sábado, 11 de abril de 2026

O FLAGELO MANIPULADOR

 

Curiosa figura a do pernóstico, aquele que somente se vê vivo quando refletido no olhar que o fita. A ele nada importa como olha – nojo, vergonha, desprezo, horror, ódio –, pois, sua vida está atrelada ao reflexo na íris de quem o olhar. Assim sendo, vale-se de tudo para que o olhem desde sapatear na lama, arrancar os cabelos, etc., pois, quanto maior o escândalo, mais olhar-espelho terá.

 

Nesta agência, a dignidade é a primeira moeda trocada por um segundo de foco. É o triunfo do exibicionismo sobre a essência, onde o indivíduo prefere ser uma caricatura grotesca a ser um humano comum e ignorado. O raciocínio é trágico: "Se você me odeia, você é obrigado a me notar; se me nota, eu existo". É o fenômeno da validação pelo choque.

 

Para quem teme a invisibilidade como se fosse a própria morte, o desprezo é um banquete e o ódio é um troféu. Assim, com toda efusividade, o "pernóstico" transmuta-se em uma criatura puramente cênica – não possuindo um "eu" sólido, mas, unicamente, uma colcha de retalhos costurada pela atenção alheia. Sua carência existencial é descomunal.

 

Incapaz de perceber-se – salvo espelhado no olhar de quem o vê –, o pernóstico passa pela adolescência e alcança a gloriosa fase adulta como um ser repugnantemente pedante e sua mestria como pernicioso manipulador lhe garante “poderes e novas perspectivas para usá-los. Indeciso, entre a terceira pessoa e o plural “realeza”, sua fala anima repetidas encenação no teatro da manipulação.

 

Ainda que inexistindo uma patologia psiquiátrica única que se defina estritamente pelo uso da fala em terceira pessoa (conhecido como ileísmo) ou do plural de majestade (nós em vez de eu), tais comportamentos linguísticos considerados traços de personalidade, hábitos culturais ou técnicas psicológicas, não necessariamente são sintomas de uma doença mental.

 

Porém, como tudo que é demais é veneno, quando esses padrões de fala ocorrem de forma exagerada e estão associados a outros sintomas, eles podem estar presentes em quadros específicos de Ileísmo – uma técnica de distanciamento emocional para ajudar na regulação de sentimentos ou na tomada de decisões mais objetivas sobre a vida e suas interatividades.

 

Também, manifesta claramente o hábito cultural ou o narcisismo social – que é diferente do transtorno de personalidade narcisista –, quando figuras públicas ou pessoas em cargos de poder adotam essa modo de comunicação com o intuito inequívoco de projetar autoridade ou uma estabelecer uma importância – tornam-se normas comportamentais e não patologias clínicas.

 

Embora traços narcisistas como grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia sejam comuns, a linha que separa o comportamento estratégico de poder do transtorno reside no grau e na intensidade desses traços, sendo que o contexto moderno – em sede de sociedade liquida – incentive essa cultura do narcisismo como forma de validação social e política.

 

A relação entre narcisismo e poder é intrínseca.  Pessoas em posições de autoridade frequentemente não se percebem sem se auto exaltar, pois, somente assim sentem consolidada sua posição. O poder, derivado do latim potere, implica na capacidade de impor a vontade e influenciar outros. Nesse contexto, o narcisismo atua como um amplificador simbólico da autoridade.

 

Água demais afoga, embora a “fala” não seja o único critério, seu uso em demasia impulsionado por autoimportância protuberante e grandiosidade descabida, aparece o Transtorno de Personalidade Narcisista – uso do plural de majestade e/ou da falar na terceira pessoa para reforçar sua "superioridade”. Há reis maiores que barrigas que os possa alojar.

 

O “reizinho” somente contempla-se coroado quando refletido nos olhos daqueles que o margeiam, manifestando o Transtorno de Personalidade Histriônica – quando não basta sapatear na areia – que é a mais tímida forma dramática ou peculiar de ser o centro das atenções –, pois, há expressão verbal produz um show é mais eficaz e atraente aos seus interesses.

 

Notadamente, há casos mais graves, onde a alteração na forma como a pessoa se refere a si mesma indica, indubitavelmente, uma perda de contato com a realidade. Durante episódios maníacos – da bipolaridade –, o afetado apresenta delírios epopeicos de grandeza e com o exímio ator, adota uma fala de contundente convencimento de ser ele extremamente importante ou "real".

 

Essa desorganização do pensamento leva o maníaco a uma fala fragmentada ou à perda da noção de "eu", fazendo com que o ele se refira a si mesmo como um objeto ou outra pessoa – um príncipe, por exemplo. Neste influxo, nenhum escrúpulo é capaz de conter sua incursos marginais, pois, qualquer sonido o faz navegar nas paradisíacas ilhas de esquizofrenias e psicoses vis.

 

Destinados ao império, este demérito à humanidade manifesta o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), antigamente chamado de "personalidade múltipla" – e passa a usar pronomes diferentes (como o plural), pois, sente que existem várias identidades coexistindo em si, além da sua própria. A mente fragmenta a identidade como modus de mascarar sua ineficácia como homem.

 

Contrariando Aristóteles para quem o ser humano é um "animal político" (Zoon Politikon) que, por natureza, necessita de convivência para alcançar sua plenitude e felicidade, pois, isoladamente é incapaz de autossuficiência. Este deformado social vegeta na humanidade a partir das sórdidas manipulações com as quais reveste-se da falsa autoridade e importância que encena.

 

Desprovido de família, alcança a velhice avançada. Os avós, tios, pais, irmãos, primos há muitos outonos residem no oriente eterno, por ele intercedendo ao Criador, embora sem êxito, pois, nenhum sobriedade o liberta do vício do “aparecer sem ser mais, tão pouco o que nunca foi”. Sem filhos para acompanha-lo em seus últimos passos, resta a esposa que por dó o acompanha.

 

Escondido por detrás da coexistência de várias identidades, este idoso excêntrico refere-se a si mesmos no plural ("nós"), como também, usa demasiadamente pronomes que reflitam essa pluralidade, sendo uma forma de reconhecer a presença dos diferentes alters que partilham o mesmo corpo que si. Encaliçado pelo hábito, move-se sutilmente entre estas identidade (switching).

 

Cada identidade (switching) com padrões próprios de percepção, comportamento, voz, idade etc., garantindo a este douto manipulador alguma suportabilidade (fuga) ao peso da idade (jamais aceita), às frustações acumuladas e à já notabilizada incapacidade formar relacionamentos sólidos, empáticos e duradouros. Reis existem pelo súditos que o amam, jamais por manipulação.

 

Jamais empático, o "flagelo manipulador" torna-se “sábio” após testar e restar, aprovar e reaprovar dia a dia as táticas psicológicas e emocionais que desenvolveu ao longo da vida para controlar, dominar e explorar outras pessoas em benefício próprio, agindo, indubitavelmente, como um "flagelo" – algo que causa sofrimento, angústia ou destruição sutil na vida de quem o órbita.

 

Atrofiado socialmente, pois, sem máscaras (identidades, switching) não é capaz de conviver em grupo, o flagelo social não realizou suas potências mais elevadas, como a razão e a ética, nem vive – fenece desde o nascimento –, já que a sociedade é a única forma de transformar a "primeira natureza" (biológica) em "segunda natureza" (cultural e histórica), que deve ser real, integra e verídica.

 

Morto, desumanizado, irascível e, mais poderosamente pernóstico do que fora na infância, o flagelo manipulador lamenta nas mais obscuras profundezas d’alma não ter sido o que sua mãe, pai, irmãos etc. confiaram que ele seria. Chora a ausência dos filhos e de todos aqueles que um dia resolveram dedicar-lhe amor. Sua longevidade é seu mais grave artifício, pois, ele nunca viveu.

 

Maranguape, Ceará, 11 de Abril de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE

sexta-feira, 10 de abril de 2026

O AMOR REGENERA A ÉTICA E ESQUADRINHA A JUSTIÇA

Desde tempos imemoriais, a cruz predestina-se a simbolizar a vida e esperança. Com os braços abertos desejosos de abraçar o universo, os mundos que nele há, a natureza que ordena cada mundo, as criaturas que manifestam a vida guiadas pela esperança de, como a cruz, em pé – e às ordens – desvelar os mistérios entre a superfície e às regiões mais profundas, como também, da superfície ao céu, pois, “Deus há de trazer toda obra a juízo, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom quer seja mal”. (Eclesiastes 12:14)

 

O gesto de fazer a cruz não é exclusivo do cristianismo. Na Cabala, ele aciona os quatro elementos (fogo, água, terra, ar), os quatro pontos cardeais e o equilíbrio da Tetraktis pitagórica, harmonizando os hemisférios cerebrais e as correntes energéticas (Nadis) do corpo. Os Rosacruzes, percebem-na nos quatro reinos da natureza (mineral, vegetal, animal e humano). Para a teosofia, a cruz reflete o dualismo andrógino da natureza; esotericamente, o homem que se "crucifica" (vencendo sus paixões) renasce imortal e regenerado.

 

Os Romani veem-na como a lei de ação e reação (karma), indicando que sacrifícios são necessários para alcançar a vitória e que a união do espiritual com o material trará glória, desde que haja fé e esforço. Apregoada por Hermes Trismegisto, como Princípio da Causa e Efeito – cada evento tem sua causa. Portanto, reconhecer isso fortalece a autorresponsabilidade e o poder de escolha. Além disso, nos torna mais conscientes das consequências de nossas ações. Nossa autorresponsabilidade exempla a muitos.

 

Autorresponsáveis, que, dentre muitos, nos exemplam: Jesus Cristo (aquele deu a vida para salvar os cristãos que já mais preferiram ser salvos), Buda (cujo evangelho viceja o mais fecundo, fervoroso e formidável amor), o Profeta Muhammad, que legou o Alcorão Sagrado à humanidade, nele nos consignando como sinais de Allah (o misericordioso): “e um dos Seus sinais é que Ele criou para vocês, a partir de vocês, companheiros para que neles encontrem tranquilidade; e Ele colocou entre vocês carinho e misericórdia.” (Alcorão, 30:21).

 

Esotericamente, a cruz representa, primordialmente, a união de opostos e o equilíbrio entre forças antagônicas, como o céu e a terra, o masculino e o feminino, o sol e a lua, e a vida e a morte.  Sua estrutura geométrica de dois eixos (vertical e horizontal) materializa a integração do transcendente com o imanente e o crescimento espiritual resultante do choque entre universos diferentes. Diversas culturas (fenícios, egípcios, celtas, etc.) a tem como o "eixo do mundo" – uma ponte para a alma alcançar a iluminação.

 

Como aponta Camila Shiota, “a iluminação envolve aceitar e acolher a si mesmo, positiva e negativamente, com amorosidade”. O autoamor é o alicerce para o amor externo verdadeiro, pois, só quem se ama pode amar com autenticidade. Para muitas escolas esotéricas, amar algo é a única forma de conhecê-lo verdadeiramente. Na medida em que o "eu" diminui, a percepção da realidade se amplia, o que é o cerne da iluminação em tradições como o Budismo (através da Metta ou Amor Bondoso) e o Hinduísmo (Bhakti Yoga).

 

Ao iluminarmos os pensamentos, aclara-se a percepção de nossos defeitos. Essa lâmpada não é acesa para ser escondida, mas, para ser luz do mundo através do amor, bondade e esperança disseminados pelo maçom, espelhando verdade, justiça, harmonia e inspirando os outros a, também, se transformarem em luzeiros do progresso e da felicidade humana, cônscio de que “toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação”. (Tiago 1:17)

 

Neste status quo de permanente zênite – onde inexistem a sombras das dúvidas, a penumbra das incertezas, tão pouco o obscurecentes preconceito – o amor, “como elo perfeito” (Colossenses 3:14), aceso no coração bem formado do maçom assume uma condição tripartite: "Verum, Animus, Officium”, estruturando-se não apenas como emoção, mas, como um compromisso ético e racional. Evidenciando que exige honestidade (Verdade), a presença da alma/vontade (Intenção) e o compromisso prático de servir ao amado (Dever).

 

Essa tríade fulcra um amor maduro, que une a verdade intelectual à afeição emocional e à prática cotidiana. Fervorosamente, o amor atua como vetor de iluminação ao nutrir a luz interior, fortalecer o autoconhecimento e promover a cura, agindo como uma força que transcende o ego. Ele ilumina processos terapêuticos e relacionamentos, transformando a dor em sabedoria, enquanto o amor-próprio e a empatia tornam o ser mais seguro e capaz de iluminar o mundo. Enquanto o intelecto analisa e separa, o amor une e integra.

 

O amor é a força que "desmagnetiza" a alma das preocupações puramente materiais e egocêntricas, funcionando como uma bússola que aponta para a realidade última da interdependência. Indiscutivelmente, as afirmações de Paulo de Tarso sobre o amor dão-nos uma mestria sine-qua-non se observadas, seguidas e vividas: “não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor”. (1 Coríntios 13:4,5). O amor regenera a ética e esquadrinha a justiça.

 

Regenerar a ética reflete uma visão profunda sobre a interdependência entre os valores humanos e espirituais. Enquanto a ética pode muitas vezes se tornar um conjunto rígido de normas e deveres, o amor a "regenera" ao trazer humanidade e propósito às regras. Ao esquadrinhar a justiça, o amor exige que ela não seja apenas cega e punitiva, mas, que analise cada contexto para restaurar a dignidade e a verdade. O amor não ignora a justiça; pelo contrário, ele a torna mais precisa. Do hábito de amar regenera-se o homem.

 

Esta iluminação é o despertar da sabedoria, a clareza mental e o entendimento profundo da existência, vetores do equilíbrio que aplicado nas relações humanas, ancora o respeito à diversidade e institui a cooperação com vetor da fraternidade a nos unir como verdadeiros irmãos sob os auspícios do sagrado, pois, “é melhor serem dois do que um, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas” – ou mais. (Eclesiastes 4:9), contrariando esses dias em que o individualismo parece ser promovido e tendo como objetivo ser-se autossuficiente, estabelecer relações de aliança favorece melhores conquistas.

 

Neste influxo, evoco as interpretações rosacrucianas, onde a cruz simboliza o homem regenerado que integra suas duas partes e renasce espiritualmente após a experiência da "crucificação" das paixões materiais.  Cumprindo diferenciar que, enquanto a Cruz de Malta (ou de São João) representa as oito virtudes ou obrigações dos cavaleiros, a Cruz da Ordem Teutónica – ordem de cavalaria medieval que unia caridade e guerra – enfatiza proteção, devoção e a busca pela iluminação espiritual através do equilíbrio das forças opostas.

 

Maranguape, Ceará, 10 de Abril de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9



quinta-feira, 9 de abril de 2026

1923 – ONDE OS PÁSSAROS SE AJUNTAM NASCE MESTRE ZOZA

 

No Brasil, o ano 1923 começou bem, tendo o dia 24 de janeiro como marco inicial da Previdência Social no Brasil (Lei Eloy Chaves), estabelecendo a primeira legislação sistemática para garantir proteção social aos trabalhadores. A lei introduziu princípios fundamentais como a aposentadoria por velhice (aos 50 anos com 30 anos de serviço), pensões por morte e auxílio por invalidez, reconhecendo a necessidade de amparo estatal diante das precárias condições de trabalho da época. Seu legado perdura na estrutura do INSS beneficiando milhões de brasileiros. 

 

No Ceará, o ano 1923 foi de conquistas e inaugurações significativas para a cultura local. No dia 8 de fevereiro, o Cearense Pinto Martins pousa no Rio de Janeiro, após realizar o voo Nova York-Rio de Janeiro, simbolizando a modernidade e o orgulho cearense. O Fortaleza Esporte Clube sagrou-se campeão cearense de futebol neste ano.  Além disso, em 22 de abril de 1923, foi inaugurado o Campo do Alagadiço, que se tornou um dos principais palcos do futebol cearense, dividindo a atenção com o Campo do Prado e impulsionando a popularidade do esporte na capital.

 

O Maciço do Baturité, em 1923, vivia o auge de seu ciclo econômico cafeeiro, consolidando-se como um polo produtor e comercial no Ceará – o "café de sombra" de Baturité ainda era um produto de prestígio, exportado para a Europa através do Porto de Fortaleza. Com a Estrada de Ferro de Baturité já consolidada, a região integrava a produção de café e algodão a Fortaleza.  A região era um forte centro de Ação Católica, com o Círculo Operário Católico e a presença marcante dos clérigos, preparando terreno para a Escola Apostólica dos Jesuítas (1927).

 

A vida em Aratuba – então chamada de Vila Coité até 1929, quando a vila foi rebatizada como “Santos Dumont” em homenagem ao aviador brasileiro Alberto Santos Dumont, após o sucesso do 14-bis –, em 1923, girava em torno da Igreja Matriz de São Francisco de Paula (sua padroeira), e a população vivia em um cenário de transição lenta. A vila A cidade contava com energia elétrica, que havia chegado em 1919, e uma crescente rede comercial e bancária iniciada na década anterior. A nome "Aratuba" só foi adotado em 1943, ainda como Distrito pertencente a Pacoti.

 

Neste auspicioso ano de 1923, no Sitio do Coco, em meio a abundância dos pássaros (ou "ajuntamento de pássaros") que em tupi diz-se “aratuba”. No ponto mais alto do Estado do Ceará – situado a quase 1.000 metros de altitude na Serra de Baturité –, conhecido, por isso, como a cidade mais fria do estado. O cantar do pássaros, na manhã do dia 19 de Outubro, festejava o nascimento daquele destinado ao fomento da musicalidade, José Zoza Correia Sobrinho, popularmente conhecido como Mestre Zoza, que viria a ser, brevemente, importante referência cultural para o município.

 

Filho mais velho de um grupo de 13 irmãos, nascido do hospitaleiro senhor Antônio Correia e da maviosa senhora Otília Maria do Espírito Santo, Zoza era dotado argucia e habilidade que o distinguia dos demais membros da família, coisa que intrigava o senhor Antônio Correia, que não entendia por que seu filho não se aplicava a agricultura. Atingido nas pernas por um chifre de boi, lançado por sua mãe por não prestar atenção na comida do almoço, seu avó João Correia, o defendeu dizendo que ele devia seguir o seu destino, pois, logo ele seria um grande construtor, orgulhando toda a família.

 

Zoza Sobrinho cresceu e, cumprindo a profecia do senhor João Correia, seu avô, dedicou-se a construir objetos, prédios, casas de engenho. Construiu prédios na cidade entre eles, a escola estadual, a praça central, prédios públicos e uma de suas maiores obras da qual se orgulhava era a Igreja São Francisco de Paula, onde fez todas as telhas manualmente juntamente com Mestre Aristides, e até hoje mostra perfeição em seu formato. Com boa vontade e altruísmo Zoza construiu sua mestria. Um legado de exemplos levado ao futuro por seus filhos que herdaram suas habilidades.

 

Guiado pela inventividade que jamais o deixou desistir dos seus intentos, Mestre Zoza, após várias tentativas, criou seu próprio violino e este se encontra em exposição no Museu Municipal de Aratuba. A arte de criar violinos artesanais é uma profissão manual especializada conhecida como luthieria, onde um profissional (luthier) constrói instrumentos de corda com caixa de ressonância inteiramente à mão, desde a idealização do modelo até seu acabamento final. Envolve etapas minuciosas e demoradas: escolha da madeira, cortes e entalhes manuais e acabamento e verniz.

 

O luthier equilibra a estética e a ergonomia utilizando conhecimentos de química, física e marcenaria para criar ou ajustar instrumentos de alta qualidade sonora. Historicamente, esta arte é dominada por três famílias de Cremona, na Itália (Amati, Guarneri e Stradivarius), que estabeleceram padrões de qualidade que perduram até hoje.  A construção difere da produção em massa por focar no ajuste manual da flexibilidade da madeira (voicing) e na escultura das varetas internas para afinar o som, garantindo que cada instrumento tenha uma "voz" única e característica.

 

Este processo é considerado uma arte antiga e arrojada, exigindo muita perícia, pois, a menor variação nas dimensões ou na escolha da madeira afeta diretamente a qualidade do som do instrumento. Na década de 1990, já estabelecido nesta arte, Mestre Zoza foi entrevistado pela TV Verde Mares e ensinou basilarmente como confeccionar violinos, ao passou que anunciou que o curso mais aprofundado faria na Casa de Cultura. Na mesma década convidado pela Secretária de Cultura do Ceará a ensinar a confeccionar o instrumento em Juazeiro do Norte, a sua saúde não o permitiu.

 

Mestre Zoza foi um homem simples, que embora não tivesse escolaridade alguma, se destacou por várias habilidades que o tempo e a contemplação lhe fizeram devolver. Além de oleiro, pedreiro, carpinteiro, luthier e músico, Zoza é conhecido como anedotista – um homem que sabia contar histórias e transmitia sabedoria através do humor e da oralidade, dando vida aos personagens com entonação e gestos. A palavra deriva do grego antigo anédoton (que significa "não dado" ou "secreto" ou coisas não publicadas), combinado com o sufixo “-ista”, indicando especialização.

 

No contexto cultural e social, o anedotista é a arte ou ofício de quem atua como um transmissor de valores e um catalisador de coesão grupal, utilizando o humor para aliviar tensões ou moldar identidades coletivas. Envolve o uso de linguagem coloquial, diálogos diretos e um final (punchline) que quebra a expectativa, garantindo riso e engajamento, além de preservar a memória coletiva e sátira política. Ser anedotista notabilizou Zoza como "Mestre da Cultura" local, estabelecendo um legado de memória afetiva antes de seu falecimento em 1994.

 

Num ano extremamente emblemático no Brasil – em República “não mais provisória”, finalmente, definitiva conforme o plebiscito de 7 de setembro de 1993, com cerca de 66% dos votos, enquanto a Monarquia obteve aproximadamente 10%  e o total de votos brancos e nulos contabilizaram  34% – marcado pela morte de Ayrton Senna em 1º de maio e pela implementação do Real em 1º de julho, falece no dia 20 de maio de 1994, José Zoza Correia Sobrinho, cuja mestria aclara os caminhos de prosperidade para o povo cearense – musical por excelência e anedotista de raiz.

 

Após sua morte, Mestre Zoza, foi homenageado através da Lei Municipal nº 182/2002, do Poder Executivo de Aratuba, deu o nome Zoza Correia uma rua da cidade. Em primeiro de dezembro de 2010, a Lei Municpal nº 381/2010, em seu artigo 1º institui a Banda de Aratuba com o nome de Banda Municipal Mestre Zoza. Por justo reconhecimento, o nome Banda Mestre Zoza é ideia do senhor Júlio de Paula Pereira à professora Aila Santana, na época diretora da Escola Municipal Isabel Hermínia Pinto (Mundo Novo), onde, em 2009, a banda de música iniciou suas atividades. 

 

Maranguape, Ceará, 09 de Abril de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Maria Aurélia Abreu Braga
Cadeira ACLA nº 18

quarta-feira, 8 de abril de 2026

ROMANI: LIBERDADE CONTAGIANTE, IGUALDADE ACONCHEGANTE E FRATERNIDADE CATIVANTE

 

Hoje (08/04) confraternizamos com os povos ciganos, também conhecidos como romani, originários do noroeste do subcontinente indiano, mais especificamente das regiões do Punjab e do Rajastão, na atual fronteira entre Índia e Paquistão. Embora a teoria da origem indiana seja a mais aceita cientificamente, o termo "cigano" historicamente gerou confusões. A palavra provém de termos como o grego bizantino atzinganos ("intocável") ou foi uma corruptela de "egípcio" (de onde vem gypsy e gitano), pois, os primeiros europeus acreditavam erroneamente que eles vinham do Egito.

 

O endônimo correto adotado por organizações internacionais é rom, que significa "homem" na língua romani, uma língua de origem indo-ariana – rom no singular, roma no plural ou romani (adjetivo) – preferido a "cigano", que foi historicamente usado de forma pejorativa pela ciganofobia é uma forma de marginalização, atribuição de estereótipos negativos e preconceito estrutural. A diáspora cigana se expandiu para a Europa e África do Norte a partir do século XI, passando pelo planalto iraniano e chegando à Europa Ocidental no século XIV, emergindo grupos étnicos como Rom, Sinti e Calon.

 

No Brasil, estima-se que existam cerca de 500 mil ciganos, distribuídos em 337 municípios, com grandes grupos de origem europeia e asiática que migraram para o país desde o século XIV. Aqui os ciganos são considerados povos tradicionais, protegidos por políticas de igualdade racial, com forte presença dos grupos Calon e Rom. Contrariando o senso comum, muitos ciganos são sedentários ou seminômades, vivendo em casas, porém, mantendo a identidade cultural.  Uma cultura é marcada pela oralidade, música e dança, por um sentido de "nação sem país” e pelo respeito à família e aos anciãos.

 

A importância do povo romani para a história da humanidade reside na sua resiliência e capacidade de sobrevivência, mantendo uma identidade cultural, línguas próprias (como o romani) e tradições orais ao longo de milênios de perseguição, discriminação e dispersão global, tornando-se um exemplo de adaptação e resistência contra a escravatura (como na Romênia, onde foram escravizados por 300 anos) e extermínio, como o "Porrajmos" (A Devoração) o genocídio nazista que eliminou cerca de 500 mil a 2 milhões de ciganos, esquecido na memória histórica global ao lado do Holocausto judaico.

 

Incontestavelmente, a história cigana é também uma história de luta contra o preconceito. A imagem do "cigano trapaceiro" é uma construção histórica pejorativa que encobre a marginalização social que enfrentaram. A falta de compreensão de sua cultura nômade gerou estereótipos que perduram até hoje, resultando em exclusão social e falta de acesso a direitos fundamentais. A mídia e a literatura reforçaram estereótipos, associando-os a bruxaria, roubo de crianças e falsa adivinhação.  Até hoje, dicionários e livros didáticos os definem como "boêmios" ou "trapaceiros", perpetuando o preconceito. 

 

Ainda assim, o povo romani contribuiu significativamente para a diversidade cultural mundial influenciando tradições artísticas e sociais em diversos continentes onde atuaram como artesãos habilidosos (caldeireiros, ferreiros, latoeiros), comerciantes, músicos e, principalmente, como facilitadores na troca de saberes e produtos entre diferentes povos. Agentes da cultura por excelência, ciganas e ciganos acumularam profundos saberes sobre ervas, cura, leitura de mãos e astrologia e tornaram-se conselheiros em assuntos diversos e especialistas em medicina popular (homeopatas) nas comunidades.

 

Sob o lume do provérbio que o identifica: "O céu é o meu teto, a terra é a minha pátria e a liberdade é minha religião", o povo romani rompe as eras ofertando rosas àqueles que os maltratam e perseguem. A produção de peças artesanais – cobre, vime e madeira – conta a história nômade, a conexão com a natureza e com os demais povos. A música cigana é vibrante, enquanto a dança é uma forma de preservação de tradições e comunicação. Em alguns contextos europeus, o flamenco é uma forte manifestação, enquanto no Brasil, a música sertaneja é popular entre grupos como os Kalon.

 

A música folclórica cigana é indissociável da cultura do povo cigano, expressando amor, alegria e o sofrimento do mundo, servindo como uma crônica do cotidiano. No contexto da comunicação social cigana, a música não é apenas entretenimento, mas, um veículo para a voz e a representação de uma cultura, visando a inclusão e o reconhecimento social. Projetos, como o "A Música Cigana A Gostar Dela Própria" em Portugal, utilizam a música para quebrar barreiras sociais, utilizando a tradição oral para manter vivas práticas ancestrais, combater o preconceito e fomentar a inclusão social.

 

No Brasil, o "musicar" interétnico em São Paulo demonstra como dançarinas e músicos ciganos e não-ciganos criam coletivamente, usando a música como luta e sobrevivência. A arte funciona como uma ponte para a integração de comunidades ciganas em contextos urbanos e regionais, permitindo trocas interétnicas e o reconhecimento de novas formas de expressão (como a fusão com o breakdance) O uso de redes sociais (como Instagram) e lives (ex: "Cultura Cigana em Foco" da SecultBA) ajuda a dar visibilidade à cantores e à história cigana, combatendo estereótipos.

 

A literatura cigana evoluiu de uma tradição predominantemente oral (contos, fábulas e músicas) para uma produção escrita que ganhou força no século XX, com autores de diversos países passando a registrar suas histórias em diferentes línguas e dialetos.  Embora a língua Romani – que manifesta a preservação da língua materna como um elemento central da identidade e da resistência do povo romani – tenha pouca tradição escrita histórica, a literatura contemporânea atua como um meio subversivo e de denúncia, expondo a realidade do povo cigano, os estigmas, a discriminação e a resistência cultural sem censura.

 

Conscienciosos, autores ciganos e estudiosos têm produzido obras que vão desde a ficção até a não ficção, dentre os quais se destacam na literatura brasileira e mundial: Dalã Calon (Brasil), Jerônimo Guimarães (Brasil), Cecília Meireles (Brasil) – embora muitas vezes estudada no contexto da literatura brasileira geral, é frequentemente citada em estudos ciganos como tendo origem no ramo Calon –, Valdemar Kalinin (Bielorússia) – destacado na literatura cigana por sua atuação na Escola Literária Russo-Romani – e Alija Krasnici (Sérvia), este último conhecido por escrever prosa em romani e elaborar dicionários. 

 

No entanto, a língua materna cigana, principalmente em suas variantes orais como o chibi, enfrenta alto risco de extinção devido a múltiplos fatores estruturais e sociais. Como a língua é predominantemente oral e não possui ortografia padrão, seu ensino nas escolas é dificultado. A falta de materiais pedagógicos formalizados e de profissionais qualificados para ensinar a língua cigana aprofunda a crise. Além disso, o analfabetismo ainda é alto nas comunidades, o que limita o acesso à educação de qualidade. Com menos de duas mil pessoas falando o dialeto chibi no Ceará, a língua se encontra em estado crítico.

 

Por oportuno e justo, o Estatuto dos Povos Ciganos, aprovado no Senado, reconhece as línguas ciganas como patrimônio imaterial, assegurando o direito à preservação de sua cultura e incentivando a disseminação de seu conhecimento pelo poder público. Nele ancorado, um movimento, apoiado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aborda as identidades linguísticas e étnicas ciganas nas escolas. E Associações como a ASPRECCE (Associação dos Ciganos do Ceará) e o Instituto Cigano do Brasil, entre outras entidades, promover o ensino do dialeto e a valorização da cultura.

 

O fortalecimento da identidade romani passa por políticas públicas inclusivas, como o reconhecimento dos ciganos como povo tradicional (Decreto de 2016) e a garantia de acesso à saúde e educação sem exigência de domicílio fixo.  A luta contra o preconceito exige espaços escolares seguros, valorização das tradições e participação das comunidades na elaboração de currículos.  A língua, nesse contexto, deixa de ser apenas um meio de comunicação e se torna um símbolo de resistência cultural. Através da língua, são passados os valores, as tradições, a sabedoria ancestral e as leis internas do clã (como a Kris entre os Rom).

 

A Sociedade Romani é organizada em torno de fortes laços familiares, hierarquia comunitária e um profundo conceito de liberdade, com a família sendo a instituição central. Sua história, valores e normas de conduta são passados de geração em geração através da fala, contos e lendas, fortalecendo os laços familiares e comunitários. Não há pratica religiosa única ou dogmática; adota-se a fé do território onde circulam (catolicismo, protestantismo, etc.), embora mantenha crenças espirituais e princípios específicos, como a devoção a Santa Sara de Kali entre os católicos. 

 

O Dia Internacional dos Roma (ou Dia Internacional do Povo Cigano), celebrado anualmente em 8 de abril, foi instituído no Primeiro Congresso Mundial Romani, realizado em 1971 em Orpington, nas proximidades de Londres, Reino Unido.  A data, reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), tem como objetivo principal promover a inclusão social, dar visibilidade à cultura, história e tradições do povo Romani e combater o ciganofobia, uma das formas de racismo mais persistentes na Europa e no mundo.

 

A data, também, reconhece a contribuição da etnia cigana na formação da história e da identidade cultural mundial, além de promover a inclusão social e o combater ao preconceito, além de ressaltar que a comunidade Romani é a maior minoria étnica na Europa, estimada em cerca de 10 milhões de pessoas, e enfrenta historicamente desafios significativos, incluindo discriminação no acesso à educação, emprego, habitação e saúde. A data é um chamado para a sociedade reconhecer a resiliência desse povo e promover a igualdade de direitos, garantindo-lhe visibilidade, pertencimento e harmonia social.

 

Durante o congresso de 1971, foram adotados os principais símbolos da identidade Romani, incluindo a bandeira com o disco vermelho na bandeira dos Roma – simboliza o caminho da vida e a liberdade em movimento, representando também a roda da carruagem, um elemento histórico ligado ao modo de vida nômade do povo. Os 16 raios do disco remetem à jornada e à resistência ao longo do tempo. E as faixas verde e azul representando a terra e o céu – e o hino "Gelem, Gelem" (andei, andei) – símbolo de unidade, identidade e resistência de uma nação dispersa pelo mundo.  

 

Maranguape, Ceará, 08 de Abril de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo

terça-feira, 7 de abril de 2026

O JORNALISTA MANIFESTA O AMOR QUE CURA O MUNDO

Hoje (07/04), Dia Mundial da Saúde, lembrei do Poetinha – assim chamado carinhosamente por todos nós – Vinícius de Morais, que diz: “Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido”. Essa correspondência é uma comunicação ativa – e perene – que mantemos com a vida – e ela conosco – a todo momento através da repetição, da dor, da beleza e da ordem natural que manifesta a vida em todo o seu esplendor. Compreender essa linguagem simbólica é um passo para viver com mais clareza, propósito e liberdade interior, amando sempre.

 

O amor tem seu start-up no cérebro, anuncia a neurociência, como uma resposta motivacional, ativando sistemas de recompensa (dopamina) e liberando hormônios de vínculo, como a oxitocina. Envolve companheirismo, confiança e a capacidade de se encantar pelo jeito de ser do outro. É descrito como um estado de ressonância emocional, onde a presença do outro traz alegria. o amor é uma mistura de emoção, biologia e escolha pessoal, que potencializa a alma e proporciona um sentimento de conexão e união. 

 

Retratado como uma luz intensa, comparável ao brilho do sol ou do luar, sendo uma força que transforma e abençoa. Diferente da paixão, que costuma ser intensa e passageira (durando de alguns meses a dois anos), o conceito de amor maduro envolve aceitação dos defeitos alheios, estabilidade e o desejo pelo crescimento do outro, independentemente do controle pessoal. Freud vê o amor como uma forma de projeção de ideais e desejos, muitas vezes, buscando suprir carências internas através do outro. 

 

O amor como comunicação é a expressão ativa de afeto, respeito e conexão, indo além das palavras para construir relacionamentos sólidos. Envolve empatia, escuta ativa e o uso de "linguagens" (tempo, toques, serviços, presentes, palavras) para garantir que o outro se sinta valorizado. A Proporção de Gottman prescreve a mantença de interações positivas (carinho, gratidão, risadas) em uma proporção de 5 para 1 contra interações negativas como ótima chave para estabilidade, baseado no zelo e integridade.

 

Portentoso, o amor é o mais capaz combatente ao Bullying – caracterizado pelo desequilíbrio de poder (força ou popularidade) e por ter como objeto humilhar, intimidar ou segregar, sendo comum em ambientes escolares e podendo se estender ao ambiente virtual, conhecido como cyberbullying –atuando como o oposto da intimidação. Enquanto o bullying é caracterizado pela violência repetitiva e humilhação, o "combate com amor" foca no acolhimento da vítima, na reeducação do agressor e na construção de um ambiente seguro e acolhedor. 

 

Mais do que um sentimento abstrato, o "amor" nesse contexto é tratado como uma ferramenta pedagógica e social ativa. Baseado na premissa de Nelson Mandela, o conceito defende que, se o ódio é aprendido, o amor também pode ser ensinado. Escolas adotam programas como o Sistema Preventivo, que foca em educar com afeto para prevenir a violência antes que ela ocorra. Ações de conscientização mostram que o carinho e o elogio têm o poder de "curar", enquanto o insulto pode destruir psicologicamente o indivíduo e, nisso, a harmonia social.

 

Embora as escolas sejam o cenário mais comum e discutido, essa prática de intimidação sistemática (Bullying) ocorre em diversos espaços da sociedade e pode atingir pessoas de qualquer idade. O que define o bullying não é o local, mas sim o comportamento intencional, repetitivo e com desequilíbrio de poder, que causa sofrimento à vítima. O stalking pode ser considerado uma forma grave de bullying, mas hoje é tipificado no Brasil como um crime específico (perseguição obsessiva).

 

Neste influxo, o assédio moral é, também, uma forma específica de bullying, denominado "bullying ocupacional" ou mobbing quando ocorre no ambiente de trabalho. A exemplo do que, também, acontece no stalking, ambos envolvem comportamentos repetitivos, humilhantes e degradantes destinados a desestabilizar a vítima, porém, diferem principalmente no contexto e nas esferas jurídicas de julgamento.  No Brasil, o assédio moral e o bullying são julgados nas Justiças do Trabalho e Penal; enquanto o bullying geral na esfera cível ou escolar. 

 

Combater o bullying com amor significa substituir essa cultura da humilhação pela cultura do cuidado, utilizando a empatia e o diálogo como as principais defesas contra a agressão. Inspirado em Paulo Freire, o conceito busca romper o ciclo onde o oprimido se torna opressor, oferecendo uma educação libertadora baseada no respeito mútuo. A construção de uma "cultura de paz" envolve não apenas a punição, mas, a criação de ambiências para uma convivência respeitosa, segura e amorável para todos – sejam estes estudantes ou não.

 

Nascido deste amor que acolhe, inclui e harmoniza, o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola (07/04) tem como foco a comunicação amorosa que equilibra verdade e cuidado estabelecida na ideia de que a violência e a intimidação sistemática podem ser prevenidas e superadas através do desenvolvimento de competências socioemocionais, empatia e acolhimento. Instituída pela Lei nº 13.277/2016, a data é um marco essencial para criação de ambiências seguras, inclusivas e livres de intimidação e preconceitos.

 

Comunicação amorosa que equilibra zelo e integridade é o traço real do Jornalista, refletindo seu compromisso profundo com a responsabilidade social, com a transparência, a justiça e a defesa da democracia. Como destaca Daniela Gomes Santiago, o jornalismo é um "ato de amor", uma expressão de paixão que vai além da mera transmissão de fatos, envolvendo empatia, cuidado com o outro e compromisso com a dignidade humana. A ética do cuidado, cada vez mais debatida no campo jornalístico, reforça essa abordagem humanizada e solidária. 

 

A noção de "comunicação amorosa" deve ser entendida como um jornalismo que se importa – com as pessoas, com a verdade, com o impacto das palavras. Longe de ser sentimentalismo, é um compromisso militante com a humanidade, como vivenciado pela jornalista que acompanhou o nascimento de Isabel no Senegal – um instante de vivaz conexão humana e jornalística. Esse tipo de jornalismo não se limita ao relato nu e cru dos fatos, mas, constrói laços de confiança com o público, baseados em empatia, cuidado e pertencimento.

 

Ao ocupar o lugar do acontecimento, o jornalista não somente relata o mundo, como, formidavelmente, também participa ativamente da construção da realidade social que se manifesta à frente do seu olhar. Nascida revolucionária, a imprensa emergiu com a Revolução Francesa mediante o esmero e eficácia dos jornalistas, cujo atuação foi fundamental na propagação de ideais iluministas, como liberdade, igualdade e progresso contínuo. O jornalismo, quando praticado com amor e integridade, não apenas informa – transforma. 

 

O Dia do Jornalista (07/04) sintetiza um ideal necessário: um jornalismo que ama a verdade, cuida das pessoas e resiste à desonestidade intelectual. Além disso, um jornalismo ensina a sociedade a pensar e sentir, como argumenta Kellner – ele molda identidades, valores e percepções. A data preceitua que o jornalista contemporâneo deve navegar em meio à inovação tecnológica, às pressões comerciais e às exigências éticas, sem perder de vista seu papel social, cônscio de que a reconquista da confiança do público requer empatia, coragem e rigor.

 

A data. instituída pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) em 1931, marca o centenário da abdicação de D. Pedro I, ocorrida em 7 de abril de 1831, e reverencia Giovanni Battista Líbero Badaró, médico e jornalista defensor de ideias liberais cujo assassinato impulsionou a luta pela liberdade de imprensa no Brasil. Lembrando que em um cenário de desinformação (fake news), o profissional atua como a "Lanterna de Diógenes" – verificador rigoroso, transformando dados em conhecimento acessível e combatendo narrativas falsas.

 

A celebração do Dia do Jornalista (re)afirma que informar com responsabilidade é um pilar da democracia, especialmente em tempos de polarização e disputas de narrativas. Assumida como um ato de amor, de coragem e, principalmente, de resistência, em 2026 o jornalista permanece imprescindível para combater a desinformação, separar fatos de boatos, confrontar versões e colocar o interesse público acima de agendas políticas, garantindo acesso a informações verificáveis.

 

Irrefutavelmente, um direito humano fundamental e uma ferramenta essencial para a boa governança, o acesso à informação exata, correta e transparente funciona como um mecanismo de "cura social" ao promover a cidadania, combater a corrupção e mitigar os efeitos nocivos da desinformação. Neste interim, o amor, entendido não apenas como sentimento, mas como uma prática ética e revolucionária atua como uma força de resistência contra a desumanização, a polarização e a sobrecarga de informações falsas (fake news)

 

Forma perigosa de bullying e cyberbullying, as fake news se manifestam quando mentiras sensacionalistas são divulgadas para humilhar, difamar ou causar medo em uma pessoa (ou grupo), se transformam em um ataque sistemático que gerar graves impactos emocionais, sociais e até físicos. Portanto, o uso da empatia e o foco na verdade, ao invés do engajamento pelo ódio, é uma ferramenta de "amor" no ambiente digital. O "amor à verdade" implica resistir a essa manipulação e buscar informações que constroem a saúde coletiva. 

 

Claramente, no contexto da informação, o amor à verdade se traduz em honestidade intelectual e no compromisso de não se deixar levar por narrativas impostas pelo medo ou pela pressão social (o bullying informacional). Ter amor à verdade exige coragem para confrontar as próprias verdades incômodas, em vez de viver em uma mentira confortável ou delírio. A saúde mental ocorre quando amar a própria verdade com todas as suas limitações e complexidades, liberta da necessidade de viver através de imagens reportadas por outrem.

 

Neste dia (07/04) confluem-se festejos, comemorações e celebrações alusivas aos Dias Mundial da Saúde, de Combate ao Bullying e à Violência na Escola e do Jornalista e o amor como uma "panaceia universal" – um remédio para todos os males – manifesta-se como uma perspectiva filosófica, espiritual e, também, romântica, que sugere que a compaixão e a conexão incondicional cura feridas emocionais, sociais e até físicas. O amor é uma "lei invisível" soberana, que rege o universo, convocando ao cuidado com o próximo e com a Terra.

 

Maranguape, Ceará, 07 de Abril de 2024

 

Bruno Bezerra de Macedo
Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE

 

domingo, 5 de abril de 2026

ONDE ANDA A LIBERDADE DE SERMOS CORRETOS, DIGNOS E PROBOS?

Resolutamente, as tradições cultuam o ponto dentro do círculo ou circumponto – simbolo ancestral universal que representa a união do indivíduo (ponto) com o cosmos (círculo)–, a energia divina primordial, e o sol. A liberdade, neste contexto, é percebida na capacidade de manter-se no centro, agindo com retidão e equilíbrio, sem ser corrompido ou ultrapassar as barreiras éticas que cercam o indivíduo.


Preceituam as tradições antigas, como a Maçonaria, associam este símbolo à liberdade primordial de pensamento, expressão e consciência, defendendo que o indivíduo siga seu próprio caminho espiritual e intelectual. Essa liberdade de pensamento exige que este não seja mera replica do pensamento de alguém. Afinal, um homem que não pensa por si, brevemente não saberá atar os próprios cadarços.


Pensar é vida. E vida é amor em movimento. Paulo afirma que “Deus não nos deu espírito de covardia, deu-nos sim, de poder, de amor e de domínio próprio” (2 Timóteo 1:7). É homem quem não domina a si próprio? Seria homem aquele sucumbe a outrem por vaidade, interesse vil etc? Tais deméritos desumanizam o homem, além de o escravizar. Há nisso efêmera felicidade que o vento logo dissipa.


A vida vive feliz quando exercemos o que ensina o tetraavô de Jesus – conforme seus genealogistas Marcos e Lucas –, Salomão, que diz “não haver nada melhor ao homem do que fazem o bem e ser feliz enquanto vive” (Eclesiastes 3:12-13). Eis a vida plena, eis felicidade que ser humano garante e, por fim, eis o homem integral. Quem se habilita a cumprir em si tal excelência e rejubilar-se nesta liberdade?


Liberdade assim exige, naturalmente, respeito – por si inicialmente, depois, por tudo que criado para co‐existirmos – e disciplina – primeiramente, conduzindo as próprias agências, após, pelo exemplo, guiando a muitos em seus feitos e efeitos. Envolve respeitar para ser respeitado, neste agir emerge o respeitável. A verdadeira liberdade vem de uma gestão interna e ética, em vez da ausência total de restrições.


Ente a liberdade deseja por aqueles que busca a parecença com o James Bond (007) – a quem foi concedida liberdade incondicional, inclusive para matar – e a liberdade de ser de outrem que somente existem quando vistos refletidos nos olhos daqueles que os veem mediante quaisquer artifícios que os façam notados – jamais sentidos –, reside a sua alteza a “liberdade”, tão sonhada, almejada, porém, realizada em poucos.


Ser livre envolve equilibrar-se, ainda que precariamente, entre estes dois extremos: a licença para matar (alienação do poder) e a dependência do olhar (alienação da validação). Ainda que vivida por pouco, a liberdade de ser (autenticidade), implica a responsabilidade de assumir o próprio destino e arcar com as consequências de suas escolhas, sem buscar validação externa ou poder absoluto.


Não importa o tenebroso tamanho da escuridão: ódio, vaidade, usura, etc., quando a boa vontade de ser correto, mínima que seja no universo, brilha inspiradoramente, pois, mesmo no cenário mais hostil, um único ato de retidão rompe a hegemonia do caos. No fim, a boa vontade funciona como uma bússola moral: não importa quão perdido o mundo pareça, ela mantém o Norte visível.


Essa visão é virilmente robustecida em Gálatas 6:10, que nos incentiva a fazer o bem a todos, especialmente aos da família da fé, enquanto se tem oportunidade. E também Eclesiastes 9:10, que nos concita aproveitar o tempo presente, pois, “tudo quanto vier à mão para realizar, faze-o com o melhor das tuas forças, porquanto para o Sheol, a sepultura” – pois, no porvir “não há atividade, reflexão, saber…. Nada!”


Ao semearmos bondade, amor e obediência ao que há preestabelecido – seja mundano e/ou sagrado –, segaremos paz, prosperidade e proeminência, tanto nesta vida, quanto na porvir. Porém, se semearmos egoísmo, desobediência ou pecado (vícios, erros, amoralidades e imoralidades), fartamente colheremos corrupção, desesperanças, infortúnios e julgamento, tanto aqui, quanto na pátria após o véu.


Somente ancorados uns nos outros na excelsa prática da humildade e do cuidado, estaremos aptos à construção de um mundo humanamente justo. Ao vivermos com a "mente de Cristo", como em Filipenses 2:5, assumiremos a responsabilidade de promover a unidade, a justiça e o respeito mútuo em todas as esferas da vida. Essa mentalidade de “serviço” sustenta a liberdade de sermos o que nos propusemos ser.


Ao escolhermos a retidão ainda que numa ambiência corrompida, deixamos de mais um no vale dos comuns e assumimos o lugar que no compete como “ponto de referência”. Numa única agência falimos a ilusão – a exaurimos de todas as suas forças – de que “todo mundo é assim ou de que "não há saída". A virtude não precisa de maioria para ser verdadeira; ela só precisa existir para provar que o caos não é absoluto.


Robustece-se, assim, a resistência como ato de liberdade ética e política fazendo enfrentamento ao conformismo – a aceitação passiva de situações injustas ou desfavoráveis, promovidas por sistemas que silenciam o pensamento crítico. Não se trata de rebelião por rebeldia, mas, de reivindicação de um mundo possível, onde a liberdade radica-se na certeza de que felicidade e a justiça não são meros sonhos.


O “não se adaptar apenas para agradar”, manifesta outras formas de ser, vivendo com liberdade e coragem. A transparência de nossos atos, convida a outrem a serem, também, translúcidos, pois, a verdade fortalece relacionamentos nela firmados. A singularidade da visão, da sensitividade e da agência geram uma contagiante energia que somente a abraçam aqueles cujos propósitos comuns podem manifestar.


Eis a bússola da vida plena. a liberdade de ser não precisar ser um mito, nem uma imagem, mas apenas um ser humano íntegro, que tem no senso de justiça o eixo central que sustenta sua estrutura, lhe permitindo uma autoconstrução de utilidade e harmonia com o mundo ao seu redor. Quanto maior o nível de consciência de um ser, maior é sua responsabilidade por seus atos dentro dessa estrutura de justiça.


Sócrates, o mestre simbólico do caminho, ensina que o guerreiro pacífico não busca invulnerabilidade, mas, vulnerabilidade absoluta ao mundo, à vida e à presença – ou seja, estar plenamente presente, aberto, sem defesas rígidas. Ele age com intenção, não reage com impulsos do passado e navega por ambientes difíceis sem se corromper e sem ser tolo. A verdadeira jornada está na transformação interior.


Ser agente de transformação no mundo é um chamado ativo e diário para viver a paz como prática concreta, não como ideia abstrata. Envolve abandonar ressentimentos, perdoar, acolher e dialogar com serenidade, mesmo diante das adversidades, inspirado no ensinamento de Jesus: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não a dou como o mundo a dá." (João 14,27). Nada há mais libertador que a paz de ser-se o que se é.


A mudança caminha com a consistência, e esta nasce da congruência entre a realidade e suas escolhas – começar onde há controle imediato, com pequenas ações consistentes. Como diz Carl Jung: “Quem olha para dentro, desperta.” A profundidade vem da integração entre corpo, mente e alma, da aceitação da imperfeição e da falibilidade humana. O crescimento é um processo, não um destino.


Saber-se como uma unidade inseparável, onde a saúde física influencia a mente e o bem-estar espiritual, e vice-versa, preceitua que devemos nos autocuidar de forma integral, pois, é essencial para o equilíbrio e a harmonia. A aceitação da própria falibilidade é um caminho para a autenticidade e conexão humana real, segundo a psicologia da "espiritualidade da imperfeição". A autenticidade respira liberdade.


Legitimidade é a característica, particularidade ou condição de quem está em conformidade com as leis morais (divina ou dos homens), com a justiça, com a razão, com o coração, etc. Assim, “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”. (Filipenses 4:8)


Assim, o legitimo Maçom é aquele que estuda com frequência e que conhece o significado dos símbolos de seu próprio rito; que é assíduo na loja à qual é filiado, arcando e cumprindo com todas as obrigações assumidas com sua potência maçônica; que reflete na própria família os ensinamentos adquiridos nas lojas que frequenta; e que é um exemplo de vida e de compostura diante da sociedade. Liberdade deve exemplar.


Ser livre e de bons costumes, indiscutivelmente, é uma contundente forma de atestar a capacidade de viver livremente ancorado na retidão de caráter e no respeito às normas sociais: é algo extremamente valioso e digno de admiração. É uma exaltação à liberdade responsável e à integridade moral a bem do melhor convívio. Obras como "Dom Quixote" exaltam a liberdade e a honra, preceituam essa integridade moral.


Uma vida com dignidade, propósito e autenticidade reflete que ser livre e de bons costumes é um constructo do autorrespeito que se fundamenta no autoconhecimento e no viver alinhado aos próprios valores, presente e vigilante às próprias ações, pensamentos e sentimentos, em vez de viver no piloto automático. Essencialmente, o autorrespeito nasce da responsabilidade – consigo mesmo e com os outros.


Liberdade com responsabilidade é o que sustenta o do contrato social – ou seja, o ponto dentro do círculo onde a liberdade individual é contida pela responsabilidade moral e ética – da convivência harmoniosa que ele celebra. Sem isso, a liberdade degenera em anarquia, prejudicando a própria capacidade de todos exercerem seus direitos livremente. Eis o lume para o evolução continuada do ecossistema Terra.


Maranguape, Ceará, 05 de Abril de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9


 

CARIDOSO DIA PARA TODOS NÓS!

  Eis que o dia hoje (05/09) resplandece, é Dia do Irmão! Cuidem, pois, o primeiro irmão a ser festejado somos nós mesmos, já que, somente q...