sábado, 1 de agosto de 2026

O CORDEL É A ALMA, A FORÇA E A POESIA DO POVO BRASILEIRO

Falar em cordel nesta data que o enaltece (01/08) efervesce a alma, pois, o cordel embala os sonhos exaltando o belo e o contente da brava gente que constrói o Brasil com um sorriso cativante adornando a face de quem foi eleito para superar cheias e secas. O cordel jamais será unicamente literatura, pois, é a voz loquaz e música que canta a história e celebra a identidade de um povo que transforma a luta diária em arte e fé.

 

Enaltecido por gigantes cujos talentos transformam a realidade em versos, o cordel, longe de ser simplesmente um poema, e o reflexo da rutilância de um povo que aclara a obscuridade com a boa-vontade de fazer o melhor quando se espera o pior. Distante de ser somente um grito de resistência, fez-se um brado vibrante de expressão cultural do galante povo brasileiro que se destaca onde quer que lhe ponham a habitar.

 

Chamo ao cordel o Porta-Voz do Sertão, cuja voz canora como a Patativa (do Assaré) transformou o cordel em um espelho profícuo da realidade, enlevando a natureza e desvelando a beleza oculta na dureza da vida, pois, Antônio Gonçalves da Silva aprendeu com o Mestre Jesus, no Sermão da Montanha, “a mostrar a outra face” (Mateus 5:39), afinal, até no mal mais aviltante há um benévolo e transformador aprendizado (re)construtor.

 

Abro espaço para o Cego mais Visionário de todos os tempos, Aderaldo Ferreira de Araújo cuja arte fez-se o elo fundamental entre a tradição oral do repente e a consolidação da literatura de cordel escrita. Cego Aderaldo personificou as figuras do jogral e do cantador andarilho levando consigo notícias, histórias e entretenimento através do verso rimado, consolidando a métrica da sextilha e do martelo agalopado no Nordeste.

 

Acendo a Luz da Sabedoria que adotou o Zé (Zé da Luz), Severino de Andrade Silva, cuja narrativa deu nova dimensão ao cordel, elogiada por grandes vultos da literatura nacional, como Manuel Bandeira e José Lins do Rego. Ele transformou o falar cotidiano do povo do sertão em uma escolha estilística refinada e deliberada, unindo a simplicidade regionalista a uma estrutura poética rica e cativante como o coração nordestino.

 

Como não poderia ser diferente João Batista Campos chega para testemunhar da luz (do cordel) e com o candieiro à mão rompe com as normas convencionais, unindo humor e crítica social ao dar luz e vida à teoria e vertente do neocordel – uma renovação estética dentro da tradicional literatura de folhetos, utilizando a liberdade poética para aproximar o gênero de novos contextos contemporâneos à festa que o cordel faz nos dias.

 

Festejar o cordel como Moraes Moreira vi poucos tão entusiastas. Ele incorporou a linguagem do cordel em suas composições e publicou obras inteiras difundindo o cordel e suas técnicas, como A História dos Novos Baianos e Outros Versos. Curiosamente, a última manifestação pública do artista antes de falecer em abril de 2020 foi exatamente um cordel intitulado “Quarentena" refletindo os medos daquele período pandêmico.

 

O cordel é uma forma literária que no Brasil ganhou identidade própria com métrica, rimas marcantes, xilogravuras e temas locais, sendo hoje reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil e estudado em diversos países do orbe terrestre, tratado como joia da cultura popular, fascina o meio acadêmico internacional por unir, em um único objeto de baixo custo, oralidade, poesia metrificada, música e artes visuais (a xilogravura).

 

Universidades e bibliotecas notabilizadas globalmente têm acervos com o melhor que há do cordel brasileiro, devidamente digitalizado, garantindo o livre acesso ao cordel que é estudado sob a ótica da antropologia, da sociologia, da linguística e da literatura comparada por meio de três pilares principais: os grandes acervos internacionais, o trabalho de pesquisadores estrangeiros (brasilianistas) e sua aplicação no ensino de línguas.

 

A Universidade de Sorbonne abriga uma das maiores coleções do planeta, com mais de 30 mil títulos. O governo francês apoia a Fundação Raymond Cantel, pioneiro na análise do cordel “o Jornal do Sertão”. Cientistas políticos e historiadores buscam nos folhetos entender a visão do povo sobre grandes eventos regionais e/ou mundiais – como as Guerras Mundiais, a recessão dos anos 20, a morte de Getúlio Vargas, etc.

 

Não ficando aquém dos franceses, guardiãs do conhecimento e da cultura consideradas “de ponta” como a Biblioteca do Congresso Americano, a Universidade Harvard, a Brown University Library e o Getty Research Institute preservam milhares de exemplares que datam desde o início do século do XX. Além destas renomadas entidades, a Itália, a Espanha, a Holanda, a Inglaterra e o Japão, estudam a literatura nordestina do Brasil.

 

Nos departamentos de línguas românicas – oriundas do latim vulgar – pelo mundo, o cordel é largamente empregado como ferramenta didática para ensinar o português do Brasil, oportunizando aos estudantes estrangeiros – chamados brasilianistas – compreendam com mais exatidão as variações linguísticas, o sotaque, o vocabulário e a identidade cultural de nosso país, por eles convalidadas em suas visitas ao Nordeste.

 

No Brasil, para aqueles desejosos de conhecer esta portentosa forma de comunicação que se manifesta através da poesia, da música e das artes cênicas, a Fundação Casa de Rui Barbosa disponibiliza online a maior coleção de literatura popular em versos da América Latina, com cerca de 9.000 folhetos. O cordel é descrito como um "cordão cultural" que não tem fim, ganhando novos contornos e inspirando gerações. 

 

Como disse Guimarães Rosa, "o sertão é o mundo", e a poesia da encantadora nação sertaneja, lastreada pelo cordel, mostra-se pujante e global, celebrando a brasilidade de quem constrói o país com resiliência e sorriso no rosto. O cordel é a alma, a força e a poesia do povo brasileiro que desconhece intempéries, adversidades e medos porque a convicção de que sendo conveniente tudo é factível materializa suas esperanças.

 

Celebrar o cordel neste Dia Nacional do Cordel é festejar multidisciplinaridade que o estuda e o difunde pelo mundo afora dando mostras do potencial cultural do Brasil a bem da humanidade. É celebrar a brasilidade que une os brasileiros no mesmo propósito: retumbar pelos quatro cantos da Terra que o Brasil, além de ser pomar do mundo, é a mais notável universidade viva onde docentes e discentes aprendem a riqueza da diversidade.

 

Maranguape, Ceará, 01 de Agosto de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS

Assessoria Especial da Presidência

Cléber Tomás Vianna

Diretoria de Comunicação Social

Bruno Bezerra de Macedo

Um comentário:

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