segunda-feira, 4 de maio de 2026

O VALOR QUE SE TEM E/OU QUE SE ACHA TER

 

Divagando em meus pensamentos, lembrei da relação traçada por Descarte entre o valor do indivíduo e sua utilidade – para si próprio ao menos – para o coletivo humano que o orbita. Corroborativamente, na psicologia junguiana, a individuação plena só é alcançada quando o indivíduo realiza um trabalho equivalente em benefício do coletivo, pagando seu "preço" à sociedade por iniciativa própria.

 

A relação entre o valor do indivíduo e sua utilidade para o coletivo é central na sociologia de Émile Durkheim, que argumenta que a coesão social moderna (solidariedade orgânica) depende da diferenciação das funções, onde cada membro contribui para o todo de forma única. O que nos concita à busca pelo autoconhecimento que afere o valor próprio, ao passo que distingue quem somos do que pensamos ser.

 

O valor que se tem (Essência/Real) reflete o valor intrínseco de um indivíduo – seu caráter, integridade, atitudes, valores morais e sua capacidade de amar e proporcionar bem-estar. Esse valor é construído com o tempo e é interno, porém, ele ancora o valor social com seu capital moral (amor, lealdade, confiança, etc.) para manter a sociedade coesa, conforme discutido por Kuiper. Essa autoridade moral coíbe as paixões desprezíveis.

 

O valor que se acha ter (Percebido/Ilusório) é, muitas vezes, distorcido pela sociedade de consumo, focado na ostentação, bens materiais, status e na aprovação externa. É uma visão baseada em aparências, sempre transitórias. Como diz Einstein, o valor humano reside em reconhecer que nossos sentimentos e atos devem ter como finalidade o progresso da comunidade, definindo assim nossa verdadeira humanidade.

 

Portanto, o descarte do indivíduo ocorre quando se ignora que sua identidade e valor emergem da interdependência com o grupo, seja pela função social (Durkheim), pelo serviço ético (Jung) ou pela conexão humana (Einstein/Kuiper). É o resultado direto da fragmentação social e da perda do sentido de pertencimento e interdependência. Quando paramos de enxergar o "nós", o "eu" deixa de ter um solo onde florescer.

 

O efeito espelho revela que nossa autoimagem não é um reflexo objetivo, mas sim, uma moldagem das narrativas emocionais internas, crenças e experiências passadas.  Quando falhamos em nos enxergar com gentileza, honestidade e aceitação, o espelho deixa de ser um portal de reconhecimento e torna-se uma lente distorcida por julgamentos severos e inseguranças. Nossos olhos não são câmeras, mas sim, projetores de nossa história interna.

 

Sem esse olhar interno equilibrado, a percepção visual é dominada por autocrítica imediata e foco em imperfeições, o que impede a autoestima de florescer.  A utilidade e o valor próprio só são restaurados quando praticamos o diálogo interno gentil e a observação sem julgamento, permitindo que a identidade se reconheça em seu pertencimento e não apenas em suas falhas percebidas. Somente assumimos nosso lugar na interdependência humana.

 

A interdependência é uma marca evolutiva. Ao contrário de outras espécies que dependem da força física, o ser humano sobrevive e evolui através da cooperação, divisão de trabalho e formação de grupos. Indica que a verdadeira realização, maturidade e identidade humana só são alcançadas quando reconhecemos nossa conexão e dependência mútua com os outros. Ainda que vivamos a ilusão de sermos independentes ou superiores.

 

Na realidade, somos seres frágeis e dependemos intensamente do cuidado e da ação coletiva. Como aduz a ética contemporânea, que vê o sujeito não como um ser isolado, mas sim, inserido em um contexto social e histórico, onde a ação individual é inseparável das relações coletivas. Esse reconhecimento exige coragem para enxergar além da superfície física e abraçar a complexidade de quem somos por dentro.

 

Ao assumir nosso lugar na interdependência abandonamos o individualismo extremo, pois, compreendemos que nossa identidade é moldada pelo "nós", e não apenas pelo "eu. Essa maturidade emocional envolve passar da dependência (precisar de outros) para a interdependência (colaborar com outros), que é o nível mais elevado de relacionamentos, bem-estar e harmonia social, segundo a abordagem de Stephen Covey.

 

A ideia de que nascemos em contextos sociais – familiares, culturais, comunitários – evidencia que nossos valores, gostos e até projetos de vida são coconstruídos. Como afirma André Naves: “a imposição de padrões individualistas leva à padronização e à exclusão, enquanto a inclusão social celebra a diversidade de identidades”. A interdependência robustece a colaboração com os outros e fulcra a própria identidade.


Como descrito por Tiago Sant’Ana, a interdependência é simbolizada pelo Pentecostes – momento em que as diferenças se unem em harmonia, em vez de serem barreiras, como na Torre de Babel. Importante perceber que a veraz individualidade jamais se opõe ao coletivo, já que é enriquecida por ele. Preservá-la, enquanto ela contribui para um todo maior, manifesta uma visão mais humana, empática e sustentável da existência.

 

Portanto, assumir nosso lugar na interdependência significa reconhecer que não vivemos isolados, mas também, não nos anulamos nos outros. É não permitir que as expectativas alheias ou a busca por aceitação apaguem nossa essência. A interdependência não é sobre se perder na multidão, mas, sobre ser uma peça distinta que faz o sistema funcionar. Só podemos oferecer algo valioso ao todo se cultivarmos nossa individualidade.

 

O valor que temos é nossa essência, enquanto o valor que achamos ter é a percepção dessa essência, que deve ser cultivada através da autovalorização diária. A proeminência e o equilíbrio mental vêm do esforço em alinhar a percepção subjetiva com a realidade objetiva – não gera arrogância, mas sim, confiança e autenticidade – permitindo que o indivíduo seja o condutor do seu destino e reconheça seu potencial como criador de sua própria realidade.

 

Maranguape, Ceará, 04 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE


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