Curiosa figura a do pernóstico,
aquele que somente se vê vivo quando refletido no olhar que o fita. A ele nada
importa como olha – nojo, vergonha, desprezo, horror, ódio –, pois, sua vida
está atrelada ao reflexo na íris de quem o olhar. Assim sendo, vale-se de tudo
para que o olhem desde sapatear na lama, arrancar os cabelos, etc., pois,
quanto maior o escândalo, mais olhar-espelho terá.
Nesta agência, a
dignidade é a primeira moeda trocada por um segundo de foco. É o triunfo
do exibicionismo sobre a essência, onde o indivíduo prefere ser uma
caricatura grotesca a ser um humano comum e ignorado. O raciocínio é trágico:
"Se você me odeia, você é obrigado a me notar; se me nota, eu
existo". É o fenômeno da validação pelo choque.
Para quem teme a
invisibilidade como se fosse a própria morte, o desprezo é um banquete e o ódio
é um troféu. Assim, com toda efusividade, o "pernóstico" transmuta-se
em uma criatura puramente cênica – não possuindo um "eu" sólido, mas,
unicamente, uma colcha de retalhos costurada pela atenção alheia. Sua carência
existencial é descomunal.
Incapaz de perceber-se – salvo
espelhado no olhar de quem o vê –, o pernóstico passa pela adolescência e alcança
a gloriosa fase adulta como um ser repugnantemente pedante e sua mestria como
pernicioso manipulador lhe garante “poderes e novas perspectivas para usá-los. Indeciso,
entre a terceira pessoa e o plural “realeza”, sua fala anima repetidas encenação
no teatro da manipulação.
Ainda que inexistindo uma
patologia psiquiátrica única que se defina estritamente pelo uso da fala em
terceira pessoa (conhecido como ileísmo) ou do plural de majestade (nós em
vez de eu), tais comportamentos linguísticos considerados traços de
personalidade, hábitos culturais ou técnicas psicológicas, não necessariamente são
sintomas de uma doença mental.
Porém, como tudo que é
demais é veneno, quando esses padrões de fala ocorrem de forma exagerada e
estão associados a outros sintomas, eles podem estar presentes em quadros
específicos de Ileísmo – uma técnica de distanciamento emocional para ajudar na
regulação de sentimentos ou na tomada de decisões mais objetivas sobre a vida e
suas interatividades.
Também, manifesta
claramente o hábito cultural ou o narcisismo social – que é diferente do transtorno
de personalidade narcisista –, quando figuras públicas ou pessoas em cargos de
poder adotam essa modo de comunicação com o intuito inequívoco de projetar
autoridade ou uma estabelecer uma importância – tornam-se normas
comportamentais e não patologias clínicas.
Embora traços narcisistas
como grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia sejam comuns, a
linha que separa o comportamento estratégico de poder do transtorno reside no
grau e na intensidade desses traços, sendo que o contexto moderno – em sede de
sociedade liquida – incentive essa cultura do narcisismo como forma de
validação social e política.
A relação entre
narcisismo e poder é intrínseca. Pessoas
em posições de autoridade frequentemente não se percebem sem se auto exaltar,
pois, somente assim sentem consolidada sua posição. O poder, derivado do latim
potere, implica na capacidade de impor a vontade e influenciar outros. Nesse
contexto, o narcisismo atua como um amplificador simbólico da autoridade.
Água demais afoga, embora
a “fala” não seja o único critério, seu uso em demasia impulsionado por
autoimportância protuberante e grandiosidade descabida, aparece o Transtorno de
Personalidade Narcisista – uso do plural de majestade e/ou da falar na terceira
pessoa para reforçar sua "superioridade”. Há reis maiores que barrigas que
os possa alojar.
O “reizinho” somente
contempla-se coroado quando refletido nos olhos daqueles que o margeiam,
manifestando o Transtorno de Personalidade Histriônica – quando não basta
sapatear na areia – que é a mais tímida forma dramática ou peculiar de ser o
centro das atenções –, pois, há expressão verbal produz um show é mais eficaz e
atraente aos seus interesses.
Notadamente, há casos
mais graves, onde a alteração na forma como a pessoa se refere a si mesma
indica, indubitavelmente, uma perda de contato com a realidade. Durante
episódios maníacos – da bipolaridade –, o afetado apresenta delírios epopeicos
de grandeza e com o exímio ator, adota uma fala de contundente convencimento de
ser ele extremamente importante ou "real".
Essa desorganização do
pensamento leva o maníaco a uma fala fragmentada ou à perda da noção de
"eu", fazendo com que o ele se refira a si mesmo como um objeto ou
outra pessoa – um príncipe, por exemplo. Neste influxo, nenhum escrúpulo é
capaz de conter sua incursos marginais, pois, qualquer sonido o faz navegar nas
paradisíacas ilhas de esquizofrenias e psicoses vis.
Destinados ao império, este
demérito à humanidade manifesta o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI),
antigamente chamado de "personalidade múltipla" – e passa a usar
pronomes diferentes (como o plural), pois, sente que existem várias identidades
coexistindo em si, além da sua própria. A mente fragmenta a identidade como
modus de mascarar sua ineficácia como homem.
Contrariando Aristóteles para
quem o ser humano é um "animal político" (Zoon Politikon) que, por
natureza, necessita de convivência para alcançar sua plenitude e felicidade,
pois, isoladamente é incapaz de autossuficiência. Este deformado social vegeta
na humanidade a partir das sórdidas manipulações com as quais reveste-se da
falsa autoridade e importância que encena.
Desprovido de família, alcança
a velhice avançada. Os avós, tios, pais, irmãos, primos há muitos outonos
residem no oriente eterno, por ele intercedendo ao Criador, embora sem êxito,
pois, nenhum sobriedade o liberta do vício do “aparecer sem ser mais, tão pouco
o que nunca foi”. Sem filhos para acompanha-lo em seus últimos passos, resta a
esposa que por dó o acompanha.
Escondido por detrás da coexistência
de várias identidades, este idoso excêntrico refere-se a si mesmos no plural
("nós"), como também, usa demasiadamente pronomes que reflitam essa
pluralidade, sendo uma forma de reconhecer a presença dos diferentes alters que
partilham o mesmo corpo que si. Encaliçado pelo hábito, move-se sutilmente
entre estas identidade (switching).
Cada identidade (switching)
com padrões próprios de percepção, comportamento, voz, idade etc., garantindo a
este douto manipulador alguma suportabilidade (fuga) ao peso da idade (jamais aceita),
às frustações acumuladas e à já notabilizada incapacidade formar relacionamentos
sólidos, empáticos e duradouros. Reis existem pelo súditos que o amam, jamais
por manipulação.
Jamais empático, o
"flagelo manipulador" torna-se “sábio” após testar e restar, aprovar
e reaprovar dia a dia as táticas psicológicas e emocionais que desenvolveu ao
longo da vida para controlar, dominar e explorar outras pessoas em benefício
próprio, agindo, indubitavelmente, como um "flagelo" – algo que causa
sofrimento, angústia ou destruição sutil na vida de quem o órbita.
Atrofiado socialmente, pois,
sem máscaras (identidades, switching) não é capaz de conviver em grupo, o
flagelo social não realizou suas potências mais elevadas, como a razão e a
ética, nem vive – fenece desde o nascimento –, já que a sociedade é a única
forma de transformar a "primeira natureza" (biológica) em
"segunda natureza" (cultural e histórica), que deve ser real, integra
e verídica.
Morto, desumanizado, irascível
e, mais poderosamente pernóstico do que fora na infância, o flagelo manipulador lamenta
nas mais obscuras profundezas d’alma não ter sido o que sua mãe, pai, irmãos
etc. confiaram que ele seria. Chora a ausência dos filhos e de todos aqueles
que um dia resolveram dedicar-lhe amor. Sua longevidade é seu mais grave artifício,
pois, ele nunca viveu.
Maranguape, Ceará, 11 de
Abril de 2026
Bruno Bezerra de Macedo
Jornalista CRP/MTE nº
0005168/CE
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