quarta-feira, 13 de maio de 2026

ABOLIR É LIBERTAR-SE DO FLAGELO QUE PRENDE A TODOS

Tudo começou no Ceará marcado pela brutalidade da Grande Seca (1877-1879) que forçou uma migração massiva do interior para Fortaleza, superpovoando a capital e criando condições insalubres, culminando na devastadora epidemia de varíola que causou milhares de mortes, com um dia do ano 1878 ficando conhecido como o dos "Mil Mortos". Em meio a este caos in voga, a elite debatia soluções e a literatura registrava a tragédia humanitária, a movimentação abolicionista no Ceará estava em um estágio de crescente organização e ativismo, um passo crucial para os eventos subsequentes que levariam o Ceará a abolir a escravidão em 25 de março de 1884, sendo desde então, historicamente, conhecido como a "Terra da Luz" – título popularizado pelo jornalista e abolicionista José do Patrocínio, que era apelidado de "O Tigre da Abolição".

 

Não haveria o cearense de contentar-se com a Lei Eusébio de Queiroz (1850) que se limitava proibir a entrada de escravos no Brasil. Mais do que isso, ansiava pela sua liberdade. A sociedade cearense não cessava de aplaudir o gesto nobilitante dos maçons (chamados “filhos da viúva”) que alforriavam seus escravos em sessões abertas ao público. O jornalista-maçom João Brígido – cunhado do Dragão do Mar, que desposara sua Irmã Ernesta Brígido do Nascimento – foi o esteta da crônica que descreve a vida social da Fortaleza de antanho. Ei-lo numa de suas descrições: “A Loja Maçônica Fraternidade Cearense, onde estava alistada a opulência da Cidade, nas suas festas alforriava a bom preço levas inteiras de cativos”.

 

Animado com as notícias recebidas do Ceará, o maçom-abolicionista José do Patrocínio veio certificar-se delas pessoalmente, desembarcando no Cais do Porto, na manhã de 30 de novembro de 1882 a bordo do navio “Ceará”, foi recebido pela gente da Sociedade Cearense Libertadora. Recorda Elvira Pinho: “Quando ele pulou na ponte, um escravo o beijou e nós lhe cobrimos a cabeça de rosas, o que havia de melhor nos jardins da cidade. Chamaram-lhe de Marechal Negro. Lembro-me do seu encontro com o Chico da Matilde (Francisco José do Nascimento)… “Então, companheiro, o porto está mesmo bloqueado?” Chico da Matilde respondeu com firmeza: “Não há força neste mundo que o faça reabrir ao tráfico negreiro”, retrata Edmar Morel em O Jangadeiro da Abolição. O Tigre da Abolição o chama de “Dragão do Mar”, para exaltar a bravura e a força do prático-mor que, como um guardião mítico das águas, havia "fechado" o porto do Ceará para o tráfico negreiro.

 

Indubitavelmente, a liberdade é, desde sempre, um bem ainda mais precioso do que a própria vida, sendo vista por muitos como o que define a condição humana e a qual não se deve renunciar. Autores como Rousseau e Allende demonstraram que indivíduos e nações estão dispostos a suportar a morte, o fogo e a fome em nome desse valor, pois renunciar à liberdade é renunciar à própria essência humana. Para pensadores como Hegel, a liberdade não é a simples "ausência de restrições" ou "fazer o que se quer", mas, um conteúdo de valor universal que deve ser distinguido de interesses privados. Manter uma existência livre é custoso para a mente humana, exigindo a aceitação da responsabilidade e do sofrimento, mas o preço de não viver livremente é descrito como ainda mais alto, envolvendo a venda da alma e da própria vida.

 

A candeia da liberdade acesa pelo povo cearense logo se tornou um luzeiro aclarando os passos do Brasil rumo à dignificação do humano. De fato, a província cearense não apenas antecipou a Lei Áurea de 1888 ao abolir a escravidão em 25 de março de 1884, como também, enlevou-se como um farol moral e político para as outras províncias.  Esse pioneirismo rendeu ao estado o título de "Terra da Luz", um reconhecimento que ecoou nacional e internacionalmente, sendo até mesmo saudado pelo escritor francês Victor Hugo, sintetizando com poder simbólico o papel histórico do Ceará no processo de abolição da escravidão no Brasil.

 

Mesmo sendo o último país das Américas a abolir a escravidão, após quase 400 anos de um sistema de trabalho forçado, o Brasil a instituiu a partir da Lei nº 3.353, sancionada em 13 de maio de 1888 pela Princesa Isabel, que com apenas dois artigos buscou extinguir o maior flagelo da humanidade: a Escravidão. No primeiro artigo declarava a abolição e no segundo revogava disposições contrárias. A abolição foi um processo lento e fruto de intensas lutas, sendo precedida por leis intermediárias, como a Lei Eusébio de Queirós (1850 - fim do tráfico), Lei do Ventre Livre (1871) e Lei dos Sexagenários (1885), mas, chegou ao fim pelas mãos diligentes da Princesa Isabel que, além da assinatura, atuou de forma ativa na pressão política, incluindo a destituição de ministros contrários à abolição e o apoio a fugitivos de senzalas.

 

A escravização é universalmente reconhecida como um dos maiores e mais persistentes "flagelos da humanidade", devido ao seu impacto devastador e duradouro na dignidade, liberdade e bem-estar de milhões de pessoas ao longo da história e, infelizmente, ainda hoje em formas modernas. Segundo Stephanie Macedo, comunicadora social da Agência de Notícias da Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe, embora a escravidão formal tenha sido abolida legalmente em todo o mundo, formas modernas de escravidão persistem, como o tráfico humano, o trabalho forçado e a servidão por dívida, o que demonstra que a luta contra esse flagelo continua. Conforme reporta a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2021, 49.6 milhões de pessoas viviam em situação de escravidão moderna (o flagelo alcança uma em cada 150 pessoas no planeta Terra). Desse total, 28 milhões de pessoas realizavam trabalhos forçados e 22 milhões estavam presas em casamentos forçados.

 

Assustadoramente, entre 1995 e 2020, mais de 55 mil pessoas foram libertadas de condições de trabalho análogas à escravidão no Brasil, segundo o Radar da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada à Secretaria Especial de Previdência e Trabalho (SEPRT) do Ministério da Economia. As trabalhadoras e os trabalhadores libertados são, em sua maioria, migrantes internos ou externos, que deixaram suas casas para a região de expansão agropecuária ou para grandes centros urbanos, em busca de novas oportunidades ou atraídos por falsas promessas. A maiorias dos trabalhadores libertados são homens, têm entre 18 e 44 anos de idade e 33% são analfabetos. 

 

No entanto, se ergues da justiça a clava forte, Brasil. Verás que teus augustos filhos não fogem à boa luta. Eis que Luiz Gonzaga Pinto da Gama, Luiz Gama, é luta. É legado! Sua vida acessível e inclusiva, acolhendo a diversidade de hipossuficientes (negros, indígenas, brancos podres, imigrantes) dando-lhes sustentabilidade a partir da educação, lazer, reflexão e compartilhamento de conhecimentos, rendeu-lhe a alcunha: "o amigo de todos". A leitura dos escritos de Luiz Gama, segundo a professora Lígia Fonseca Ferreira, "é de surpreendente atualidade: há 150 anos, Luiz, denunciou o racismo institucional pregando valores antirracistas pelos quais, hoje, boa parte do mundo inteiro se mobiliza". Em um mundo onde o "vil metal" perniciosamente imbui e condiciona inescrupulosamente, labutam homens como Luiz Gama, inaugurando a diferença entre o desencanto e a esperança empreendedoramente associando a boa vontade de seus iguais à ação otimamente projetada ao bem fazer à coletividade, à qual busca felicitar.

 

Hoje (13 de Maio) é o dia mais humano do ano aqui no Brasil, pois, concita aos brasileiros ao cumprimento pleno da lei única: “ama a teu próximo como a ti mesmo”, a partir de moções como o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 323/2023 aprovado pelo Senado em 1º de julho de 2025, que embora não esteja sancionado e esteja, mas, aguardando promulgação, mostra ao mundo a boa intenção brasileira de ratificar a Convenção sobre o Trabalho Forçado da OIT (nº 29), celebrada em 28 de junho de 1930, complementada por um protocolo de 11 de junho de 2014, que atualizam as obrigações dos países para erradicar o trabalho forçado moderno, definindo como forçado “todo trabalho ou serviço que é exigido de qualquer pessoa sob a ameaça de qualquer penalidade e para o qual essa pessoa não se voluntaria”.

 

Portanto, não é sem justa causa que a Academia Internacional dos Maçons Imortais tem em Luiz Gonzaga Pinto da Gama o patrono ideal do Museu da Liberdade (que leva seu nome), por ela instituído em 31 de Julho de 2025 para ser um espaço de acolhimento a quem busca o saber. Um equipamento de cultura, de educação e de compartilhamento de conhecimentos que alavanca a real fraternidade entre os povos, abraçando a diversidade e garantindo-lhes sustentabilidade. Um abraço de pertencimento que une propósitos, empodera e embeleza a sabedoria de sermos amigos de todos, como é Luiz Gama, ainda hoje e no povir. Constituída por mais de 200 exuberantes estrelas que a fazem constelação-guia de incontáveis prodígios nas artes, na música e na literatura, a Academia Internacional de Maçons Imortais enaltece a liberdade com bem maior do ser humano, cuja defesa é dever individual de cada ente humano, a bem da humanidade que nos dignifica.

 

Maranguape, Ceará, 13 de Maio de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo


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