sábado, 26 de setembro de 2026

VERGONHA QUERIDA, ONDE ANDAS QUE NÃO MAIS A VEMOS?


Vergonha é coisa curiosa. Nasce-se com ela ou dela totalmente desprovido. Quando perdida, jamais a recuperamos. O desengano da vista é furar os olhos; a vergonha não é encontrada noutro lugar que não seja o âmago do homem-aço. Portanto, todo cuidado com a vergonha é pouco, pois, que tem um valor imensurável – não somente pelas peculiaridades que a vigem, mas, principalmente, por conta do bem que promove ao seu portador e àqueles que o orbitam na forma do melhor exemplo que imprime e lega ao futuro. O exemplo arrasta, sempre!

 

Essa irreversibilidade da vergonha tem um paralelo forte em Levinas. Em De l'évasion (1935) e depois em Totalité et Infini, a vergonha é a experiência em que "minha liberdade se mostra injustificável" diante do rosto do outro. Não é mero um sentimento que se adquire ou se perde: é a tonalidade afetiva fundamental da subjetividade exposta. Quem a perdeu, tomou de si a própria estrutura de responsabilidade – e isso não se restaura, porque não se trata de uma faculdade que se reativa, mas, de uma exposição ontológica que, uma vez anulada, anula o sujeito ético.

 

Ao dizer que "o desengano da vista é furar os olhos; a vergonha não é encontrada noutro lugar que não seja o âmago do Homem-Aço" notabiliza-se um fato crucial: a vergonha não é aprendida (como se furar os olhos fosse um ato externo), é constitutiva do núcleo duro. O "aço" é a metáfora perfeita para o que Kant chama de Wohlgefallen an sich selbst – a satisfação consigo mesmo que é "a mais indomesticável das inclinações do eu sensível". A vergonha é o que impede esse aço de enferrujar por arrogância vil, por vaidade tola ou por ignorância vã.

 

Isso conecta diretamente com o modelo "hidráulico" da educação moral em Kant (Vorlesungen über Pädagogik): a vergonha comprime os vícios, e no espaço assim liberado a virtude sobe. Não é punição externa – é a própria estrutura do sujeito que, ao se ver exposto, se corrige. O portador da vergonha é, por definição, alguém que se vê visto. E ao se ver visto, se contém. Sem vergonha, não há exemplo, e sem exemplo, não há moralidade social – porque a moralidade, no fundo, não é um sistema de regras, é uma contágio de contenção.

 

Vislumbra-se a vergonha não como um sentimento de timidez, mas, como um sinônimo de honra, integridade e senso moral. Ao olharmos para o panorama contemporâneo, percebemos que o ápice da crise civilizatória não reside na escassez de recursos ou no colapso das instituições, mas sim, na espetacularização do descaramento. Vivemos na era do cinismo institucionalizado, onde a perda da vergonha deixou de ser uma tragédia moral para se tornar uma estratégia de sobrevivência ou, pior, de sucesso – hoje, é uma agência pandêmica.

 

A vergonha moral – como sinônimo de honra, dignidade e autorrespeito – é condição necessária ao agir moral – imprescindível ao estabelecimento da ordem que suplanta o caos –, conforme demonstram tanto Aristóteles (que a definia como "o receio virtuoso da desonra"), quanto estudos brasileiros recentes que mostram a vergonha como "o sentimento moral" par excellence, indissociável do conceito de honra, dos quais nasce o senso de pertencimento cuja lente mostra o quanto nos  importamos com o grupo e com os valores que partilhamos.

 

A espetacularização do descaramento como núcleo da crise civilizatória – ecoa diretamente com análises sobre o Brasil contemporâneo. O Estadão, em "A República sem vergonha: anatomia do cinismo brasileiro" (2026), formula quase o mesmo argumento: "Nenhuma democracia entra em colapso simplesmente porque existem corruptos; entra em crise quando seus cidadãos concluem que honestidade e desonestidade produzem exatamente os mesmos resultados." Então, vale o adágio: em terra de sapos de cócoras com ele?

 

Ao dizer que a perda da vergonha se tornou uma "agência pandêmica" aponta-se que a perda do pudor moral se propaga de forma voraz, infectando não apenas indivíduos, mas, o tecido institucional inteiro, e que a ausência da vergonha já não é exceção, mas, regra de funcionamento. O poeta Martin Opitz, no século XVII, já resumia a dependência: "Onde não há vergonha, não há honra." Invertido para o século XXI, o aforismo descreve com exatidão o cenário que se nos apresenta cotidianamente avassalando o que resta de respeitável no homem.

 

O ônus desse eclipse moral se manifesta contundentemente no coletivo. Quando se comete um erro e este é ostentado sem qualquer rubor nas faces, o tecido social esgarça-se. O homem desprovido dessa bússola íntima subverte a lógica do exemplo: em vez de projetar luz e integridade para os que orbitam ao seu redor, ele normaliza a pequenez, sugerindo tacitamente que a honra é apenas o adereço ingênuo dos fracos. A confiança, que é a moeda invisível que sustenta os pactos humanos, depende inteiramente da existência dessa iluminação interna.

 

O eclipse não é a ausência total de moralidade, mas, o ocultamento de uma luz que ainda existe – alguém que sabe o que é certo, mas escolhe não o deixar brilhar. Quando a vergonha – que é o reconhecimento de que se pertence a uma comunidade de padrões – desaparece, o erro deixa de ser exceção e vira regra implícita. O vizinho que não se envergonha de uma mentira pequena ensina, sem dizer uma palavra, que a mentira pequena é aceitável. É a normalização por osmose: ninguém precisa ensinar a mediocridade moral; basta que ela seja vista sem consequência.

 

O funcionamento da confiança social não depende de que todos sejam bons, mas, de que todos acreditem que os outros são bons o suficiente. Quando a "iluminação interna" (a vergonha, o senso de dívida para com o outro) se apaga numa sociedade, ela emite uma moeda falsa – e a falsificação, uma vez detectada, desvaloriza todas as demais. Por isso o dano é desproporcional ao ato: um desonesto em posição de visibilidade corrói a confiança de quem nunca o viu. Por isso, devemos zelar para que tudo eflua respeito e disciplina, para que a ordem se satisfaça.

 

A "bússola íntima" só funciona se for genuína – se for apenas internalização de uma norma externa, ela não ilumina, apenas castiga. A diferença entre consciência moral e sentimento de culpa social é fina, e o eclipse pode ser tanto a ausência de luz quanto a luz que queima quem a carrega. Assim como a confiança é a moeda dos pactos, a vergonha honesta é a taxa de juros que impede a inflação moral – e quando ela some, tudo que depende de promessa, compromisso e palavra falha em cascata levando consigo tudo que enseja harmonia social.

 

Evoca-se aqui dois Mestre da Harmonia – adeptos da tradição antiga, ainda lúcida e proeminente nestes dias –, que a seu tempo e lugar disseram da vergonha. O primeiro, Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião que contunde: “Esmola quando não aleija, mata de vergonha o cidadão”. O segundo – figura central da literatura universal, além de polímata, poeta, romancista, músico e livre pensador – Johann Wolfgang von Goethe, que anuncia: “Quem não sente amor deve aprender a adular, caso contrário não consegue viver”. Onde anda o amor a si próprio?

 

Na máxima extraída de suas Máximas e Reflexões, o polímata alemão assume um olhar realista – por vezes cínico – sobre as relações humanas. Quando o amor ou a empatia genuína não estão presentes para unir as pessoas, a bajulação e a cortesia calculada tornam-se o verniz necessário para evitar o conflito e permitir a engrenagem da vida social. Sem o afeto autêntico (amor), resta a lisonja instrumental como mecanismo de sobrevivência social. Não se condena a adulação, apresenta-a como a alternativa degradante quando o amor está ausente.

 

Enquanto o mestre alemão descreve a máscara social exigida pelo mundo civilizado, que elege pessoas que moldam seus hábitos e atitudes para digredir sua imagem e falsear uma impressão, em vez de agir com autenticidade, o mestre brasileiro aponta para uma ética irredutível da honra pessoal frente à caridade. O Rei do Baião sintetiza a ética do trabalhador que valoriza o próprio suor. Para o sertanejo de raiz forte, receber caridade sem estar incapacitado ("quando não aleija") fere o brio e fere a honra de quem apenas deseja o fruto do seu trabalho.

 

A vergonha apontada por Gonzagão é a da descaracterização do cidadão que perde o direito de prover a si mesmo, seja economicamente ou não. Depender de outrem, ou de burlas, digressões, vilipêndios ético-morais para ser algo cujos méritos são incompletos e/ou inexistem a preço da morte da vergonha notabiliza a traição ao sagrado, pois, Vós sois deuses, e todos vós sois filhos do Altíssimo” (Salmos 82:6), então, como pode algo – o que quer seja – ou alguém – seja lá quem for – ser maior que os ditames de Deus para o homem?

  

Sem a vergonha para frear as ambições desmedidas ou o oportunismo rasteiro, as relações sociais degradam-se em um jogo de puras conveniências. Onde não há o temor a Deus, que dirá de se desonrar, a palavra empenhada perde o valor e o compromisso com o outro se desfaz ao primeiro sinal de vantagem pessoal. Isto adoece a verdadeira "vergonha" (honra), somente manifesta quando parte integrante dos feitos e efeitos daqueles que possuem uma estrutura interna forte e moldada para o bem-fazer aos homens e à humanidade onde estejam.

 

De Provérbios ("o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e a humildade precede à honra") à sociologia da vergonha como mecanismo de coesão, percebe-se que sem a vergonha in voga, o custo de manter a ordem social recai integralmente sobre o aparato repressivo, e a vida em comum degenera em cálculo de conveniência. Por isso, deve-se tratar a vergonha não como inibição patológica, mas, como virtude cívica e espiritual – a "vergonha boa", aquela que só se viceja naquele que já internalizou um padrão de conduta orientado ao outro, como o "homem-aço".

 

A “vergonha boa" é aquela que sobrevive à ausência de público – é o autojuízo, não o medo do ridículo. A civilidade não se sustenta por lei externa, ao contrário, é robustecida por uma moral interiorizada, sua erosão é o sintoma mais visível de uma sociedade que perdeu o sentido do compromisso. A pesquisa em psicologia moral confirma essa distinção: Pitt-Rivers (1965) separa a honra exterior (reputação, o que os outros pensam) da honra interior (a virtude como disposição permanente). O “homem-aço” se curva unicamente ao Pai das Luzes (Tiago 1:17).

 

O trabalho de Harkot-de-La-Taille e colaboradores (2002, SciELO) radica: “a vergonha opera simultaneamente como controle externo (o olhar do outro) e controle interno (a consciência da disjunção entre a imagem que se projeta e a imagem que se almeja). Quando a vergonha é apenas externa, ela se esgota na performance social – é o que o trecho chama de "jogo de puras conveniências". Quando é interna, ela se torna regulador moral: a pessoa age ou não age antes de qualquer audiência, porque a "boa imagem" já está inscrita na sua identidade, com uma digital.

 

A preservação da integridade e do senso de decência é o ato definitivo de luta contra a desumanização moderna. A "economia da vergonha" virou moeda de troca cultural – quem age sem constrangimento é premiado com visibilidade, enquanto quem preserva limites é marginalizado como "repressivo" ou "antiquado". Na cultura contemporânea, especialmente em contextos digitais, o "sem-vergonha" é celebrado como sinal de liberdade, ousadia, autenticidade. A formulação da pertinaz "resistência" já captura bem essa assimetria de poder.

 

A vergonha depende, mesmo que parcialmente, do olhar do outro (como La Taille reconhece), então "preservá-la" exige um outro que ainda julgue – ou seja, requer uma comunidade moral mínima. Sem esse outro, a vergonha vira auto-flagelação solitária, e a "resistência" perde seu alvo. A integridade não é uma conquista absoluta, mas, uma resistência contínua contra uma pressão constante (o egoísmo, o descaramento, a imoralidade "efusivamente promovida". Esse outro (a comunidade, a tradição, a consciência coletiva) ainda existe – a tarefa é não o destruir.

 

É por isso que o "homem-aço" que preserva o seu âmago intacto torna-se uma figura tão vital quanto rara: ele atua como um dique de contenção contra a barbárie do egoísmo, provando que a integridade não é uma utopia, mas, uma escolha consciente de preservação da nossa própria humanidade. Preservar a vergonha, é o mais corajoso ato de resistência em um mundo que insiste em premiar o descaramento, em alimentar vilipêndios de toda ordem de amoralidade e em promover efusivamente as mais inescrupulosas imoralidades que desumanizam o homem.

 

Se a vergonha tem um valor incalculável, é porque funciona como a guardiã silenciosa da dignidade que ainda teima em restar em nós. Ao final, a história não se lembrará daqueles que triunfaram pela via rápida da desonra, mas sim, recorda e cultua os tantos que, feitos da têmpera do "homem-aço", mantiveram-se firmes diante das próprias fraquezas. É na consistência desse caráter inabalável que se constrói o verdadeiro patrimônio humano: um exemplo vivo que atravessa o tempo, educa o porvir e garante que o futuro ainda guarde espaço para a decência.

 

Maranguape, Ceará, 26 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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