sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O MALHO DO TEMPO E O FOGO DA ALMA

 

Última sexta-feira de setembro de 2026, curiosamente o dia amanhece nublado e um friozinho bastante aprazível a quem foi criado na forja dos Inhamuns, ao sabor do malho do tempo que tem no frescor da Chapada do Araripe o providencial arrefecimento do “homem-aço” a quem molda.  Um aço feito por Deus para curvar-se somente a ele, pois, dele somos empréstimos ao mundo. Cumpre-nos, portanto, a missão de refletir a beleza de seu trono por onde andarmos e com quem estivermos, manifestando em nossos feitos e efeitos sua divina essência.

 

O sertão com um toque suave retrata com fidedignidade o clima de transição que o país vive nesta época: manhãs nubladas, friozinho agradável, especialmente no Sul e Sudeste, enquanto no Nordeste o sol ainda predomina – um reflexo de que até o aço mais firme sabe apreciar o valor de uma calmaria. O aço que se curva apenas a Deus é, ao mesmo tempo, forte e humilde – resistente sem ser rígido, firme sem ser arrogante. É um retrato do caráter forjado – não moldado por conveniência –  para dar testemunho de si ao mundo pelo exemplo.

 

Quem é criado na forja dos Inhamuns sabe que o tempo não é relógio, nem calendário. É o malho. É o peso que cai, dia após dia, sobre a matéria bruta do homem, e que a cada golpe retira um pedaço do que não é essencial. O que sobra, depois de tanto martelar, é o que resta de aço. O "homem-aço" traduz perfeitamente a resiliência e a espiritualidade de quem reconhece sua origem e o seu propósito maior: humildade, missão e integridade. Somos, afinal, um aço legítimo. Um metal refinado no cadinho da provação diária em busca da aprovação de Deus.

 

Diante das tempestades do mundo ou da soberba dos homens, permanecemos hígidos, retos, pois, sabemos que somos meros empréstimos à vastidão da terra. Não nos pertencemos; somos guardiões temporários de um sopro divino. Um empréstimo não é posse; é trânsito. Portanto, passamos, e o que nos foi dado deve ser devolvido em forma de beleza. Não a beleza do ornamento, mas a do feito: o trabalho bem-feito, a palavra dita no momento certo, o gesto que alivia sem que se perceba quem o fez. A luz que acendemos no outro.

 

Essa é missão silenciosa assumida pelo homem-aço: ser espelho por onde andarmos, com que estivermos, em quem formos. O trono de Deus não se reflete em catedrais de pedra – reflete-se no homem que, forjado no Inhamuns e temperado na Chapada do Araripe, sai ao mundo com o aço já curvo na direção certa. Não se dobra ao vento. Dobra-se à vontade d’Aquele que o fez. Purificado pelo fogo – que simboliza o calor das paixões dominadas, o fervor espiritual e a maturidade intelectual, manifesta a ardente vontade de vencer os vícios e aperfeiçoar o ser.

 

Na juventude ou no início do desenvolvimento pessoal, as "paixões" (raiva, impulsividade, desejos intensos, ego) costumam ser avassaladoras e controlam firmemente as ações do indivíduo. Falar em "paixões dominadas" não significa, em momento algum, extinguir o sentimento ou tornar-se frio, mas sim, canalizar essa energia interna de forma consciente. O "calor" ainda existe (a força vital, o entusiasmo), porém, agora ele é controlado pela vontade do indivíduo, e não o contrário. É a transição do impulso para a temperança.

 

Na tradição aristotélica, a temperança não é ausência de paixão, mas o meio-termo entre o excesso e a deficiência – o homem virtuoso já quer o que é bom: a paixão e a vontade convergem.  O enkrátēs (o continente, aquele que se domina com esforço) ainda guerreia consigo mesmo; a cada dia, a paixão vence e ele a reprime. O temperante não luta contra a paixão a cada instante. Ele é temperante – a disposição está sedimentada. A virtude moral é hexis, o modo como alguém se mantém ao agir – é uma condição ativa e sustentada do caráter.

 

Essencialmente, o autodomínio não tem por intento apagar o fogo vital, mas, aprender a geri-lo para evitar a destruição desnecessária. A raiva e a impulsividade contêm uma força de ação formidável que, quando refinada pela lucidez, torna-se coragem e abnegação. Ele representa o momento em que a mente assume o leme, transformando reações automáticas em respostas deliberadas. Nietzsche reforça: "Domínio das paixões, e não enfraquecimento ou extirpação das paixões. Quanto maior é a força do querer, tanto mais liberdade damos às paixões."

 

Do ponto de vista neurobiológico, o córtex pré-frontal – responsável pelo controle inibitório e pela regulação emocional – só atinge maturidade plena por volta dos 25 anos. Antes disso, o sistema límbico (especialmente a amígdala) predomina, o que explica a juventude marcada por impulsos mais avassaladores e menos modulados. A distinção entre dominar e extinguir é a que separa a regulação emocional saudável da repressão. É a passagem do egkratés (quem se domina com esforço) ao virtuoso (para quem o domínio se tornou segunda natureza).

 

A transição do impulso à temperança não é uma vitória episódica, mas, a formação de uma nova arquitetura afetiva. Na Ética (de Espinoza), um afeto é paixão quando a mente não é sua causa adequada – quando algo externo nos afeta e nós meramente sofremos o efeito.  É ação quando a mente é a causa adequada – quando o afeto decorre de nossa própria natureza. A mesma energia – o desejo, a raiva, o entusiasmo – permanece, mas, agora é causada por mim, não sobre mim. O fogo continua ardendo; o que muda é que ele queima na minha lareira, não na minha casa.

 

Essa transição é a passagem do pathos (o que me acontece) ao ethos (o modo como me mantenho). Não é o frio do estoico que apaga o fogo; é o ferreiro que aprende a moldar o fogo. A forja continua acesa. O que mudou é que o metal agora toma a forma que a mão – a vontade informada pela razão – lhe dá. Na tradição agostiniana, a raiva pode ser a matéria-prima da justiça; o desejo, da generosidade; o entusiasmo, da coragem. O que a torna boa ou má não é sua existência, mas, sua ordem à razão. Uma ordem que imprime (auto)disciplina e (auto)respeito.

 

A transição do impulso à temperança, vista socialmente, não é o indivíduo "conquistando" a si mesmo, ao contrário, é ele aprendendo, em relação com os outros, a ler o contexto e calibrar respostas. O "calor" permanece – mas, agora é socialmente informado. A vontade que domina não é uma força interior solitária; é o produto de uma história de interações nas quais se aprendeu, por reforço, modelagem e linguagem, quando o fogo serve e quando ele queima a casa. O fogo, no fim, nunca foi o inimigo – foi sempre a ferramenta.

 

Neste toar, o homem-aço dos Inhamuns – que acrescenta a força à intenção espiritual: não é forte porque a terra o fez, mas, forte porque escolheu o que a terra lhe tirou como caminho. A diferença é a humildade – o reconhecimento de que o malho não é dele, que o fogo não é dele, que o que sobra é dádiva, não conquista. A forja transforma o sertanejo (que é vítima do meio, na leitura determinista de Euclides da Cunha) em aço legítimo (que é produto de uma relação consciente com a provação, sob a soberania de Deus). Por isso, o homem-aço não inicia empresa alguma sem antes rogar os auspícios do seu Criador.

 

Maranguape, Ceará, 25 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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