Resolutamente, as tradições cultuam o ponto dentro do círculo ou circumponto – simbolo ancestral universal que representa a união do indivíduo (ponto) com o cosmos (círculo)–, a energia divina primordial, e o sol. A liberdade, neste contexto, é percebida na capacidade de manter-se no centro, agindo com retidão e equilíbrio, sem ser corrompido ou ultrapassar as barreiras éticas que cercam o indivíduo.
Preceituam as tradições antigas, como a Maçonaria, associam este símbolo à liberdade primordial de pensamento, expressão e consciência, defendendo que o indivíduo siga seu próprio caminho espiritual e intelectual. Essa liberdade de pensamento exige que este não seja mera replica do pensamento de alguém. Afinal, um homem que não pensa por si, brevemente não saberá atar os próprios cadarços.
Pensar é vida. E vida é amor em movimento. Paulo afirma que “Deus não nos deu espírito de covardia, deu-nos sim, de poder, de amor e de domínio próprio” (2 Timóteo 1:7). É homem quem não domina a si próprio? Seria homem aquele sucumbe a outrem por vaidade, interesse vil etc? Tais deméritos desumanizam o homem, além de o escravizar. Há nisso efêmera felicidade que o vento logo dissipa.
A vida vive feliz quando exercemos o que ensina o tetraavô de Jesus – conforme seus genealogistas Marcos e Lucas –, Salomão, que diz “não haver nada melhor ao homem do que fazem o bem e ser feliz enquanto vive” (Eclesiastes 3:12-13). Eis a vida plena, eis felicidade que ser humano garante e, por fim, eis o homem integral. Quem se habilita a cumprir em si tal excelência e rejubilar-se nesta liberdade?
Liberdade assim exige, naturalmente, respeito – por si inicialmente, depois, por tudo que criado para co‐existirmos – e disciplina – primeiramente, conduzindo as próprias agências, após, pelo exemplo, guiando a muitos em seus feitos e efeitos. Envolve respeitar para ser respeitado, neste agir emerge o respeitável. A verdadeira liberdade vem de uma gestão interna e ética, em vez da ausência total de restrições.
Ente a liberdade deseja por aqueles que busca a parecença com o James Bond (007) – a quem foi concedida liberdade incondicional, inclusive para matar – e a liberdade de ser de outrem que somente existem quando vistos refletidos nos olhos daqueles que os veem mediante quaisquer artifícios que os façam notados – jamais sentidos –, reside a sua alteza a “liberdade”, tão sonhada, almejada, porém, realizada em poucos.
Ser livre envolve equilibrar-se, ainda que precariamente, entre estes dois extremos: a licença para matar (alienação do poder) e a dependência do olhar (alienação da validação). Ainda que vivida por pouco, a liberdade de ser (autenticidade), implica a responsabilidade de assumir o próprio destino e arcar com as consequências de suas escolhas, sem buscar validação externa ou poder absoluto.
Não importa o tenebroso tamanho da escuridão: ódio, vaidade, usura, etc., quando a boa vontade de ser correto, mínima que seja no universo, brilha inspiradoramente, pois, mesmo no cenário mais hostil, um único ato de retidão rompe a hegemonia do caos. No fim, a boa vontade funciona como uma bússola moral: não importa quão perdido o mundo pareça, ela mantém o Norte visível.
Essa visão é virilmente robustecida em Gálatas 6:10, que nos incentiva a fazer o bem a todos, especialmente aos da família da fé, enquanto se tem oportunidade. E também Eclesiastes 9:10, que nos concita aproveitar o tempo presente, pois, “tudo quanto vier à mão para realizar, faze-o com o melhor das tuas forças, porquanto para o Sheol, a sepultura” – pois, no porvir “não há atividade, reflexão, saber…. Nada!”
Ao semearmos bondade, amor e obediência ao que há preestabelecido – seja mundano e/ou sagrado –, segaremos paz, prosperidade e proeminência, tanto nesta vida, quanto na porvir. Porém, se semearmos egoísmo, desobediência ou pecado (vícios, erros, amoralidades e imoralidades), fartamente colheremos corrupção, desesperanças, infortúnios e julgamento, tanto aqui, quanto na pátria após o véu.
Somente ancorados uns nos outros na excelsa prática da humildade e do cuidado, estaremos aptos à construção de um mundo humanamente justo. Ao vivermos com a "mente de Cristo", como em Filipenses 2:5, assumiremos a responsabilidade de promover a unidade, a justiça e o respeito mútuo em todas as esferas da vida. Essa mentalidade de “serviço” sustenta a liberdade de sermos o que nos propusemos ser.
Ao escolhermos a retidão ainda que numa ambiência corrompida, deixamos de mais um no vale dos comuns e assumimos o lugar que no compete como “ponto de referência”. Numa única agência falimos a ilusão – a exaurimos de todas as suas forças – de que “todo mundo é assim ou de que "não há saída". A virtude não precisa de maioria para ser verdadeira; ela só precisa existir para provar que o caos não é absoluto.
Robustece-se, assim, a resistência como ato de liberdade ética e política fazendo enfrentamento ao conformismo – a aceitação passiva de situações injustas ou desfavoráveis, promovidas por sistemas que silenciam o pensamento crítico. Não se trata de rebelião por rebeldia, mas, de reivindicação de um mundo possível, onde a liberdade radica-se na certeza de que felicidade e a justiça não são meros sonhos.
O “não se adaptar apenas para agradar”, manifesta outras formas de ser, vivendo com liberdade e coragem. A transparência de nossos atos, convida a outrem a serem, também, translúcidos, pois, a verdade fortalece relacionamentos nela firmados. A singularidade da visão, da sensitividade e da agência geram uma contagiante energia que somente a abraçam aqueles cujos propósitos comuns podem manifestar.
Eis a bússola da vida plena. a liberdade de ser não precisar ser um mito, nem uma imagem, mas apenas um ser humano íntegro, que tem no senso de justiça o eixo central que sustenta sua estrutura, lhe permitindo uma autoconstrução de utilidade e harmonia com o mundo ao seu redor. Quanto maior o nível de consciência de um ser, maior é sua responsabilidade por seus atos dentro dessa estrutura de justiça.
Sócrates, o mestre simbólico do caminho, ensina que o guerreiro pacífico não busca invulnerabilidade, mas, vulnerabilidade absoluta ao mundo, à vida e à presença – ou seja, estar plenamente presente, aberto, sem defesas rígidas. Ele age com intenção, não reage com impulsos do passado e navega por ambientes difíceis sem se corromper e sem ser tolo. A verdadeira jornada está na transformação interior.
Ser agente de transformação no mundo é um chamado ativo e diário para viver a paz como prática concreta, não como ideia abstrata. Envolve abandonar ressentimentos, perdoar, acolher e dialogar com serenidade, mesmo diante das adversidades, inspirado no ensinamento de Jesus: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não a dou como o mundo a dá." (João 14,27). Nada há mais libertador que a paz de ser-se o que se é.
A mudança caminha com a consistência, e esta nasce da congruência entre a realidade e suas escolhas – começar onde há controle imediato, com pequenas ações consistentes. Como diz Carl Jung: “Quem olha para dentro, desperta.” A profundidade vem da integração entre corpo, mente e alma, da aceitação da imperfeição e da falibilidade humana. O crescimento é um processo, não um destino.
Saber-se como uma unidade inseparável, onde a saúde física influencia a mente e o bem-estar espiritual, e vice-versa, preceitua que devemos nos autocuidar de forma integral, pois, é essencial para o equilíbrio e a harmonia. A aceitação da própria falibilidade é um caminho para a autenticidade e conexão humana real, segundo a psicologia da "espiritualidade da imperfeição". A autenticidade respira liberdade.
Legitimidade é a característica, particularidade ou condição de quem está em conformidade com as leis morais (divina ou dos homens), com a justiça, com a razão, com o coração, etc. Assim, “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”. (Filipenses 4:8)
Assim, o legitimo Maçom é aquele que estuda com frequência e que conhece o significado dos símbolos de seu próprio rito; que é assíduo na loja à qual é filiado, arcando e cumprindo com todas as obrigações assumidas com sua potência maçônica; que reflete na própria família os ensinamentos adquiridos nas lojas que frequenta; e que é um exemplo de vida e de compostura diante da sociedade. Liberdade deve exemplar.
Ser livre e de bons costumes, indiscutivelmente, é uma contundente forma de atestar a capacidade de viver livremente ancorado na retidão de caráter e no respeito às normas sociais: é algo extremamente valioso e digno de admiração. É uma exaltação à liberdade responsável e à integridade moral a bem do melhor convívio. Obras como "Dom Quixote" exaltam a liberdade e a honra, preceituam essa integridade moral.
Uma vida com dignidade, propósito e autenticidade reflete que ser livre e de bons costumes é um constructo do autorrespeito que se fundamenta no autoconhecimento e no viver alinhado aos próprios valores, presente e vigilante às próprias ações, pensamentos e sentimentos, em vez de viver no piloto automático. Essencialmente, o autorrespeito nasce da responsabilidade – consigo mesmo e com os outros.
Liberdade com responsabilidade é o que sustenta o do contrato social – ou seja, o ponto dentro do círculo onde a liberdade individual é contida pela responsabilidade moral e ética – da convivência harmoniosa que ele celebra. Sem isso, a liberdade degenera em anarquia, prejudicando a própria capacidade de todos exercerem seus direitos livremente. Eis o lume para o evolução continuada do ecossistema Terra.
Maranguape, Ceará, 05 de Abril de 2026
Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9
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