Divagando
em meus pensamentos, lembrei da relação traçada por Descarte entre o valor do indivíduo
e sua utilidade – para si próprio ao menos – para o coletivo humano que o
orbita. Corroborativamente, na psicologia junguiana, a individuação plena
só é alcançada quando o indivíduo realiza um trabalho equivalente em benefício
do coletivo, pagando seu "preço" à sociedade por iniciativa própria.
A
relação entre o valor do indivíduo e sua utilidade para o coletivo é central na
sociologia de Émile Durkheim, que argumenta que a coesão social moderna
(solidariedade orgânica) depende da diferenciação das funções, onde cada membro
contribui para o todo de forma única. O que nos concita à busca pelo autoconhecimento
que afere o valor próprio, ao passo que distingue quem somos do que pensamos
ser.
O
valor que se tem (Essência/Real) reflete o valor intrínseco de um indivíduo – seu
caráter, integridade, atitudes, valores morais e sua capacidade de amar e
proporcionar bem-estar. Esse valor é construído com o tempo e é interno, porém,
ele ancora o valor social com seu capital moral (amor, lealdade, confiança, etc.)
para manter a sociedade coesa, conforme discutido por Kuiper. Essa autoridade
moral coíbe as paixões desprezíveis.
O
valor que se acha ter (Percebido/Ilusório) é, muitas vezes, distorcido pela
sociedade de consumo, focado na ostentação, bens materiais, status e na
aprovação externa. É uma visão baseada em aparências, sempre transitórias. Como
diz Einstein, o valor humano reside em reconhecer que nossos sentimentos e atos
devem ter como finalidade o progresso da comunidade, definindo assim nossa
verdadeira humanidade.
Portanto,
o descarte do indivíduo ocorre quando se ignora que sua identidade e valor
emergem da interdependência com o grupo, seja pela função social (Durkheim),
pelo serviço ético (Jung) ou pela conexão humana (Einstein/Kuiper). É o
resultado direto da fragmentação social e da perda do sentido de pertencimento
e interdependência. Quando paramos de enxergar o "nós", o
"eu" deixa de ter um solo onde florescer.
O
efeito espelho revela que nossa autoimagem não é um reflexo objetivo, mas sim,
uma moldagem das narrativas emocionais internas, crenças e experiências
passadas. Quando falhamos em nos
enxergar com gentileza, honestidade e aceitação, o espelho deixa de ser um
portal de reconhecimento e torna-se uma lente distorcida por julgamentos
severos e inseguranças. Nossos olhos não são câmeras, mas sim, projetores de
nossa história interna.
Sem
esse olhar interno equilibrado, a percepção visual é dominada por autocrítica
imediata e foco em imperfeições, o que impede a autoestima de florescer. A utilidade e o valor próprio só são
restaurados quando praticamos o diálogo interno gentil e a observação sem
julgamento, permitindo que a identidade se reconheça em seu pertencimento e não
apenas em suas falhas percebidas. Somente assumimos nosso lugar na interdependência
humana.
A
interdependência é uma marca evolutiva. Ao contrário de outras espécies que
dependem da força física, o ser humano sobrevive e evolui através da
cooperação, divisão de trabalho e formação de grupos. Indica que a verdadeira
realização, maturidade e identidade humana só são alcançadas quando
reconhecemos nossa conexão e dependência mútua com os outros. Ainda que vivamos
a ilusão de sermos independentes ou superiores.
Na
realidade, somos seres frágeis e dependemos intensamente do cuidado e da ação
coletiva. Como aduz a ética contemporânea, que vê o sujeito não como um ser
isolado, mas sim, inserido em um contexto social e histórico, onde a ação
individual é inseparável das relações coletivas. Esse reconhecimento exige
coragem para enxergar além da superfície física e abraçar a complexidade de
quem somos por dentro.
Ao
assumir nosso lugar na interdependência abandonamos o individualismo extremo,
pois, compreendemos que nossa identidade é moldada pelo "nós", e não
apenas pelo "eu. Essa maturidade emocional envolve passar da dependência
(precisar de outros) para a interdependência (colaborar com outros), que é o
nível mais elevado de relacionamentos, bem-estar e harmonia social, segundo a
abordagem de Stephen Covey.
A
ideia de que nascemos em contextos sociais – familiares, culturais,
comunitários – evidencia que nossos valores, gostos e até projetos de vida são
coconstruídos. Como afirma André Naves: “a imposição de padrões individualistas
leva à padronização e à exclusão, enquanto a inclusão social celebra a
diversidade de identidades”. A interdependência robustece a colaboração com os
outros e fulcra a própria identidade.
Como
descrito por Tiago Sant’Ana, a interdependência é simbolizada pelo Pentecostes –
momento em que as diferenças se unem em harmonia, em vez de serem barreiras,
como na Torre de Babel. Importante perceber que a veraz individualidade jamais
se opõe ao coletivo, já que é enriquecida por ele. Preservá-la, enquanto ela contribui
para um todo maior, manifesta uma visão mais humana, empática e sustentável da
existência.
Portanto,
assumir nosso lugar na interdependência significa reconhecer que não vivemos
isolados, mas também, não nos anulamos nos outros. É não permitir que as
expectativas alheias ou a busca por aceitação apaguem nossa essência. A
interdependência não é sobre se perder na multidão, mas, sobre ser uma peça
distinta que faz o sistema funcionar. Só podemos oferecer algo valioso ao todo
se cultivarmos nossa individualidade.
O
valor que temos é nossa essência, enquanto o valor que achamos ter é a
percepção dessa essência, que deve ser cultivada através da autovalorização
diária. A proeminência e o equilíbrio mental vêm do esforço em alinhar a percepção
subjetiva com a realidade objetiva – não gera arrogância, mas sim, confiança e
autenticidade – permitindo que o indivíduo seja o condutor do seu destino e
reconheça seu potencial como criador de sua própria realidade.
Maranguape,
Ceará, 04 de Maio de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo
Jornalista CRP/MTE
nº 0005168/CE

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