sexta-feira, 10 de abril de 2026

O AMOR REGENERA A ÉTICA E ESQUADRINHA A JUSTIÇA

Desde tempos imemoriais, a cruz predestina-se a simbolizar a vida e esperança. Com os braços abertos desejosos de abraçar o universo, os mundos que nele há, a natureza que ordena cada mundo, as criaturas que manifestam a vida guiadas pela esperança de, como a cruz, em pé – e às ordens – desvelar os mistérios entre a superfície e às regiões mais profundas, como também, da superfície ao céu, pois, “Deus há de trazer toda obra a juízo, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom quer seja mal”. (Eclesiastes 12:14)

 

O gesto de fazer a cruz não é exclusivo do cristianismo. Na Cabala, ele aciona os quatro elementos (fogo, água, terra, ar), os quatro pontos cardeais e o equilíbrio da Tetraktis pitagórica, harmonizando os hemisférios cerebrais e as correntes energéticas (Nadis) do corpo. Os Rosacruzes, percebem-na nos quatro reinos da natureza (mineral, vegetal, animal e humano). Para a teosofia, a cruz reflete o dualismo andrógino da natureza; esotericamente, o homem que se "crucifica" (vencendo sus paixões) renasce imortal e regenerado.

 

Os Romani veem-na como a lei de ação e reação (karma), indicando que sacrifícios são necessários para alcançar a vitória e que a união do espiritual com o material trará glória, desde que haja fé e esforço. Apregoada por Hermes Trismegisto, como Princípio da Causa e Efeito – cada evento tem sua causa. Portanto, reconhecer isso fortalece a autorresponsabilidade e o poder de escolha. Além disso, nos torna mais conscientes das consequências de nossas ações. Nossa autorresponsabilidade exempla a muitos.

 

Autorresponsáveis, que, dentre muitos, nos exemplam: Jesus Cristo (aquele deu a vida para salvar os cristãos que já mais preferiram ser salvos), Buda (cujo evangelho viceja o mais fecundo, fervoroso e formidável amor), o Profeta Muhammad, que legou o Alcorão Sagrado à humanidade, nele nos consignando como sinais de Allah (o misericordioso): “e um dos Seus sinais é que Ele criou para vocês, a partir de vocês, companheiros para que neles encontrem tranquilidade; e Ele colocou entre vocês carinho e misericórdia.” (Alcorão, 30:21).

 

Esotericamente, a cruz representa, primordialmente, a união de opostos e o equilíbrio entre forças antagônicas, como o céu e a terra, o masculino e o feminino, o sol e a lua, e a vida e a morte.  Sua estrutura geométrica de dois eixos (vertical e horizontal) materializa a integração do transcendente com o imanente e o crescimento espiritual resultante do choque entre universos diferentes. Diversas culturas (fenícios, egípcios, celtas, etc.) a tem como o "eixo do mundo" – uma ponte para a alma alcançar a iluminação.

 

Como aponta Camila Shiota, “a iluminação envolve aceitar e acolher a si mesmo, positiva e negativamente, com amorosidade”. O autoamor é o alicerce para o amor externo verdadeiro, pois, só quem se ama pode amar com autenticidade. Para muitas escolas esotéricas, amar algo é a única forma de conhecê-lo verdadeiramente. Na medida em que o "eu" diminui, a percepção da realidade se amplia, o que é o cerne da iluminação em tradições como o Budismo (através da Metta ou Amor Bondoso) e o Hinduísmo (Bhakti Yoga).

 

Ao iluminarmos os pensamentos, aclara-se a percepção de nossos defeitos. Essa lâmpada não é acesa para ser escondida, mas, para ser luz do mundo através do amor, bondade e esperança disseminados pelo maçom, espelhando verdade, justiça, harmonia e inspirando os outros a, também, se transformarem em luzeiros do progresso e da felicidade humana, cônscio de que “toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação”. (Tiago 1:17)

 

Neste status quo de permanente zênite – onde inexistem a sombras das dúvidas, a penumbra das incertezas, tão pouco o obscurecentes preconceito – o amor, “como elo perfeito” (Colossenses 3:14), aceso no coração bem formado do maçom assume uma condição tripartite: "Verum, Animus, Officium”, estruturando-se não apenas como emoção, mas, como um compromisso ético e racional. Evidenciando que exige honestidade (Verdade), a presença da alma/vontade (Intenção) e o compromisso prático de servir ao amado (Dever).

 

Essa tríade fulcra um amor maduro, que une a verdade intelectual à afeição emocional e à prática cotidiana. Fervorosamente, o amor atua como vetor de iluminação ao nutrir a luz interior, fortalecer o autoconhecimento e promover a cura, agindo como uma força que transcende o ego. Ele ilumina processos terapêuticos e relacionamentos, transformando a dor em sabedoria, enquanto o amor-próprio e a empatia tornam o ser mais seguro e capaz de iluminar o mundo. Enquanto o intelecto analisa e separa, o amor une e integra.

 

O amor é a força que "desmagnetiza" a alma das preocupações puramente materiais e egocêntricas, funcionando como uma bússola que aponta para a realidade última da interdependência. Indiscutivelmente, as afirmações de Paulo de Tarso sobre o amor dão-nos uma mestria sine-qua-non se observadas, seguidas e vividas: “não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor”. (1 Coríntios 13:4,5). O amor regenera a ética e esquadrinha a justiça.

 

Regenerar a ética reflete uma visão profunda sobre a interdependência entre os valores humanos e espirituais. Enquanto a ética pode muitas vezes se tornar um conjunto rígido de normas e deveres, o amor a "regenera" ao trazer humanidade e propósito às regras. Ao esquadrinhar a justiça, o amor exige que ela não seja apenas cega e punitiva, mas, que analise cada contexto para restaurar a dignidade e a verdade. O amor não ignora a justiça; pelo contrário, ele a torna mais precisa. Do hábito de amar regenera-se o homem.

 

Esta iluminação é o despertar da sabedoria, a clareza mental e o entendimento profundo da existência, vetores do equilíbrio que aplicado nas relações humanas, ancora o respeito à diversidade e institui a cooperação com vetor da fraternidade a nos unir como verdadeiros irmãos sob os auspícios do sagrado, pois, “é melhor serem dois do que um, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas” – ou mais. (Eclesiastes 4:9), contrariando esses dias em que o individualismo parece ser promovido e tendo como objetivo ser-se autossuficiente, estabelecer relações de aliança favorece melhores conquistas.

 

Neste influxo, evoco as interpretações rosacrucianas, onde a cruz simboliza o homem regenerado que integra suas duas partes e renasce espiritualmente após a experiência da "crucificação" das paixões materiais.  Cumprindo diferenciar que, enquanto a Cruz de Malta (ou de São João) representa as oito virtudes ou obrigações dos cavaleiros, a Cruz da Ordem Teutónica – ordem de cavalaria medieval que unia caridade e guerra – enfatiza proteção, devoção e a busca pela iluminação espiritual através do equilíbrio das forças opostas.

 

Maranguape, Ceará, 10 de Abril de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9



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