Falar em cordel nesta data que o enaltece (01/08)
efervesce a alma, pois, o cordel embala os sonhos exaltando o belo e o contente
da brava gente que constrói o Brasil com um sorriso cativante adornando a face
de quem foi eleito para superar cheias e secas. O cordel jamais será unicamente
literatura, pois, é a voz loquaz e música que canta a história e celebra a
identidade de um povo que transforma a luta diária em arte e fé.
Enaltecido por gigantes cujos talentos transformam
a realidade em versos, o cordel, longe de ser simplesmente um poema, e o
reflexo da rutilância de um povo que aclara a obscuridade com a boa-vontade de
fazer o melhor quando se espera o pior. Distante de ser somente um grito de
resistência, fez-se um brado vibrante de expressão cultural do galante povo
brasileiro que se destaca onde quer que lhe ponham a habitar.
Chamo ao cordel o Porta-Voz do Sertão, cuja voz
canora como a Patativa (do Assaré) transformou o cordel em um espelho profícuo
da realidade, enlevando a natureza e desvelando a beleza oculta na dureza da
vida, pois, Antônio Gonçalves da Silva aprendeu com o Mestre Jesus, no Sermão
da Montanha, “a mostrar a outra face” (Mateus 5:39), afinal, até no mal mais
aviltante há um benévolo e transformador aprendizado (re)construtor.
Abro espaço para o Cego mais Visionário de todos os
tempos, Aderaldo Ferreira de Araújo cuja arte fez-se o elo fundamental entre a
tradição oral do repente e a consolidação da literatura de cordel escrita. Cego
Aderaldo personificou as figuras do jogral e do cantador andarilho levando
consigo notícias, histórias e entretenimento através do verso rimado,
consolidando a métrica da sextilha e do martelo agalopado no Nordeste.
Acendo a Luz da Sabedoria que adotou o Zé (Zé da
Luz), Severino de Andrade Silva, cuja narrativa deu nova dimensão ao cordel, elogiada
por grandes vultos da literatura nacional, como Manuel Bandeira e José Lins do
Rego. Ele transformou o falar cotidiano do povo do sertão em uma escolha
estilística refinada e deliberada, unindo a simplicidade regionalista a uma
estrutura poética rica e cativante como o coração nordestino.
Como não poderia ser diferente João Batista Campos
chega para testemunhar da luz (do cordel) e com o candieiro à mão rompe com as
normas convencionais, unindo humor e crítica social ao dar luz e vida à teoria
e vertente do neocordel – uma renovação estética dentro da tradicional
literatura de folhetos, utilizando a liberdade poética para aproximar o gênero
de novos contextos contemporâneos à festa que o cordel faz nos dias.
Festejar o cordel como Moraes Moreira vi poucos tão
entusiastas. Ele incorporou a linguagem do cordel em suas composições e
publicou obras inteiras difundindo o cordel e suas técnicas, como A
História dos Novos Baianos e Outros Versos. Curiosamente, a última manifestação
pública do artista antes de falecer em abril de 2020 foi exatamente um cordel
intitulado “Quarentena" refletindo os medos daquele período pandêmico.
O cordel é uma forma literária que no Brasil ganhou
identidade própria com métrica, rimas marcantes, xilogravuras e temas locais,
sendo hoje reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil e estudado em
diversos países do orbe terrestre, tratado como joia da cultura popular,
fascina o meio acadêmico internacional por unir, em um único objeto de baixo
custo, oralidade, poesia metrificada, música e artes visuais (a xilogravura).
Universidades e bibliotecas notabilizadas
globalmente têm acervos com o melhor que há do cordel brasileiro, devidamente
digitalizado, garantindo o livre acesso ao cordel que é estudado sob a ótica da
antropologia, da sociologia, da linguística e da literatura comparada por meio
de três pilares principais: os grandes acervos internacionais, o trabalho de
pesquisadores estrangeiros (brasilianistas) e sua aplicação no ensino de
línguas.
A Universidade de Sorbonne abriga uma das maiores
coleções do planeta, com mais de 30 mil títulos. O governo francês apoia a
Fundação Raymond Cantel, pioneiro na análise do cordel “o Jornal do Sertão”.
Cientistas políticos e historiadores buscam nos folhetos entender a visão do
povo sobre grandes eventos regionais e/ou mundiais – como as Guerras Mundiais,
a recessão dos anos 20, a morte de Getúlio Vargas, etc.
Não ficando aquém dos franceses, guardiãs do
conhecimento e da cultura consideradas “de ponta” como a Biblioteca do
Congresso Americano, a Universidade Harvard, a Brown University Library e o
Getty Research Institute preservam milhares de exemplares que datam desde o
início do século do XX. Além destas renomadas entidades, a Itália, a Espanha, a
Holanda, a Inglaterra e o Japão, estudam a literatura nordestina do Brasil.
Nos departamentos de línguas românicas – oriundas
do latim vulgar – pelo mundo, o cordel é largamente empregado como ferramenta
didática para ensinar o português do Brasil, oportunizando aos estudantes
estrangeiros – chamados brasilianistas – compreendam com mais exatidão as
variações linguísticas, o sotaque, o vocabulário e a identidade cultural de
nosso país, por eles convalidadas em suas visitas ao Nordeste.
No Brasil, para aqueles desejosos de conhecer esta
portentosa forma de comunicação que se manifesta através da poesia, da música e
das artes cênicas, a Fundação Casa de Rui Barbosa disponibiliza
online a maior coleção de literatura popular em versos da América Latina, com
cerca de 9.000 folhetos. O cordel é descrito como um "cordão
cultural" que não tem fim, ganhando novos contornos e inspirando
gerações.
Como disse Guimarães Rosa, "o sertão é o
mundo", e a poesia da encantadora nação sertaneja, lastreada pelo cordel,
mostra-se pujante e global, celebrando a brasilidade de quem constrói o país
com resiliência e sorriso no rosto. O cordel é a alma, a força e a poesia do
povo brasileiro que desconhece intempéries, adversidades e medos porque a
convicção de que sendo conveniente tudo é factível materializa suas esperanças.
Celebrar o cordel neste Dia Nacional do Cordel é
festejar multidisciplinaridade que o estuda e o difunde pelo mundo afora dando
mostras do potencial cultural do Brasil a bem da humanidade. É celebrar a
brasilidade que une os brasileiros no mesmo propósito: retumbar pelos quatro
cantos da Terra que o Brasil, além de ser pomar do mundo, é a mais notável
universidade viva onde docentes e discentes aprendem a riqueza da diversidade.
Maranguape, Ceará, 01 de Agosto de 2026
ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo
Muito bom👏👏👏
ResponderExcluir