Desde
tempos imemoriais, a cruz predestina-se a simbolizar a vida e esperança. Com os
braços abertos desejosos de abraçar o universo, os mundos que nele há, a natureza
que ordena cada mundo, as criaturas que manifestam a vida guiadas pela
esperança de, como a cruz, em pé – e às ordens – desvelar os mistérios entre a superfície
e às regiões mais profundas, como também, da superfície ao céu, pois, “Deus há
de trazer toda obra a juízo, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom
quer seja mal”. (Eclesiastes 12:14)
O
gesto de fazer a cruz não é exclusivo do cristianismo. Na Cabala, ele aciona os
quatro elementos (fogo, água, terra, ar), os quatro pontos cardeais e o
equilíbrio da Tetraktis pitagórica, harmonizando os hemisférios cerebrais e as
correntes energéticas (Nadis) do corpo. Os Rosacruzes, percebem-na nos quatro
reinos da natureza (mineral, vegetal, animal e humano). Para a teosofia, a cruz
reflete o dualismo andrógino da natureza; esotericamente, o homem que se
"crucifica" (vencendo sus paixões) renasce imortal e regenerado.
Os
Romani veem-na como a lei de ação e reação (karma), indicando que sacrifícios
são necessários para alcançar a vitória e que a união do espiritual com o
material trará glória, desde que haja fé e esforço. Apregoada por Hermes Trismegisto,
como Princípio da Causa e Efeito – cada evento tem sua causa. Portanto,
reconhecer isso fortalece a autorresponsabilidade e o poder de escolha. Além
disso, nos torna mais conscientes das consequências de nossas ações. Nossa
autorresponsabilidade exempla a muitos.
Autorresponsáveis,
que, dentre muitos, nos exemplam: Jesus Cristo (aquele deu a vida para salvar
os cristãos que já mais preferiram ser salvos), Buda (cujo evangelho viceja o
mais fecundo, fervoroso e formidável amor), o Profeta Muhammad, que legou o
Alcorão Sagrado à humanidade, nele nos consignando como sinais de Allah (o
misericordioso): “e um dos Seus sinais é que Ele criou para vocês, a partir de
vocês, companheiros para que neles encontrem tranquilidade; e Ele colocou entre
vocês carinho e misericórdia.” (Alcorão, 30:21).
Esotericamente,
a cruz representa, primordialmente, a união de opostos e o equilíbrio entre
forças antagônicas, como o céu e a terra, o masculino e o feminino, o sol e a
lua, e a vida e a morte. Sua estrutura
geométrica de dois eixos (vertical e horizontal) materializa a integração do
transcendente com o imanente e o crescimento espiritual resultante do choque
entre universos diferentes. Diversas culturas (fenícios, egípcios, celtas, etc.)
a tem como o "eixo do mundo" – uma ponte para a alma alcançar a
iluminação.
Como
aponta Camila Shiota, “a iluminação envolve aceitar e acolher a si mesmo,
positiva e negativamente, com amorosidade”. O autoamor é o alicerce para o amor
externo verdadeiro, pois, só quem se ama pode amar com autenticidade. Para
muitas escolas esotéricas, amar algo é a única forma de conhecê-lo
verdadeiramente. Na medida em que o "eu" diminui, a percepção da
realidade se amplia, o que é o cerne da iluminação em tradições como o Budismo
(através da Metta ou Amor Bondoso) e o Hinduísmo (Bhakti Yoga).
Ao
iluminarmos os pensamentos, aclara-se a percepção de nossos defeitos. Essa lâmpada
não é acesa para ser escondida, mas, para ser luz do mundo através do amor,
bondade e esperança disseminados pelo maçom, espelhando verdade, justiça, harmonia
e inspirando os outros a, também, se transformarem em luzeiros do progresso e
da felicidade humana, cônscio de que “toda a boa dádiva e todo o dom perfeito
vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de
variação”. (Tiago 1:17)
Neste
status quo de permanente zênite – onde inexistem a sombras das dúvidas, a
penumbra das incertezas, tão pouco o obscurecentes preconceito – o amor, “como
elo perfeito” (Colossenses 3:14), aceso no coração bem formado do maçom assume
uma condição tripartite: "Verum, Animus, Officium”, estruturando-se
não apenas como emoção, mas, como um compromisso ético e racional. Evidenciando
que exige honestidade (Verdade), a presença da alma/vontade (Intenção) e o
compromisso prático de servir ao amado (Dever).
Essa
tríade fulcra um amor maduro, que une a verdade intelectual à afeição emocional
e à prática cotidiana. Fervorosamente, o amor atua como vetor de
iluminação ao nutrir a luz interior, fortalecer o autoconhecimento e promover a
cura, agindo como uma força que transcende o ego. Ele ilumina processos
terapêuticos e relacionamentos, transformando a dor em sabedoria, enquanto o
amor-próprio e a empatia tornam o ser mais seguro e capaz de iluminar o
mundo. Enquanto o intelecto analisa e separa, o amor une e integra.
O
amor é a força que "desmagnetiza" a alma das preocupações puramente
materiais e egocêntricas, funcionando como uma bússola que aponta para a
realidade última da interdependência. Indiscutivelmente, as afirmações de Paulo
de Tarso sobre o amor dão-nos uma mestria sine-qua-non se observadas, seguidas
e vividas: “não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não
procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor”. (1
Coríntios 13:4,5). O amor regenera a ética e esquadrinha a justiça.
Regenerar
a ética reflete uma visão profunda sobre a interdependência entre os valores
humanos e espirituais. Enquanto a ética pode muitas vezes se tornar um conjunto
rígido de normas e deveres, o amor a "regenera" ao trazer humanidade
e propósito às regras. Ao esquadrinhar a justiça, o amor exige que ela não
seja apenas cega e punitiva, mas, que analise cada contexto para restaurar a
dignidade e a verdade. O amor não ignora a justiça; pelo contrário, ele a torna
mais precisa. Do hábito de amar regenera-se o homem.
Esta
iluminação é o despertar da sabedoria, a clareza mental e o entendimento
profundo da existência, vetores do equilíbrio que aplicado nas relações
humanas, ancora o respeito à diversidade e institui a cooperação com vetor da
fraternidade a nos unir como verdadeiros irmãos sob os auspícios do sagrado,
pois, “é melhor serem dois do que um, porque maior é a recompensa do trabalho
de duas pessoas” – ou mais. (Eclesiastes 4:9), contrariando esses dias em que o
individualismo parece ser promovido e tendo como objetivo ser-se
autossuficiente, estabelecer relações de aliança favorece melhores conquistas.
Neste
influxo, evoco as interpretações rosacrucianas, onde a cruz simboliza o homem
regenerado que integra suas duas partes e renasce espiritualmente após a
experiência da "crucificação" das paixões materiais. Cumprindo diferenciar que, enquanto a Cruz de
Malta (ou de São João) representa as oito virtudes ou obrigações dos
cavaleiros, a Cruz da Ordem Teutónica – ordem de cavalaria medieval que unia
caridade e guerra – enfatiza proteção, devoção e a busca pela iluminação
espiritual através do equilíbrio das forças opostas.
Maranguape,
Ceará, 10 de Abril de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo
Patroneado
por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira
AIMI nº 9
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