quinta-feira, 9 de abril de 2026

1923 – ONDE OS PÁSSAROS SE AJUNTAM NASCE MESTRE ZOZA

 

No Brasil, o ano 1923 começou bem, tendo o dia 24 de janeiro como marco inicial da Previdência Social no Brasil (Lei Eloy Chaves), estabelecendo a primeira legislação sistemática para garantir proteção social aos trabalhadores. A lei introduziu princípios fundamentais como a aposentadoria por velhice (aos 50 anos com 30 anos de serviço), pensões por morte e auxílio por invalidez, reconhecendo a necessidade de amparo estatal diante das precárias condições de trabalho da época. Seu legado perdura na estrutura do INSS beneficiando milhões de brasileiros. 

 

No Ceará, o ano 1923 foi de conquistas e inaugurações significativas para a cultura local. No dia 8 de fevereiro, o Cearense Pinto Martins pousa no Rio de Janeiro, após realizar o voo Nova York-Rio de Janeiro, simbolizando a modernidade e o orgulho cearense. O Fortaleza Esporte Clube sagrou-se campeão cearense de futebol neste ano.  Além disso, em 22 de abril de 1923, foi inaugurado o Campo do Alagadiço, que se tornou um dos principais palcos do futebol cearense, dividindo a atenção com o Campo do Prado e impulsionando a popularidade do esporte na capital.

 

O Maciço do Baturité, em 1923, vivia o auge de seu ciclo econômico cafeeiro, consolidando-se como um polo produtor e comercial no Ceará – o "café de sombra" de Baturité ainda era um produto de prestígio, exportado para a Europa através do Porto de Fortaleza. Com a Estrada de Ferro de Baturité já consolidada, a região integrava a produção de café e algodão a Fortaleza.  A região era um forte centro de Ação Católica, com o Círculo Operário Católico e a presença marcante dos clérigos, preparando terreno para a Escola Apostólica dos Jesuítas (1927).

 

A vida em Aratuba – então chamada de Vila Coité até 1929, quando a vila foi rebatizada como “Santos Dumont” em homenagem ao aviador brasileiro Alberto Santos Dumont, após o sucesso do 14-bis –, em 1923, girava em torno da Igreja Matriz de São Francisco de Paula (sua padroeira), e a população vivia em um cenário de transição lenta. A vila A cidade contava com energia elétrica, que havia chegado em 1919, e uma crescente rede comercial e bancária iniciada na década anterior. A nome "Aratuba" só foi adotado em 1943, ainda como Distrito pertencente a Pacoti.

 

Neste auspicioso ano de 1923, no Sitio do Coco, em meio a abundância dos pássaros (ou "ajuntamento de pássaros") que em tupi diz-se “aratuba”. No ponto mais alto do Estado do Ceará – situado a quase 1.000 metros de altitude na Serra de Baturité –, conhecido, por isso, como a cidade mais fria do estado. O cantar do pássaros, na manhã do dia 19 de Outubro, festejava o nascimento daquele destinado ao fomento da musicalidade, José Zoza Correia Sobrinho, popularmente conhecido como Mestre Zoza, que viria a ser, brevemente, importante referência cultural para o município.

 

Filho mais velho de um grupo de 13 irmãos, nascido do hospitaleiro senhor Antônio Correia e da maviosa senhora Otília Maria do Espírito Santo, Zoza era dotado argucia e habilidade que o distinguia dos demais membros da família, coisa que intrigava o senhor Antônio Correia, que não entendia por que seu filho não se aplicava a agricultura. Atingido nas pernas por um chifre de boi, lançado por sua mãe por não prestar atenção na comida do almoço, seu avó João Correia, o defendeu dizendo que ele devia seguir o seu destino, pois, logo ele seria um grande construtor, orgulhando toda a família.

 

Zoza Sobrinho cresceu e, cumprindo a profecia do senhor João Correia, seu avô, dedicou-se a construir objetos, prédios, casas de engenho. Construiu prédios na cidade entre eles, a escola estadual, a praça central, prédios públicos e uma de suas maiores obras da qual se orgulhava era a Igreja São Francisco de Paula, onde fez todas as telhas manualmente juntamente com Mestre Aristides, e até hoje mostra perfeição em seu formato. Com boa vontade e altruísmo Zoza construiu sua mestria. Um legado de exemplos levado ao futuro por seus filhos que herdaram suas habilidades.

 

Guiado pela inventividade que jamais o deixou desistir dos seus intentos, Mestre Zoza, após várias tentativas, criou seu próprio violino e este se encontra em exposição no Museu Municipal de Aratuba. A arte de criar violinos artesanais é uma profissão manual especializada conhecida como luthieria, onde um profissional (luthier) constrói instrumentos de corda com caixa de ressonância inteiramente à mão, desde a idealização do modelo até seu acabamento final. Envolve etapas minuciosas e demoradas: escolha da madeira, cortes e entalhes manuais e acabamento e verniz.

 

O luthier equilibra a estética e a ergonomia utilizando conhecimentos de química, física e marcenaria para criar ou ajustar instrumentos de alta qualidade sonora. Historicamente, esta arte é dominada por três famílias de Cremona, na Itália (Amati, Guarneri e Stradivarius), que estabeleceram padrões de qualidade que perduram até hoje.  A construção difere da produção em massa por focar no ajuste manual da flexibilidade da madeira (voicing) e na escultura das varetas internas para afinar o som, garantindo que cada instrumento tenha uma "voz" única e característica.

 

Este processo é considerado uma arte antiga e arrojada, exigindo muita perícia, pois, a menor variação nas dimensões ou na escolha da madeira afeta diretamente a qualidade do som do instrumento. Na década de 1990, já estabelecido nesta arte, Mestre Zoza foi entrevistado pela TV Verde Mares e ensinou basilarmente como confeccionar violinos, ao passou que anunciou que o curso mais aprofundado faria na Casa de Cultura. Na mesma década convidado pela Secretária de Cultura do Ceará a ensinar a confeccionar o instrumento em Juazeiro do Norte, a sua saúde não o permitiu.

 

Mestre Zoza foi um homem simples, que embora não tivesse escolaridade alguma, se destacou por várias habilidades que o tempo e a contemplação lhe fizeram devolver. Além de oleiro, pedreiro, carpinteiro, luthier e músico, Zoza é conhecido como anedotista – um homem que sabia contar histórias e transmitia sabedoria através do humor e da oralidade, dando vida aos personagens com entonação e gestos. A palavra deriva do grego antigo anédoton (que significa "não dado" ou "secreto" ou coisas não publicadas), combinado com o sufixo “-ista”, indicando especialização.

 

No contexto cultural e social, o anedotista é a arte ou ofício de quem atua como um transmissor de valores e um catalisador de coesão grupal, utilizando o humor para aliviar tensões ou moldar identidades coletivas. Envolve o uso de linguagem coloquial, diálogos diretos e um final (punchline) que quebra a expectativa, garantindo riso e engajamento, além de preservar a memória coletiva e sátira política. Ser anedotista notabilizou Zoza como "Mestre da Cultura" local, estabelecendo um legado de memória afetiva antes de seu falecimento em 1994.

 

Num ano extremamente emblemático no Brasil – em República “não mais provisória”, finalmente, definitiva conforme o plebiscito de 7 de setembro de 1993, com cerca de 66% dos votos, enquanto a Monarquia obteve aproximadamente 10%  e o total de votos brancos e nulos contabilizaram  34% – marcado pela morte de Ayrton Senna em 1º de maio e pela implementação do Real em 1º de julho, falece no dia 20 de maio de 1994, José Zoza Correia Sobrinho, cuja mestria aclara os caminhos de prosperidade para o povo cearense – musical por excelência e anedotista de raiz.

 

Após sua morte, Mestre Zoza, foi homenageado através da Lei Municipal nº 182/2002, do Poder Executivo de Aratuba, deu o nome Zoza Correia uma rua da cidade. Em primeiro de dezembro de 2010, a Lei Municpal nº 381/2010, em seu artigo 1º institui a Banda de Aratuba com o nome de Banda Municipal Mestre Zoza. Por justo reconhecimento, o nome Banda Mestre Zoza é ideia do senhor Júlio de Paula Pereira à professora Aila Santana, na época diretora da Escola Municipal Isabel Hermínia Pinto (Mundo Novo), onde, em 2009, a banda de música iniciou suas atividades. 

 

Maranguape, Ceará, 09 de Abril de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Maria Aurélia Abreu Braga
Cadeira ACLA nº 18

Nenhum comentário:

Postar um comentário

CORRESPONDER

  Corresponder é o que fazemos – ou buscamos fazê-lo – durante três quintos de nossa existência. Força contumaz do princípio que leva seu no...