Vergonha é coisa curiosa.
Nasce-se com ela ou dela totalmente desprovido. Quando perdida, jamais a
recuperamos. O desengano da vista é furar os olhos; a vergonha não é encontrada
noutro lugar que não seja o âmago do homem-aço. Portanto, todo cuidado com a
vergonha é pouco, pois, que tem um valor imensurável – não somente pelas
peculiaridades que a vigem, mas, principalmente, por conta do bem que promove
ao seu portador e àqueles que o orbitam na forma do melhor exemplo que imprime e
lega ao futuro. O exemplo arrasta, sempre!
Essa irreversibilidade da
vergonha tem um paralelo forte em Levinas. Em De l'évasion (1935)
e depois em Totalité et Infini, a vergonha é a experiência em que
"minha liberdade se mostra injustificável" diante do rosto do outro.
Não é mero um sentimento que se adquire ou se perde: é a tonalidade afetiva
fundamental da subjetividade exposta. Quem a perdeu, tomou de si a própria
estrutura de responsabilidade – e isso não se restaura, porque não se trata de
uma faculdade que se reativa, mas, de uma exposição ontológica que, uma
vez anulada, anula o sujeito ético.
Ao dizer que "o
desengano da vista é furar os olhos; a vergonha não é encontrada noutro lugar
que não seja o âmago do Homem-Aço" notabiliza-se um fato crucial: a vergonha
não é aprendida (como se furar os olhos fosse um ato externo), é
constitutiva do núcleo duro. O "aço" é a metáfora perfeita para o que
Kant chama de Wohlgefallen an sich selbst – a satisfação consigo mesmo
que é "a mais indomesticável das inclinações do eu sensível". A
vergonha é o que impede esse aço de enferrujar por arrogância vil, por vaidade
tola ou por ignorância vã.
Isso conecta diretamente
com o modelo "hidráulico" da educação moral em Kant (Vorlesungen über
Pädagogik): a vergonha comprime os vícios, e no espaço assim liberado a virtude
sobe. Não é punição externa – é a própria estrutura do sujeito que, ao se ver
exposto, se corrige. O portador da vergonha é, por definição, alguém que se
vê visto. E ao se ver visto, se contém. Sem vergonha, não há exemplo,
e sem exemplo, não há moralidade social – porque a moralidade, no fundo, não é
um sistema de regras, é uma contágio de contenção.
Vislumbra-se a vergonha não
como um sentimento de timidez, mas, como um sinônimo de honra, integridade e
senso moral. Ao olharmos para o panorama contemporâneo, percebemos que o ápice
da crise civilizatória não reside na escassez de recursos ou no colapso das
instituições, mas sim, na espetacularização do descaramento. Vivemos na era do
cinismo institucionalizado, onde a perda da vergonha deixou de ser uma tragédia
moral para se tornar uma estratégia de sobrevivência ou, pior, de sucesso –
hoje, é uma agência pandêmica.
A vergonha moral – como
sinônimo de honra, dignidade e autorrespeito – é condição necessária ao agir
moral – imprescindível ao estabelecimento da ordem que suplanta o caos –,
conforme demonstram tanto Aristóteles (que a definia como "o receio
virtuoso da desonra"), quanto estudos brasileiros recentes que mostram a
vergonha como "o sentimento moral" par excellence, indissociável do
conceito de honra, dos quais nasce o senso de pertencimento cuja lente mostra o
quanto nos importamos com o grupo e com
os valores que partilhamos.
A espetacularização do
descaramento como núcleo da crise civilizatória – ecoa diretamente com análises
sobre o Brasil contemporâneo. O Estadão, em "A República sem vergonha:
anatomia do cinismo brasileiro" (2026), formula quase o mesmo argumento:
"Nenhuma democracia entra em colapso simplesmente porque existem
corruptos; entra em crise quando seus cidadãos concluem que honestidade e
desonestidade produzem exatamente os mesmos resultados." Então, vale o
adágio: em terra de sapos de cócoras com ele?
Ao dizer que a perda da
vergonha se tornou uma "agência pandêmica" aponta-se que a perda do
pudor moral se propaga de forma voraz, infectando não apenas indivíduos, mas, o
tecido institucional inteiro, e que a ausência da vergonha já não é exceção,
mas, regra de funcionamento. O poeta Martin Opitz, no século XVII, já resumia a
dependência: "Onde não há vergonha, não há honra." Invertido
para o século XXI, o aforismo descreve com exatidão o cenário que se nos
apresenta cotidianamente avassalando o que resta de respeitável no homem.
O ônus desse eclipse
moral se manifesta contundentemente no coletivo. Quando se comete um erro e
este é ostentado sem qualquer rubor nas faces, o tecido social esgarça-se. O
homem desprovido dessa bússola íntima subverte a lógica do exemplo: em vez de
projetar luz e integridade para os que orbitam ao seu redor, ele normaliza a
pequenez, sugerindo tacitamente que a honra é apenas o adereço ingênuo dos
fracos. A confiança, que é a moeda invisível que sustenta os pactos humanos,
depende inteiramente da existência dessa iluminação interna.
O eclipse não é a
ausência total de moralidade, mas, o ocultamento de uma luz que ainda
existe – alguém que sabe o que é certo, mas escolhe não o deixar brilhar.
Quando a vergonha – que é o reconhecimento de que se pertence a uma comunidade
de padrões – desaparece, o erro deixa de ser exceção e vira regra implícita. O
vizinho que não se envergonha de uma mentira pequena ensina, sem dizer uma
palavra, que a mentira pequena é aceitável. É a normalização por osmose:
ninguém precisa ensinar a mediocridade moral; basta que ela seja vista sem
consequência.
O funcionamento da confiança
social não depende de que todos sejam bons, mas, de que todos acreditem que
os outros são bons o suficiente. Quando a "iluminação interna" (a
vergonha, o senso de dívida para com o outro) se apaga numa sociedade, ela
emite uma moeda falsa – e a falsificação, uma vez detectada, desvaloriza todas
as demais. Por isso o dano é desproporcional ao ato: um desonesto em posição de
visibilidade corrói a confiança de quem nunca o viu. Por isso, devemos zelar
para que tudo eflua respeito e disciplina, para que a ordem se satisfaça.
A "bússola íntima"
só funciona se for genuína – se for apenas internalização de uma norma externa,
ela não ilumina, apenas castiga. A diferença entre consciência moral e sentimento
de culpa social é fina, e o eclipse pode ser tanto a ausência de luz quanto
a luz que queima quem a carrega. Assim como a confiança é a moeda dos pactos, a
vergonha honesta é a taxa de juros que impede a inflação moral – e quando ela
some, tudo que depende de promessa, compromisso e palavra falha em cascata
levando consigo tudo que enseja harmonia social.
Evoca-se aqui dois Mestre da Harmonia
– adeptos da tradição antiga, ainda lúcida e proeminente nestes dias –, que a
seu tempo e lugar disseram da vergonha. O primeiro, Luiz Gonzaga do Nascimento,
o Rei do Baião que contunde: “Esmola quando não aleija, mata de vergonha o
cidadão”. O segundo – figura central da literatura universal, além de polímata,
poeta, romancista, músico e livre pensador – Johann Wolfgang von Goethe, que
anuncia: “Quem não sente amor deve aprender a adular, caso contrário não
consegue viver”. Onde anda o amor a si próprio?
Na máxima extraída de
suas Máximas e Reflexões, o polímata alemão assume um olhar realista – por
vezes cínico – sobre as relações humanas. Quando o amor ou a empatia genuína
não estão presentes para unir as pessoas, a bajulação e a cortesia calculada
tornam-se o verniz necessário para evitar o conflito e permitir a engrenagem da
vida social. Sem o afeto autêntico (amor), resta a lisonja instrumental como
mecanismo de sobrevivência social. Não se condena a adulação, apresenta-a como
a alternativa degradante quando o amor está ausente.
Enquanto o mestre alemão
descreve a máscara social exigida pelo mundo civilizado, que elege pessoas que
moldam seus hábitos e atitudes para digredir sua imagem e falsear uma impressão,
em vez de agir com autenticidade, o mestre brasileiro aponta para uma ética
irredutível da honra pessoal frente à caridade. O Rei do Baião sintetiza a
ética do trabalhador que valoriza o próprio suor. Para o sertanejo de raiz
forte, receber caridade sem estar incapacitado ("quando não aleija")
fere o brio e fere a honra de quem apenas deseja o fruto do seu trabalho.
A vergonha apontada por Gonzagão é a
da descaracterização do cidadão que perde o direito de prover a si mesmo, seja economicamente
ou não. Depender de outrem, ou de burlas, digressões, vilipêndios ético-morais
para ser algo cujos méritos são incompletos e/ou inexistem a preço da morte da
vergonha notabiliza a traição ao sagrado, pois, Vós sois deuses, e todos vós
sois filhos do Altíssimo” (Salmos 82:6), então, como pode algo – o que quer
seja – ou alguém – seja lá quem for – ser maior que os ditames de Deus para o
homem?
Sem a vergonha para frear
as ambições desmedidas ou o oportunismo rasteiro, as relações sociais
degradam-se em um jogo de puras conveniências. Onde não há o temor a Deus, que
dirá de se desonrar, a palavra empenhada perde o valor e o compromisso com o
outro se desfaz ao primeiro sinal de vantagem pessoal. Isto adoece a verdadeira
"vergonha" (honra), somente manifesta quando parte integrante dos
feitos e efeitos daqueles que possuem uma estrutura interna forte e moldada
para o bem-fazer aos homens e à humanidade onde estejam.
De Provérbios
("o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e a humildade precede à
honra") à sociologia da vergonha como mecanismo de coesão, percebe-se que sem
a vergonha in voga, o custo de manter a ordem social recai integralmente sobre
o aparato repressivo, e a vida em comum degenera em cálculo de conveniência. Por
isso, deve-se tratar a vergonha não como inibição patológica, mas, como virtude
cívica e espiritual – a "vergonha boa", aquela que só se viceja naquele
que já internalizou um padrão de conduta orientado ao outro, como o "homem-aço".
A “vergonha boa" é
aquela que sobrevive à ausência de público – é o autojuízo, não o medo do
ridículo. A civilidade não se sustenta por lei externa, ao contrário, é
robustecida por uma moral interiorizada, sua erosão é o sintoma mais visível de
uma sociedade que perdeu o sentido do compromisso. A pesquisa em psicologia
moral confirma essa distinção: Pitt-Rivers (1965) separa a honra exterior
(reputação, o que os outros pensam) da honra interior (a virtude como
disposição permanente). O “homem-aço” se curva unicamente ao Pai das Luzes (Tiago
1:17).
O trabalho de
Harkot-de-La-Taille e colaboradores (2002, SciELO) radica: “a vergonha opera
simultaneamente como controle externo (o olhar do outro) e controle interno (a
consciência da disjunção entre a imagem que se projeta e a imagem que se
almeja). Quando a vergonha é apenas externa, ela se esgota na performance
social – é o que o trecho chama de "jogo de puras conveniências".
Quando é interna, ela se torna regulador moral: a pessoa age ou não age antes
de qualquer audiência, porque a "boa imagem" já está inscrita na sua identidade,
com uma digital.
A preservação da
integridade e do senso de decência é o ato definitivo de luta contra a
desumanização moderna. A "economia da vergonha" virou moeda de troca
cultural – quem age sem constrangimento é premiado com visibilidade, enquanto
quem preserva limites é marginalizado como "repressivo" ou
"antiquado". Na cultura contemporânea, especialmente em contextos
digitais, o "sem-vergonha" é celebrado como sinal de liberdade,
ousadia, autenticidade. A formulação da pertinaz "resistência" já captura bem
essa assimetria de poder.
A vergonha depende, mesmo
que parcialmente, do olhar do outro (como La Taille reconhece), então
"preservá-la" exige um outro que ainda julgue – ou seja, requer uma
comunidade moral mínima. Sem esse outro, a vergonha vira auto-flagelação
solitária, e a "resistência" perde seu alvo. A integridade não é uma
conquista absoluta, mas, uma resistência contínua contra uma pressão constante
(o egoísmo, o descaramento, a imoralidade "efusivamente promovida". Esse
outro (a comunidade, a tradição, a consciência coletiva) ainda existe – a
tarefa é não o destruir.
É por isso que o "homem-aço" que preserva o seu âmago intacto torna-se uma figura tão vital quanto rara: ele
atua como um dique de contenção contra a barbárie do egoísmo, provando que a
integridade não é uma utopia, mas, uma escolha consciente de preservação da
nossa própria humanidade. Preservar a vergonha, é o mais corajoso ato de
resistência em um mundo que insiste em premiar o descaramento, em alimentar
vilipêndios de toda ordem de amoralidade e em promover efusivamente as mais
inescrupulosas imoralidades que desumanizam o homem.
Se a vergonha tem um
valor incalculável, é porque funciona como a guardiã silenciosa da dignidade
que ainda teima em restar em nós. Ao final, a história não se lembrará daqueles
que triunfaram pela via rápida da desonra, mas sim, recorda e cultua os tantos que,
feitos da têmpera do "homem-aço", mantiveram-se firmes diante das próprias
fraquezas. É na consistência desse caráter inabalável que se constrói o
verdadeiro patrimônio humano: um exemplo vivo que atravessa o tempo, educa o
porvir e garante que o futuro ainda guarde espaço para a decência.
Maranguape, Ceará, 26 de
Setembro de 2026
Bruno Bezerra de Macêdo,
o Matuto do Carrasco
Jornalista – Portador do
CRP/MTE nº 0005168/CE
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