segunda-feira, 3 de agosto de 2026

EM BUSCA DA TERRA DE LEITE E MEL

 

No Mix Mateus – Maranguape, em companhia de Rosélia, minha esposa, obtendo os mantimentos para a semana que se inicia, me veio naquela manhã de domingo (02/08/2026) um pensamento metafórico e inspirador sobre (re)novação, superação e conquista de um espaço ideal de dignidade humana: o que há por trás da jornada rumo à terra de leite e mel?

 

Ao final deste caminhar, uma terra de leite e mel mostrou-se à frente do homem novo forjado durante 40 anos para fruí-la. A geração escrava feneceu no processo; apenas a nova geração, nascida livre e moldada pelas dificuldades, estava pronta para a conquista da vida plena, onde a inclusão se faz rainha, o pertencimento é rei e os súditos fiéis são harmonia e felicidade.

 

Um percurso que levaria apenas 11 dias, estendeu-se por 40 anos devido à incredulidade e rebeldia da geração liberta do Egito, que permanecia escrava mental e espiritualmente, grilhões que em nossos dias mantém-nos aprisionados quando insistimos em padrões de comportamento repetitivos e destrutivos, ainda que conscientes das dores que nos causam.

 

Acostumados aos costumes egípcios e à mentalidade de servidão, essa geração “liberta” demonstrou constante ingratidão e murmuração contra Deus e Moisés, como ainda ocorre nesta contemporaneidade onde culpar as circunstâncias e/ou o passado pelo estado atual e renunciar à responsabilidade os mudar, acha no vitimismo âncora leal.

 

O vitimismo ancora tudo que impede o avanço espiritual e pessoal. Ao culpar o passado ("melhor ter ficado no Egito") ou as circunstâncias atuais ("falta de carne", "medo dos gigantes"), renunciamos o exercício do direito de transfigurar realidades e de crer nas promessas futuras que nossas habilidosas potencialidades podem realizar com exatidão plena.

 

Não romper com a "mentalidade de escravo" – que prefere o sofrimento conhecido à confiança no desconhecido prometido –, nos faz andar sempre em círculos. A saída desse ciclo vicioso exige gratidão, obediência e a coragem de abandonar as "cebolas do Egito" – representando apegos ao passado que, embora dolorosos, parecem seguros. Só parecem, jamais são!

 

Sob o fito contemporâneo, essa jornada ganha um significado humanista: o deserto representa o processo de desconstrução de velhos hábitos, preconceitos e amarras. O "homem novo" só estará pronto para viver em plenitude quando compreender que o ápice da evolução humana se baseia em três pilares fundamentais: Inclusão, Pertencimento e Felicidade.

 

Nesse "abismo" que ocorre o amadurecimento. O deserto leva o homem a contemplar sua total impotência e fraqueza quando destituído de apoios terrenos e hábitos consolidados.  É no "despojamento total" que as velhas estruturas – preconceitos, vícios e comodismos – perdem a sustentação, criando o espaço vazio necessário para o novo no qual se investe o “velho homem”.

 

Filtro pedagógico por excelência, o deserto não destrói para aniquilar, mas, para limpar o campo, permitindo que a redescoberta do homem não mais como um ser autossuficiente e fechado, mas, como um ser em construção, aberto à mudança. Ao sair desse processo de desconstrução, o "homem novo" emerge uma consciência da existência mais ampliada.  

 

Este "homem novo" preparado para uma sociedade baseada na harmonia e felicidade, onde a inclusão e o pertencimento são valores supremos, diferente de seus pais, que viviam reclamando e olhando para trás, lidera sua geração, unida sob uma única lei e um único Deus, construindo uma identidade racial, política e religiosa própria com a qual avançam ao futuro.

 

A inclusão e o pertencimento estabeleceram seu reinado, nesta nova ordem porque todos compartilham da mesma história de libertação e provisão. A felicidade dos súditos fiéis reside na certeza de que não são mais escravos do passado, mas filhos livres, habilitados a viver em plenitude na terra que Deus preparou, sob a égide da harmonia que os faz iguais acima de tudo.

 

A inclusão, neste contexto, deixa de ser um conceito social para se tornar uma vivência interior: reconhecer que todos nós somos andarilhos em nossos próprios desertos. A superação do isolamento num deserto conduz-nos ao discernimento de que a plenitude não é solitária, mas, compartilhada, rompendo com as amarras da exclusão, do julgamento e do ódio.

 

O pilar do pertencimento surge quando se entende que, mesmo na solidão do (auto)encontro, somos parte de um todo maior –da humanidade e do cosmos – e, assim, cura a sensação de exílio interno desvelando nosso lugar não pelo que temos, mas, pelo somos. E somos, exatamente, o que pensamos e o que destes pensamentos materializamos habitualmente a bem de todos.

 

Diferente da felicidade efêmera ancorada no conforto ou no sucesso material (o "Egito" a que o povo queria retornar), a felicidade do homem novo é fruto da liberdade interior. É o estado alcançado por aquele que, tendo perdido tudo o que era superficial, ganhou a si mesmo em verdade e autenticidade. É a alegria que persiste mesmo na austeridade, pois, é superadora.

 

Ao final dos 40 anos, a terra onde mana leite e mel, apresentou-se não como um direito adquirido por mérito próprio, mas, como uma herança preparada para um povo maduro. A conquista não foi apenas militar, mas espiritual: apenas aqueles que foram moldados pelas dificuldades e que aprenderam a confiar cegamente em suas aptidões a fruíram plenamente.

 

A passagem pelo deserto é um rito de passagem crucial para aquele que resolutamente aceitou tornar-se maior do que a si próprio, vencendo medos, limitações e o desconhecido, validando a premissa de que a evolução humana exige a morte do "velho eu" – cheio de certezas absolutas, preconceitos e vícios – para o nascimento de uma consciência mais ampla.

 

Esse período não foi meramente um castigo, ao contrário, foi uma forja habilidosa, proficiente e necessária de moldagem espiritual e do caráter, onde uma geração escrava deu lugar a uma nova geração, nascida livre e preparada para herdar a promessa divina celebrada na aliança com o sagrado. Uma sinergia que manifesta na matéria tudo o que espírito aspira.  

 

Quando a vontade do espírito conduz o desejo da matéria, manifesta-se a terra de leite e mel, que longe de ser um lugar físico e/ou uma simples metáfora para fertilidade agrícola, reflete a transfiguração espiritual de energias impuras em pura Luz divina. Representa a união da alma com o sagrado, superando o ego e as ilusões do mundo, sob a égide do amor puro.

 

Nesse estado de iluminação da consciência e do mais alto despertar do amor puro, nosso coração bem formado traz ao eixo a mente, e a torna sã, para juntos, num mesmo propósito, façam da terra de leite e mel seja o solo dos nossos passos em Terra, vivendo em plenitude e harmonia íntima, com o próximo e com a natureza, fertilizamos a aridez em um “oásis” da humanidade.

 

Em nossa terra de leite e mel, o leite manifesta a conversão do rigor em compaixão – o sangue vermelho da severidade transfigurado no leite branco da bondade. E o mel, perfeitamente puro para consumo – e doce –, esotericamente, retrata a capacidade de extrair a doçura e a Luz espiritual a partir do julgamento e/ou de situações severas e impuras.

 

Leite e mel pintam o quadro de uma vida onde o corpo e a alma são nutridos simultaneamente, indicando que a matéria, quando submissa ao espírito, torna-se um veículo perfeito para a expressão divina. A "terra de leite e mel" é, portanto, o coração humano que feito templo vivo, onde o amor puro reina soberano dissolvendo a ilusão de separação entre o criador e a criatura.

 

Maranguape, Ceará, 03 de Agosto de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


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