domingo, 9 de agosto de 2026

FELIZ DIA DOS PAIS - REENCONTRO

Pai

Chego já

Tomar café

Firmar a fé

Te cortejar

Dizer te amar

Te abraçar

Me reforçar

Te confirmar

Pai

 

Em mim

Somos um só

Tendo o mundo

A juntar tesouro

Na vida tudo é pró

Tu és nosso lábaro

Eflui boa razão

Muito perfeito

Ensina o coração

Em mim

 

Em ti

Sempre nós

Vamos diligentes

Nunca após

Muito contentes

Flui boa vida

Abraço aconchega

Amar convida

Pertencer abriga

Em ti

 

Pai

Amigo de sempre

Não há hora

Há nobres ventura

Grato alvitre

És perene riqueza

Cunha valor

Auspiciosa realeza

Puro amor

Pai

 

Maranguape, 09 de Agosto de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O MELHOR MUNDO É ARQUITETURA DAQUELES QUE MANTÊM SUAS MENTES INFANTES

 

Nada é mais augurioso do que o viver familiar e, quando a família é imensa, cada encontro – parcial ou total – com seus membros é um instante de ratificação de saberes e valores cultivados e, também, de cocriação de perspectivas tão incontáveis quanto diversas a implementar em nossas vidas a bem de nós mesmos e do mundo que nos acolhe amoravelmente.

 

Ontem (05/08), gozei do privilégio de ser calidamente recebido em casa de um dos mais proeminentes irmãos coerguidores das colunas mestras de nossa Mui Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado do Ceara, onde percebemos que o melhor mundo é arquitetura daqueles que mantém suas mentes infantes, pois, nelas reina a sinceridade que somente os puros esbanjam.

 

Não se trata de um pensamento vão, tampouco de um enaltecimento inócuo e absurdo à imaturidade, mas do enlevo pertinente à inventividade nascida da efervescência absorvente das mentes infantes neste breve lapso temporal da vida humana onde à verdade não se põe mordaças e o ato de "fazer de novo" para reinventar o mundo é premissa real e constante.

 

Maria Montessori reforça que a criança por possuir uma "mente absorvente", onde o ambiente não é apenas um cenário, mas, um agente ativo que molda a própria estrutura psíquica e neural, suas impressões das realidades nela "encarnam", formando sua "carne mental". Preservar a pureza e da criatividade típicas da infância é vetor da renovação do mundo.

 

Longe de romantizar a imaturidade biológica, exalto a "mente enativa" capaz de arquitetar realidades mais autênticas, fundamentadas na pureza dos sentimentos e na liberdade cognitiva. Uma mente assim remete a um modo de conhecer e estar no mundo que não se baseia unicamente na representação lógica formal, mas, na ação e na experiência direta.

 

Manter a "mente infante" significa preservar a capacidade de aliança jubilosa entre conhecimento e vida, o que permite lidar com o entorno de maneira inovadora, onde a crença e a imaginação acrescentam uma composição pictórica aos conceitos, libertando o pensamento da rigidez adulta, onde o arquitetar é mais proeminente do que o resultado final, pois, (r)evoluciona.

 

Nesse "breve lapso temporal", a criança opera através de uma lógica que presenteifica o passado e antecipa o futuro ("então eu era..."), criando um modus onde o erro e a confusão são reavaliados como potência de um outro modo de sentir. As "visões do pensamento" denotam singularidades e confusões não como falhas, mas, como princípios para pensar um outro lugar.

 

O "melhor mundo" surge, portanto, dessa capacidade de dissociar com a ininterrupção opressora da história adulta, utilizando a fracionamento e o jogo como ferramentas de construção de sentido. Uma "pureza dos sentimentos” que requer a intensidade e autenticidade da experiência infantil, livre dos filtros cínicos ou utilitários da maturidade convencional.

 

É um estado onde a ação sobre o mundo não é arbitrária, mas carregada de uma plasticidade que permite ver novas composições na realidade, transformando a percepção do tempo e do espaço em algo vivo e mutável. Esta arquitetura de um mundo melhor é construída por aqueles que conseguem acessar essa inventividade nascida da efervescência mental infante.

 

Percebo um eco que reverbera virilmente o pensamento de Friedrich Nietzsche, especialmente em sua alegoria das "Três Metamorfoses" em Assim Falou Zaratustra, onde a criança representa o espírito criador que diz "sim" à vida. Para Nietzsche, a criança simboliza o esquecimento libertador, um novo começo e um jogo criador que roda sobre si mesmo, perenemente.

 

Resolutamente, manter a mente infante é, portanto, exercer a vontade de potência na sua forma mais elevada: a capacidade de inovar valores e arquitetar um mundo baseado na afirmação da vida e na leveza dos sentimentos. Afirma Oscar Niemeyer que, "o mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar".

 

A infância deixa de ser apenas uma etapa de preparação para a vida adulta (o "ainda-não") para se tornar o modelo de uma existência plena, onde a criação aflora através do esquecimento do peso opressor do passado. Emergindo uma engenhosa arquitetura que prioriza a transformação social e a solidariedade humana em vez da estrutura em si, fulcrada na humanidade.

 

O filósofo francês Gaston Bachelard, em sua obra A Poética do Espaço, defende que a infância permanece em nós como uma dimensão "poeticamente útil". Para ele, habitar verdadeiramente significa recuperar a capacidade de sonhar os espaços como uma criança, onde cada canto, sótão ou caverna é um universo de segurança, de inventividade e de compartilhamento.

 

Um mundo arquitetado por mentes brilhantemente infantes, que mantêm essa conectividade é um mundo de acolhimento radical, onde as ambiências não são meros contêineres funcionais, mas, "ninhos" que abrigam a intimidade e o devaneio.  A arquitetura, nesse sentido, torna-se uma mediação entre o mundo exterior e a nossa vida interior mais autêntica.

 

Desenhado a partir de princípios assim tão cativantes, o mundo viceja em constante (re)invenção, onde a impermanência e a criatividade são valorizadas acima da rigidez e da eficiência pura, sob o projetar auspicioso de “mentes infantes” que exercem um ato arquitetônico puro: uma trajetória não linear, onde o cocriar é mais profícuo, pois, fomenta o despertar de consciências.

 

Um "melhor mundo" que não é aquele construído pela razão instrumental adulta, mas, aquele tecido a partir da capacidade infantil de imaginar, brincar e se maravilhar. É uma arquitetura da possibilidade, do acolhimento e da liberdade estética, tendo por fito primaz a igualdade que une a humanidade sob o teto da fraternidade onde o desenvolvimento é rei e a inclusão é rainha consorte.

 

Somente uma “mente infante”, sob a tutela de um coração bem formado, percebe que os atos de brincar e de imaginar deixam de ser atividades secundárias para se tornarem os alicerces de um mundo marcado pela fraternidade e igualdade, onde a liberdade e o acolhimento surgem quando se valoriza a capacidade infantil de se maravilhar e de construir convívios felizes.

 

Um convívio feliz como este que nos oportuniza este galante irmão como quem estive ontem, onde o abraço é a semente do pertencimento; o compartilhar é certeza que caminhamos desde a infância do mundo a construir, conforme a arquitetura da “mente infante” em nós, os laços inquebrantáveis de amizade e infância vivo, independentemente dos destinos que assumamos.

 

Maranguape, Ceará, 06 de Agosto de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

PALAVRAS SÃO FRUTOS DA ÁRVORE CORAÇÃO

 

Palavras são frutos da árvore coração. Quando doces e suculentas levantam uma nação, pois, são palavras incentivadoras, empáticas e sabias. Elas têm o poder de inspirar a coletividade e reconstruir a esperança de um povo. Se espúrias maltratam a justa razão, já que, sendo ilegítimas e/ou corrompidas elas atacam a lógica e o bom senso, nublando o debate saudável e a busca pela verdade. Enquanto pérfidas, a traição e a falsidade disfarçadas de fala destroem o pilar mais difícil de se construir em qualquer relação humana: a confiança.

 

Provenientes de um coração íntegro, as palavras são formidáveis agentes de transformação coletiva. Como destacado em estudos sobre o impacto da fala, o que dizemos exerce uma influência gigantesca não apenas em nós mesmos, mas, na sociedade ao nosso redor. Palavras edificantes, empáticas e sábias trazem consigo potencialidades e soluções, em vez de limitações. Oferecem estímulo em momentos de crise, funcionando como uma "árvore de vida" para o espírito coletivo. Palavras são, de fato, a manifestação visível do estado interior.

 

No entanto, são letais quando usadas para ferir, ofender ou enganar, pois, sendo espúrias, ilegítimas ou corrompidas corroem com voracidade as interatividades humanas. Uma vez quebrada por palavras pérfidas, a confiança é extremamente difícil de reparar. Assim como uma crítica mal formulada pode devastar, discursos de ódio e "fake news" podem destruir a autoestima de povos inteiros e polarizar sociedades. Palavras falaciosas obscurecem debates saudáveis e atacam a lógica, coibindo o desvelo da verdade.

 

O impacto da linguagem nas relações humanas e na sociedade é real e inevitável. Cada palavra escolhida carrega um peso substancial na construção do ser, moldando a autopercepção e as interações sociais, além de determinar a qualidade dos vínculos interpessoais. Termos negativos robustecem vias neurais que limitam a percepção de oportunidades, ao passo que uma linguagem curadora ou empoderadora estimula circuitos de bem-estar, força e capacidade pessoal, validando a ideia de que as palavras são sementes das experienciações reais.

 

O processamento linguístico requer uma estrutura anatômica e funcional complexa, dividida em três sistemas funcionais principais, propõe Damásio (1992). O sistema operativo é responsável pelo processamento fonológico. O sistema semântico, gere e garante o discernimento das palavras. E o sistema de mediação, onde é léxico organiza-se modularmente. Além disso, a prosódia afetiva notabiliza que a carga emocional da fala tem um substrato neural distinto e integrado. As palavras comandam e ativam redes de sensação e memória no ouvinte.

 

Não sendo neutra, ao contrário, a linguagem ativa simultaneamente áreas cerebrais ligadas às manifestações físicas e emocionais, pois, funciona como um comando biológico. Na esfera coletiva, a língua possui valor simbólico, cultural e econômico, refletindo e potencializando o poder dos grupos sociais que a utilizam. A escolha ética das palavras é imprescindível para promover inclusão, desconstruir preconceitos e construir relações mais justas, pois, o discurso reverbera intenções que podem unir ou segregar comunidades.

 

Frases como "sou incapaz" ou "isso é impossível" criam barreiras mentais, fazendo com que ignoremos oportunidades viáveis e adotemos comportamentos de fracasso. Quando repetimos "sou capaz de aprender" alteramos a frequência de percepção de sucesso, estimulando circuitos neurais ligados à força e à realização pessoal. O conceito de Verbo Curador, anunciado por José Roberto Marques, propõe uma linguagem profunda, autêntica e alinhada com a identidade desejada, atuando como um catalisador de novas vivências e saúde mental.

 

A excelência das palavras determina diretamente a qualidade dos vínculos interpessoais que mantemos. Uma linguagem pautada na compreensão, no respeito e no amor constrói relacionamentos integrados, saudáveis e duradouros. Uma linguagem que não ecoa no coração gera desconexão interna e desânimo, enfraquecendo a capacidade de criar laços verdadeiros. Palavras carregadas de julgamento e crítica tendem a fragmentar relações, criando distância e ressentimento. A congruência entre o falar e o sentir é essencial.

 

Há uma responsabilidade ética sobre o que propagamos, pois, as palavras carregam os nossos valores e indicam as nossas intenções. O que prolatamos à coletividade que nos orbita pode ser inclusivo ou discriminatório, dependendo das escolhas vocabulares da sociedade. Mudar o vocabulário é um passo fundamental para superar divisões sociais e construir comunidades mais maduras. A linguagem, não apenas descreve a realidade social, como ativa e legitima estruturas de poder ou de igualdade, pois, ela é a base da consciência social.

 

A linguagem humana vai além da função básica de troca de informações, agindo como um instrumento poderoso que molda a realidade individual e coletiva.  Longe de ser neutra, cada palavra é um feito formidável e um efeito memorável na construção do ser e na definição de quem nos tornamos. A forma como descrevemos nossa vida e a nós mesmos gera um impacto direto na autopercepção e no comportamento social, validando a premissa de que as palavras são as sementes da arvore coração, pois, todas as coisas que cocriamos nascem no coração.

 

A árvore, e seus frutos, remete diretamente à sabedoria salomônica de que "a língua serena é árvore de vida, mas a perversa quebranta o espírito" (Provérbios 15:4). A escolha consciente do que falamos é crucial porque cada palavra proferida tem processado não apenas o som, mas, o seu significado emocional e físico. Ao dizer "limão", o ativamos regiões ligadas ao sabor azedo; ao falar "amor", ativa-se áreas de conexão e segurança. Nossa mente não distingue com nitidez a palavra da experiência física real, processando os estímulos linguísticos como se fossem eventos reais e concretos.

 

A metáfora da "árvore coração", reflete que palavras calmas, gentis e sábias não são meros sons, mas sim, fontes de sustento, cura e crescimento para quem as ouve, a quem oferecem "frutos" de conhecimento e encorajamento. A "língua perversa", que não é descrita somente como inexata, mas, como destrutiva, capaz de causar danos profundos à estrutura emocional e espiritual, pois, adoece o animus vivendi. Assim, alinharmo-nos à sabedoria antiga evidencia que cuidar do que falamos é zelar para que nós e outrem falemos uma só língua: o amor.

 

Maranguape, Ceará, 05 de Agosto de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


terça-feira, 4 de agosto de 2026

BELEZA, SABEDORIA E FORÇA ANCORAM A LEI DA RECIPROCIDADE ESPIRITUAL

 

É dando que se recebe, afirma Giovanni di Pietro di Bernardone, retumbando com palavras suas o ensinamento de Yeshua ben Yosephf: “Dai, e vos será dado” (Lucas 6:38), como também, assim fizera Saulo de Tarso: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20:35). Beleza (Serenidade que irmana a todos), Sabedoria (Razão ensinando o coração a amar) e Força (Persuasão manifestando o emprego do amor) estabelecendo o princípio da generosidade e da reciprocidade espiritual.

 

A Beleza, por mim descrita como serenidade e harmonia, não é apenas estética, mas, ética.  É a virtude que suaviza as arestas do ego e permite a conexão fraterna. Na filosofia, a beleza reside na simplicidade e na capacidade de ver o divino no próximo, criando um espaço de acolhimento onde a reciprocidade pode florescer sem coerção. É o "ornamento" moral que torna o ato de dar desejável e não apenas um dever. Ela elimina barreiras de egoísmo e atrai pessoas por meio da empatia.

 

A Sabedoria, como princípio ordenador, aclara o intelecto para compreender que o isolamento é ilusório. Ela ensina ao coração que o amor racionalizado não é cálculo, mas a percepção nítida de que o bem do outro é condição para o próprio bem. Ao orientar o sentimento, a sabedoria educa o coração para que o ato de dar seja consciente, ético, verdadeiramente útil ao próximo e feliz. É a gnose desvelando que reter é empobrecer, enquanto doar é expandir a própria existência.

 

A Força não se apresenta como violência ou domínio, mas como a pujança da cativação amorosa. É a energia vital necessária para vencer a inércia do medo e do apego material. Dar exige muito mais do que coragem; requer a força de caráter para confiar nas próprias convicções e habilidades, com as quais se age contra o instinto de acumulação. Essa força é o vetor de transfiguração da boa-vontade (Sabedoria) e do sentimento (Beleza) em ação concreta a benefício do mundo.

 

A lei de reciprocidade espiritual contrapõe a lógica transacional do egoísmo.  Ela não propõe uma troca comercial ("dou para ganhar"), mas, uma ontologia da abundância: o ser humano só se realiza plenamente quando se abre ao outro. A generosidade é, muito mais, que a prova da liberdade interior; quem teme perder ainda é escravo da posse. A razão, guiada pela fé, discerne a lógica paradoxal do sagrado: quem salva sua vida (apegando-se), a perde; quem a perde (doando-a), a salva.

 

Yeshua e Saulo apontam que o universo moral é estruturado sobre a dinâmica do fluxo. Assim como a circulação sanguínea é vital para o corpo, a circulação de bens, afetos e perdão é vital para a sociedade e para a alma. A "justa medida" nunca será um pagamento externo, mas, a consequência natural de se viver em alinhamento com essa lei de amor – a generosidade jamais será uma perda, mas sim, um investimento no patrimônio da alma, cujos royalties se multiplicam quando compartidos.

 

A recompensa do alinhamento com a "lei de amor" é a própria expansão da consciência e da paz interior (o patrimônio da alma). Compartir conhecimento, consolo ou amparo, enleva o ecossistema e todos se beneficiam diretamente da atmosfera cocriada por todos nós que com laços de amor e de carinho, trouxemos uns aos outros a se aproximarem; aqueles que mutuamente seguramos nos braços como quem pega uma criança no colo, a quem nos inclinemos a lhes dar de comer. (Oséias 11:4)

 

Inconcebível, portanto, é reter, acumular de forma egoísta ou recusar o perdão, pois, cria um coágulo nesse sistema vivo. A retenção egoísta e a recusa em perdoar são formas de apego que geram sofrimento. A generosidade, portanto, é a inteligência espiritual aplicada à vida prática. É portentoso antídoto contra a cobiça e o agarrar-se desesperado às coisas, atuando como mecanismo de desbloqueio energético e moral, impedindo que o apego e o ressentimento estagnem o fluxo da vida espiritual.

 

Não soltar – seja um objeto, uma ideia ou um ressentimento – imprime uma "impureza" na mente que impede a paz interior. A generosidade, portanto, não é, singelamente, caridade, mas, uma estratégia de limpeza mental que rompe o ciclo do desejo desenfreado, permitindo que a mente se abra para o amor-bondade passando a incitar a doar como um rei o faz, ou seja, doar o melhor que se tem, inclusive o último recurso, sem pensamento prévio de perda ou identificação de um "eu" doador.

 

Em todas as antigas tradições, a retenção de bens, de emoções e/ou o não perdoar imputa um peso que dificulta a evolução, enquanto doar é um ato de inteligência que liberta quem dá tanto quanto quem recebe. Quem dá o melhor de si abre as portas da própria intimidade para receber as correntes de paz, alegria, prosperidade e renovação que movimentam o universo transfigurando feitos e ressignificando efeitos com o vivaz ato de amar. “Sem amor nada seria” (1 Coríntios 13:2), nem nada evolui.

 

Eflui deste amor “incondicional”, que em si integra Beleza, Sabedoria e Força, aquilo que nos transfigura de acumuladores estático e que nos leva a ser um canal dinâmico da sinergia que une o profano e do sagrado no mesmo influxo, onde o "receber" é inevitavelmente o efeito colateral de um "dar" autêntico, tutelando conceitos fortemente ligados à filosofia hermética, à maçonaria (pela tríade Beleza, Sabedoria e Força) e à espiritualidade universalista, augustos docentes atemporais do amor.

 

Atuar como um canal limpo e desobstruído e dar espaço para que a sinergia universal flua sem resistência. A abundância, a paz e a realização não são mais perseguidas, mas sim, contrapartidas naturais da doação sincera. Esse mecanismo reflete a lei espiritual de que a vida se expande apenas quando compartilhada, ecoando o princípio de que o amor é a chave mestra que abre as portas da evolução consciente, levando-nos a participar como coconstrutores da obra de regeneração e harmonia.

 

Minhas percepções dessa reciprocidade universal, que se faz lei, são ancoradas por tradições milenares, como a maçonaria que manifesta essa lei a partir da tríade fundamental: Beleza, Sabedoria e Força, que são as colunas sobre as quais se ergue o templo interior do iniciado e que orientam sua conduta no mundo, onde suas ações os constroem (ao mundo e a sí próprio). Pari passu, a filosofia hermética, oferta a base para a compreensão das leis universais que regem a transformação interna a bem do homem.

 

Maranguape, Ceará, 04 de Agosto de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

EM BUSCA DA TERRA DE LEITE E MEL

 

No Mix Mateus – Maranguape, em companhia de Rosélia, minha esposa, obtendo os mantimentos para a semana que se inicia, me veio naquela manhã de domingo (02/08/2026) um pensamento metafórico e inspirador sobre (re)novação, superação e conquista de um espaço ideal de dignidade humana: o que há por trás da jornada rumo à terra de leite e mel?

 

Ao final deste caminhar, uma terra de leite e mel mostrou-se à frente do homem novo forjado durante 40 anos para fruí-la. A geração escrava feneceu no processo; apenas a nova geração, nascida livre e moldada pelas dificuldades, estava pronta para a conquista da vida plena, onde a inclusão se faz rainha, o pertencimento é rei e os súditos fiéis são harmonia e felicidade.

 

Um percurso que levaria apenas 11 dias, estendeu-se por 40 anos devido à incredulidade e rebeldia da geração liberta do Egito, que permanecia escrava mental e espiritualmente, grilhões que em nossos dias mantém-nos aprisionados quando insistimos em padrões de comportamento repetitivos e destrutivos, ainda que conscientes das dores que nos causam.

 

Acostumados aos costumes egípcios e à mentalidade de servidão, essa geração “liberta” demonstrou constante ingratidão e murmuração contra Deus e Moisés, como ainda ocorre nesta contemporaneidade onde culpar as circunstâncias e/ou o passado pelo estado atual e renunciar à responsabilidade os mudar, acha no vitimismo âncora leal.

 

O vitimismo ancora tudo que impede o avanço espiritual e pessoal. Ao culpar o passado ("melhor ter ficado no Egito") ou as circunstâncias atuais ("falta de carne", "medo dos gigantes"), renunciamos o exercício do direito de transfigurar realidades e de crer nas promessas futuras que nossas habilidosas potencialidades podem realizar com exatidão plena.

 

Não romper com a "mentalidade de escravo" – que prefere o sofrimento conhecido à confiança no desconhecido prometido –, nos faz andar sempre em círculos. A saída desse ciclo vicioso exige gratidão, obediência e a coragem de abandonar as "cebolas do Egito" – representando apegos ao passado que, embora dolorosos, parecem seguros. Só parecem, jamais são!

 

Sob o fito contemporâneo, essa jornada ganha um significado humanista: o deserto representa o processo de desconstrução de velhos hábitos, preconceitos e amarras. O "homem novo" só estará pronto para viver em plenitude quando compreender que o ápice da evolução humana se baseia em três pilares fundamentais: Inclusão, Pertencimento e Felicidade.

 

Nesse "abismo" que ocorre o amadurecimento. O deserto leva o homem a contemplar sua total impotência e fraqueza quando destituído de apoios terrenos e hábitos consolidados.  É no "despojamento total" que as velhas estruturas – preconceitos, vícios e comodismos – perdem a sustentação, criando o espaço vazio necessário para o novo no qual se investe o “velho homem”.

 

Filtro pedagógico por excelência, o deserto não destrói para aniquilar, mas, para limpar o campo, permitindo que a redescoberta do homem não mais como um ser autossuficiente e fechado, mas, como um ser em construção, aberto à mudança. Ao sair desse processo de desconstrução, o "homem novo" emerge uma consciência da existência mais ampliada.  

 

Este "homem novo" preparado para uma sociedade baseada na harmonia e felicidade, onde a inclusão e o pertencimento são valores supremos, diferente de seus pais, que viviam reclamando e olhando para trás, lidera sua geração, unida sob uma única lei e um único Deus, construindo uma identidade racial, política e religiosa própria com a qual avançam ao futuro.

 

A inclusão e o pertencimento estabeleceram seu reinado, nesta nova ordem porque todos compartilham da mesma história de libertação e provisão. A felicidade dos súditos fiéis reside na certeza de que não são mais escravos do passado, mas filhos livres, habilitados a viver em plenitude na terra que Deus preparou, sob a égide da harmonia que os faz iguais acima de tudo.

 

A inclusão, neste contexto, deixa de ser um conceito social para se tornar uma vivência interior: reconhecer que todos nós somos andarilhos em nossos próprios desertos. A superação do isolamento num deserto conduz-nos ao discernimento de que a plenitude não é solitária, mas, compartilhada, rompendo com as amarras da exclusão, do julgamento e do ódio.

 

O pilar do pertencimento surge quando se entende que, mesmo na solidão do (auto)encontro, somos parte de um todo maior –da humanidade e do cosmos – e, assim, cura a sensação de exílio interno desvelando nosso lugar não pelo que temos, mas, pelo somos. E somos, exatamente, o que pensamos e o que destes pensamentos materializamos habitualmente a bem de todos.

 

Diferente da felicidade efêmera ancorada no conforto ou no sucesso material (o "Egito" a que o povo queria retornar), a felicidade do homem novo é fruto da liberdade interior. É o estado alcançado por aquele que, tendo perdido tudo o que era superficial, ganhou a si mesmo em verdade e autenticidade. É a alegria que persiste mesmo na austeridade, pois, é superadora.

 

Ao final dos 40 anos, a terra onde mana leite e mel, apresentou-se não como um direito adquirido por mérito próprio, mas, como uma herança preparada para um povo maduro. A conquista não foi apenas militar, mas espiritual: apenas aqueles que foram moldados pelas dificuldades e que aprenderam a confiar cegamente em suas aptidões a fruíram plenamente.

 

A passagem pelo deserto é um rito de passagem crucial para aquele que resolutamente aceitou tornar-se maior do que a si próprio, vencendo medos, limitações e o desconhecido, validando a premissa de que a evolução humana exige a morte do "velho eu" – cheio de certezas absolutas, preconceitos e vícios – para o nascimento de uma consciência mais ampla.

 

Esse período não foi meramente um castigo, ao contrário, foi uma forja habilidosa, proficiente e necessária de moldagem espiritual e do caráter, onde uma geração escrava deu lugar a uma nova geração, nascida livre e preparada para herdar a promessa divina celebrada na aliança com o sagrado. Uma sinergia que manifesta na matéria tudo o que espírito aspira.  

 

Quando a vontade do espírito conduz o desejo da matéria, manifesta-se a terra de leite e mel, que longe de ser um lugar físico e/ou uma simples metáfora para fertilidade agrícola, reflete a transfiguração espiritual de energias impuras em pura Luz divina. Representa a união da alma com o sagrado, superando o ego e as ilusões do mundo, sob a égide do amor puro.

 

Nesse estado de iluminação da consciência e do mais alto despertar do amor puro, nosso coração bem formado traz ao eixo a mente, e a torna sã, para juntos, num mesmo propósito, façam da terra de leite e mel seja o solo dos nossos passos em Terra, vivendo em plenitude e harmonia íntima, com o próximo e com a natureza, fertilizamos a aridez em um “oásis” da humanidade.

 

Em nossa terra de leite e mel, o leite manifesta a conversão do rigor em compaixão – o sangue vermelho da severidade transfigurado no leite branco da bondade. E o mel, perfeitamente puro para consumo – e doce –, esotericamente, retrata a capacidade de extrair a doçura e a Luz espiritual a partir do julgamento e/ou de situações severas e impuras.

 

Leite e mel pintam o quadro de uma vida onde o corpo e a alma são nutridos simultaneamente, indicando que a matéria, quando submissa ao espírito, torna-se um veículo perfeito para a expressão divina. A "terra de leite e mel" é, portanto, o coração humano que feito templo vivo, onde o amor puro reina soberano dissolvendo a ilusão de separação entre o criador e a criatura.

 

Maranguape, Ceará, 03 de Agosto de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


domingo, 2 de agosto de 2026

PENSAR, APENAS!

 

Pensar, apenas! Envolve não sufragar, tão pouco obrigar a vontade doutrem e, isto, oportuniza necessárias corrigendas que tornam os atos menos inexatos e quasse perfeitos. Um pensar, assim, tão enlevado, alinha o pensamento à liberdade interior e ao aperfeiçoamento constante das agências humanas. Longe de dominar a outrem, firma-se com uma moção de autocorreção e de refinamento da própria vontade e incita a viver e a entender de um jeito mais equilibrado, sem brigas por opiniões, o mundo que nos abriga e nos desenvolve.

 

Ao não validar cegamente ideias pré-estabelecidas, nem forçar a vontade alheia a se curvar a um dogma, o verdadeiro pensamento reflete não somente o coração bem formado que nos serve de eixo, com também, a mente galante que nos mantém em equilíbrio sobre este eixo. Há uma distinção fundamental entre o cérebro que processa informações e o pensamento que organiza e estabiliza a existência e o viver nela. O verdadeiro crescimento individual e intelectual nasce do conflito de pensamentos e de modus divergentes.

 

A integração entre o pensar e o querer é delicada. Há vasta incongruência entre o pensamento e a ação imediata: enquanto o homem de ação satisfaz com seus resultados, o pensar questiona o que oportunizou estes resultados. No entanto, filosofar sobre o desejo não nos faz “adestrados” pelo instinto e/ou pela coerção social, tão pouco nos faz inertes. O querer não deve ser uma tirania que mutila a personalidade, nem um instrumento para dominar a outrem, pois, contrapõe a natureza do pensar, que é abrir espaços à verdade e não à imposição.

 

Quando o pensamento é reduzido a mero comportamento ou resultado prático, perde-se a sua capacidade de questionar e de explorar as nuances da realidade, como também, torna-se incapaz de cocriar com seus pares novas instâncias de feliz convívio e de arguto desenvolvimento coletivo que enleve a todos. O pensamento livre recusa a lógica binária do "certo ou errado" imposto externamente, buscando envesse a harmonia e o crescimento através do contraditório, que melhor o refina.

 

Assim como a flor snowdrop prepara suas energias sob o gelo, o pensar trabalha-se internamente para renovar suas possibilidades de ação. O pensamento traz à tona a verdade, avaliando sinceramente a si mesmo e as circunstâncias. A ideia de "quase perfeitos" sugere que a excelência humana é um horizonte em movimento, alcançado através do esforço de transformar erros em virtudes. A essência da ação voluntária verdadeira é a harmonização das tendências, reconhecendo a legitimidade de cada parte do ser em sinergia com o universo.

 

Dentre as responsabilidades assumidas ao longo da eternidade, pensar notabiliza-se como um ato de liberdade responsável, que nos habilita a não dominar ninguém, embora dominemos todas as questões que cativem nosso pensamento analítico, que nos favorece com o melhor discernimento. Rejeitar o sufrágio cego e a coerção da vontade alheia, libertamo-nos para realização do trabalho árduo de esculpir nosso próprio caráter e a partir dele nosso identidade. Somos o que habitualmente materializamos de tudo aquilo que pensamos.

 

Pensar filosoficamente sobre a própria conduta, transformando a melancolia ou a dúvida em combustível para uma ação mais coerente, serena e tendente à perfeição é o habitat da “última liberdade”. O pensamento não se encerra em si próprio, pois, desbravadoramente, ele é o meio pelo qual a vontade se purifica e a ação se torna menos inexata. Educar essa vontade é trazer consigo uma paixão por querer o melhor, não por imposição, mas, por uma compreensão dramática e elevada do mundo, que anseia por continua evolução.

 

É inócuo ter a mente (a “baladeira na gaveta”), formidável mesmo é desvelar seus usos para evitar a estagnação mental e o fanatismo. Ferramenta ativa que organiza, critica, estabiliza a existência, o pensamento arquiteta ambiências capazes de fomentar o desenvolvimento e a mantença deste influxo. O veraz pensamento requer esmero consciencioso, pois, deve validar emoções ou ideias antigas com a mesma rutilância com que aclara o discernimento das realidades transfigurando as informações absorvidas em profícua sabedoria existencial.

 

Evoluir pede plasticidade para amoldar-se à impermanência da vida, pois, somente o flexível e o adaptável sobrevive às mudanças e alcança crescimento nos altos e baixos do Tempo. A ideia de que o crescimento nasce do "conflito de pensamentos e de modus divergentes" alinha-se com a visão de que a constância em dogmas obsoletos é uma forma de "atrofia" ou "covardia intelectual". Portanto, evoluir exige a habilidade de se reinventar conforme as circunstâncias mudam, sob a guia do pensamento plasticamente inventivo.

 

Um pensamento criativo, assim, é dignamente inspirado por um coração bem formado que se assume e manifesta a si como o centro do sentir, da intuição e da sabedoria interior, atuando como exata bússola para o verdadeiro ser e para a tomada de decisões equilibradas. Portanto, o "verdadeiro pensamento" nasce da coerência entre o coração puro e a mente sã, onde o sentimento orienta o pensamento, permitindo que a energia vital eflua do centro (umbigo/coração) para a cabeça de forma saudável, promovendo paz, evolução e iluminação espiritual.

 

Essa "mente galante" que equilibra-se sobre o eixo do coração, não o faz através da rigidez, mas, a partir da capacidade de dialogar com o contraditório.  A descoberta deste equilíbrio ocorre quando se rompe com paradigmas fixos, possibilitando que a crítica objetiva prevaleça sobre a fé cega ou a ideologia fechada. Ao rejeitarmos a validação cega de dogmas – "prisões mentais criadas pelo homem" e resultados do pensamento alheio – compreendemos que a verdadeira liberdade reside na coragem de pensar por nós mesmos. Pensar, apenas!

 

Maranguape, Ceará, 02 de Agosto de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


sábado, 1 de agosto de 2026

O CORDEL É A ALMA, A FORÇA E A POESIA DO POVO BRASILEIRO

Falar em cordel nesta data que o enaltece (01/08) efervesce a alma, pois, o cordel embala os sonhos exaltando o belo e o contente da brava gente que constrói o Brasil com um sorriso cativante adornando a face de quem foi eleito para superar cheias e secas. O cordel jamais será unicamente literatura, pois, é a voz loquaz e música que canta a história e celebra a identidade de um povo que transforma a luta diária em arte e fé.

 

Enaltecido por gigantes cujos talentos transformam a realidade em versos, o cordel, longe de ser simplesmente um poema, e o reflexo da rutilância de um povo que aclara a obscuridade com a boa-vontade de fazer o melhor quando se espera o pior. Distante de ser somente um grito de resistência, fez-se um brado vibrante de expressão cultural do galante povo brasileiro que se destaca onde quer que lhe ponham a habitar.

 

Chamo ao cordel o Porta-Voz do Sertão, cuja voz canora como a Patativa (do Assaré) transformou o cordel em um espelho profícuo da realidade, enlevando a natureza e desvelando a beleza oculta na dureza da vida, pois, Antônio Gonçalves da Silva aprendeu com o Mestre Jesus, no Sermão da Montanha, “a mostrar a outra face” (Mateus 5:39), afinal, até no mal mais aviltante há um benévolo e transformador aprendizado (re)construtor.

 

Abro espaço para o Cego mais Visionário de todos os tempos, Aderaldo Ferreira de Araújo cuja arte fez-se o elo fundamental entre a tradição oral do repente e a consolidação da literatura de cordel escrita. Cego Aderaldo personificou as figuras do jogral e do cantador andarilho levando consigo notícias, histórias e entretenimento através do verso rimado, consolidando a métrica da sextilha e do martelo agalopado no Nordeste.

 

Acendo a Luz da Sabedoria que adotou o Zé (Zé da Luz), Severino de Andrade Silva, cuja narrativa deu nova dimensão ao cordel, elogiada por grandes vultos da literatura nacional, como Manuel Bandeira e José Lins do Rego. Ele transformou o falar cotidiano do povo do sertão em uma escolha estilística refinada e deliberada, unindo a simplicidade regionalista a uma estrutura poética rica e cativante como o coração nordestino.

 

Como não poderia ser diferente João Batista Campos chega para testemunhar da luz (do cordel) e com o candieiro à mão rompe com as normas convencionais, unindo humor e crítica social ao dar luz e vida à teoria e vertente do neocordel – uma renovação estética dentro da tradicional literatura de folhetos, utilizando a liberdade poética para aproximar o gênero de novos contextos contemporâneos à festa que o cordel faz nos dias.

 

Festejar o cordel como Moraes Moreira vi poucos tão entusiastas. Ele incorporou a linguagem do cordel em suas composições e publicou obras inteiras difundindo o cordel e suas técnicas, como A História dos Novos Baianos e Outros Versos. Curiosamente, a última manifestação pública do artista antes de falecer em abril de 2020 foi exatamente um cordel intitulado “Quarentena" refletindo os medos daquele período pandêmico.

 

O cordel é uma forma literária que no Brasil ganhou identidade própria com métrica, rimas marcantes, xilogravuras e temas locais, sendo hoje reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil e estudado em diversos países do orbe terrestre, tratado como joia da cultura popular, fascina o meio acadêmico internacional por unir, em um único objeto de baixo custo, oralidade, poesia metrificada, música e artes visuais (a xilogravura).

 

Universidades e bibliotecas notabilizadas globalmente têm acervos com o melhor que há do cordel brasileiro, devidamente digitalizado, garantindo o livre acesso ao cordel que é estudado sob a ótica da antropologia, da sociologia, da linguística e da literatura comparada por meio de três pilares principais: os grandes acervos internacionais, o trabalho de pesquisadores estrangeiros (brasilianistas) e sua aplicação no ensino de línguas.

 

A Universidade de Sorbonne abriga uma das maiores coleções do planeta, com mais de 30 mil títulos. O governo francês apoia a Fundação Raymond Cantel, pioneiro na análise do cordel “o Jornal do Sertão”. Cientistas políticos e historiadores buscam nos folhetos entender a visão do povo sobre grandes eventos regionais e/ou mundiais – como as Guerras Mundiais, a recessão dos anos 20, a morte de Getúlio Vargas, etc.

 

Não ficando aquém dos franceses, guardiãs do conhecimento e da cultura consideradas “de ponta” como a Biblioteca do Congresso Americano, a Universidade Harvard, a Brown University Library e o Getty Research Institute preservam milhares de exemplares que datam desde o início do século do XX. Além destas renomadas entidades, a Itália, a Espanha, a Holanda, a Inglaterra e o Japão, estudam a literatura nordestina do Brasil.

 

Nos departamentos de línguas românicas – oriundas do latim vulgar – pelo mundo, o cordel é largamente empregado como ferramenta didática para ensinar o português do Brasil, oportunizando aos estudantes estrangeiros – chamados brasilianistas – compreendam com mais exatidão as variações linguísticas, o sotaque, o vocabulário e a identidade cultural de nosso país, por eles convalidadas em suas visitas ao Nordeste.

 

No Brasil, para aqueles desejosos de conhecer esta portentosa forma de comunicação que se manifesta através da poesia, da música e das artes cênicas, a Fundação Casa de Rui Barbosa disponibiliza online a maior coleção de literatura popular em versos da América Latina, com cerca de 9.000 folhetos. O cordel é descrito como um "cordão cultural" que não tem fim, ganhando novos contornos e inspirando gerações. 

 

Como disse Guimarães Rosa, "o sertão é o mundo", e a poesia da encantadora nação sertaneja, lastreada pelo cordel, mostra-se pujante e global, celebrando a brasilidade de quem constrói o país com resiliência e sorriso no rosto. O cordel é a alma, a força e a poesia do povo brasileiro que desconhece intempéries, adversidades e medos porque a convicção de que sendo conveniente tudo é factível materializa suas esperanças.

 

Celebrar o cordel neste Dia Nacional do Cordel é festejar multidisciplinaridade que o estuda e o difunde pelo mundo afora dando mostras do potencial cultural do Brasil a bem da humanidade. É celebrar a brasilidade que une os brasileiros no mesmo propósito: retumbar pelos quatro cantos da Terra que o Brasil, além de ser pomar do mundo, é a mais notável universidade viva onde docentes e discentes aprendem a riqueza da diversidade.

 

Maranguape, Ceará, 01 de Agosto de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS

Assessoria Especial da Presidência

Cléber Tomás Vianna

Diretoria de Comunicação Social

Bruno Bezerra de Macedo

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