No
Brasil, o ano 1923 começou bem, tendo o dia 24 de janeiro como marco inicial da
Previdência Social no Brasil (Lei Eloy Chaves), estabelecendo a primeira
legislação sistemática para garantir proteção social aos trabalhadores. A lei
introduziu princípios fundamentais como a aposentadoria por velhice (aos 50
anos com 30 anos de serviço), pensões por morte e auxílio por invalidez,
reconhecendo a necessidade de amparo estatal diante das precárias condições de
trabalho da época. Seu legado perdura na estrutura do INSS beneficiando
milhões de brasileiros.
No
Ceará, o ano 1923 foi de conquistas e inaugurações significativas para a
cultura local. No dia 8 de fevereiro, o Cearense Pinto Martins pousa no Rio de
Janeiro, após realizar o voo Nova York-Rio de Janeiro, simbolizando a
modernidade e o orgulho cearense. O Fortaleza Esporte Clube sagrou-se campeão
cearense de futebol neste ano. Além
disso, em 22 de abril de 1923, foi inaugurado o Campo do Alagadiço, que se
tornou um dos principais palcos do futebol cearense, dividindo a atenção com o
Campo do Prado e impulsionando a popularidade do esporte na capital.
O
Maciço do Baturité, em 1923, vivia o auge de seu ciclo econômico cafeeiro,
consolidando-se como um polo produtor e comercial no Ceará – o "café de
sombra" de Baturité ainda era um produto de prestígio, exportado para a
Europa através do Porto de Fortaleza. Com a Estrada de Ferro de Baturité já
consolidada, a região integrava a produção de café e algodão a Fortaleza. A
região era um forte centro de Ação Católica, com o Círculo Operário
Católico e a presença marcante dos clérigos, preparando terreno para a
Escola Apostólica dos Jesuítas (1927).
A
vida em Aratuba – então chamada de Vila Coité até 1929, quando a vila foi
rebatizada como “Santos Dumont” em homenagem ao aviador brasileiro Alberto
Santos Dumont, após o sucesso do 14-bis –, em 1923, girava em torno da Igreja
Matriz de São Francisco de Paula (sua padroeira), e a população vivia em um
cenário de transição lenta. A vila A cidade contava com energia elétrica, que
havia chegado em 1919, e uma crescente rede comercial e bancária iniciada na
década anterior. A nome "Aratuba" só foi adotado em 1943, ainda como
Distrito pertencente a Pacoti.
Neste
auspicioso ano de 1923, no Sitio do Coco, em meio a abundância dos pássaros (ou
"ajuntamento de pássaros") que em tupi diz-se “aratuba”. No ponto
mais alto do Estado do Ceará – situado a quase 1.000 metros de altitude na
Serra de Baturité –, conhecido, por isso, como a cidade mais fria do estado. O
cantar do pássaros, na manhã do dia 19 de Outubro, festejava o nascimento daquele
destinado ao fomento da musicalidade, José Zoza Correia Sobrinho, popularmente
conhecido como Mestre Zoza, que viria a ser, brevemente, importante referência
cultural para o município.
Filho
mais velho de um grupo de 13 irmãos, nascido do hospitaleiro senhor Antônio
Correia e da maviosa senhora Otília Maria do Espírito Santo, Zoza era dotado argucia
e habilidade que o distinguia dos demais membros da família, coisa que intrigava
o senhor Antônio Correia, que não entendia por que seu filho não se aplicava a
agricultura. Atingido nas pernas por um chifre de boi, lançado por sua mãe por
não prestar atenção na comida do almoço, seu avó João Correia, o defendeu dizendo
que ele devia seguir o seu destino, pois, logo ele seria um grande construtor,
orgulhando toda a família.
Zoza
Sobrinho cresceu e, cumprindo a profecia do senhor João Correia, seu avô, dedicou-se
a construir objetos, prédios, casas de engenho. Construiu prédios na cidade
entre eles, a escola estadual, a praça central, prédios públicos e uma de suas maiores
obras da qual se orgulhava era a Igreja São Francisco de Paula, onde fez todas
as telhas manualmente juntamente com Mestre Aristides, e até hoje mostra
perfeição em seu formato. Com boa vontade e altruísmo Zoza construiu sua
mestria. Um legado de exemplos levado ao futuro por seus filhos que herdaram suas
habilidades.
Guiado
pela inventividade que jamais o deixou desistir dos seus intentos, Mestre Zoza,
após várias tentativas, criou seu próprio violino e este se encontra em
exposição no Museu Municipal de Aratuba. A arte de criar violinos artesanais é
uma profissão manual especializada conhecida como luthieria, onde um
profissional (luthier) constrói instrumentos de corda com caixa de ressonância
inteiramente à mão, desde a idealização do modelo até seu acabamento final. Envolve
etapas minuciosas e demoradas: escolha da madeira, cortes e entalhes manuais e
acabamento e verniz.
O
luthier equilibra a estética e a ergonomia utilizando conhecimentos de química,
física e marcenaria para criar ou ajustar instrumentos de alta qualidade sonora.
Historicamente, esta arte é dominada por três famílias de Cremona, na Itália
(Amati, Guarneri e Stradivarius), que estabeleceram padrões de qualidade que
perduram até hoje. A construção difere
da produção em massa por focar no ajuste manual da flexibilidade da madeira
(voicing) e na escultura das varetas internas para afinar o som, garantindo que
cada instrumento tenha uma "voz" única e característica.
Este
processo é considerado uma arte antiga e arrojada, exigindo muita perícia, pois,
a menor variação nas dimensões ou na escolha da madeira afeta diretamente a
qualidade do som do instrumento. Na década de 1990, já estabelecido nesta arte,
Mestre Zoza foi entrevistado pela TV Verde Mares e ensinou basilarmente como
confeccionar violinos, ao passou que anunciou que o curso mais aprofundado faria
na Casa de Cultura. Na mesma década convidado pela Secretária de Cultura do
Ceará a ensinar a confeccionar o instrumento em Juazeiro do Norte, a sua saúde
não o permitiu.
Mestre
Zoza foi um homem simples, que embora não tivesse escolaridade alguma, se
destacou por várias habilidades que o tempo e a contemplação lhe fizeram devolver.
Além de oleiro, pedreiro, carpinteiro, luthier e músico, Zoza é conhecido como
anedotista – um homem que sabia contar histórias e transmitia sabedoria através
do humor e da oralidade, dando vida aos personagens com entonação e gestos. A
palavra deriva do grego antigo anédoton (que significa "não dado" ou
"secreto" ou coisas não publicadas), combinado com o sufixo “-ista”,
indicando especialização.
No
contexto cultural e social, o anedotista é a arte ou ofício de quem atua como
um transmissor de valores e um catalisador de coesão grupal, utilizando o humor
para aliviar tensões ou moldar identidades coletivas. Envolve o uso de
linguagem coloquial, diálogos diretos e um final (punchline) que quebra a
expectativa, garantindo riso e engajamento, além de preservar a memória coletiva
e sátira política. Ser anedotista notabilizou Zoza como "Mestre da
Cultura" local, estabelecendo um legado de memória afetiva antes de seu
falecimento em 1994.
Num
ano extremamente emblemático no Brasil – em República “não mais provisória”,
finalmente, definitiva conforme o plebiscito de 7 de setembro de 1993, com cerca
de 66% dos votos, enquanto a Monarquia obteve aproximadamente 10% e o total de votos brancos e nulos contabilizaram
34% – marcado pela morte de Ayrton Senna
em 1º de maio e pela implementação do Real em 1º de julho, falece no dia 20 de maio
de 1994, José Zoza Correia Sobrinho, cuja mestria aclara os caminhos de
prosperidade para o povo cearense – musical por excelência e anedotista de raiz.
Após
sua morte, Mestre Zoza, foi homenageado através da Lei Municipal nº 182/2002,
do Poder Executivo de Aratuba, deu o nome Zoza Correia uma rua da cidade. Em primeiro
de dezembro de 2010, a Lei Municpal nº 381/2010, em seu artigo 1º institui a
Banda de Aratuba com o nome de Banda Municipal Mestre Zoza. Por justo reconhecimento,
o nome Banda Mestre Zoza é ideia do senhor Júlio de Paula Pereira à professora
Aila Santana, na época diretora da Escola Municipal Isabel Hermínia Pinto (Mundo
Novo), onde, em 2009, a banda de música iniciou suas atividades.
Maranguape,
Ceará, 09 de Abril de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo
Patroneado
por Maria Aurélia Abreu Braga
Cadeira
ACLA nº 18
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