Tudo
que se concebe atualmente como arte teve sua ciese com nossos antepassados mais
distantes, pois, registraram rituais de dança, encenação da vida cotidiana,
oferendas etc. em superfícies rochosas dando-nos a conhecer suas percepções de
mundo e de realidade, muito antes do surgimento da escrita como a conhecemos
hoje e das grandes civilizações. Da Arte Rupestre emergem o teatro e a pintura
que retrata os rituais ancestrais (encenações). Claramente, a música dela
nasce, pois, vê-se dança nas pinturas. Também, a escrita, pois, percebe-se
símbolos narrando fatos.
A
arte rupestre no Ceará embora ainda precise de datações diretas por carbono 14
nos próprios pigmentos, com base em contextos arqueológicos semelhantes no
Nordeste brasileiro e em datações de materiais associados em sítios próximos,
estima-se que as manifestações no estado possam ter entre 6.000 e 12.000 anos.
Rica em registros da Tradição Nordeste, concentra-se em cavernas e abrigos
rochosos, especialmente no interior, como a Serra da Ibiapaba, Sertões de
Crateús e Quiterianópolis. Retratam figuras humanas (antropomorfos), animais
(zoomorfos) e símbolos abstratos.
Onde
existem formidáveis artistas, vivem excelentes musas. Assim, por justo e
oportuno, reporto que prodigiosa desde a mais tenra idade da humanidade, a
mulher é venerada na Arte Rupestre em representações como a Vênus de
Willendorf, datada de cerca de 28.000 anos a.C., simbolizando a fertilidade e a
força criadora feminina, legado vivo e rutilante a nos inspirar a perene busca
por um mundo mais justo, mais feliz, onde o amor é o alimentos dos dias
presente nas avós, nas tias, nas mães, nas irmãs e nas filhas que conduzem o
amor a futuro aprazível que construímos dia a dia.
Nenhuma
expressão artística independe de amor, como defende Vincent van Gogh, ao dizer
que amar as pessoas é a expressão mais artística, e que a arte feita sem amor
não seria verdadeira arte. Como também, nenhuma expressão artística se
estabelece sem intencionalidade e técnica, ou seja, chorar ou gritar só se
torna arte quando há a intenção de fixar e comunicar, independentemente de ser
amorosa. O medo, a solidão, o ódio e a miséria, notabilizados no
Expressionismo, atestam que a arte não depende exclusivamente do amor para
existir ou ter valor, ainda assim, há amor empregado em tudo o que se faz a bem
da memória, do legado e do conhecimento que devem alcançar o futuro.
Neste
sentido, cumpre dizer que no Ceará há 10.000 anos, viviam os povos
pré-ceramistas e nômades, muito anteriores às etnias historicamente conhecidas
como Tupi ou Jê – este último nome foi adotado pelo ínclito Francisco Gomes
Brandão, que logo após a independência do Brasil passou a chamar-se Francisco
Jê Acaiaba de Montezuma, refletindo a brasilidade pulsante em seu coração.
Acaiaba é reconhecido como o maior autoridade maçônica brasileira de sua época
e um pioneiro da maçonaria no Brasil – cuja evidências arqueológicas, como
sítios com pinturas rupestres e vestígios de cerâmica, datam suas presenças no
estado desde mais de 5.000 anos.
Tupis
e Jê, conhecidas no período colonial, são culturas mais recentes embora tenham
chegado ao Estado do Ceará há milhares de anos. Os povos Jê no Ceará, como os
Kariri, Tremembé, Tapeba e Pitaguary, caracterizados por uma cultura de forte
ligação com a terra, tradições orais e rituais espirituais, além da arte da
cerâmica, da cestaria, de tecer redes, da culinária e do cultivo de plantas
medicinais que marcam ainda hoje a cultura cearense. Contribuíram
significativamente para a toponímia do estado, com nomes de cidades e regiões
derivados de suas línguas, como Quixeramobim (dos Quixarás, ramo dos Tarairiú,
um povo Jê) e Jericoacoara (refúgio das tartarugas).
Historicamente,
a arte da cerâmica é uma das atividades humanas mais antigas, surgindo no
Neolítico (por volta de 9.000 a.C. na Anatólia) como solução para armazenar
excedentes agrícolas e cozinhar alimentos. Essa arte ou técnica de produzir
artefatos a partir da argila como matéria-prima, submetida a altas temperaturas
(acima de 540 °C) para endurecimento, foi chamada pelos gregos de keramikós,
significando "de argila" ou "argila queimada". No Brasil, a
cerâmica marajoara e a santarena são expressões artísticas com forte carga
simbólica, representando cosmologias indígenas, ao passo que preserva a memória
ancestral.
Apesar
de historicamente ser considerada uma "arte menor", a cerâmica
artística ganhou espaço em galerias e museus, sendo hoje reconhecida como uma
forma legítima de arte contemporânea, por vezes hibridizada com escultura e
pintura. As técnicas tradicionais, como modelagem manual, rolo, placa e o uso
do torno de oleiro, permitem uma expressão artística única. Notabilizada, a
Cerâmica da Alegria, da comunidade homônima em Ipu, na região da Ibiapaba,
conquistou a Indicação Geográfica (IG) em 2025. Esse selo reconhece a produção
artesanal única, ligada ao território e à ancestralidade, com técnicas passadas
de geração em geração, principalmente pelas oleiras.
Além
da Ibiapaba, o artesanato em cerâmica está presente em outras regiões, como
Cascavel, podendo ser encontrado em centros de comercialização como a CeArt
(Central de Artesanato do Ceará) e o Mercado Central de Fortaleza, que apoiam,
valorizam e difundem o trabalho de milhares de artesãos do estado. A tradição
remonta aos povos Tupi e Jẽ, que já moldavam o barro para utensílios e objetos
cerimoniais. Hoje, as peças, como panelas, jarras e bandejas, combinam
resistência, durabilidade e estética rústica sofisticada, sendo valorizadas por
arquitetos, designers e colecionadores. Assim, a cerâmica artística no Ceará,
fez-se reconhecida como patrimônio imaterial.
Artistas
contemporâneos desafiam os limites entre o funcional e o decorativo, utilizando
a cerâmica para explorar temas sociais, políticos e pessoais, refletindo
questões de gênero, raça, trauma e memória, onde artistas feministas e de
comunidades marginalizadas usam a cerâmica para dar visibilidade a suas
experiências. O muralismo mexicano, por exemplo, usou grandes painéis cerâmicos
para contar a história dos trabalhadores. No Brasil, o Memorial às Resistências
de Josely Carvalho, que incorpora vidros de protestos, cria obras que preservam
histórias coletivas, ao passo que honram vítimas de violência e despertam
consciências.
A
cerâmica como suporte para a escrita é uma técnica milenar que une a
plasticidade do barro à perenidade do registro. A argila é um material
acessível e durável, permitindo que a escrita seja fixada de forma permanente
após a queima ou secagem, diferentemente de suportes reutilizáveis como tábuas
enceradas. Desde a pré-história, vasos e placas de argila foram usados para
registrar informações, narrativas e decorações, servindo como uma forma de
comunicação visual e escrita. Atualmente, uso de canetas específicas para
cerâmica, como a Edding 4200 ou Posca, permite a escrita e pintura em peças já
queimadas ou biscoitadas.
Além
da técnica, a "cerâmica como escrita" é explorada em oficinas
terapêuticas e artísticas, onde o processo de moldar o barro é visto como uma
forma de narrar histórias pessoais. A peça torna-se um "livro
tridimensional", onde a forma e o texto se fundem para expressar
sentimentos que muitas vezes a folha de papel não comporta. Uma prática
bastante antiga, considerando que os sumérios (por volta de 3500 a.C.)
escreviam pressionando símbolos em forma de cone em tabuletas de argila úmida,
que eram então levadas ao forno para tornar o registro permanente. Uma delas
nos deu a conhecer a Epopeia de Gilgamesh, que já avança ao futuro por outros
meios de escrita.
Por
falar em escrita, lembrei-me que a conexão entre o folclore cearense e a arte
rupestre repousa na misticidade e na identidade cultural da região do Cariri,
onde lendas e mitos resgatam as origens dos povos que habitaram o território há
milênios. Enquanto o folclore traz lendas e tradições orais, a arte rupestre
documenta, através de pinturas e gravuras em rochas, o modo de vida e crenças
de povos que viveram na região há milhares de anos. Estudos indicam ocupação
humana no Cariri (Sítio Olho d'Água de Santa Bárbara) datando de cerca de (3.100\)
a.C., com artefatos de pedra e cerâmica, situando os registros na transição do
Pleistoceno para o Holoceno.
O
Ceará possui um rico patrimônio arqueológico, além do situado ao norte do
estado (Forquilha, Sobral, Iraçuba), merecendo destaque para as regiões do Cariri
e do Sertão Central (Quixadá, Quixeramobim etc.). O Iphan cadastrou
recentemente 40 novos sítios, intensificando a preservação desse patrimônio,
que muitas vezes se encontra em abrigos rochosos. A arqueóloga Heloísa Bitú e o músico Alemberg
Quindins ressaltam que a relação entre mitologia e arqueologia é indissociável,
pois, a compreensão das geomorfologias locais (como a Ponte de Pedra e a Pedra
da Torre) através das lendas permite acessar os sítios arqueológicos e a
história dos primeiros povos.
Essa
espiritualidade ancestral não desapareceu, mas enraizou-se na religiosidade
contemporânea da região, influenciando desde o culto à Beata Benigna em Santana
do Cariri até as narrativas de Maara (princesa transformada em serpente),
criando um "Cariri encantado" onde natureza e manifestação cultural
estão intrinsecamente ligadas. A cultura dos povos cariris, que recuaram para o
interior durante a colonização, deixou marcas na oralidade, embora tenham
desaparecido em grande parte devido a conflitos e miscigenação. A união dessas
duas expressões – a arte feita na pedra e a arte contada na fala – forma a base
da história pré-colonial e colonial do Ceará.
Jamais
fugindo à sua essência como guardiã da memória e como disseminadora do
conhecimento ancestral naquilo que supera o que oralidade garante, a arte
ceramista cearense avança ao futuro com muita historia para contar, pois, é um
verdadeiro pilar da cultura nordestina que, ao mesmo tempo que avança para o
futuro, mantém suas raízes profundas na história e na tradição. A cerâmica
cearense, portanto, não é somente decorativa e/ou utilitária; ela é a memória
viva do povo cearense que se adapta, se renova e se projeta para o futuro com
identidade e sustentabilidade. Mestre Noza (histórico) e tantos outros,
anônimos e/ou reconhecidos, continuam a moldar o futuro da arte.
O
cariri de Mestre Noza traz a cerâmica figurativa, que influenciou gerações
queque hoje retratam o cotidiano, a religiosidade e os mitos sertanejos,
garantindo que a história do povo cearense seja esculpida e preservada. Cidades
como Cascavel e a localidade da Moita são referências históricas. O saber das
mestras ceramistas, passado de geração em geração, mantém viva a técnica de
modelagem manual e a queima em fornos a lenha, criando peças que são
verdadeiras esculturas da terra. A cerâmica no Ceará, indiscutivelmente, é uma
das expressões mais vivas da identidade de seu povo, unindo o barro ancestral
às novas linguagens do design contemporâneo.
O
"futuro" da cerâmica cearense aparece na sofisticação e no diálogo
com o mercado de luxo e a arquitetura. Novos artistas estão reinterpretando
formas rústicas com acabamentos modernos, atraindo olhares em feiras
internacionais de design. Iniciativas em Fortaleza e no interior conectam
artesãos a designers, gerando coleções que decoram desde casas de praia
contemporâneas até hotéis de alto padrão. O uso de pigmentos naturais e o
reaproveitamento de resíduos locais são tendências que alinham a arte tradicional
às demandas ecológicas globais. A cerâmica cearense não apenas resiste; se
reinventa, provando que o barro, quando moldado com história, nunca sai de
moda.
Recentemente, essa conexão ganhou
destaque no setor corporativo e cultural, como no estande temático da PROAUTO
no CONSEGNNE 2026, em Salvador. A
empresa uniu a tradição ceramista de Minas Gerais com a literatura de cordel do
Norte e Nordeste sob o conceito "A Cultura de Cuidar", utilizando a
xilogravura para ilustrar narrativas e elementos de barro para simbolizar o
cuidado personalizado, celebrando assim as raízes culturais dessas regiões. A
simplicidade e a rusticidade da xilogravura no cordel ecoam na textura e nas
formas da cerâmica popular. As cenas moldadas no barro funcionam como
"cordéis tridimensionais".
Historicamente, ambos os gêneros – a
arte ceramista e a literatura do cordel – são pilares da identidade nordestina,
representados por artistas icônicos como Mestre Vitalino (ceramista) e J.
Borges (xilogravurista), cujas obras dialogam na estética da cultura popular. Um
exemplo claro dessa união é o artista cearense Abraão Batista, de Juazeiro do
Norte, que é tanto poeta de cordel quanto um renomado xilógrafo, unindo a rima
à imagem. A união dessas artes fortalece a identidade cultural do Ceará,
transformando a "cultura de banca" (cordel) e o trabalho com a argila
em formas de resistência cultural e, muitas vezes, em peças de artesanato de
alta relevância comercial e artística, comercializadas na CeArt.
Incontestavelmente, essa interatividade
entre arte ceramista e a literatura de cordel no Ceará manifesta a excelsitude da
cultura popular cearense, onde a narrativa oral e escrita ganha forma física e
tridimensional, especialmente na região do Cariri. Essa conexão transforma o
barro em um suporte para histórias, personagens e elementos poéticos típicos do
sertão, criando uma "poesia tangível”. Nada se faz hoje diferente daquilo
que nossos ancestrais realizavam em seu cotidiano entre 6.000 e 12.000 anos
atrás. Como eles, permanecemos praticando as habilidades da arte rupestre, mantendo
sua essência e tradição em sinergia com as tecnologias atuais, com as quais legamos
às futuras gerações as experienciações e conhecimentos preservados há milênios.
Maranguape, Ceará, 01 de Maio de
2026
Bruno Bezerra de Macedo
Jornalista CRP/MTE nº
0005168/CE
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