sexta-feira, 1 de maio de 2026

A CULTURA POPULAR CEARENSE VEM DE LONGE

Tudo que se concebe atualmente como arte teve sua ciese com nossos antepassados mais distantes, pois, registraram rituais de dança, encenação da vida cotidiana, oferendas etc. em superfícies rochosas dando-nos a conhecer suas percepções de mundo e de realidade, muito antes do surgimento da escrita como a conhecemos hoje e das grandes civilizações. Da Arte Rupestre emergem o teatro e a pintura que retrata os rituais ancestrais (encenações). Claramente, a música dela nasce, pois, vê-se dança nas pinturas. Também, a escrita, pois, percebe-se símbolos narrando fatos.

 

A arte rupestre no Ceará embora ainda precise de datações diretas por carbono 14 nos próprios pigmentos, com base em contextos arqueológicos semelhantes no Nordeste brasileiro e em datações de materiais associados em sítios próximos, estima-se que as manifestações no estado possam ter entre 6.000 e 12.000 anos. Rica em registros da Tradição Nordeste, concentra-se em cavernas e abrigos rochosos, especialmente no interior, como a Serra da Ibiapaba, Sertões de Crateús e Quiterianópolis. Retratam figuras humanas (antropomorfos), animais (zoomorfos) e símbolos abstratos.

 

Onde existem formidáveis artistas, vivem excelentes musas. Assim, por justo e oportuno, reporto que prodigiosa desde a mais tenra idade da humanidade, a mulher é venerada na Arte Rupestre em representações como a Vênus de Willendorf, datada de cerca de 28.000 anos a.C., simbolizando a fertilidade e a força criadora feminina, legado vivo e rutilante a nos inspirar a perene busca por um mundo mais justo, mais feliz, onde o amor é o alimentos dos dias presente nas avós, nas tias, nas mães, nas irmãs e nas filhas que conduzem o amor a futuro aprazível que construímos dia a dia.

 

Nenhuma expressão artística independe de amor, como defende Vincent van Gogh, ao dizer que amar as pessoas é a expressão mais artística, e que a arte feita sem amor não seria verdadeira arte. Como também, nenhuma expressão artística se estabelece sem intencionalidade e técnica, ou seja, chorar ou gritar só se torna arte quando há a intenção de fixar e comunicar, independentemente de ser amorosa. O medo, a solidão, o ódio e a miséria, notabilizados no Expressionismo, atestam que a arte não depende exclusivamente do amor para existir ou ter valor, ainda assim, há amor empregado em tudo o que se faz a bem da memória, do legado e do conhecimento que devem alcançar o futuro.

 

Neste sentido, cumpre dizer que no Ceará há 10.000 anos, viviam os povos pré-ceramistas e nômades, muito anteriores às etnias historicamente conhecidas como Tupi ou Jê – este último nome foi adotado pelo ínclito Francisco Gomes Brandão, que logo após a independência do Brasil passou a chamar-se Francisco Jê Acaiaba de Montezuma, refletindo a brasilidade pulsante em seu coração. Acaiaba é reconhecido como o maior autoridade maçônica brasileira de sua época e um pioneiro da maçonaria no Brasil – cuja evidências arqueológicas, como sítios com pinturas rupestres e vestígios de cerâmica, datam suas presenças no estado desde mais de 5.000 anos.

 

Tupis e Jê, conhecidas no período colonial, são culturas mais recentes embora tenham chegado ao Estado do Ceará há milhares de anos. Os povos Jê no Ceará, como os Kariri, Tremembé, Tapeba e Pitaguary, caracterizados por uma cultura de forte ligação com a terra, tradições orais e rituais espirituais, além da arte da cerâmica, da cestaria, de tecer redes, da culinária e do cultivo de plantas medicinais que marcam ainda hoje a cultura cearense. Contribuíram significativamente para a toponímia do estado, com nomes de cidades e regiões derivados de suas línguas, como Quixeramobim (dos Quixarás, ramo dos Tarairiú, um povo Jê) e Jericoacoara (refúgio das tartarugas).

 

Historicamente, a arte da cerâmica é uma das atividades humanas mais antigas, surgindo no Neolítico (por volta de 9.000 a.C. na Anatólia) como solução para armazenar excedentes agrícolas e cozinhar alimentos. Essa arte ou técnica de produzir artefatos a partir da argila como matéria-prima, submetida a altas temperaturas (acima de 540 °C) para endurecimento, foi chamada pelos gregos de keramikós, significando "de argila" ou "argila queimada". No Brasil, a cerâmica marajoara e a santarena são expressões artísticas com forte carga simbólica, representando cosmologias indígenas, ao passo que preserva a memória ancestral.

 

Apesar de historicamente ser considerada uma "arte menor", a cerâmica artística ganhou espaço em galerias e museus, sendo hoje reconhecida como uma forma legítima de arte contemporânea, por vezes hibridizada com escultura e pintura. As técnicas tradicionais, como modelagem manual, rolo, placa e o uso do torno de oleiro, permitem uma expressão artística única. Notabilizada, a Cerâmica da Alegria, da comunidade homônima em Ipu, na região da Ibiapaba, conquistou a Indicação Geográfica (IG) em 2025. Esse selo reconhece a produção artesanal única, ligada ao território e à ancestralidade, com técnicas passadas de geração em geração, principalmente pelas oleiras.

 

Além da Ibiapaba, o artesanato em cerâmica está presente em outras regiões, como Cascavel, podendo ser encontrado em centros de comercialização como a CeArt (Central de Artesanato do Ceará) e o Mercado Central de Fortaleza, que apoiam, valorizam e difundem o trabalho de milhares de artesãos do estado. A tradição remonta aos povos Tupi e Jẽ, que já moldavam o barro para utensílios e objetos cerimoniais. Hoje, as peças, como panelas, jarras e bandejas, combinam resistência, durabilidade e estética rústica sofisticada, sendo valorizadas por arquitetos, designers e colecionadores. Assim, a cerâmica artística no Ceará, fez-se reconhecida como patrimônio imaterial.

 

Artistas contemporâneos desafiam os limites entre o funcional e o decorativo, utilizando a cerâmica para explorar temas sociais, políticos e pessoais, refletindo questões de gênero, raça, trauma e memória, onde artistas feministas e de comunidades marginalizadas usam a cerâmica para dar visibilidade a suas experiências. O muralismo mexicano, por exemplo, usou grandes painéis cerâmicos para contar a história dos trabalhadores. No Brasil, o Memorial às Resistências de Josely Carvalho, que incorpora vidros de protestos, cria obras que preservam histórias coletivas, ao passo que honram vítimas de violência e despertam consciências.

 

A cerâmica como suporte para a escrita é uma técnica milenar que une a plasticidade do barro à perenidade do registro. A argila é um material acessível e durável, permitindo que a escrita seja fixada de forma permanente após a queima ou secagem, diferentemente de suportes reutilizáveis como tábuas enceradas. Desde a pré-história, vasos e placas de argila foram usados para registrar informações, narrativas e decorações, servindo como uma forma de comunicação visual e escrita. Atualmente, uso de canetas específicas para cerâmica, como a Edding 4200 ou Posca, permite a escrita e pintura em peças já queimadas ou biscoitadas.

 

Além da técnica, a "cerâmica como escrita" é explorada em oficinas terapêuticas e artísticas, onde o processo de moldar o barro é visto como uma forma de narrar histórias pessoais. A peça torna-se um "livro tridimensional", onde a forma e o texto se fundem para expressar sentimentos que muitas vezes a folha de papel não comporta. Uma prática bastante antiga, considerando que os sumérios (por volta de 3500 a.C.) escreviam pressionando símbolos em forma de cone em tabuletas de argila úmida, que eram então levadas ao forno para tornar o registro permanente. Uma delas nos deu a conhecer a Epopeia de Gilgamesh, que já avança ao futuro por outros meios de escrita.

 

Por falar em escrita, lembrei-me que a conexão entre o folclore cearense e a arte rupestre repousa na misticidade e na identidade cultural da região do Cariri, onde lendas e mitos resgatam as origens dos povos que habitaram o território há milênios. Enquanto o folclore traz lendas e tradições orais, a arte rupestre documenta, através de pinturas e gravuras em rochas, o modo de vida e crenças de povos que viveram na região há milhares de anos. Estudos indicam ocupação humana no Cariri (Sítio Olho d'Água de Santa Bárbara) datando de cerca de (3.100\) a.C., com artefatos de pedra e cerâmica, situando os registros na transição do Pleistoceno para o Holoceno.

 

O Ceará possui um rico patrimônio arqueológico, além do situado ao norte do estado (Forquilha, Sobral, Iraçuba), merecendo destaque para as regiões do Cariri e do Sertão Central (Quixadá, Quixeramobim etc.). O Iphan cadastrou recentemente 40 novos sítios, intensificando a preservação desse patrimônio, que muitas vezes se encontra em abrigos rochosos.  A arqueóloga Heloísa Bitú e o músico Alemberg Quindins ressaltam que a relação entre mitologia e arqueologia é indissociável, pois, a compreensão das geomorfologias locais (como a Ponte de Pedra e a Pedra da Torre) através das lendas permite acessar os sítios arqueológicos e a história dos primeiros povos.

 

Essa espiritualidade ancestral não desapareceu, mas enraizou-se na religiosidade contemporânea da região, influenciando desde o culto à Beata Benigna em Santana do Cariri até as narrativas de Maara (princesa transformada em serpente), criando um "Cariri encantado" onde natureza e manifestação cultural estão intrinsecamente ligadas. A cultura dos povos cariris, que recuaram para o interior durante a colonização, deixou marcas na oralidade, embora tenham desaparecido em grande parte devido a conflitos e miscigenação. A união dessas duas expressões – a arte feita na pedra e a arte contada na fala – forma a base da história pré-colonial e colonial do Ceará.

 

Jamais fugindo à sua essência como guardiã da memória e como disseminadora do conhecimento ancestral naquilo que supera o que oralidade garante, a arte ceramista cearense avança ao futuro com muita historia para contar, pois, é um verdadeiro pilar da cultura nordestina que, ao mesmo tempo que avança para o futuro, mantém suas raízes profundas na história e na tradição. A cerâmica cearense, portanto, não é somente decorativa e/ou utilitária; ela é a memória viva do povo cearense que se adapta, se renova e se projeta para o futuro com identidade e sustentabilidade. Mestre Noza (histórico) e tantos outros, anônimos e/ou reconhecidos, continuam a moldar o futuro da arte.

 

O cariri de Mestre Noza traz a cerâmica figurativa, que influenciou gerações queque hoje retratam o cotidiano, a religiosidade e os mitos sertanejos, garantindo que a história do povo cearense seja esculpida e preservada. Cidades como Cascavel e a localidade da Moita são referências históricas. O saber das mestras ceramistas, passado de geração em geração, mantém viva a técnica de modelagem manual e a queima em fornos a lenha, criando peças que são verdadeiras esculturas da terra. A cerâmica no Ceará, indiscutivelmente, é uma das expressões mais vivas da identidade de seu povo, unindo o barro ancestral às novas linguagens do design contemporâneo.

 

O "futuro" da cerâmica cearense aparece na sofisticação e no diálogo com o mercado de luxo e a arquitetura. Novos artistas estão reinterpretando formas rústicas com acabamentos modernos, atraindo olhares em feiras internacionais de design. Iniciativas em Fortaleza e no interior conectam artesãos a designers, gerando coleções que decoram desde casas de praia contemporâneas até hotéis de alto padrão. O uso de pigmentos naturais e o reaproveitamento de resíduos locais são tendências que alinham a arte tradicional às demandas ecológicas globais. A cerâmica cearense não apenas resiste; se reinventa, provando que o barro, quando moldado com história, nunca sai de moda.

 

Recentemente, essa conexão ganhou destaque no setor corporativo e cultural, como no estande temático da PROAUTO no CONSEGNNE 2026, em Salvador.  A empresa uniu a tradição ceramista de Minas Gerais com a literatura de cordel do Norte e Nordeste sob o conceito "A Cultura de Cuidar", utilizando a xilogravura para ilustrar narrativas e elementos de barro para simbolizar o cuidado personalizado, celebrando assim as raízes culturais dessas regiões. A simplicidade e a rusticidade da xilogravura no cordel ecoam na textura e nas formas da cerâmica popular. As cenas moldadas no barro funcionam como "cordéis tridimensionais".

 

Historicamente, ambos os gêneros – a arte ceramista e a literatura do cordel – são pilares da identidade nordestina, representados por artistas icônicos como Mestre Vitalino (ceramista) e J. Borges (xilogravurista), cujas obras dialogam na estética da cultura popular. Um exemplo claro dessa união é o artista cearense Abraão Batista, de Juazeiro do Norte, que é tanto poeta de cordel quanto um renomado xilógrafo, unindo a rima à imagem. A união dessas artes fortalece a identidade cultural do Ceará, transformando a "cultura de banca" (cordel) e o trabalho com a argila em formas de resistência cultural e, muitas vezes, em peças de artesanato de alta relevância comercial e artística, comercializadas na CeArt.


Incontestavelmente, essa interatividade entre arte ceramista e a literatura de cordel no Ceará manifesta a excelsitude da cultura popular cearense, onde a narrativa oral e escrita ganha forma física e tridimensional, especialmente na região do Cariri. Essa conexão transforma o barro em um suporte para histórias, personagens e elementos poéticos típicos do sertão, criando uma "poesia tangível”. Nada se faz hoje diferente daquilo que nossos ancestrais realizavam em seu cotidiano entre 6.000 e 12.000 anos atrás. Como eles, permanecemos praticando as habilidades da arte rupestre, mantendo sua essência e tradição em sinergia com as tecnologias atuais, com as quais legamos às futuras gerações as experienciações e conhecimentos preservados há milênios.

 

Maranguape, Ceará, 01 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE

 

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