quarta-feira, 8 de abril de 2026

ROMANI: LIBERDADE CONTAGIANTE, IGUALDADE ACONCHEGANTE E FRATERNIDADE CATIVANTE

 

Hoje (08/04) confraternizamos com os povos ciganos, também conhecidos como romani, originários do noroeste do subcontinente indiano, mais especificamente das regiões do Punjab e do Rajastão, na atual fronteira entre Índia e Paquistão. Embora a teoria da origem indiana seja a mais aceita cientificamente, o termo "cigano" historicamente gerou confusões. A palavra provém de termos como o grego bizantino atzinganos ("intocável") ou foi uma corruptela de "egípcio" (de onde vem gypsy e gitano), pois, os primeiros europeus acreditavam erroneamente que eles vinham do Egito.

 

O endônimo correto adotado por organizações internacionais é rom, que significa "homem" na língua romani, uma língua de origem indo-ariana – rom no singular, roma no plural ou romani (adjetivo) – preferido a "cigano", que foi historicamente usado de forma pejorativa pela ciganofobia é uma forma de marginalização, atribuição de estereótipos negativos e preconceito estrutural. A diáspora cigana se expandiu para a Europa e África do Norte a partir do século XI, passando pelo planalto iraniano e chegando à Europa Ocidental no século XIV, emergindo grupos étnicos como Rom, Sinti e Calon.

 

No Brasil, estima-se que existam cerca de 500 mil ciganos, distribuídos em 337 municípios, com grandes grupos de origem europeia e asiática que migraram para o país desde o século XIV. Aqui os ciganos são considerados povos tradicionais, protegidos por políticas de igualdade racial, com forte presença dos grupos Calon e Rom. Contrariando o senso comum, muitos ciganos são sedentários ou seminômades, vivendo em casas, porém, mantendo a identidade cultural.  Uma cultura é marcada pela oralidade, música e dança, por um sentido de "nação sem país” e pelo respeito à família e aos anciãos.

 

A importância do povo romani para a história da humanidade reside na sua resiliência e capacidade de sobrevivência, mantendo uma identidade cultural, línguas próprias (como o romani) e tradições orais ao longo de milênios de perseguição, discriminação e dispersão global, tornando-se um exemplo de adaptação e resistência contra a escravatura (como na Romênia, onde foram escravizados por 300 anos) e extermínio, como o "Porrajmos" (A Devoração) o genocídio nazista que eliminou cerca de 500 mil a 2 milhões de ciganos, esquecido na memória histórica global ao lado do Holocausto judaico.

 

Incontestavelmente, a história cigana é também uma história de luta contra o preconceito. A imagem do "cigano trapaceiro" é uma construção histórica pejorativa que encobre a marginalização social que enfrentaram. A falta de compreensão de sua cultura nômade gerou estereótipos que perduram até hoje, resultando em exclusão social e falta de acesso a direitos fundamentais. A mídia e a literatura reforçaram estereótipos, associando-os a bruxaria, roubo de crianças e falsa adivinhação.  Até hoje, dicionários e livros didáticos os definem como "boêmios" ou "trapaceiros", perpetuando o preconceito. 

 

Ainda assim, o povo romani contribuiu significativamente para a diversidade cultural mundial influenciando tradições artísticas e sociais em diversos continentes onde atuaram como artesãos habilidosos (caldeireiros, ferreiros, latoeiros), comerciantes, músicos e, principalmente, como facilitadores na troca de saberes e produtos entre diferentes povos. Agentes da cultura por excelência, ciganas e ciganos acumularam profundos saberes sobre ervas, cura, leitura de mãos e astrologia e tornaram-se conselheiros em assuntos diversos e especialistas em medicina popular (homeopatas) nas comunidades.

 

Sob o lume do provérbio que o identifica: "O céu é o meu teto, a terra é a minha pátria e a liberdade é minha religião", o povo romani rompe as eras ofertando rosas àqueles que os maltratam e perseguem. A produção de peças artesanais – cobre, vime e madeira – conta a história nômade, a conexão com a natureza e com os demais povos. A música cigana é vibrante, enquanto a dança é uma forma de preservação de tradições e comunicação. Em alguns contextos europeus, o flamenco é uma forte manifestação, enquanto no Brasil, a música sertaneja é popular entre grupos como os Kalon.

 

A música folclórica cigana é indissociável da cultura do povo cigano, expressando amor, alegria e o sofrimento do mundo, servindo como uma crônica do cotidiano. No contexto da comunicação social cigana, a música não é apenas entretenimento, mas, um veículo para a voz e a representação de uma cultura, visando a inclusão e o reconhecimento social. Projetos, como o "A Música Cigana A Gostar Dela Própria" em Portugal, utilizam a música para quebrar barreiras sociais, utilizando a tradição oral para manter vivas práticas ancestrais, combater o preconceito e fomentar a inclusão social.

 

No Brasil, o "musicar" interétnico em São Paulo demonstra como dançarinas e músicos ciganos e não-ciganos criam coletivamente, usando a música como luta e sobrevivência. A arte funciona como uma ponte para a integração de comunidades ciganas em contextos urbanos e regionais, permitindo trocas interétnicas e o reconhecimento de novas formas de expressão (como a fusão com o breakdance) O uso de redes sociais (como Instagram) e lives (ex: "Cultura Cigana em Foco" da SecultBA) ajuda a dar visibilidade à cantores e à história cigana, combatendo estereótipos.

 

A literatura cigana evoluiu de uma tradição predominantemente oral (contos, fábulas e músicas) para uma produção escrita que ganhou força no século XX, com autores de diversos países passando a registrar suas histórias em diferentes línguas e dialetos.  Embora a língua Romani – que manifesta a preservação da língua materna como um elemento central da identidade e da resistência do povo romani – tenha pouca tradição escrita histórica, a literatura contemporânea atua como um meio subversivo e de denúncia, expondo a realidade do povo cigano, os estigmas, a discriminação e a resistência cultural sem censura.

 

Conscienciosos, autores ciganos e estudiosos têm produzido obras que vão desde a ficção até a não ficção, dentre os quais se destacam na literatura brasileira e mundial: Dalã Calon (Brasil), Jerônimo Guimarães (Brasil), Cecília Meireles (Brasil) – embora muitas vezes estudada no contexto da literatura brasileira geral, é frequentemente citada em estudos ciganos como tendo origem no ramo Calon –, Valdemar Kalinin (Bielorússia) – destacado na literatura cigana por sua atuação na Escola Literária Russo-Romani – e Alija Krasnici (Sérvia), este último conhecido por escrever prosa em romani e elaborar dicionários. 

 

No entanto, a língua materna cigana, principalmente em suas variantes orais como o chibi, enfrenta alto risco de extinção devido a múltiplos fatores estruturais e sociais. Como a língua é predominantemente oral e não possui ortografia padrão, seu ensino nas escolas é dificultado. A falta de materiais pedagógicos formalizados e de profissionais qualificados para ensinar a língua cigana aprofunda a crise. Além disso, o analfabetismo ainda é alto nas comunidades, o que limita o acesso à educação de qualidade. Com menos de duas mil pessoas falando o dialeto chibi no Ceará, a língua se encontra em estado crítico.

 

Por oportuno e justo, o Estatuto dos Povos Ciganos, aprovado no Senado, reconhece as línguas ciganas como patrimônio imaterial, assegurando o direito à preservação de sua cultura e incentivando a disseminação de seu conhecimento pelo poder público. Nele ancorado, um movimento, apoiado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aborda as identidades linguísticas e étnicas ciganas nas escolas. E Associações como a ASPRECCE (Associação dos Ciganos do Ceará) e o Instituto Cigano do Brasil, entre outras entidades, promover o ensino do dialeto e a valorização da cultura.

 

O fortalecimento da identidade romani passa por políticas públicas inclusivas, como o reconhecimento dos ciganos como povo tradicional (Decreto de 2016) e a garantia de acesso à saúde e educação sem exigência de domicílio fixo.  A luta contra o preconceito exige espaços escolares seguros, valorização das tradições e participação das comunidades na elaboração de currículos.  A língua, nesse contexto, deixa de ser apenas um meio de comunicação e se torna um símbolo de resistência cultural. Através da língua, são passados os valores, as tradições, a sabedoria ancestral e as leis internas do clã (como a Kris entre os Rom).

 

A Sociedade Romani é organizada em torno de fortes laços familiares, hierarquia comunitária e um profundo conceito de liberdade, com a família sendo a instituição central. Sua história, valores e normas de conduta são passados de geração em geração através da fala, contos e lendas, fortalecendo os laços familiares e comunitários. Não há pratica religiosa única ou dogmática; adota-se a fé do território onde circulam (catolicismo, protestantismo, etc.), embora mantenha crenças espirituais e princípios específicos, como a devoção a Santa Sara de Kali entre os católicos. 

 

O Dia Internacional dos Roma (ou Dia Internacional do Povo Cigano), celebrado anualmente em 8 de abril, foi instituído no Primeiro Congresso Mundial Romani, realizado em 1971 em Orpington, nas proximidades de Londres, Reino Unido.  A data, reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), tem como objetivo principal promover a inclusão social, dar visibilidade à cultura, história e tradições do povo Romani e combater o ciganofobia, uma das formas de racismo mais persistentes na Europa e no mundo.

 

A data, também, reconhece a contribuição da etnia cigana na formação da história e da identidade cultural mundial, além de promover a inclusão social e o combater ao preconceito, além de ressaltar que a comunidade Romani é a maior minoria étnica na Europa, estimada em cerca de 10 milhões de pessoas, e enfrenta historicamente desafios significativos, incluindo discriminação no acesso à educação, emprego, habitação e saúde. A data é um chamado para a sociedade reconhecer a resiliência desse povo e promover a igualdade de direitos, garantindo-lhe visibilidade, pertencimento e harmonia social.

 

Durante o congresso de 1971, foram adotados os principais símbolos da identidade Romani, incluindo a bandeira com o disco vermelho na bandeira dos Roma – simboliza o caminho da vida e a liberdade em movimento, representando também a roda da carruagem, um elemento histórico ligado ao modo de vida nômade do povo. Os 16 raios do disco remetem à jornada e à resistência ao longo do tempo. E as faixas verde e azul representando a terra e o céu – e o hino "Gelem, Gelem" (andei, andei) – símbolo de unidade, identidade e resistência de uma nação dispersa pelo mundo.  

 

Maranguape, Ceará, 08 de Abril de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo

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