terça-feira, 5 de maio de 2026

PINTAR COMUNICA O VIVER HUMANO

 

Neste dia 05 de maio festejamos o Dia do Artista Pintor, o Dia Nacional das Comunicações e, também, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, lembrando que a pintura evolui com humanidade, pois, caminham juntas desde sua ciese. Conforme o cérebro e a capacidade intelectual evoluíram, emergiu a Era dos Símbolos e Sinais, onde desenhos em cavernas (pinturas rupestres) e representações em ossos ou pedras permitiram registrar o cotidiano e ideias complexas. A pintura é uma "janela para a alma humana" que imortaliza sentimentos e visões de mundo.

 

Essas produções não tinham meramente uma função estética, pois, agem como um "acervo público" dos grupos, conectando pessoas através do tempo, reafirmando identidade socioculturais e delimitando abrangências. Ao longo da história, pintores registraram culturas das diversas etnias em todo o orbe terrestre, ajudando a formar a identidade visual de nações (como visto no Brasil com o modernismo), além de confirmar a pintura como guardião do progresso humano.

 

Claramente, a comunicação social surgiu dessa necessidade fundamental de transmitir informações, alertar sobre perigos e expressar cultura e sentimentos desde que os seres humanos começaram a viver em sociedade, além de garantir a inclusão social e o laços de pertencimento. A pintura, portanto, é o pioneiro modo de comunicar fatos e ocorrências do dia a dia, do qual se valeu os primeiros homens para levar conhecimentos às gerações que vieram depois deles.

 

Com o tempo, o desenho complexo tornou-se abstrato para facilitar a escrita. Os símbolos (pictogramas) deixaram de representar apenas a ideia e passaram a representar o som da palavra (fonetismo) e as pinturas e símbolos fizeram-se letras que contam a história da evolução da escrita. Ainda que, na arte contemporânea, o processo se inverta e a letra (que era um desenho) torna-se novamente uma pintura ou marca gráfica, como no caso do pixo ou da arte urbana, onde a escrita é um símbolo visual, a "letra da contestação”.

 

Se olharmos para a história, cada salto tecnológico – da fala aos algoritmos – não apenas transmitiu informações, também reorganizou como nos sentimos parte de um grupo. Determinada a construir tanto o melhor, quanto o pior, qual seja a vontade homem, a comunicação social funciona como um conjunto de estratégias para conectar indivíduos, instituições e causas. Ela não é apenas uma ferramenta que usamos, como também, é o que nos define, portanto, a ordem e/ou caos dela germinam.

 

Evoluindo perenemente, a fala e a linguagem desenvolveram-se com os Cro-Magnons, marcaram um ponto de virada na complexidade da comunicação. Enquanto os hominídeos anteriores usavam sons para alertas imediatos, os Cro-Magnons usavam a linguagem para construir realidades compartilhadas. Bem falar é o principal meio para transmitir a cultura, os mitos e os valores de uma geração para a outra, preservando a identidade de uma sociedade (r)evolucionária que tem na tradição o alicerce de sua evolução constante.

 

A escrita surgiu há cerca de 5 mil anos (por volta de 4.000 a.C. na Mesopotâmia e no Egito), marcando o fim da Pré-História e permitindo o registro permanente de bens, transações e ideias, iniciando a História. A invenção da imprensa, do jornal (primeiro exemplar em 59 a.C. em Roma), da rádio, da televisão e, mais recentemente, da internet, transformaram a comunicação em um processo global e instantâneo. Cabe-nos decidir que tipo de comunicação queremos estabelecer.

 

Cada progresso tecnológico – da fala à escrita, da imprensa à internet – não apenas ampliou a capacidade de transmitir informações, como, formidavelmente, reconfigurou profundamente os laços sociais, as identidades coletivas e os modos de pertencimento. Neste influxo, a língua, como a comunicação, são fundamentais nesse processo, pois constroem a realidade e a percepção cultural, permitindo o compartilhamento de valores, a mobilização política e redefinição de identidades no ciberespaço.

 

A língua, como a pintura, são fundamentais para a existência humana por serem instrumentos de comunicação, pensamento e construção social.  A língua, caracterizado por letras e fonemas organizados por regras gramaticais, permite a expressão do pensamento e a transmissão de conhecimentos. Enquanto a pintura, transcende a verbalidade para comunicar significados através da forma, cor e composição, atuando como uma ferramenta universal de expressão cultural e identitária.

 

Juntas, elas formam a base da cultura, onde a arte atua como uma linguagem que interpreta e questiona a realidade, enquanto a língua organiza e veicula esses conceitos de forma estruturada. Preservar a língua é essencial para manter a diversidade cultural, já que, a perda de uma língua significa o fim de um mundo – de histórias, saberes e modos únicos de existir. A língua portuguesa é um exemplo de língua, posto que é usada por falantes de português em todo o mundo para se comunicarem.

 

Surgida no noroeste da Península Ibérica, desenvolveu-se na sua faixa ocidental, incluindo parte da antiga Lusitânia e da Bética romana. A língua portuguesa origina-se do latim – idioma falado pelos romanos que se situavam no estado da Península Itálica, o Lácio. Percebe-se, ainda, na língua portuguesa um substrato céltico-lusitano, resultante da língua nativa dos povos ibéricos pré-romanos que habitavam a parte ocidental da Península (Galaicos, Lusitanos, Célticos e Cónios).

 

Desde suas raízes no latim vulgar, falado pelas classes populares do Império Romano, o português passou por inúmeras influências e evoluções, moldadas por fatores históricos, sociais, culturais e geográficos, resultando na rica diversidade linguística que observamos hoje: Pré-românico (surgimento do latim vulgar), Românico (diferenciação do latim vulgar), Galego-português (idioma da Galiza e do norte de Portugal), Português Arcaico (entre séculos XIII e XVI) e Português Moderno (atual).

 

Neste ensejo, cumpre enaltecer o empenho que viceja o mérito do Pai da Língua Portuguesa, Luís de Camões, poeta e escritor português que através de sua escrita ajudou a moldar a linguagem e a literatura portuguesa, tornando-o uma figura importante na história desta efusiva língua. Da mesma forma, cabe destacar João de Barros, o primeiro grande historiador português e o pioneiro da gramática da língua portuguesa, tendo escrito a segunda obra a normatizar a língua, tal como falada no seu tempo.

 

Por oportuno, cumpre dizer que a língua portuguesa ostenta em seu vocabulário termos provenientes de diferentes idiomas como o provençal, o holandês, o hebraico, o persa, o quíchua, o chinês, o turco, o japonês, o alemão e o russo, além de idiomas bem mais próximos, como o inglês, o francês, o espanhol, o italiano e de algumas línguas africanas. A língua portuguesa é uma das principais línguas de comunicação internacional, facilitando a comunicação e o comércio entre diferentes culturas.

 

Hoje, a língua portuguesa é a quarta língua materna mais falada, depois do mandarim, inglês e espanhol, sendo a língua oficial em nove países: Brasil, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Angola, Moçambique e Timor-Leste, cabendo à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), criada em 1996, promover a cooperação e o intercâmbio cultural entre os países lusófonos, robustecendo a língua e difusão da cultura portuguesa.

 

Contabiliza, ainda, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa cerca de 228.500 entradas, 376.500 acepções, 415.500 sinônimos, 26 400 antônimos e 57.000 palavras arcaicas, notabilizando o exemplo da riqueza do léxico da língua portuguesa. Tamanha fortuna inspirou a CPLP a estabelecer, em 2009, o dia 05 de maio como o Dia da Língua Portuguesa e das Culturas Lusófonas, ato ratificado na 40ª sessão da Assembleia Geral da UNESCO, em 2019, que proclamou a data como o Dia Mundial da Língua Portuguesa.

 

Também, neste dia 05 de maio, celebramos o Dia Nacional das Comunicações, cuja relevância reside, primordialmente, na homenagem que faz ao Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, patrono das comunicações no Brasil, cujo nascimento ocorre nesta data. A data reconhece o papel da comunicação na transição histórica desde a instalação das linhas telegráficas por Rondon até a integração das regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste, incitando o desenvolvimento social, econômico e territorial do país.

 

Além do reconhecimento histórico, o Dia Nacional das Comunicações serve para destacar a evolução tecnológica e a importância estratégica dos sistemas de comunicação na sociedade contemporânea.  A data reforça a comunicação como um direito e uma ferramenta essencial para a integração nacional, a democracia e a globalização, lembrando que, desde os tempos remotos até as redes digitais atuais, a capacidade de trocar informações é vital para a união das pessoas e o progresso da civilização.

 

Ainda neste dia 05 de maio, celebramos o Dia do Artista Pintor, reconhecendo e valorizando o trabalho deste ente humano magnífico que, muitas vezes, enfrenta desafios para se manter ativo em um mercado pouco estruturado onde são invisibilizados ou vistos apenas como "hobbyistas". A data serve para destacar que os pintores, desde os primórdios da humanidade traduzem sentimentos, memórias e identidade cultural em obras visuais, contribuindo para a evolução das sociedades muito além do entretenimento. 

 

O Dia do Artista Pintor reforça o valor da expressão artística como instrumento de comunicação, encorajando a continuidade da produção artística no país, com a mesma efusividade que reconhece a importância dos pintores na criação de uma "galeria viva" de criatividade, memória e beleza, essencial para a identidade nacional.  O artista pintor tem a sensibilidade de transformar o cotidiano em arte, traduzindo o tempo e a realidade em texturas, cores e linhas, comunicando-os às futuras gerações.

 

Comemorar essas datas é imprescindível para valorizar a identidade cultural, a expressão artística e a conexão social. O Dia do Artista Pintor (05/05) reconhece a criatividade, o Dia Nacional das Comunicações (05/05) homenageia a integração e informação (Rondon), e o Dia Mundial da Língua Portuguesa (5/5) celebra o idioma como elo cultural de, aproximadamente, 260 milhões de pessoas e ferramenta de comunicação e de desenvolvimento.

 

Maranguape, Ceará, 05 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE


segunda-feira, 4 de maio de 2026

O VALOR QUE SE TEM E/OU QUE SE ACHA TER

 

Divagando em meus pensamentos, lembrei da relação traçada por Descarte entre o valor do indivíduo e sua utilidade – para si próprio ao menos – para o coletivo humano que o orbita. Corroborativamente, na psicologia junguiana, a individuação plena só é alcançada quando o indivíduo realiza um trabalho equivalente em benefício do coletivo, pagando seu "preço" à sociedade por iniciativa própria.

 

A relação entre o valor do indivíduo e sua utilidade para o coletivo é central na sociologia de Émile Durkheim, que argumenta que a coesão social moderna (solidariedade orgânica) depende da diferenciação das funções, onde cada membro contribui para o todo de forma única. O que nos concita à busca pelo autoconhecimento que afere o valor próprio, ao passo que distingue quem somos do que pensamos ser.

 

O valor que se tem (Essência/Real) reflete o valor intrínseco de um indivíduo – seu caráter, integridade, atitudes, valores morais e sua capacidade de amar e proporcionar bem-estar. Esse valor é construído com o tempo e é interno, porém, ele ancora o valor social com seu capital moral (amor, lealdade, confiança, etc.) para manter a sociedade coesa, conforme discutido por Kuiper. Essa autoridade moral coíbe as paixões desprezíveis.

 

O valor que se acha ter (Percebido/Ilusório) é, muitas vezes, distorcido pela sociedade de consumo, focado na ostentação, bens materiais, status e na aprovação externa. É uma visão baseada em aparências, sempre transitórias. Como diz Einstein, o valor humano reside em reconhecer que nossos sentimentos e atos devem ter como finalidade o progresso da comunidade, definindo assim nossa verdadeira humanidade.

 

Portanto, o descarte do indivíduo ocorre quando se ignora que sua identidade e valor emergem da interdependência com o grupo, seja pela função social (Durkheim), pelo serviço ético (Jung) ou pela conexão humana (Einstein/Kuiper). É o resultado direto da fragmentação social e da perda do sentido de pertencimento e interdependência. Quando paramos de enxergar o "nós", o "eu" deixa de ter um solo onde florescer.

 

O efeito espelho revela que nossa autoimagem não é um reflexo objetivo, mas sim, uma moldagem das narrativas emocionais internas, crenças e experiências passadas.  Quando falhamos em nos enxergar com gentileza, honestidade e aceitação, o espelho deixa de ser um portal de reconhecimento e torna-se uma lente distorcida por julgamentos severos e inseguranças. Nossos olhos não são câmeras, mas sim, projetores de nossa história interna.

 

Sem esse olhar interno equilibrado, a percepção visual é dominada por autocrítica imediata e foco em imperfeições, o que impede a autoestima de florescer.  A utilidade e o valor próprio só são restaurados quando praticamos o diálogo interno gentil e a observação sem julgamento, permitindo que a identidade se reconheça em seu pertencimento e não apenas em suas falhas percebidas. Somente assumimos nosso lugar na interdependência humana.

 

A interdependência é uma marca evolutiva. Ao contrário de outras espécies que dependem da força física, o ser humano sobrevive e evolui através da cooperação, divisão de trabalho e formação de grupos. Indica que a verdadeira realização, maturidade e identidade humana só são alcançadas quando reconhecemos nossa conexão e dependência mútua com os outros. Ainda que vivamos a ilusão de sermos independentes ou superiores.

 

Na realidade, somos seres frágeis e dependemos intensamente do cuidado e da ação coletiva. Como aduz a ética contemporânea, que vê o sujeito não como um ser isolado, mas sim, inserido em um contexto social e histórico, onde a ação individual é inseparável das relações coletivas. Esse reconhecimento exige coragem para enxergar além da superfície física e abraçar a complexidade de quem somos por dentro.

 

Ao assumir nosso lugar na interdependência abandonamos o individualismo extremo, pois, compreendemos que nossa identidade é moldada pelo "nós", e não apenas pelo "eu. Essa maturidade emocional envolve passar da dependência (precisar de outros) para a interdependência (colaborar com outros), que é o nível mais elevado de relacionamentos, bem-estar e harmonia social, segundo a abordagem de Stephen Covey.

 

A ideia de que nascemos em contextos sociais – familiares, culturais, comunitários – evidencia que nossos valores, gostos e até projetos de vida são coconstruídos. Como afirma André Naves: “a imposição de padrões individualistas leva à padronização e à exclusão, enquanto a inclusão social celebra a diversidade de identidades”. A interdependência robustece a colaboração com os outros e fulcra a própria identidade.


Como descrito por Tiago Sant’Ana, a interdependência é simbolizada pelo Pentecostes – momento em que as diferenças se unem em harmonia, em vez de serem barreiras, como na Torre de Babel. Importante perceber que a veraz individualidade jamais se opõe ao coletivo, já que é enriquecida por ele. Preservá-la, enquanto ela contribui para um todo maior, manifesta uma visão mais humana, empática e sustentável da existência.

 

Portanto, assumir nosso lugar na interdependência significa reconhecer que não vivemos isolados, mas também, não nos anulamos nos outros. É não permitir que as expectativas alheias ou a busca por aceitação apaguem nossa essência. A interdependência não é sobre se perder na multidão, mas, sobre ser uma peça distinta que faz o sistema funcionar. Só podemos oferecer algo valioso ao todo se cultivarmos nossa individualidade.

 

O valor que temos é nossa essência, enquanto o valor que achamos ter é a percepção dessa essência, que deve ser cultivada através da autovalorização diária. A proeminência e o equilíbrio mental vêm do esforço em alinhar a percepção subjetiva com a realidade objetiva – não gera arrogância, mas sim, confiança e autenticidade – permitindo que o indivíduo seja o condutor do seu destino e reconheça seu potencial como criador de sua própria realidade.

 

Maranguape, Ceará, 04 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE


domingo, 3 de maio de 2026

ONDE HÁ LIBERDADE, A FELICIDADE FALA BEM

 

Neste dia 03 de maio ao celebrarmos a liberdade de imprensa lembro-me que a liberdade é um ponto dentro do círculo. Ainda que descomunal seu raio de abrangência, há sempre um limite claro e expresso para a liberdade. A liberdade não é absoluta; a liberdade de expressão, por exemplo, encontra limites no direito à honra, intimidade e integridade física de terceiros. Como afirma Leon Tolstói: “Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”.

 

“Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela” preceitua George Bernard Shaw.  O desafio democrático é garantir que essa "circunferência" (os limites) não seja tão apertada a ponto de sufocar a liberdade, nem tão frouxa que permita a impunidade de abusos. Expressões que incitem à violência, ao crime, ao racismo ou coloquem em risco a segurança da coletividade não são protegidas pela liberdade de expressão. O interesse público deve prevalecer sobre a curiosidade mórbida.

 

Assim, mesmo em nome do interesse público, a divulgação de informações sensíveis sobre indivíduos comuns pode configurar abuso de direito, sujeitando o veículo ou jornalista a responsabilização civil ou criminal. A liberdade de imprensa não dá direito à difamação, calúnia ou injúria. Informar é um dever, porém, inventar ou distorcer fatos para destruir a reputação de alguém ultrapassa o limite. A imprensa enfrenta o desafio duplo de manter sua independência e garantir a veracidade da informação.

 

O aumento da desinformação e do discurso de ódio online tem colocado jornalistas em risco, especialmente mulheres e profissionais de minorias. Dados recentes indicam que quase três quartos das jornalistas mulheres sofrem violência online, e um em cada quatro é ameaçado fisicamente.  Esses ataques representam uma erosão direta da liberdade de imprensa. Como diz George Orwel: “Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”.

 

Evoco, por oportuno, Giovanni Battista Libero Badarò, assassinado por quatro alemães numa emboscada no dia 20 de novembro de 1830, às 22 horas, na Rua São José (Hoje Rua Líbero Badarò) em São Paulo, manifestando represália às denúncias de corrupção e o caráter absolutista da monarquia de D. Pedro I (o “libertador” do Brasil) e de seus aliados paulistas, como o Ouvidor Cândido Ladislau Japiaçu, a quem Badorò alcunhara de “Caligulazinho”, despertando-lhe viril sentimento de vingança.

 

Embora o executor do crime, o alemão Henrique Stock, tenha sido preso, Japiassú foi absolvido pelos tribunais, o que gerou enorme revolta popular e suspeitas de envolvimento direto do imperador Dom Pedro I. A morte de Badaró agravou a crise política do Primeiro Reinado, contribuindo significativamente para a abdicação de Dom Pedro I em 7 de abril de 1831 – data instituída cem anos depois (1931) como o Dia do Jornalista pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

 

O ativismo de Badaró no periódico “O Observador Constitucional”, incomodava o regime monárquico, que enfrentava uma grave crise política. Ao falecer Badaró fulcrou seu legado às futuras gerações: "Morre um liberal, porém, jamais morre a liberdade", se tornando um símbolo da liberdade de imprensa no Brasil. Uma imprensa livre é vital, mas, é a responsabilidade ética que a faz imbatível. Envolve zelo, pertinência e veracidade.

 

A liberdade de imprensa não é apenas um direito dos jornalistas, mas um direito do povo à informação. Essa liberdade é, incontestavelmente, uma ambiência de manobra dentro de uma órbita de respeito mútuo. Sem o limite (o círculo), a liberdade (o ponto) perde sua definição e se torna arbítrio. A liberdade de imprensa encontra seus principais limites na proteção da intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, conforme previsto no artigo 5º, inciso X, da Constituição brasileira.

 

Em 2026, a celebração ocorre em um contexto de crescente pressão sobre os meios de comunicação, com ataques físicos, censura digital e desinformação em alta. A UNESCO e a ONU têm alertado para o aumento de leis que restringem a atuação da mídia sob pretexto de segurança nacional ou combate à desinformação. A censura digital, o fechamento arbitrário de veículos e a criminalização de jornalistas são práticas comuns em regimes autoritários e até em democracias em crise. 

 

O assassinato de jornalistas continua sendo uma realidade trágica. Em 2022, 67 profissionais foram mortos globalmente, um aumento de 50% em relação ao ano anterior. Embora os dados mais recentes de 2025 e 2026 ainda estejam sendo consolidados, organizações como a Repórteres Sem Fronteiras mantêm vigilância constante sobre as ameaças. Como afirmado pelo Secretário-Geral da ONU, António Manuel de Oliveira Guterres, "a liberdade de todos depende da liberdade de imprensa".

 

A liberdade de imprensa e de expressão são pilares de uma sociedade aberta, mas não operam em um vácuo ético ou jurídico. A liberdade de expressão é um direito universal, garantido a todos os cidadãos, de manifestar pensamentos, opiniões e ideias, sem anonimato (art. 5º, IV, da Constituição Federal de 1988). Já a liberdade de imprensa diz respeito ao exercício profissional do jornalismo, assegurando que jornalistas e veículos possam informar, investigar e criticar sem censura prévia ou interferência estatal.

 

A liberdade de imprensa exige não apenas proteção legal, mas, principalmente, o robustecimento e a eficácia de mecanismos de autorregularão ética – a ética jornalística atua como freio interno contra abusos, garantindo que a liberdade não se torne licença para disseminar desinformação ou violar direitos individuais – e de educação midiática para o público – crucial para formar um público crítico e capaz de discernir informações confiáveis –, além de apoio financeiro à mídia independente.

 

Um dos maiores desafios à liberdade de imprensa é a proliferação de notícias falsas, que minam a credibilidade do jornalismo sério e distorcem o debate público.  Além disso, o oligopólio da mídia no Brasil – em que poucas famílias controlam a maioria dos grandes veículos – compromete a pluralidade informativa. Pesquisas do Media Ownership Monitor mostram que 26 dos 50 principais veículos são controlados por apenas cinco grupos, o que limita a diversidade de vozes e perspectivas.

 

Hoje, 3 de maio de 2026, ao celebrarmos globalmente o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, uma data proclamada pela Assembleia Geral da ONU em 1993, inspirada na Declaração de Windhoek de 1991, percebemos a poderosa da importância da imprensa livre como panaceia para as democracias, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de proteger jornalistas e combater ameaças à informação verídica. Como afirma Vitor Hugo: “Tudo quanto aumenta a liberdade, aumenta a responsabilidade”.

 

Neste 3 de maio, lembramos que a responsabilidade é o que diferencia o jornalismo da mera exposição, manifestando-se no compromisso com a verdade, pois, coíbe a calúnia; no interesse público, sob a guia da pertinência e da ética; na dignidade da pessoa humana, pois, combate a desumanização do discurso; e, claro, no contraditório, pois, lastreia a integridade do “raio de abrangência”. Como aduz Albert Camus: “Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo”.

 

Maranguape, Ceará, 03 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A CULTURA POPULAR CEARENSE VEM DE LONGE

Tudo que se concebe atualmente como arte teve sua ciese com nossos antepassados mais distantes, pois, registraram rituais de dança, encenação da vida cotidiana, oferendas etc. em superfícies rochosas dando-nos a conhecer suas percepções de mundo e de realidade, muito antes do surgimento da escrita como a conhecemos hoje e das grandes civilizações. Da Arte Rupestre emergem o teatro e a pintura que retrata os rituais ancestrais (encenações). Claramente, a música dela nasce, pois, vê-se dança nas pinturas. Também, a escrita, pois, percebe-se símbolos narrando fatos.

 

A arte rupestre no Ceará embora ainda precise de datações diretas por carbono 14 nos próprios pigmentos, com base em contextos arqueológicos semelhantes no Nordeste brasileiro e em datações de materiais associados em sítios próximos, estima-se que as manifestações no estado possam ter entre 6.000 e 12.000 anos. Rica em registros da Tradição Nordeste, concentra-se em cavernas e abrigos rochosos, especialmente no interior, como a Serra da Ibiapaba, Sertões de Crateús e Quiterianópolis. Retratam figuras humanas (antropomorfos), animais (zoomorfos) e símbolos abstratos.

 

Onde existem formidáveis artistas, vivem excelentes musas. Assim, por justo e oportuno, reporto que prodigiosa desde a mais tenra idade da humanidade, a mulher é venerada na Arte Rupestre em representações como a Vênus de Willendorf, datada de cerca de 28.000 anos a.C., simbolizando a fertilidade e a força criadora feminina, legado vivo e rutilante a nos inspirar a perene busca por um mundo mais justo, mais feliz, onde o amor é o alimentos dos dias presente nas avós, nas tias, nas mães, nas irmãs e nas filhas que conduzem o amor a futuro aprazível que construímos dia a dia.

 

Nenhuma expressão artística independe de amor, como defende Vincent van Gogh, ao dizer que amar as pessoas é a expressão mais artística, e que a arte feita sem amor não seria verdadeira arte. Como também, nenhuma expressão artística se estabelece sem intencionalidade e técnica, ou seja, chorar ou gritar só se torna arte quando há a intenção de fixar e comunicar, independentemente de ser amorosa. O medo, a solidão, o ódio e a miséria, notabilizados no Expressionismo, atestam que a arte não depende exclusivamente do amor para existir ou ter valor, ainda assim, há amor empregado em tudo o que se faz a bem da memória, do legado e do conhecimento que devem alcançar o futuro.

 

Neste sentido, cumpre dizer que no Ceará há 10.000 anos, viviam os povos pré-ceramistas e nômades, muito anteriores às etnias historicamente conhecidas como Tupi ou Jê – este último nome foi adotado pelo ínclito Francisco Gomes Brandão, que logo após a independência do Brasil passou a chamar-se Francisco Jê Acaiaba de Montezuma, refletindo a brasilidade pulsante em seu coração. Acaiaba é reconhecido como o maior autoridade maçônica brasileira de sua época e um pioneiro da maçonaria no Brasil – cuja evidências arqueológicas, como sítios com pinturas rupestres e vestígios de cerâmica, datam suas presenças no estado desde mais de 5.000 anos.

 

Tupis e Jê, conhecidas no período colonial, são culturas mais recentes embora tenham chegado ao Estado do Ceará há milhares de anos. Os povos Jê no Ceará, como os Kariri, Tremembé, Tapeba e Pitaguary, caracterizados por uma cultura de forte ligação com a terra, tradições orais e rituais espirituais, além da arte da cerâmica, da cestaria, de tecer redes, da culinária e do cultivo de plantas medicinais que marcam ainda hoje a cultura cearense. Contribuíram significativamente para a toponímia do estado, com nomes de cidades e regiões derivados de suas línguas, como Quixeramobim (dos Quixarás, ramo dos Tarairiú, um povo Jê) e Jericoacoara (refúgio das tartarugas).

 

Historicamente, a arte da cerâmica é uma das atividades humanas mais antigas, surgindo no Neolítico (por volta de 9.000 a.C. na Anatólia) como solução para armazenar excedentes agrícolas e cozinhar alimentos. Essa arte ou técnica de produzir artefatos a partir da argila como matéria-prima, submetida a altas temperaturas (acima de 540 °C) para endurecimento, foi chamada pelos gregos de keramikós, significando "de argila" ou "argila queimada". No Brasil, a cerâmica marajoara e a santarena são expressões artísticas com forte carga simbólica, representando cosmologias indígenas, ao passo que preserva a memória ancestral.

 

Apesar de historicamente ser considerada uma "arte menor", a cerâmica artística ganhou espaço em galerias e museus, sendo hoje reconhecida como uma forma legítima de arte contemporânea, por vezes hibridizada com escultura e pintura. As técnicas tradicionais, como modelagem manual, rolo, placa e o uso do torno de oleiro, permitem uma expressão artística única. Notabilizada, a Cerâmica da Alegria, da comunidade homônima em Ipu, na região da Ibiapaba, conquistou a Indicação Geográfica (IG) em 2025. Esse selo reconhece a produção artesanal única, ligada ao território e à ancestralidade, com técnicas passadas de geração em geração, principalmente pelas oleiras.

 

Além da Ibiapaba, o artesanato em cerâmica está presente em outras regiões, como Cascavel, podendo ser encontrado em centros de comercialização como a CeArt (Central de Artesanato do Ceará) e o Mercado Central de Fortaleza, que apoiam, valorizam e difundem o trabalho de milhares de artesãos do estado. A tradição remonta aos povos Tupi e Jẽ, que já moldavam o barro para utensílios e objetos cerimoniais. Hoje, as peças, como panelas, jarras e bandejas, combinam resistência, durabilidade e estética rústica sofisticada, sendo valorizadas por arquitetos, designers e colecionadores. Assim, a cerâmica artística no Ceará, fez-se reconhecida como patrimônio imaterial.

 

Artistas contemporâneos desafiam os limites entre o funcional e o decorativo, utilizando a cerâmica para explorar temas sociais, políticos e pessoais, refletindo questões de gênero, raça, trauma e memória, onde artistas feministas e de comunidades marginalizadas usam a cerâmica para dar visibilidade a suas experiências. O muralismo mexicano, por exemplo, usou grandes painéis cerâmicos para contar a história dos trabalhadores. No Brasil, o Memorial às Resistências de Josely Carvalho, que incorpora vidros de protestos, cria obras que preservam histórias coletivas, ao passo que honram vítimas de violência e despertam consciências.

 

A cerâmica como suporte para a escrita é uma técnica milenar que une a plasticidade do barro à perenidade do registro. A argila é um material acessível e durável, permitindo que a escrita seja fixada de forma permanente após a queima ou secagem, diferentemente de suportes reutilizáveis como tábuas enceradas. Desde a pré-história, vasos e placas de argila foram usados para registrar informações, narrativas e decorações, servindo como uma forma de comunicação visual e escrita. Atualmente, uso de canetas específicas para cerâmica, como a Edding 4200 ou Posca, permite a escrita e pintura em peças já queimadas ou biscoitadas.

 

Além da técnica, a "cerâmica como escrita" é explorada em oficinas terapêuticas e artísticas, onde o processo de moldar o barro é visto como uma forma de narrar histórias pessoais. A peça torna-se um "livro tridimensional", onde a forma e o texto se fundem para expressar sentimentos que muitas vezes a folha de papel não comporta. Uma prática bastante antiga, considerando que os sumérios (por volta de 3500 a.C.) escreviam pressionando símbolos em forma de cone em tabuletas de argila úmida, que eram então levadas ao forno para tornar o registro permanente. Uma delas nos deu a conhecer a Epopeia de Gilgamesh, que já avança ao futuro por outros meios de escrita.

 

Por falar em escrita, lembrei-me que a conexão entre o folclore cearense e a arte rupestre repousa na misticidade e na identidade cultural da região do Cariri, onde lendas e mitos resgatam as origens dos povos que habitaram o território há milênios. Enquanto o folclore traz lendas e tradições orais, a arte rupestre documenta, através de pinturas e gravuras em rochas, o modo de vida e crenças de povos que viveram na região há milhares de anos. Estudos indicam ocupação humana no Cariri (Sítio Olho d'Água de Santa Bárbara) datando de cerca de (3.100\) a.C., com artefatos de pedra e cerâmica, situando os registros na transição do Pleistoceno para o Holoceno.

 

O Ceará possui um rico patrimônio arqueológico, além do situado ao norte do estado (Forquilha, Sobral, Iraçuba), merecendo destaque para as regiões do Cariri e do Sertão Central (Quixadá, Quixeramobim etc.). O Iphan cadastrou recentemente 40 novos sítios, intensificando a preservação desse patrimônio, que muitas vezes se encontra em abrigos rochosos.  A arqueóloga Heloísa Bitú e o músico Alemberg Quindins ressaltam que a relação entre mitologia e arqueologia é indissociável, pois, a compreensão das geomorfologias locais (como a Ponte de Pedra e a Pedra da Torre) através das lendas permite acessar os sítios arqueológicos e a história dos primeiros povos.

 

Essa espiritualidade ancestral não desapareceu, mas enraizou-se na religiosidade contemporânea da região, influenciando desde o culto à Beata Benigna em Santana do Cariri até as narrativas de Maara (princesa transformada em serpente), criando um "Cariri encantado" onde natureza e manifestação cultural estão intrinsecamente ligadas. A cultura dos povos cariris, que recuaram para o interior durante a colonização, deixou marcas na oralidade, embora tenham desaparecido em grande parte devido a conflitos e miscigenação. A união dessas duas expressões – a arte feita na pedra e a arte contada na fala – forma a base da história pré-colonial e colonial do Ceará.

 

Jamais fugindo à sua essência como guardiã da memória e como disseminadora do conhecimento ancestral naquilo que supera o que oralidade garante, a arte ceramista cearense avança ao futuro com muita historia para contar, pois, é um verdadeiro pilar da cultura nordestina que, ao mesmo tempo que avança para o futuro, mantém suas raízes profundas na história e na tradição. A cerâmica cearense, portanto, não é somente decorativa e/ou utilitária; ela é a memória viva do povo cearense que se adapta, se renova e se projeta para o futuro com identidade e sustentabilidade. Mestre Noza (histórico) e tantos outros, anônimos e/ou reconhecidos, continuam a moldar o futuro da arte.

 

O cariri de Mestre Noza traz a cerâmica figurativa, que influenciou gerações queque hoje retratam o cotidiano, a religiosidade e os mitos sertanejos, garantindo que a história do povo cearense seja esculpida e preservada. Cidades como Cascavel e a localidade da Moita são referências históricas. O saber das mestras ceramistas, passado de geração em geração, mantém viva a técnica de modelagem manual e a queima em fornos a lenha, criando peças que são verdadeiras esculturas da terra. A cerâmica no Ceará, indiscutivelmente, é uma das expressões mais vivas da identidade de seu povo, unindo o barro ancestral às novas linguagens do design contemporâneo.

 

O "futuro" da cerâmica cearense aparece na sofisticação e no diálogo com o mercado de luxo e a arquitetura. Novos artistas estão reinterpretando formas rústicas com acabamentos modernos, atraindo olhares em feiras internacionais de design. Iniciativas em Fortaleza e no interior conectam artesãos a designers, gerando coleções que decoram desde casas de praia contemporâneas até hotéis de alto padrão. O uso de pigmentos naturais e o reaproveitamento de resíduos locais são tendências que alinham a arte tradicional às demandas ecológicas globais. A cerâmica cearense não apenas resiste; se reinventa, provando que o barro, quando moldado com história, nunca sai de moda.

 

Recentemente, essa conexão ganhou destaque no setor corporativo e cultural, como no estande temático da PROAUTO no CONSEGNNE 2026, em Salvador.  A empresa uniu a tradição ceramista de Minas Gerais com a literatura de cordel do Norte e Nordeste sob o conceito "A Cultura de Cuidar", utilizando a xilogravura para ilustrar narrativas e elementos de barro para simbolizar o cuidado personalizado, celebrando assim as raízes culturais dessas regiões. A simplicidade e a rusticidade da xilogravura no cordel ecoam na textura e nas formas da cerâmica popular. As cenas moldadas no barro funcionam como "cordéis tridimensionais".

 

Historicamente, ambos os gêneros – a arte ceramista e a literatura do cordel – são pilares da identidade nordestina, representados por artistas icônicos como Mestre Vitalino (ceramista) e J. Borges (xilogravurista), cujas obras dialogam na estética da cultura popular. Um exemplo claro dessa união é o artista cearense Abraão Batista, de Juazeiro do Norte, que é tanto poeta de cordel quanto um renomado xilógrafo, unindo a rima à imagem. A união dessas artes fortalece a identidade cultural do Ceará, transformando a "cultura de banca" (cordel) e o trabalho com a argila em formas de resistência cultural e, muitas vezes, em peças de artesanato de alta relevância comercial e artística, comercializadas na CeArt.


Incontestavelmente, essa interatividade entre arte ceramista e a literatura de cordel no Ceará manifesta a excelsitude da cultura popular cearense, onde a narrativa oral e escrita ganha forma física e tridimensional, especialmente na região do Cariri. Essa conexão transforma o barro em um suporte para histórias, personagens e elementos poéticos típicos do sertão, criando uma "poesia tangível”. Nada se faz hoje diferente daquilo que nossos ancestrais realizavam em seu cotidiano entre 6.000 e 12.000 anos atrás. Como eles, permanecemos praticando as habilidades da arte rupestre, mantendo sua essência e tradição em sinergia com as tecnologias atuais, com as quais legamos às futuras gerações as experienciações e conhecimentos preservados há milênios.

 

Maranguape, Ceará, 01 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

VINTE E TRÊS MESES PASSAM E SEUS EFEITOS SÃO DIGNIFICANTES

 

Vinte e três meses de efusivo crescimento tanto conceitual, quanto quantitativo no tange aos confrades que sustentam esta ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS – AIMI, como nas formidáveis ramificação que transcendem desta plântula nascida para difundir a tradição cultural, sinergizar a tradição com o novel sempre in curso de formação no presente e, além disso, implementar cultura onde ele não existe.

 

Afirma Hélio Pereira Leite, seu Mui Bastante Presidente, que Academia Internacional de Maçons Imortais - AIMI é uma instituição maçônica de caráter cultural e literário, fundada originalmente como Academia Nacional de Maçons Imortais - ANMI em 31 de maio de 2024. O nome internacional é fruto de seu expansivo crescimento alargando as fronteira de sua atuação nas Américas e na Europa a partir do Quadro de Correspondentes no Exterior, com o primeiro nomeado sendo o maçom Alexandre Castro Ferrari, na Flórida (EUA), fortalecendo laços internacionais e promovendo a difusão da tradição maçônica em contextos globais.

 

Esse crescimento demonstra que a proposta de unir tradição e inovação preencheu uma lacuna vital no cenário cultural contemporâneo. Em vinte e três meses de existência, a AIMI consolidou-se como um espaço dinâmico de intercâmbio cultural, científico e literário dentro e fora do ambiente maçônico. A instituição destaca-se pela produção de projetos acadêmicos, literários e culturais, atuando na formação de conteúdo maçônico (livros, jornais, revistas) e realizando, inclusive, intercâmbios e homenagens internacionais.  Com funcionamento virtual, a AIMI utiliza tecnologias modernas para otimizar sua presença e difundir cultura onde ela não existe, conforme os objetivos de sua fundação.

 

A AIMI não apenas guarda o passado, mas atua como um agente ativo na construção do futuro intelectual e social, adotando o lema: “O nosso fardão é o avental”. Entre suas ações destacam-se:

 

  • Intercâmbio cultural entre academias maçônicas;
  • Videoconferências e encontros interacadêmicos;
  • Concursos literários;
  • Divulgação de obras e eventos maçônicos;
  • Criação do projeto Arquipélago Cultural Maçônico, com o objetivo de unir mais de 100 academias maçônicas de letras no Brasil e futuramente formar uma federação nacional

 

O Projeto Arquipélago Cultural Maçônico é uma iniciativa da Academia Internacional de Maçons Imortais - AIMI com o objetivo de integrar e fortalecer a rede de academias maçônicas de letras no Brasil. Ele busca unir mais de 100 academias em um sistema colaborativo de troca cultural, literária e filosófica, formando um verdadeiro "arquipélago" de instituições interligadas pelo ideal do aperfeiçoamento humano.

 

O projeto visa, a médio prazo, estruturar uma federação nacional de academias maçônicas, promovendo intercâmbios, videoconferências, concursos literários conjuntos e a divulgação de obras e eventos. A ideia é sinergizar tradição e inovação, estimulando a produção cultural dentro da maçonaria e expandindo sua influência para além dos templos, implementando cultura onde ela ainda não está presente.


O intercâmbio com outras academias dentro do projeto Arquipélago Cultural Maçônico, promovido pela Academia Internacional de Maçons Imortais - AIMI, funciona por meio de ações colaborativas como:

 

  • Intercâmbio cultural entre academias filiadas;
  • Troca de experiências acadêmicas;
  • Videoconferências e encontros virtuais;
  • Divulgação mútua de produções literárias e poéticas;
  • Promoção conjunta de eventos, como concursos literários interacadêmicos;
  • Divulgação de obras e eventos das academias parceiras.


O objetivo é romper o isolamento comum entre as academias maçônicas, transformando-as de "ilhas literárias" em uma rede interconectada — um verdadeiro arquipélago cultural. Para que isto ocorra, conta com seu formidável quadro de obreiros, aos quais disponibiliza alguns relevantes benefícios, como, por exemplo:

 

  • Diploma e insígnia: Todos os membros (exceto os adormecidos) recebem um diploma e uma insígnia como reconhecimento formal de sua condição, entregues em solenidade pública virtual.
  • Participação em projetos culturais: Os membros têm oportunidade de atuar em concursos literários, videoconferências, seminários, publicações e outras iniciativas culturais maçônicas.
  • Intercâmbio com outras academias: A AIMI promove conexões com outras academias maçônicas no Brasil e no exterior, ampliando o networking cultural e intelectual.
  • Inclusão no Arquipélago Cultural Maçônico: Os membros participam de uma rede colaborativa com mais de 100 academias, visando à criação de uma federação nacional.
  • Desenvolvimento pessoal e intelectual: Há estímulo à produção cultural, pesquisa e escrita em áreas como literatura, filosofia, história e ciências maçônicas.


As perspectivas da Academia Internacional de Maçons Imortais - AIMI para os próximos meses incluem:


  • Consolidação da transformação para academia internacional, ampliando a participação de membros no exterior e fortalecendo laços com maçons brasileiros em outros países;
  • Continuidade do projeto Arquipélago Cultural Maçônico, com o objetivo de integrar mais de 100 academias maçônicas de letras no Brasil e avançar na formação de uma federação nacional;
  • Realização de assembleias e encontros virtuais para aprovação de estatutos, eleição de diretoria e planejamento estratégico;
  • Expansão do Quadro de Correspondentes no Exterior, com novas nomeações de maçons residentes em países além das Américas e da Europa;
  • Intensificação de intercâmbios culturais, videoconferências, concursos literários e divulgação de obras entre academias filiadas.

Vinte e três meses passam e seus efeitos são dignificantes, pois, medem a trajetória de uma instituição imortal a partir da nobreza de suas ações no presente, como manifesta a Academia Internacional de Maçons Imortais – AIMI, que, em menos de dois anos, expandiu-se significativamente, promoveu intercâmbios culturais, lançou o projeto Arquipélago Cultural Maçônico e fortaleceu laços entre academias maçônicas no Brasil e no exterior. Sua atuação foca na valorização do conhecimento, da ética maçônica e da colaboração cultural, sem fins lucrativos, alinhando-se a ideais de serviço, lealdade e responsabilidade.


Maranguape, 30 de Abril de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O FILHO DO FARMACÊUTICO MANUEL E DONA DORA FEZ-SE HISTÓRIA

 

O ano 1935 emergiu revolucionário dando vida ao Programa Nacional, hoje denominado “A Voz do Brasil. um marco fundamental na comunicação, política e cultura brasileira, sendo o programa de rádio mais antigo do país e do hemisfério sul ainda em exibição. Criado em 22 de julho de 1935, durante o governo de Getúlio Vargas, o programa tem um caráter cívico, focando em narrar eventos da história nacional e promover a unidade do país.

 

Dotado de uma pontualidade britânica, o programa garantia que o mesmo conteúdo informativo chegasse a todo o território nacional, das 19h às 20h, além de inaugurar um canal direto de comunicação com as massas, sem filtros da imprensa privada, promover o civismo e a cultura brasileira. Em sua fase inicial, dedicava espaço para músicas brasileiras consideradas de "bom gosto" para a época. Enlevou-se a patrocinador da integração nacional.

 

Apesar de ser popularmente chamado de "fala sozinho" pelos críticos que viam suas transmissões como um extensão da ditadura, o programa foi essencial para moldar a opinião pública e criar um senso de unidade nacional durante um período de profundas transformações no Brasil. Hoje, o programa evoluiu para A Voz do Brasil, mantendo a obrigatoriedade de transmissão para divulgar os atos dos três poderes da República.

 

No Ceará, no ano 1935 o Bode Ioiô entrou para a história cultural do Estado ao ser incorporado ao acervo do Museu do Estado. Chegado em 1915, vindo do interior com retirantes da seca, e foi adquirido pela empresa britânica Rossbach Brazil Company. Ganhou o nome "Ioiô" por percorrer diariamente o trajeto entre a Praia de Iracema e a Praça do Ferreira. Era frequentador assíduo dos cafés e teatros, além de amigo dos boêmios, tornando-se mascote da cidade.

 

O Bode Ioiô é uma das figuras mais folclóricas e símbolos da irreverência popular cearense, representando a inteligência e o protesto da população que nele votou para vereador de Fortaleza neste início do século XX. Após sua morte em 1931, foi taxidermizado (empalhado) e é uma das peças mais importantes do Museu do Ceará. Além do Museu do Ceará, existe o Museu do Bode Ioiô (inaugurado em 2022) que preserva sua memória.

 

O Bode Ioiô que é tema de cordéis, músicas de carnaval é considerado um símbolo da irreverência e do humor do povo cearense. Pela primeira vez em quase 100 anos, o bode saiu de Fortaleza para ser tratado no Museu de História Natural do Ceará (MHNCE), em fevereiro de 2024. O trabalho que durou 15 dias foi conduzido pelo taxidermista Emerson Boaventura e oportunizou o documentário "O Restauro do Bode Ioiô" lançado em janeiro de 2025.

 

Em 1935, a Ponte Velha do Poço da Draga (atualmente Ponte Metálica) funcionava como o principal porto da cidade de Fortaleza, reconstruída em concreto em 1929. O porto do Mucuripe ainda não havia assumido o papel principal. A revista Vida Doméstica de maio de 1935 descreveu Fortaleza como uma cidade em progresso, destacando a hospitalidade cearense, a quantidade de colégios e a organização da cidade.

 

Economicamente, a produção municipal era diversificada, abrangendo 11 fábricas de tecidos, 5 de calçados, 6 de bebidas, 5 de torrefação de café e 12 de panificação, com a agricultura focada em cereais, farinha de mandioca e açúcar. Na área esportiva, o Fortaleza Esporte Clube, então com 17 anos de fundação (1918), ainda usava o nome original de Fortaleza Sporting Club; a mudança para o nome atual só ocorreria em 1940.

 

A paisagem urbana incluía a movimentação característica da época, documentada em registros fotográficos como os de Robert S. Platt, que retrataram a movimentação na Praça do Ferreira – que se tornava como o coração social e político. A cidade possuía uma frota ativa de 54 ônibus, 80 automóveis de praça, 128 caminhões de praça e 115 bicicletas, conectando bairros como Messejana e Porangaba

 

Fortaleza vivia um período de intensa transição urbana e política sob o governo de Felipe Moreira Lima. A cidade já superava os 126 mil habitantes e a área leste da cidade começava a se desenvolver, com destaque para a área da Aldeota (então grafada "Aldeiota"). Neste ano (1935) deu-se a gênese dos primeiros edifícios de apartamentos, mudando o perfil arquitetônico até então horizontal da cidade, iniciando uma tendência de 1935 a 1986.

 

Em 1935, o bairro que hoje conhecemos como Joaquim Távora era chamado popularmente de Piedade, embora oficialmente esse nome nunca tenha existido nos registros formais da prefeitura como um bairro autônomo na época. Era administrativamente parte do distrito de Alto da Balança, que posteriormente foi anexado ao distrito sede de Fortaleza. O nome vinha da Igreja de Nossa Senhora da Piedade, o principal ponto de referência da região.

 

Em 1935, a área era composta por antigas propriedades rurais e vilas que ainda não formavam um bairro unificado com denominação oficial única. Na região, lagoas e corpos d'água naturais ou seminaturais permitiam a pesca para o abastecimento doméstico. Nomes populares como Piedade, Vila Monteiro e Vila Zoraide, que ainda existiam como unidades distintas antes de serem incorporadas ao núcleo que em décadas seguintes chamar-se ia Joaquim Távora.

 

A área era estratégica por onde passava uma das primeiras linhas de bonde da Companhia Ferro Carril do Ceará, conectando Fortaleza a Messejana. Essa infraestrutura facilitava o deslocamento de moradores, especialmente os que trabalhavam no centro funcional, cuja locomoção era centrada na Praça do Ferreira. Existia ali o "Parque Americano" (situado entre a Rua Padre Valdevino e a Piedade), um ponto de lazer que marcou a época.

 

Fortaleza, em 11 de janeiro de 1935, atingiu a maior temperatura já registrada (35,2 °C) na década de 1930, enquanto a menor foi de 17,7 °C em agosto do mesmo ano, segundo o INMET. Neste interim, nasce Zelito Nunes Magalhães, filho do farmacêutico homeopata Manuel Nunes Magalhaes e Maria Dora da Silva, herdando do pai alteridade e altruísmo e da mãe determinação e coragem. Atributos que o distinguem desde sua mais tenra idade.

 

Predestinado, Zelito recebeu suas primeiras letras na escolinha de Dona Gloria – que mais passaria a chamar-se Escolas Reunidas do Arraial da Glória – na Rua da Bomba – hoje Rua João Brígido, exatamente à frente de sua residência. Aos trezes anos (1948) encantou discentes e docentes com a poesia “O Sol” com a qual enaltecia a diretora da escola, Dona Mariinha que aniversariava. “O Sol trouxe à luz o talento inato do menino Zelito.

 

Notabilizado em toda a Piedade por seu veio literário fértil e cativante, na Semana Santa daquele ano (1948), Zelito foi convidado a redigir “O Testamento de Judas” onde, em três laudas, determinou que receberia heranças de Judas. Foi seu primeiro texto que já dava mostras de sua habilidade literária. Uma arte que jamais extinguiu sua inventividade e capacidade de tornar notória a cultura popular cearense.

 

No ano de 1953, sob a liderança de Roberto Átila do Amaral Vieira – que mais tarde viria a ser Ministro de Ciência e Tecnologia (2004) – Zelito e seus pares Cid Saboia de Carvalho, Linhares Filho, Sânzio de Azevedo, Carvalho Nogueira e Antonio Pompeu, dentre outros, fundaram a Academia dos Novos – do Liceu do Ceará – que representava o topo do aprendizado “liceuista”, onde se depositava a excelência e se formava a "elite mandatária" da região.

 

A academia era o espaço onde os "liceuistas" debatiam literatura, filosofia e política, muitas vezes servindo de berço para futuros escritores e políticos renomados do Ceará. E frutos colhidos eram compartilhados com o público estudantil e geral a partir do periódico “O Democrata”, órgão oficial do Centro Liceal de Educação e Cultura (CLEC), era editado por alunos que faziam parte da elite intelectual do Liceu do Ceará e da Academia dos Novos.  

 

A “ACADEMIA DOS NOVOS” nasceu do espírito criador de um pugilo de jovens protagonistas e audaciosos, como Zelito, cujas vitórias alcançadas transmitem a força expressiva da Poesia como vetor de transformação das sociedades e do mundo. O esmero e a proficuidade desta arcádia repousam na abnegação e coragem de Sidney Neto a serviço do futuro do Ceará e da Nação Brasileira: ensinando os caminhos, onde os sonhos e se realizam.

 

No ano de 1955, a Academia dos Novos compôs “Peque na Antologia”, que foi editada pela Editora Instituto do Ceará. Trazia um “Prólogo” com a assinatura do presidente que dizia nas suas palavras iniciais: A “ACADEMIA DOS NOVOS” apresenta à mocidade e aos homens de letras de nossa terra esta ANTOLOGIA, primeira mensagem de fé literária no momento atual de decadência e utilitarismo imediato.

 

Vitorioso no concurso de reportagem promovido pelo vespertino “O Povo”, Zelito, aos 23 anos, encontrou-se com seu companheiro mais fiel, que com ele construiria seu invejável legado: o jornal. No ano de 1959, mais precisamente na edição de 14 de setembro, saía o seu primeiro artigo de sentido literário – Dois Escritores, onde comentava sobre o romance “A Beata Maria do Egito”, de Raquel de Queiroz e “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado.

 

Essencialmente trovador, em 1959, Zelito presentou aos cearenses com um pequeno opúsculo poético – “Canções de um Menestrel” editado pelo Monitor Comercial. A obra é um pequeno volume de poesias que marcou o início da trajetória literária do autor na cultura do Ceará. Ela reflete o lirismo inicial do autor, abordando temas como a paz, o amor e a sensibilidade do "menestrel", prenunciando o que Zelito viria a desempenha futuramente.

 

Ainda que dissolvida a “Academia dos Novos”, pois, seus fundadores rumaram ao futuro por caminhos diferentes, embora entrecruzados por vezes, Zelito jamais afastou-se do mundo cultural cearense, principalmente, da Casa Juvenal Galeno, que serviu de “startup” para a Academia dos Novos sob a Mestria de Sidnei Neto e com o apoio moral, intelectual e estrutural da Família Galeno – fomento que viceja nos dias atuais a bem da cultura do Ceará.

 

Frequentador assíduo dos saraus promovidos por Dona Henriqueta Galeno, Zelito, destaca o “Natal dos Poetas” onde se ouvia os mais ilustres bardos, como Filgueiras Lima, Sidney Neto, Carlyle Martins, Dolores Furtado, Pedro Bandeira (poeta popular e folclorista do Cariri) Cruz Filho (que detinha o título de Príncipe dos poetas Cearenses), além de Euclydes Cesar, fundador da Academia Polimática, cujo lema era:” Amai-vos e educai-vos uns aos outros”

 

Com o falecimento de Dona Henriqueta Galeno em 1964, a Casa de Juvenal Galeno passou a ser gerida por sua sobrinha Nenzinha Galeno, cuja percepção humanista voltada para as letras a fez protagonizar novos desígnios para a casa. Sabedor da morte do Cego Aderaldo (1967), Zelito, ancorado por Nenzinha Galeno e Rogaciano Leite promoveu na Casa de Juvenal Galeno a “Noite dos Cantadores”, onde a musicalidade cearense homenageou o Ilustre Cego.

 

Cativada com a sonoridade cearense que cativa a alma e anuncia o futuro, em 11 de novembro de 1969, Dona Cândida Maria Santiago Galeno cria a União Brasileira de Trovadores, com o objetivo de cultual, preservar e disseminar esta arte popular arraigada na Terra da Luz desde o Brasil colônia. Sua diretoria foi assim composta: presidente Vasques Filho, secretária Nenzinha Galeno e diretores: Carlyle Martins, Zelito Magalhães, César Coelho, dentre outros.

 

Essencial mobilizadora cultural, Dona Cândida Maria Santiago Galeno (Nenzinha Galeno) instituiu a Editora Henriqueta Galeno (1965), cuja gestão gráfica ficou a cargo do operoso Oscar Moreira. A editora produziu incontáveis livros de intelectuais da terra, além de jornais, revista e outros impressos, inclusive, a Antologia do Clube dos Poetas de 1970 (também referenciada como Antologia dos Novos Poetas do Ceará), na qual figura o Poeta Zelito.

 

Essa antologia foi um marco importante na literatura cearense da década de 70, reunindo membros de um grupo literário fundado originalmente por alunos do Colégio Liceu do Ceará em 1955. O Clube dos Poetas do Ceará efloresceu entre as décadas de 1970 e 1980, tendo como primeiro presidente o poeta Carneiro Portela. Portela levou o nome do Clube a todo o Brasil, até do exterior chegavam cartas de elogios e boas-vindas à agremiação.


O Clube dos Poetas do Ceará funciona como um espaço de intercâmbio e divulgação para artistas independentes e veteranos, servindo de palco para figuras como Luciano Arruda e Zelito Magalhães, ajudando a consolidar a carreira de diversos articuladores das palavras na formação do verso. Apoiado pela Casa de Juvenal Galeno, serviu de berço para diversos poetas locais, como o icônico Mário Gomes e muitos outros luzidias figuras cearenses.

 

Cônscio de que um “homem de letras” deve aprofundar-se no conhecimento de si mesmo, Zelito passa integrar o quadro de Construtores Sociais da Maçonaria (1993), onde desconstruiu a si mesmo das indiscrições mundanas, para que a espiritualização de si lhe apresentasse o formidável mundo dos homens justos e perfeitos. Na Maçonaria, Zelito, mais uma vez, rutilou seu talento in nato escrevendo a “História da Maçonaria no Ceará” em 2008.

 

Incontestavelmente, a história da maçonaria cearense está profundamente interligada à história do Ceará, com atuação marcante nos principais movimentos políticos, sociais e culturais do estado desde o início do século XIX. Os maçons cearenses foram fundamentais para que o Ceará se tornasse a primeira província brasileira a abolir a escravidão, em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea, ancorando a Sociedade Cearense Libertadora em suas moções.

 

A primeira loja regular, "Fraternidade Cearense n° 136", foi fundada em 1º de dezembro de 1859, funcionando no endereço mais antigo da maçonaria cearense, marcado por Adolfo Herbster em 1888. Essa loja reuniu intelectuais e políticos como Antonio Bezerra de Menezes, João Cordeiro, João Brígido, Justiniano de Serpa, Tomás Pompeu de Sousa Brasil, Araripe Junior, dentre muitos outros abnegados Construtores Socias.

 

A maçonaria no Ceará teve, portanto, grande capilaridade, defendendo ideais de liberalismo, republicanismo e o Estado laico, além de atuar em confrontos com a Igreja Católica no final do século XIX, a partir de instituições como a Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará foi fundada em 19 de março de 1928, o Grande Oriente do Brasil do Estado do Ceará (GOB-CE) foi fundado em 24 de agosto de 1937 e o Grande Oriente do Estado do Ceará, fundado em 2 de junho de 1973.

 

Venturoso, Zelito ao idealizar a Academia Maçônica de Letras do Estado do Ceará – AMLEC buscava estabelecer um elo entre os intelectuais maçons e a sociedade em geral, fulcrar o lema de união da "Arte Real" (Maçonaria) com o cultivo das letras e das artes. A AMLEC foi fundada em 4 de junho de 1997, em Fortaleza, Ceará, conforme registros cadastrais, e, desde então fomenta a produção da literatura de caráter maçônico e geral para a posteridade.

 

Gratamente reconhecido, Zelito é intitulado Historiador pela Grande Academia Maçônica de Letras do Estado do Ceará, circunscrita à Mui Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará, com fulcro no diploma exarado no dia 29 de maio de 2004. Neste mesmo ano, Zelito ascende à presidência da Associação Cearense de Imprensa – ACI. Sua primeira iniciativa foi a criação o ACI Informativo que divulgaria os feitos da entidade desde seu cioforria em 1925.

  

A Associação Cearense de Imprensa (ACI) desempenha um papel fundamental no estado do Ceará, com uma trajetória de 100 anos (completados em 2025) focada na defesa do jornalismo, na preservação da memória histórica e na articulação profissional. A instituição é testemunha dos ciclos políticos e sociais do Ceará, sendo parte da memória coletiva da imprensa cearense, além de defensora perpetua dos interesses do povo do Ceará.

 

Propositalmente, Zelito reservou a última página do jornal para a História da ACI, que foi narrada em sínteses em 26 edições dando conhecimento aos leitores sobre a vida da entidade desde sua cioforria. Como modus de preservação da memoria da instituição, criou a galeria dos presidentes: César Teles de Magalhães, Gilberto Câmara, Aldo Prado, Teodoro Cabral, Kerginaldo Cavalcanti de Albuquerque, Perboyre e Siva, inclusive Zelito e quem vier depois.

 

Hoje, aos 91 anos, Zelito é um referencial da cultura popular cearense. Presidente de Honra e Ad Aeternum da Academia Cearense de Literatura, sua última criação, instituída em 19 de Janeiro de 2019, que reúne intelectuais maçons e não maçons na continua busca da preservação da memoria cultural, da incentivação à inventividade nas artes, principalmente, na literatura, e da disseminação do fértil veio cultura do Estado do Ceará.

 

Maranguape, Ceará, 24 de Abril de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Jornalista CRP/MTE nº 0005168/CE

CARIDOSO DIA PARA TODOS NÓS!

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