cujos relatos comoventes e significativos da Bíblia exaltam virtudes como lealdade, amor sacrificial, resiliência e a capacidade de recomeçar com fé. Mesmo sendo uma estrangeira (moabita) e viúva, Rute tornou-se um exemplo de caráter e uma peça fundamental na linhagem de Jesus Cristo. Ruth (apoio, boa vontade etc.) desposou Boaz (altruísmo, fraternidade, etc.) e deu à luz a Obede (abnegado, servidor, etc.), pai de Jessé (dádiva, abundância), de quem nasceu Davi (predileto, amado, etc), pai de Salomão e tetravô de Maria de Nazaré.

 

No cristianismo, Maria de Nazaré é reverenciada como a Mãe de Deus (Theotokos), uma figura de intercessão e proteção. Embora não seja criadora do universo no sentido criacional, ela é considerada a Mãe da Humanidade espiritual, com papéis centrais na salvação e na mediação entre os fiéis e Deus. Sua imagem se assemelha às deusas antigas, como Ísis (egípcia) e Gaia (Europa), por exemplo, que também aparecia com o filho ao colo. A energia da mãe se manifesta independentemente de como a denominamos.

 

No Islã, Fátima Zahra, filha do profeta Maomé, possui uma relevância profunda e central para a celebração do Dia das Mães, especialmente na cultura islâmica xiita e em muitas tradições muçulmanas. Ela é considerada a mãe dos onze Imames infalíveis na tradição xiita, tornando seu papel de mãe fundamental para a conexão entre a profecia e o Imamato. Fátima não é apenas uma figura histórica, mas, o modelo supremo de virtude, piedade e maternidade no Islã, sendo frequentemente referida como a "Senhora das mulheres do universo". Maomé chamava Fátima de Omme Abiha, ou "A Mãe de seu Pai", devido ao cuidado profundo e amoroso que ela teve por ele após a morte da mãe dela (Khadija). Esse título destaca sua maturidade emocional e papel protetor, mesmo sendo filha. No Irã, o Dia das Mães é celebrado no aniversário de Fátima (20 de Jamadi al-Thani no calendário islâmico), servindo como uma homenagem direta ao seu legado de amor, paciência e força.

 

No Nordeste, mãe é um símbolo de resiliência, ancestralidade e força vital. Sua essência é sobrevivência com dignidade, amor incondicional e esperança. Representa a figura da mulher que, diante das adversidades do sertão - como a seca, a pobreza e a migração -, mantém viva a vida, a cultura e o amor através do vínculo maternal. Sua identidade está profundamente ligada à fé, à devoção religiosa e ao trabalho constante, seja na roça, na casa ou na luta por dignidade. A mulher nordestina é um pilar fundamental da sociedade brasileira, pois, é protagonistas na preservação da cultura, no desenvolvimento econômico rural e urbano, e na liderança comunitária, conciliando dupla jornada de trabalho com a luta em prol do bem coletivo.

 

Portanto, não podemos não enxergar que a valorização do protagonismo feminino tem crescido, com comissões de mulheres no agronegócio (FAEC/SENAR) e maior reconhecimento da gestão humanizada. Apesar de maior escolaridade, enfrenta desigualdades no mercado de trabalho: rendimento médio 15% menor que o dos homens, 39% de subutilização da força de trabalho e carga de cuidados quase o dobro da dos homens. Na cultura, a mulher nordestina é guardiã dos costumes, preservando tradições por meio da culinária, do artesanato, da música, das festas juninas, dos maracatús e frevos, etc. Não é toa ser a mãe nordestina protagonista da informalidade e empreendedorismo, sustentando famílias com vendas de produtos típicos, artesanato e serviços, manifestando sua força inata com a qual exempla o mundo. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a personagem Sinhá Vitória representa a força feminina diante da adversidade.

 

Contemplar a Mãe Nordestina radica a certeza de que a quem Deus alumia, a escuridão não aterroriza. Ela é fiandeira e tecelã de histórias, conectada à terra, à natureza e à espiritualidade, associada a arquétipos de figuras sagradas como Nanã Buruku, Neith, Gaia, Sarah, Ruth, esposa de Boaz, Maria, mãe de Jesus, Fátima, filha de Maomé, que simbolizam proteção, cura e a fecundidade. A relevância desta mãe, mãe nordestina, repousa na alteridade com que lidera, resiste e transforma, sendo essencial para o desenvolvimento da região. Essa força é celebrada não apenas como um dom genético, mas, como uma escolha diária de persistir e cuidar, transmutar a escassez em abundância de afeto, convertendo o "pouco em tudo" para garantir a dignidade da família que dela nasce para prosperar e chegar ao futuro como legado seu. 

 

Imbuídos neste espírito, como ocorre há décadas de milênio, festejamos nestas horas que seguem mais um Dia das Mães (10/05), ainda que saibamos que cortejá-las e tributar-lhe no amor-reconhecimento, amor-gratidão, amor-felicidade seja um honrado dever a se cumprir todos os dias em presença da mulher: avó, mãe, irmã, esposa, filha, amiga e/ou aquelas que eflorescem em nosso entorno. Historicamente, o Dia das Mães foi inaugurado no Brasil no 12 de maio de 1918, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Essa primeira vez foi promovida pela Associação Cristã dos Moços do Rio Grande do Sul. Porém, somente foi oficializado catorze anos depois, a partir do Decreto nº 21.366, em 5 de maio de 1932, sancionado pelo Presidente Getúlio Dornelles Vargas. Por meio desse documento, determinou-se o segundo domingo de maio como momento para comemorar os “sentimentos e virtudes” do amor materno. Essa data foi uma conquista realizada por influência do movimento feminista brasileiro, que estava em crescimento. Outra conquista importante na época foi o sufrágio universal feminino, decretado também em 1932. A data oportuniza honrar o papel das mães na formação da identidade e do senso de pertencimento, reconhecendo seu impacto na educação e no desenvolvimento espiritual e emocional de seus filhos. 

 

No entanto, o Dia das Mães foi instituído mundialmente bem antes (1905) como uma homenagem à vida de Ann Jarvis, cujo ativismo social fez surgir o Mother’s Day Work Clubs, uma instituição voltada para melhorar as condições sanitárias de algumas cidades na Virgínia Ocidental. Nesse trabalho, Ann Jarvis dava assistência às famílias que necessitavam de ajuda, e orientava-as para que elas tivessem boas condições sanitárias, de forma a evitar doenças. Esse clube contou com o envolvimento de outras mães. Juntas elas criaram o Mother’s Friendship Day (Dia das Mães pela Amizade), um dia para celebrar-se a paz. O Dia das Mães moderno foi idealizado pela norte-americana Anna Jarvis em 1905, foi oficializada nos EUA em 1914 pelo Presidente Woodrow Wilson, que assinou a resolução tornando o segundo domingo de maio o Dia das Mães – popularizada como um tributo à dedicação materna.

 

Apesar de variar em datas e costumes (como na Indonésia, onde é um pedido por liberdade, ou no Brasil, com almoços familiares), a celebração é uma tradição global, muitas vezes com raízes em celebrações antigas, reafirmando a importância da maternidade. Para muitos, a data funciona como um potente combustível emocional para resistir em tempos difíceis, incentivando a gratidão pelos cuidados e pelo apoio essencial que as mães oferecem. Porém, além do aspecto emocional, a comemoração promove a reflexão sobre os valores familiares e o aperfeiçoamento humano no sentido da bondade e da solidariedade. Celebrar do Dia das Mães é fundamental para reafirmar a importância da família, da união e dos laços afetivos, destacando a figura materna como sinônimo de amor, força, proteção e acolhimento.

 

Neste toar, a ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS concita ao reconhecimento da força e da superação das mulheres que dedicam suas vidas à dignidade e criação dos filhos. Comemorar o Dia das Mães incentiva a união familiar, criando memórias especiais e momentos de reflexão sobre a influência materna. Mães são agentes de mudança que transmitem tradições e cultura, e muitas acumulam funções financeiras e de liderança nos lares, contribuindo ativamente para o desenvolvimento de suas comunidades. Estudos indicam que a presença materna ativa também molda relacionamentos saudáveis, reduzindo estereótipos de gênero e promovendo empatia e respeito nas interações sociais futuras das crianças. Cortejar as mães é muito mais, do que um dever (ou obrigação) é um ato amor inenarrável que segue ao futuro enquanto para ele caminha a humanidade.

 

Maranguape, Ceará, 10 de Maio de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo


terça-feira, 5 de maio de 2026

PINTAR COMUNICA O VIVER HUMANO

 

Neste dia 05 de maio festejamos o Dia do Artista Pintor, o Dia Nacional das Comunicações e, também, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, lembrando que a pintura evolui com humanidade, pois, caminham juntas desde sua ciese. Conforme o cérebro e a capacidade intelectual evoluíram, emergiu a Era dos Símbolos e Sinais, onde desenhos em cavernas (pinturas rupestres) e representações em ossos ou pedras permitiram registrar o cotidiano e ideias complexas. A pintura é uma "janela para a alma humana" que imortaliza sentimentos e visões de mundo.

 

Essas produções não tinham meramente uma função estética, pois, agem como um "acervo público" dos grupos, conectando pessoas através do tempo, reafirmando identidade socioculturais e delimitando abrangências. Ao longo da história, pintores registraram culturas das diversas etnias em todo o orbe terrestre, ajudando a formar a identidade visual de nações (como visto no Brasil com o modernismo), além de confirmar a pintura como guardião do progresso humano.

 

Claramente, a comunicação social surgiu dessa necessidade fundamental de transmitir informações, alertar sobre perigos e expressar cultura e sentimentos desde que os seres humanos começaram a viver em sociedade, além de garantir a inclusão social e o laços de pertencimento. A pintura, portanto, é o pioneiro modo de comunicar fatos e ocorrências do dia a dia, do qual se valeu os primeiros homens para levar conhecimentos às gerações que vieram depois deles.

 

Com o tempo, o desenho complexo tornou-se abstrato para facilitar a escrita. Os símbolos (pictogramas) deixaram de representar apenas a ideia e passaram a representar o som da palavra (fonetismo) e as pinturas e símbolos fizeram-se letras que contam a história da evolução da escrita. Ainda que, na arte contemporânea, o processo se inverta e a letra (que era um desenho) torna-se novamente uma pintura ou marca gráfica, como no caso do pixo ou da arte urbana, onde a escrita é um símbolo visual, a "letra da contestação”.

 

Se olharmos para a história, cada salto tecnológico – da fala aos algoritmos – não apenas transmitiu informações, também reorganizou como nos sentimos parte de um grupo. Determinada a construir tanto o melhor, quanto o pior, qual seja a vontade homem, a comunicação social funciona como um conjunto de estratégias para conectar indivíduos, instituições e causas. Ela não é apenas uma ferramenta que usamos, como também, é o que nos define, portanto, a ordem e/ou caos dela germinam.

 

Evoluindo perenemente, a fala e a linguagem desenvolveram-se com os Cro-Magnons, marcaram um ponto de virada na complexidade da comunicação. Enquanto os hominídeos anteriores usavam sons para alertas imediatos, os Cro-Magnons usavam a linguagem para construir realidades compartilhadas. Bem falar é o principal meio para transmitir a cultura, os mitos e os valores de uma geração para a outra, preservando a identidade de uma sociedade (r)evolucionária que tem na tradição o alicerce de sua evolução constante.

 

A escrita surgiu há cerca de 5 mil anos (por volta de 4.000 a.C. na Mesopotâmia e no Egito), marcando o fim da Pré-História e permitindo o registro permanente de bens, transações e ideias, iniciando a História. A invenção da imprensa, do jornal (primeiro exemplar em 59 a.C. em Roma), da rádio, da televisão e, mais recentemente, da internet, transformaram a comunicação em um processo global e instantâneo. Cabe-nos decidir que tipo de comunicação queremos estabelecer.

 

Cada progresso tecnológico – da fala à escrita, da imprensa à internet – não apenas ampliou a capacidade de transmitir informações, como, formidavelmente, reconfigurou profundamente os laços sociais, as identidades coletivas e os modos de pertencimento. Neste influxo, a língua, como a comunicação, são fundamentais nesse processo, pois constroem a realidade e a percepção cultural, permitindo o compartilhamento de valores, a mobilização política e redefinição de identidades no ciberespaço.

 

A língua, como a pintura, são fundamentais para a existência humana por serem instrumentos de comunicação, pensamento e construção social.  A língua, caracterizado por letras e fonemas organizados por regras gramaticais, permite a expressão do pensamento e a transmissão de conhecimentos. Enquanto a pintura, transcende a verbalidade para comunicar significados através da forma, cor e composição, atuando como uma ferramenta universal de expressão cultural e identitária.

 

Juntas, elas formam a base da cultura, onde a arte atua como uma linguagem que interpreta e questiona a realidade, enquanto a língua organiza e veicula esses conceitos de forma estruturada. Preservar a língua é essencial para manter a diversidade cultural, já que, a perda de uma língua significa o fim de um mundo – de histórias, saberes e modos únicos de existir. A língua portuguesa é um exemplo de língua, posto que é usada por falantes de português em todo o mundo para se comunicarem.

 

Surgida no noroeste da Península Ibérica, desenvolveu-se na sua faixa ocidental, incluindo parte da antiga Lusitânia e da Bética romana. A língua portuguesa origina-se do latim – idioma falado pelos romanos que se situavam no estado da Península Itálica, o Lácio. Percebe-se, ainda, na língua portuguesa um substrato céltico-lusitano, resultante da língua nativa dos povos ibéricos pré-romanos que habitavam a parte ocidental da Península (Galaicos, Lusitanos, Célticos e Cónios).

 

Desde suas raízes no latim vulgar, falado pelas classes populares do Império Romano, o português passou por inúmeras influências e evoluções, moldadas por fatores históricos, sociais, culturais e geográficos, resultando na rica diversidade linguística que observamos hoje: Pré-românico (surgimento do latim vulgar), Românico (diferenciação do latim vulgar), Galego-português (idioma da Galiza e do norte de Portugal), Português Arcaico (entre séculos XIII e XVI) e Português Moderno (atual).

 

Neste ensejo, cumpre enaltecer o empenho que viceja o mérito do Pai da Língua Portuguesa, Luís de Camões, poeta e escritor português que através de sua escrita ajudou a moldar a linguagem e a literatura portuguesa, tornando-o uma figura importante na história desta efusiva língua. Da mesma forma, cabe destacar João de Barros, o primeiro grande historiador português e o pioneiro da gramática da língua portuguesa, tendo escrito a segunda obra a normatizar a língua, tal como falada no seu tempo.

 

Por oportuno, cumpre dizer que a língua portuguesa ostenta em seu vocabulário termos provenientes de diferentes idiomas como o provençal, o holandês, o hebraico, o persa, o quíchua, o chinês, o turco, o japonês, o alemão e o russo, além de idiomas bem mais próximos, como o inglês, o francês, o espanhol, o italiano e de algumas línguas africanas. A língua portuguesa é uma das principais línguas de comunicação internacional, facilitando a comunicação e o comércio entre diferentes culturas.

 

Hoje, a língua portuguesa é a quarta língua materna mais falada, depois do mandarim, inglês e espanhol, sendo a língua oficial em nove países: Brasil, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Angola, Moçambique e Timor-Leste, cabendo à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), criada em 1996, promover a cooperação e o intercâmbio cultural entre os países lusófonos, robustecendo a língua e difusão da cultura portuguesa.

 

Contabiliza, ainda, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa cerca de 228.500 entradas, 376.500 acepções, 415.500 sinônimos, 26 400 antônimos e 57.000 palavras arcaicas, notabilizando o exemplo da riqueza do léxico da língua portuguesa. Tamanha fortuna inspirou a CPLP a estabelecer, em 2009, o dia 05 de maio como o Dia da Língua Portuguesa e das Culturas Lusófonas, ato ratificado na 40ª sessão da Assembleia Geral da UNESCO, em 2019, que proclamou a data como o Dia Mundial da Língua Portuguesa.

 

Também, neste dia 05 de maio, celebramos o Dia Nacional das Comunicações, cuja relevância reside, primordialmente, na homenagem que faz ao Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, patrono das comunicações no Brasil, cujo nascimento ocorre nesta data. A data reconhece o papel da comunicação na transição histórica desde a instalação das linhas telegráficas por Rondon até a integração das regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste, incitando o desenvolvimento social, econômico e territorial do país.

 

Além do reconhecimento histórico, o Dia Nacional das Comunicações serve para destacar a evolução tecnológica e a importância estratégica dos sistemas de comunicação na sociedade contemporânea.  A data reforça a comunicação como um direito e uma ferramenta essencial para a integração nacional, a democracia e a globalização, lembrando que, desde os tempos remotos até as redes digitais atuais, a capacidade de trocar informações é vital para a união das pessoas e o progresso da civilização.

 

Ainda neste dia 05 de maio, celebramos o Dia do Artista Pintor, reconhecendo e valorizando o trabalho deste ente humano magnífico que, muitas vezes, enfrenta desafios para se manter ativo em um mercado pouco estruturado onde são invisibilizados ou vistos apenas como "hobbyistas". A data serve para destacar que os pintores, desde os primórdios da humanidade traduzem sentimentos, memórias e identidade cultural em obras visuais, contribuindo para a evolução das sociedades muito além do entretenimento. 

 

O Dia do Artista Pintor reforça o valor da expressão artística como instrumento de comunicação, encorajando a continuidade da produção artística no país, com a mesma efusividade que reconhece a importância dos pintores na criação de uma "galeria viva" de criatividade, memória e beleza, essencial para a identidade nacional.  O artista pintor tem a sensibilidade de transformar o cotidiano em arte, traduzindo o tempo e a realidade em texturas, cores e linhas, comunicando-os às futuras gerações.

 

Comemorar essas datas é imprescindível para valorizar a identidade cultural, a expressão artística e a conexão social. O Dia do Artista Pintor (05/05) reconhece a criatividade, o Dia Nacional das Comunicações (05/05) homenageia a integração e informação (Rondon), e o Dia Mundial da Língua Portuguesa (5/5) celebra o idioma como elo cultural de, aproximadamente, 260 milhões de pessoas e ferramenta de comunicação e de desenvolvimento.

 

Maranguape, Ceará, 05 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE


segunda-feira, 4 de maio de 2026

O VALOR QUE SE TEM E/OU QUE SE ACHA TER

 

Divagando em meus pensamentos, lembrei da relação traçada por Descarte entre o valor do indivíduo e sua utilidade – para si próprio ao menos – para o coletivo humano que o orbita. Corroborativamente, na psicologia junguiana, a individuação plena só é alcançada quando o indivíduo realiza um trabalho equivalente em benefício do coletivo, pagando seu "preço" à sociedade por iniciativa própria.

 

A relação entre o valor do indivíduo e sua utilidade para o coletivo é central na sociologia de Émile Durkheim, que argumenta que a coesão social moderna (solidariedade orgânica) depende da diferenciação das funções, onde cada membro contribui para o todo de forma única. O que nos concita à busca pelo autoconhecimento que afere o valor próprio, ao passo que distingue quem somos do que pensamos ser.

 

O valor que se tem (Essência/Real) reflete o valor intrínseco de um indivíduo – seu caráter, integridade, atitudes, valores morais e sua capacidade de amar e proporcionar bem-estar. Esse valor é construído com o tempo e é interno, porém, ele ancora o valor social com seu capital moral (amor, lealdade, confiança, etc.) para manter a sociedade coesa, conforme discutido por Kuiper. Essa autoridade moral coíbe as paixões desprezíveis.

 

O valor que se acha ter (Percebido/Ilusório) é, muitas vezes, distorcido pela sociedade de consumo, focado na ostentação, bens materiais, status e na aprovação externa. É uma visão baseada em aparências, sempre transitórias. Como diz Einstein, o valor humano reside em reconhecer que nossos sentimentos e atos devem ter como finalidade o progresso da comunidade, definindo assim nossa verdadeira humanidade.

 

Portanto, o descarte do indivíduo ocorre quando se ignora que sua identidade e valor emergem da interdependência com o grupo, seja pela função social (Durkheim), pelo serviço ético (Jung) ou pela conexão humana (Einstein/Kuiper). É o resultado direto da fragmentação social e da perda do sentido de pertencimento e interdependência. Quando paramos de enxergar o "nós", o "eu" deixa de ter um solo onde florescer.

 

O efeito espelho revela que nossa autoimagem não é um reflexo objetivo, mas sim, uma moldagem das narrativas emocionais internas, crenças e experiências passadas.  Quando falhamos em nos enxergar com gentileza, honestidade e aceitação, o espelho deixa de ser um portal de reconhecimento e torna-se uma lente distorcida por julgamentos severos e inseguranças. Nossos olhos não são câmeras, mas sim, projetores de nossa história interna.

 

Sem esse olhar interno equilibrado, a percepção visual é dominada por autocrítica imediata e foco em imperfeições, o que impede a autoestima de florescer.  A utilidade e o valor próprio só são restaurados quando praticamos o diálogo interno gentil e a observação sem julgamento, permitindo que a identidade se reconheça em seu pertencimento e não apenas em suas falhas percebidas. Somente assumimos nosso lugar na interdependência humana.

 

A interdependência é uma marca evolutiva. Ao contrário de outras espécies que dependem da força física, o ser humano sobrevive e evolui através da cooperação, divisão de trabalho e formação de grupos. Indica que a verdadeira realização, maturidade e identidade humana só são alcançadas quando reconhecemos nossa conexão e dependência mútua com os outros. Ainda que vivamos a ilusão de sermos independentes ou superiores.

 

Na realidade, somos seres frágeis e dependemos intensamente do cuidado e da ação coletiva. Como aduz a ética contemporânea, que vê o sujeito não como um ser isolado, mas sim, inserido em um contexto social e histórico, onde a ação individual é inseparável das relações coletivas. Esse reconhecimento exige coragem para enxergar além da superfície física e abraçar a complexidade de quem somos por dentro.

 

Ao assumir nosso lugar na interdependência abandonamos o individualismo extremo, pois, compreendemos que nossa identidade é moldada pelo "nós", e não apenas pelo "eu. Essa maturidade emocional envolve passar da dependência (precisar de outros) para a interdependência (colaborar com outros), que é o nível mais elevado de relacionamentos, bem-estar e harmonia social, segundo a abordagem de Stephen Covey.

 

A ideia de que nascemos em contextos sociais – familiares, culturais, comunitários – evidencia que nossos valores, gostos e até projetos de vida são coconstruídos. Como afirma André Naves: “a imposição de padrões individualistas leva à padronização e à exclusão, enquanto a inclusão social celebra a diversidade de identidades”. A interdependência robustece a colaboração com os outros e fulcra a própria identidade.


Como descrito por Tiago Sant’Ana, a interdependência é simbolizada pelo Pentecostes – momento em que as diferenças se unem em harmonia, em vez de serem barreiras, como na Torre de Babel. Importante perceber que a veraz individualidade jamais se opõe ao coletivo, já que é enriquecida por ele. Preservá-la, enquanto ela contribui para um todo maior, manifesta uma visão mais humana, empática e sustentável da existência.

 

Portanto, assumir nosso lugar na interdependência significa reconhecer que não vivemos isolados, mas também, não nos anulamos nos outros. É não permitir que as expectativas alheias ou a busca por aceitação apaguem nossa essência. A interdependência não é sobre se perder na multidão, mas, sobre ser uma peça distinta que faz o sistema funcionar. Só podemos oferecer algo valioso ao todo se cultivarmos nossa individualidade.

 

O valor que temos é nossa essência, enquanto o valor que achamos ter é a percepção dessa essência, que deve ser cultivada através da autovalorização diária. A proeminência e o equilíbrio mental vêm do esforço em alinhar a percepção subjetiva com a realidade objetiva – não gera arrogância, mas sim, confiança e autenticidade – permitindo que o indivíduo seja o condutor do seu destino e reconheça seu potencial como criador de sua própria realidade.

 

Maranguape, Ceará, 04 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE


domingo, 3 de maio de 2026

ONDE HÁ LIBERDADE, A FELICIDADE FALA BEM

 

Neste dia 03 de maio ao celebrarmos a liberdade de imprensa lembro-me que a liberdade é um ponto dentro do círculo. Ainda que descomunal seu raio de abrangência, há sempre um limite claro e expresso para a liberdade. A liberdade não é absoluta; a liberdade de expressão, por exemplo, encontra limites no direito à honra, intimidade e integridade física de terceiros. Como afirma Leon Tolstói: “Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”.

 

“Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela” preceitua George Bernard Shaw.  O desafio democrático é garantir que essa "circunferência" (os limites) não seja tão apertada a ponto de sufocar a liberdade, nem tão frouxa que permita a impunidade de abusos. Expressões que incitem à violência, ao crime, ao racismo ou coloquem em risco a segurança da coletividade não são protegidas pela liberdade de expressão. O interesse público deve prevalecer sobre a curiosidade mórbida.

 

Assim, mesmo em nome do interesse público, a divulgação de informações sensíveis sobre indivíduos comuns pode configurar abuso de direito, sujeitando o veículo ou jornalista a responsabilização civil ou criminal. A liberdade de imprensa não dá direito à difamação, calúnia ou injúria. Informar é um dever, porém, inventar ou distorcer fatos para destruir a reputação de alguém ultrapassa o limite. A imprensa enfrenta o desafio duplo de manter sua independência e garantir a veracidade da informação.

 

O aumento da desinformação e do discurso de ódio online tem colocado jornalistas em risco, especialmente mulheres e profissionais de minorias. Dados recentes indicam que quase três quartos das jornalistas mulheres sofrem violência online, e um em cada quatro é ameaçado fisicamente.  Esses ataques representam uma erosão direta da liberdade de imprensa. Como diz George Orwel: “Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”.

 

Evoco, por oportuno, Giovanni Battista Libero Badarò, assassinado por quatro alemães numa emboscada no dia 20 de novembro de 1830, às 22 horas, na Rua São José (Hoje Rua Líbero Badarò) em São Paulo, manifestando represália às denúncias de corrupção e o caráter absolutista da monarquia de D. Pedro I (o “libertador” do Brasil) e de seus aliados paulistas, como o Ouvidor Cândido Ladislau Japiaçu, a quem Badorò alcunhara de “Caligulazinho”, despertando-lhe viril sentimento de vingança.

 

Embora o executor do crime, o alemão Henrique Stock, tenha sido preso, Japiassú foi absolvido pelos tribunais, o que gerou enorme revolta popular e suspeitas de envolvimento direto do imperador Dom Pedro I. A morte de Badaró agravou a crise política do Primeiro Reinado, contribuindo significativamente para a abdicação de Dom Pedro I em 7 de abril de 1831 – data instituída cem anos depois (1931) como o Dia do Jornalista pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

 

O ativismo de Badaró no periódico “O Observador Constitucional”, incomodava o regime monárquico, que enfrentava uma grave crise política. Ao falecer Badaró fulcrou seu legado às futuras gerações: "Morre um liberal, porém, jamais morre a liberdade", se tornando um símbolo da liberdade de imprensa no Brasil. Uma imprensa livre é vital, mas, é a responsabilidade ética que a faz imbatível. Envolve zelo, pertinência e veracidade.

 

A liberdade de imprensa não é apenas um direito dos jornalistas, mas um direito do povo à informação. Essa liberdade é, incontestavelmente, uma ambiência de manobra dentro de uma órbita de respeito mútuo. Sem o limite (o círculo), a liberdade (o ponto) perde sua definição e se torna arbítrio. A liberdade de imprensa encontra seus principais limites na proteção da intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, conforme previsto no artigo 5º, inciso X, da Constituição brasileira.

 

Em 2026, a celebração ocorre em um contexto de crescente pressão sobre os meios de comunicação, com ataques físicos, censura digital e desinformação em alta. A UNESCO e a ONU têm alertado para o aumento de leis que restringem a atuação da mídia sob pretexto de segurança nacional ou combate à desinformação. A censura digital, o fechamento arbitrário de veículos e a criminalização de jornalistas são práticas comuns em regimes autoritários e até em democracias em crise. 

 

O assassinato de jornalistas continua sendo uma realidade trágica. Em 2022, 67 profissionais foram mortos globalmente, um aumento de 50% em relação ao ano anterior. Embora os dados mais recentes de 2025 e 2026 ainda estejam sendo consolidados, organizações como a Repórteres Sem Fronteiras mantêm vigilância constante sobre as ameaças. Como afirmado pelo Secretário-Geral da ONU, António Manuel de Oliveira Guterres, "a liberdade de todos depende da liberdade de imprensa".

 

A liberdade de imprensa e de expressão são pilares de uma sociedade aberta, mas não operam em um vácuo ético ou jurídico. A liberdade de expressão é um direito universal, garantido a todos os cidadãos, de manifestar pensamentos, opiniões e ideias, sem anonimato (art. 5º, IV, da Constituição Federal de 1988). Já a liberdade de imprensa diz respeito ao exercício profissional do jornalismo, assegurando que jornalistas e veículos possam informar, investigar e criticar sem censura prévia ou interferência estatal.

 

A liberdade de imprensa exige não apenas proteção legal, mas, principalmente, o robustecimento e a eficácia de mecanismos de autorregularão ética – a ética jornalística atua como freio interno contra abusos, garantindo que a liberdade não se torne licença para disseminar desinformação ou violar direitos individuais – e de educação midiática para o público – crucial para formar um público crítico e capaz de discernir informações confiáveis –, além de apoio financeiro à mídia independente.

 

Um dos maiores desafios à liberdade de imprensa é a proliferação de notícias falsas, que minam a credibilidade do jornalismo sério e distorcem o debate público.  Além disso, o oligopólio da mídia no Brasil – em que poucas famílias controlam a maioria dos grandes veículos – compromete a pluralidade informativa. Pesquisas do Media Ownership Monitor mostram que 26 dos 50 principais veículos são controlados por apenas cinco grupos, o que limita a diversidade de vozes e perspectivas.

 

Hoje, 3 de maio de 2026, ao celebrarmos globalmente o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, uma data proclamada pela Assembleia Geral da ONU em 1993, inspirada na Declaração de Windhoek de 1991, percebemos a poderosa da importância da imprensa livre como panaceia para as democracias, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de proteger jornalistas e combater ameaças à informação verídica. Como afirma Vitor Hugo: “Tudo quanto aumenta a liberdade, aumenta a responsabilidade”.

 

Neste 3 de maio, lembramos que a responsabilidade é o que diferencia o jornalismo da mera exposição, manifestando-se no compromisso com a verdade, pois, coíbe a calúnia; no interesse público, sob a guia da pertinência e da ética; na dignidade da pessoa humana, pois, combate a desumanização do discurso; e, claro, no contraditório, pois, lastreia a integridade do “raio de abrangência”. Como aduz Albert Camus: “Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo”.

 

Maranguape, Ceará, 03 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A CULTURA POPULAR CEARENSE VEM DE LONGE

Tudo que se concebe atualmente como arte teve sua ciese com nossos antepassados mais distantes, pois, registraram rituais de dança, encenação da vida cotidiana, oferendas etc. em superfícies rochosas dando-nos a conhecer suas percepções de mundo e de realidade, muito antes do surgimento da escrita como a conhecemos hoje e das grandes civilizações. Da Arte Rupestre emergem o teatro e a pintura que retrata os rituais ancestrais (encenações). Claramente, a música dela nasce, pois, vê-se dança nas pinturas. Também, a escrita, pois, percebe-se símbolos narrando fatos.

 

A arte rupestre no Ceará embora ainda precise de datações diretas por carbono 14 nos próprios pigmentos, com base em contextos arqueológicos semelhantes no Nordeste brasileiro e em datações de materiais associados em sítios próximos, estima-se que as manifestações no estado possam ter entre 6.000 e 12.000 anos. Rica em registros da Tradição Nordeste, concentra-se em cavernas e abrigos rochosos, especialmente no interior, como a Serra da Ibiapaba, Sertões de Crateús e Quiterianópolis. Retratam figuras humanas (antropomorfos), animais (zoomorfos) e símbolos abstratos.

 

Onde existem formidáveis artistas, vivem excelentes musas. Assim, por justo e oportuno, reporto que prodigiosa desde a mais tenra idade da humanidade, a mulher é venerada na Arte Rupestre em representações como a Vênus de Willendorf, datada de cerca de 28.000 anos a.C., simbolizando a fertilidade e a força criadora feminina, legado vivo e rutilante a nos inspirar a perene busca por um mundo mais justo, mais feliz, onde o amor é o alimentos dos dias presente nas avós, nas tias, nas mães, nas irmãs e nas filhas que conduzem o amor a futuro aprazível que construímos dia a dia.

 

Nenhuma expressão artística independe de amor, como defende Vincent van Gogh, ao dizer que amar as pessoas é a expressão mais artística, e que a arte feita sem amor não seria verdadeira arte. Como também, nenhuma expressão artística se estabelece sem intencionalidade e técnica, ou seja, chorar ou gritar só se torna arte quando há a intenção de fixar e comunicar, independentemente de ser amorosa. O medo, a solidão, o ódio e a miséria, notabilizados no Expressionismo, atestam que a arte não depende exclusivamente do amor para existir ou ter valor, ainda assim, há amor empregado em tudo o que se faz a bem da memória, do legado e do conhecimento que devem alcançar o futuro.

 

Neste sentido, cumpre dizer que no Ceará há 10.000 anos, viviam os povos pré-ceramistas e nômades, muito anteriores às etnias historicamente conhecidas como Tupi ou Jê – este último nome foi adotado pelo ínclito Francisco Gomes Brandão, que logo após a independência do Brasil passou a chamar-se Francisco Jê Acaiaba de Montezuma, refletindo a brasilidade pulsante em seu coração. Acaiaba é reconhecido como o maior autoridade maçônica brasileira de sua época e um pioneiro da maçonaria no Brasil – cuja evidências arqueológicas, como sítios com pinturas rupestres e vestígios de cerâmica, datam suas presenças no estado desde mais de 5.000 anos.

 

Tupis e Jê, conhecidas no período colonial, são culturas mais recentes embora tenham chegado ao Estado do Ceará há milhares de anos. Os povos Jê no Ceará, como os Kariri, Tremembé, Tapeba e Pitaguary, caracterizados por uma cultura de forte ligação com a terra, tradições orais e rituais espirituais, além da arte da cerâmica, da cestaria, de tecer redes, da culinária e do cultivo de plantas medicinais que marcam ainda hoje a cultura cearense. Contribuíram significativamente para a toponímia do estado, com nomes de cidades e regiões derivados de suas línguas, como Quixeramobim (dos Quixarás, ramo dos Tarairiú, um povo Jê) e Jericoacoara (refúgio das tartarugas).

 

Historicamente, a arte da cerâmica é uma das atividades humanas mais antigas, surgindo no Neolítico (por volta de 9.000 a.C. na Anatólia) como solução para armazenar excedentes agrícolas e cozinhar alimentos. Essa arte ou técnica de produzir artefatos a partir da argila como matéria-prima, submetida a altas temperaturas (acima de 540 °C) para endurecimento, foi chamada pelos gregos de keramikós, significando "de argila" ou "argila queimada". No Brasil, a cerâmica marajoara e a santarena são expressões artísticas com forte carga simbólica, representando cosmologias indígenas, ao passo que preserva a memória ancestral.

 

Apesar de historicamente ser considerada uma "arte menor", a cerâmica artística ganhou espaço em galerias e museus, sendo hoje reconhecida como uma forma legítima de arte contemporânea, por vezes hibridizada com escultura e pintura. As técnicas tradicionais, como modelagem manual, rolo, placa e o uso do torno de oleiro, permitem uma expressão artística única. Notabilizada, a Cerâmica da Alegria, da comunidade homônima em Ipu, na região da Ibiapaba, conquistou a Indicação Geográfica (IG) em 2025. Esse selo reconhece a produção artesanal única, ligada ao território e à ancestralidade, com técnicas passadas de geração em geração, principalmente pelas oleiras.

 

Além da Ibiapaba, o artesanato em cerâmica está presente em outras regiões, como Cascavel, podendo ser encontrado em centros de comercialização como a CeArt (Central de Artesanato do Ceará) e o Mercado Central de Fortaleza, que apoiam, valorizam e difundem o trabalho de milhares de artesãos do estado. A tradição remonta aos povos Tupi e Jẽ, que já moldavam o barro para utensílios e objetos cerimoniais. Hoje, as peças, como panelas, jarras e bandejas, combinam resistência, durabilidade e estética rústica sofisticada, sendo valorizadas por arquitetos, designers e colecionadores. Assim, a cerâmica artística no Ceará, fez-se reconhecida como patrimônio imaterial.

 

Artistas contemporâneos desafiam os limites entre o funcional e o decorativo, utilizando a cerâmica para explorar temas sociais, políticos e pessoais, refletindo questões de gênero, raça, trauma e memória, onde artistas feministas e de comunidades marginalizadas usam a cerâmica para dar visibilidade a suas experiências. O muralismo mexicano, por exemplo, usou grandes painéis cerâmicos para contar a história dos trabalhadores. No Brasil, o Memorial às Resistências de Josely Carvalho, que incorpora vidros de protestos, cria obras que preservam histórias coletivas, ao passo que honram vítimas de violência e despertam consciências.

 

A cerâmica como suporte para a escrita é uma técnica milenar que une a plasticidade do barro à perenidade do registro. A argila é um material acessível e durável, permitindo que a escrita seja fixada de forma permanente após a queima ou secagem, diferentemente de suportes reutilizáveis como tábuas enceradas. Desde a pré-história, vasos e placas de argila foram usados para registrar informações, narrativas e decorações, servindo como uma forma de comunicação visual e escrita. Atualmente, uso de canetas específicas para cerâmica, como a Edding 4200 ou Posca, permite a escrita e pintura em peças já queimadas ou biscoitadas.

 

Além da técnica, a "cerâmica como escrita" é explorada em oficinas terapêuticas e artísticas, onde o processo de moldar o barro é visto como uma forma de narrar histórias pessoais. A peça torna-se um "livro tridimensional", onde a forma e o texto se fundem para expressar sentimentos que muitas vezes a folha de papel não comporta. Uma prática bastante antiga, considerando que os sumérios (por volta de 3500 a.C.) escreviam pressionando símbolos em forma de cone em tabuletas de argila úmida, que eram então levadas ao forno para tornar o registro permanente. Uma delas nos deu a conhecer a Epopeia de Gilgamesh, que já avança ao futuro por outros meios de escrita.

 

Por falar em escrita, lembrei-me que a conexão entre o folclore cearense e a arte rupestre repousa na misticidade e na identidade cultural da região do Cariri, onde lendas e mitos resgatam as origens dos povos que habitaram o território há milênios. Enquanto o folclore traz lendas e tradições orais, a arte rupestre documenta, através de pinturas e gravuras em rochas, o modo de vida e crenças de povos que viveram na região há milhares de anos. Estudos indicam ocupação humana no Cariri (Sítio Olho d'Água de Santa Bárbara) datando de cerca de (3.100\) a.C., com artefatos de pedra e cerâmica, situando os registros na transição do Pleistoceno para o Holoceno.

 

O Ceará possui um rico patrimônio arqueológico, além do situado ao norte do estado (Forquilha, Sobral, Iraçuba), merecendo destaque para as regiões do Cariri e do Sertão Central (Quixadá, Quixeramobim etc.). O Iphan cadastrou recentemente 40 novos sítios, intensificando a preservação desse patrimônio, que muitas vezes se encontra em abrigos rochosos.  A arqueóloga Heloísa Bitú e o músico Alemberg Quindins ressaltam que a relação entre mitologia e arqueologia é indissociável, pois, a compreensão das geomorfologias locais (como a Ponte de Pedra e a Pedra da Torre) através das lendas permite acessar os sítios arqueológicos e a história dos primeiros povos.

 

Essa espiritualidade ancestral não desapareceu, mas enraizou-se na religiosidade contemporânea da região, influenciando desde o culto à Beata Benigna em Santana do Cariri até as narrativas de Maara (princesa transformada em serpente), criando um "Cariri encantado" onde natureza e manifestação cultural estão intrinsecamente ligadas. A cultura dos povos cariris, que recuaram para o interior durante a colonização, deixou marcas na oralidade, embora tenham desaparecido em grande parte devido a conflitos e miscigenação. A união dessas duas expressões – a arte feita na pedra e a arte contada na fala – forma a base da história pré-colonial e colonial do Ceará.

 

Jamais fugindo à sua essência como guardiã da memória e como disseminadora do conhecimento ancestral naquilo que supera o que oralidade garante, a arte ceramista cearense avança ao futuro com muita historia para contar, pois, é um verdadeiro pilar da cultura nordestina que, ao mesmo tempo que avança para o futuro, mantém suas raízes profundas na história e na tradição. A cerâmica cearense, portanto, não é somente decorativa e/ou utilitária; ela é a memória viva do povo cearense que se adapta, se renova e se projeta para o futuro com identidade e sustentabilidade. Mestre Noza (histórico) e tantos outros, anônimos e/ou reconhecidos, continuam a moldar o futuro da arte.

 

O cariri de Mestre Noza traz a cerâmica figurativa, que influenciou gerações queque hoje retratam o cotidiano, a religiosidade e os mitos sertanejos, garantindo que a história do povo cearense seja esculpida e preservada. Cidades como Cascavel e a localidade da Moita são referências históricas. O saber das mestras ceramistas, passado de geração em geração, mantém viva a técnica de modelagem manual e a queima em fornos a lenha, criando peças que são verdadeiras esculturas da terra. A cerâmica no Ceará, indiscutivelmente, é uma das expressões mais vivas da identidade de seu povo, unindo o barro ancestral às novas linguagens do design contemporâneo.

 

O "futuro" da cerâmica cearense aparece na sofisticação e no diálogo com o mercado de luxo e a arquitetura. Novos artistas estão reinterpretando formas rústicas com acabamentos modernos, atraindo olhares em feiras internacionais de design. Iniciativas em Fortaleza e no interior conectam artesãos a designers, gerando coleções que decoram desde casas de praia contemporâneas até hotéis de alto padrão. O uso de pigmentos naturais e o reaproveitamento de resíduos locais são tendências que alinham a arte tradicional às demandas ecológicas globais. A cerâmica cearense não apenas resiste; se reinventa, provando que o barro, quando moldado com história, nunca sai de moda.

 

Recentemente, essa conexão ganhou destaque no setor corporativo e cultural, como no estande temático da PROAUTO no CONSEGNNE 2026, em Salvador.  A empresa uniu a tradição ceramista de Minas Gerais com a literatura de cordel do Norte e Nordeste sob o conceito "A Cultura de Cuidar", utilizando a xilogravura para ilustrar narrativas e elementos de barro para simbolizar o cuidado personalizado, celebrando assim as raízes culturais dessas regiões. A simplicidade e a rusticidade da xilogravura no cordel ecoam na textura e nas formas da cerâmica popular. As cenas moldadas no barro funcionam como "cordéis tridimensionais".

 

Historicamente, ambos os gêneros – a arte ceramista e a literatura do cordel – são pilares da identidade nordestina, representados por artistas icônicos como Mestre Vitalino (ceramista) e J. Borges (xilogravurista), cujas obras dialogam na estética da cultura popular. Um exemplo claro dessa união é o artista cearense Abraão Batista, de Juazeiro do Norte, que é tanto poeta de cordel quanto um renomado xilógrafo, unindo a rima à imagem. A união dessas artes fortalece a identidade cultural do Ceará, transformando a "cultura de banca" (cordel) e o trabalho com a argila em formas de resistência cultural e, muitas vezes, em peças de artesanato de alta relevância comercial e artística, comercializadas na CeArt.


Incontestavelmente, essa interatividade entre arte ceramista e a literatura de cordel no Ceará manifesta a excelsitude da cultura popular cearense, onde a narrativa oral e escrita ganha forma física e tridimensional, especialmente na região do Cariri. Essa conexão transforma o barro em um suporte para histórias, personagens e elementos poéticos típicos do sertão, criando uma "poesia tangível”. Nada se faz hoje diferente daquilo que nossos ancestrais realizavam em seu cotidiano entre 6.000 e 12.000 anos atrás. Como eles, permanecemos praticando as habilidades da arte rupestre, mantendo sua essência e tradição em sinergia com as tecnologias atuais, com as quais legamos às futuras gerações as experienciações e conhecimentos preservados há milênios.

 

Maranguape, Ceará, 01 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE

 

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