domingo, 3 de maio de 2026

ONDE HÁ LIBERDADE, A FELICIDADE FALA BEM

 

Neste dia 03 de maio ao celebrarmos a liberdade de imprensa lembro-me que a liberdade é um ponto dentro do círculo. Ainda que descomunal seu raio de abrangência, há sempre um limite claro e expresso para a liberdade. A liberdade não é absoluta; a liberdade de expressão, por exemplo, encontra limites no direito à honra, intimidade e integridade física de terceiros. Como afirma Leon Tolstói: “Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”.

 

“Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela” preceitua George Bernard Shaw.  O desafio democrático é garantir que essa "circunferência" (os limites) não seja tão apertada a ponto de sufocar a liberdade, nem tão frouxa que permita a impunidade de abusos. Expressões que incitem à violência, ao crime, ao racismo ou coloquem em risco a segurança da coletividade não são protegidas pela liberdade de expressão. O interesse público deve prevalecer sobre a curiosidade mórbida.

 

Assim, mesmo em nome do interesse público, a divulgação de informações sensíveis sobre indivíduos comuns pode configurar abuso de direito, sujeitando o veículo ou jornalista a responsabilização civil ou criminal. A liberdade de imprensa não dá direito à difamação, calúnia ou injúria. Informar é um dever, porém, inventar ou distorcer fatos para destruir a reputação de alguém ultrapassa o limite. A imprensa enfrenta o desafio duplo de manter sua independência e garantir a veracidade da informação.

 

O aumento da desinformação e do discurso de ódio online tem colocado jornalistas em risco, especialmente mulheres e profissionais de minorias. Dados recentes indicam que quase três quartos das jornalistas mulheres sofrem violência online, e um em cada quatro é ameaçado fisicamente.  Esses ataques representam uma erosão direta da liberdade de imprensa. Como diz George Orwel: “Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”.

 

Evoco, por oportuno, Giovanni Battista Libero Badarò, assassinado por quatro alemães numa emboscada no dia 20 de novembro de 1830, às 22 horas, na Rua São José (Hoje Rua Líbero Badarò) em São Paulo, manifestando represália às denúncias de corrupção e o caráter absolutista da monarquia de D. Pedro I (o “libertador” do Brasil) e de seus aliados paulistas, como o Ouvidor Cândido Ladislau Japiaçu, a quem Badorò alcunhara de “Caligulazinho”, despertando-lhe viril sentimento de vingança.

 

Embora o executor do crime, o alemão Henrique Stock, tenha sido preso, Japiassú foi absolvido pelos tribunais, o que gerou enorme revolta popular e suspeitas de envolvimento direto do imperador Dom Pedro I. A morte de Badaró agravou a crise política do Primeiro Reinado, contribuindo significativamente para a abdicação de Dom Pedro I em 7 de abril de 1831 – data instituída cem anos depois (1931) como o Dia do Jornalista pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

 

O ativismo de Badaró no periódico “O Observador Constitucional”, incomodava o regime monárquico, que enfrentava uma grave crise política. Ao falecer Badaró fulcrou seu legado às futuras gerações: "Morre um liberal, porém, jamais morre a liberdade", se tornando um símbolo da liberdade de imprensa no Brasil. Uma imprensa livre é vital, mas, é a responsabilidade ética que a faz imbatível. Envolve zelo, pertinência e veracidade.

 

A liberdade de imprensa não é apenas um direito dos jornalistas, mas um direito do povo à informação. Essa liberdade é, incontestavelmente, uma ambiência de manobra dentro de uma órbita de respeito mútuo. Sem o limite (o círculo), a liberdade (o ponto) perde sua definição e se torna arbítrio. A liberdade de imprensa encontra seus principais limites na proteção da intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, conforme previsto no artigo 5º, inciso X, da Constituição brasileira.

 

Em 2026, a celebração ocorre em um contexto de crescente pressão sobre os meios de comunicação, com ataques físicos, censura digital e desinformação em alta. A UNESCO e a ONU têm alertado para o aumento de leis que restringem a atuação da mídia sob pretexto de segurança nacional ou combate à desinformação. A censura digital, o fechamento arbitrário de veículos e a criminalização de jornalistas são práticas comuns em regimes autoritários e até em democracias em crise. 

 

O assassinato de jornalistas continua sendo uma realidade trágica. Em 2022, 67 profissionais foram mortos globalmente, um aumento de 50% em relação ao ano anterior. Embora os dados mais recentes de 2025 e 2026 ainda estejam sendo consolidados, organizações como a Repórteres Sem Fronteiras mantêm vigilância constante sobre as ameaças. Como afirmado pelo Secretário-Geral da ONU, António Manuel de Oliveira Guterres, "a liberdade de todos depende da liberdade de imprensa".

 

A liberdade de imprensa e de expressão são pilares de uma sociedade aberta, mas não operam em um vácuo ético ou jurídico. A liberdade de expressão é um direito universal, garantido a todos os cidadãos, de manifestar pensamentos, opiniões e ideias, sem anonimato (art. 5º, IV, da Constituição Federal de 1988). Já a liberdade de imprensa diz respeito ao exercício profissional do jornalismo, assegurando que jornalistas e veículos possam informar, investigar e criticar sem censura prévia ou interferência estatal.

 

A liberdade de imprensa exige não apenas proteção legal, mas, principalmente, o robustecimento e a eficácia de mecanismos de autorregularão ética – a ética jornalística atua como freio interno contra abusos, garantindo que a liberdade não se torne licença para disseminar desinformação ou violar direitos individuais – e de educação midiática para o público – crucial para formar um público crítico e capaz de discernir informações confiáveis –, além de apoio financeiro à mídia independente.

 

Um dos maiores desafios à liberdade de imprensa é a proliferação de notícias falsas, que minam a credibilidade do jornalismo sério e distorcem o debate público.  Além disso, o oligopólio da mídia no Brasil – em que poucas famílias controlam a maioria dos grandes veículos – compromete a pluralidade informativa. Pesquisas do Media Ownership Monitor mostram que 26 dos 50 principais veículos são controlados por apenas cinco grupos, o que limita a diversidade de vozes e perspectivas.

 

Hoje, 3 de maio de 2026, ao celebrarmos globalmente o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, uma data proclamada pela Assembleia Geral da ONU em 1993, inspirada na Declaração de Windhoek de 1991, percebemos a poderosa da importância da imprensa livre como panaceia para as democracias, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de proteger jornalistas e combater ameaças à informação verídica. Como afirma Vitor Hugo: “Tudo quanto aumenta a liberdade, aumenta a responsabilidade”.

 

Neste 3 de maio, lembramos que a responsabilidade é o que diferencia o jornalismo da mera exposição, manifestando-se no compromisso com a verdade, pois, coíbe a calúnia; no interesse público, sob a guia da pertinência e da ética; na dignidade da pessoa humana, pois, combate a desumanização do discurso; e, claro, no contraditório, pois, lastreia a integridade do “raio de abrangência”. Como aduz Albert Camus: “Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo”.

 

Maranguape, Ceará, 03 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE


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