Hoje
(08/04) confraternizamos com os povos ciganos, também conhecidos como romani,
originários do noroeste do subcontinente indiano, mais especificamente das
regiões do Punjab e do Rajastão, na atual fronteira entre Índia e Paquistão.
Embora a teoria da origem indiana seja a mais aceita cientificamente, o termo
"cigano" historicamente gerou confusões. A palavra provém de termos como
o grego bizantino atzinganos ("intocável") ou foi uma corruptela de
"egípcio" (de onde vem gypsy e gitano), pois, os primeiros europeus
acreditavam erroneamente que eles vinham do Egito.
O
endônimo correto adotado por organizações internacionais é rom, que significa
"homem" na língua romani, uma língua de origem indo-ariana – rom no
singular, roma no plural ou romani (adjetivo) – preferido a "cigano",
que foi historicamente usado de forma pejorativa pela ciganofobia é uma forma de
marginalização, atribuição de estereótipos negativos e preconceito estrutural. A
diáspora cigana se expandiu para a Europa e África do Norte a partir do século
XI, passando pelo planalto iraniano e chegando à Europa Ocidental no século
XIV, emergindo grupos étnicos como Rom, Sinti e Calon.
No
Brasil, estima-se que existam cerca de 500 mil ciganos, distribuídos em
337 municípios, com grandes grupos de origem europeia e asiática que migraram
para o país desde o século XIV. Aqui os ciganos são considerados povos
tradicionais, protegidos por políticas de igualdade racial, com forte presença
dos grupos Calon e Rom. Contrariando o senso comum, muitos ciganos são
sedentários ou seminômades, vivendo em casas, porém, mantendo a identidade
cultural. Uma cultura é marcada pela oralidade, música e dança, por um
sentido de "nação sem país” e pelo respeito à família e aos anciãos.
A
importância do povo romani para a história da humanidade reside na sua
resiliência e capacidade de sobrevivência, mantendo uma identidade cultural,
línguas próprias (como o romani) e tradições orais ao longo de milênios de
perseguição, discriminação e dispersão global, tornando-se um exemplo de
adaptação e resistência contra a escravatura (como na Romênia, onde foram
escravizados por 300 anos) e extermínio, como o "Porrajmos" (A
Devoração) o genocídio nazista que eliminou cerca de 500 mil a 2
milhões de ciganos, esquecido na memória histórica global ao lado do
Holocausto judaico.
Incontestavelmente,
a história cigana é também uma história de luta contra o preconceito. A imagem
do "cigano trapaceiro" é uma construção histórica pejorativa que
encobre a marginalização social que enfrentaram. A falta de compreensão de sua
cultura nômade gerou estereótipos que perduram até hoje, resultando em exclusão
social e falta de acesso a direitos fundamentais. A mídia e a literatura
reforçaram estereótipos, associando-os a bruxaria, roubo de crianças e falsa
adivinhação. Até hoje, dicionários e
livros didáticos os definem como "boêmios" ou "trapaceiros",
perpetuando o preconceito.
Ainda
assim, o povo romani contribuiu significativamente para a diversidade cultural
mundial influenciando tradições artísticas e sociais em diversos continentes
onde atuaram como artesãos habilidosos (caldeireiros, ferreiros, latoeiros),
comerciantes, músicos e, principalmente, como facilitadores na troca de saberes
e produtos entre diferentes povos. Agentes da cultura por excelência, ciganas e
ciganos acumularam profundos saberes sobre ervas, cura, leitura de mãos e
astrologia e tornaram-se conselheiros em assuntos diversos e especialistas em
medicina popular (homeopatas) nas comunidades.
Sob
o lume do provérbio que o identifica: "O céu é o meu teto, a terra é a
minha pátria e a liberdade é minha religião", o povo romani rompe as eras
ofertando rosas àqueles que os maltratam e perseguem. A produção de peças artesanais
– cobre, vime e madeira – conta a história nômade, a conexão com a natureza e com
os demais povos. A música cigana é vibrante, enquanto a dança é uma forma de
preservação de tradições e comunicação. Em alguns contextos europeus, o
flamenco é uma forte manifestação, enquanto no Brasil, a música sertaneja é
popular entre grupos como os Kalon.
A
música folclórica cigana é indissociável da cultura do povo cigano, expressando
amor, alegria e o sofrimento do mundo, servindo como uma crônica do cotidiano. No
contexto da comunicação social cigana, a música não é apenas entretenimento,
mas, um veículo para a voz e a representação de uma cultura, visando a inclusão
e o reconhecimento social. Projetos, como o "A Música Cigana A Gostar Dela
Própria" em Portugal, utilizam a música para quebrar barreiras sociais,
utilizando a tradição oral para manter vivas práticas ancestrais, combater o
preconceito e fomentar a inclusão social.
No
Brasil, o "musicar" interétnico em São Paulo demonstra como
dançarinas e músicos ciganos e não-ciganos criam coletivamente, usando a música
como luta e sobrevivência. A arte funciona como uma ponte para a integração de
comunidades ciganas em contextos urbanos e regionais, permitindo trocas
interétnicas e o reconhecimento de novas formas de expressão (como a fusão com
o breakdance) O uso de redes sociais (como Instagram) e lives (ex:
"Cultura Cigana em Foco" da SecultBA) ajuda a dar visibilidade à
cantores e à história cigana, combatendo estereótipos.
A
literatura cigana evoluiu de uma tradição predominantemente oral (contos,
fábulas e músicas) para uma produção escrita que ganhou força no século XX, com
autores de diversos países passando a registrar suas histórias em diferentes
línguas e dialetos. Embora a língua
Romani – que manifesta a preservação da língua materna como um elemento central
da identidade e da resistência do povo romani – tenha pouca tradição escrita
histórica, a literatura contemporânea atua como um meio subversivo e de
denúncia, expondo a realidade do povo cigano, os estigmas, a discriminação e a
resistência cultural sem censura.
Conscienciosos,
autores ciganos e estudiosos têm produzido obras que vão desde a ficção até a
não ficção, dentre os quais se destacam na literatura brasileira e mundial: Dalã
Calon (Brasil), Jerônimo Guimarães (Brasil), Cecília Meireles (Brasil) – embora
muitas vezes estudada no contexto da literatura brasileira geral, é
frequentemente citada em estudos ciganos como tendo origem no ramo Calon –,
Valdemar Kalinin (Bielorússia) – destacado na literatura cigana por sua atuação
na Escola Literária Russo-Romani – e Alija Krasnici (Sérvia), este último
conhecido por escrever prosa em romani e elaborar dicionários.
No
entanto, a língua materna cigana, principalmente em suas variantes orais como o
chibi, enfrenta alto risco de extinção devido a múltiplos fatores estruturais e
sociais. Como a língua é predominantemente oral e não possui ortografia padrão,
seu ensino nas escolas é dificultado. A falta de materiais pedagógicos
formalizados e de profissionais qualificados para ensinar a língua cigana
aprofunda a crise. Além disso, o analfabetismo ainda é alto nas comunidades, o
que limita o acesso à educação de qualidade. Com menos de duas mil pessoas
falando o dialeto chibi no Ceará, a língua se encontra em estado crítico.
Por
oportuno e justo, o Estatuto dos Povos Ciganos, aprovado no Senado, reconhece
as línguas ciganas como patrimônio imaterial, assegurando o direito à
preservação de sua cultura e incentivando a disseminação de seu conhecimento
pelo poder público. Nele ancorado, um movimento, apoiado pela Base Nacional
Comum Curricular (BNCC), aborda as identidades linguísticas e étnicas ciganas
nas escolas. E Associações como a ASPRECCE (Associação dos Ciganos do Ceará) e
o Instituto Cigano do Brasil, entre outras entidades, promover o ensino do
dialeto e a valorização da cultura.
O
fortalecimento da identidade romani passa por políticas públicas inclusivas,
como o reconhecimento dos ciganos como povo tradicional (Decreto de 2016) e a
garantia de acesso à saúde e educação sem exigência de domicílio fixo. A luta contra o preconceito exige espaços
escolares seguros, valorização das tradições e participação das comunidades na
elaboração de currículos. A língua,
nesse contexto, deixa de ser apenas um meio de comunicação e se torna um
símbolo de resistência cultural. Através da língua, são passados os valores, as
tradições, a sabedoria ancestral e as leis internas do clã (como a Kris entre
os Rom).
A
Sociedade Romani é organizada em torno de fortes laços familiares, hierarquia
comunitária e um profundo conceito de liberdade, com a família sendo a
instituição central. Sua história, valores e normas de conduta são passados de
geração em geração através da fala, contos e lendas, fortalecendo os laços
familiares e comunitários. Não há pratica religiosa única ou dogmática; adota-se
a fé do território onde circulam (catolicismo, protestantismo, etc.), embora
mantenha crenças espirituais e princípios específicos, como a devoção a
Santa Sara de Kali entre os católicos.
O
Dia Internacional dos Roma (ou Dia Internacional do Povo Cigano), celebrado
anualmente em 8 de abril, foi instituído no Primeiro Congresso Mundial Romani,
realizado em 1971 em Orpington, nas proximidades de Londres, Reino Unido. A data, reconhecida pela Organização das
Nações Unidas (ONU), tem como objetivo principal promover a inclusão social,
dar visibilidade à cultura, história e tradições do povo Romani e combater o ciganofobia,
uma das formas de racismo mais persistentes na Europa e no mundo.
A
data, também, reconhece a contribuição da etnia cigana na formação da história
e da identidade cultural mundial, além de promover a inclusão social e o
combater ao preconceito, além de ressaltar que a comunidade Romani é a maior
minoria étnica na Europa, estimada em cerca de 10 milhões de pessoas, e
enfrenta historicamente desafios significativos, incluindo discriminação no
acesso à educação, emprego, habitação e saúde. A data é um chamado para a
sociedade reconhecer a resiliência desse povo e promover a igualdade de
direitos, garantindo-lhe visibilidade, pertencimento e harmonia social.
Durante
o congresso de 1971, foram adotados os principais símbolos da identidade
Romani, incluindo a bandeira com o disco vermelho na bandeira dos Roma – simboliza
o caminho da vida e a liberdade em movimento, representando também a roda
da carruagem, um elemento histórico ligado ao modo de vida nômade do povo. Os
16 raios do disco remetem à jornada e à resistência ao longo do tempo. E as
faixas verde e azul representando a terra e o céu – e o hino "Gelem,
Gelem" (andei, andei) – símbolo de unidade, identidade e resistência de
uma nação dispersa pelo mundo.
Maranguape,
Ceará, 08 de Abril de 2026
ACADEMIA
INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Diretoria
de Comunicação Social
Bruno Bezerra de
Macedo

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