quinta-feira, 24 de setembro de 2026

IRMÃOS IN ACTO

 

Há dias que começam como todos os outros, mas, que por alguma razão que a razão nem sempre consegue explicar, terminam diferentes. Não porque alguma coisa extraordinária tenha necessariamente acontecido, mas, porque encontramos pessoas diante das quais a vida parece recuperar uma parte de sua verdade.

 

Hoje é um grande dia.

 

Não necessariamente porque o calendário assim determine, nem porque alguma solenidade esteja inscrita nos compromissos da jornada. É grande porque há encontro. E talvez seja essa uma das mais belas dimensões da existência humana: encontrar-se.

 

Reúno-me com a família.

 

E quando digo família, não falo apenas daquela que recebemos ao nascer. Falo também daquela que a vida nos permite escolher pelo vínculo da afeição, da lealdade e da fraternidade.

 

É assim que vejo meus irmãos.

 

Homens diferentes entre si, com histórias diferentes, profissões diferentes, temperamentos diferentes, sonhos diferentes e, muitas vezes, opiniões diferentes. Homens que talvez jamais se encontrassem em outra circunstância, não fosse a mão invisível de um propósito comum.

 

No entanto, quando nos encontramos em loja aberta, algo parece nos colocar diante de uma mesma medida.

 

Ali, nenhum de nós é maior por aquilo que possui, nem menor por aquilo que lhe falta.

 

O homem entra com seu nome profano e encontra outro homem que também traz consigo suas dores, suas esperanças, seus acertos e suas imperfeições. Em loja, porém, somos todos convidados a trabalhar a mesma pedra: a nós próprios.

 

Esta é uma das mais belas dimensões da Maçonaria.

 

Ela não promete ao homem um mundo sem imperfeições. Ensina-o, antes, a aperfeiçoar a si mesmo para que possa participar da construção de um mundo melhor.

 

E isso é muito mais difícil.

 

É fácil apontar a pedra que está fora do lugar.

 

Difícil é reconhecer aquela que pesa dentro de nós.

 

É fácil falar da virtude.

 

Difícil é praticá-la quando ninguém está olhando.

 

É fácil proclamar fraternidade.

 

Difícil é estender a mão justamente quando o orgulho recomenda que permaneçamos de braços cruzados.

 

É fácil chamar alguém de irmão.

 

Difícil é comportar-se como irmão.

 

Talvez por isso eu tenha pensado numa expressão tão singela e, ao mesmo tempo, tão provocadora: irmãos in acto.

 

Irmãos em ato.

 

Porque a fraternidade não deveria ser apenas palavra pronunciada em uma sessão, saudação repetida entre colunas ou fórmula gravada em algum lugar do templo. Fraternidade precisa de movimento. Precisa de gesto. Precisa de presença.

 

A fraternidade acontece quando um irmão percebe que o outro precisa de um abraço antes mesmo que ele peça.

 

Acontece quando uma mão se estende sem perguntar o que receberá em troca.

 

Acontece quando se preserva a honra de um irmão ausente.

 

Acontece quando se aconselha sem humilhar.

 

Quando se corrige sem ferir.

 

Quando se perdoa sem transformar o perdão em moeda de cobrança.

 

Quando se ajuda sem fazer da ajuda um monumento à própria vaidade.

 

Porque a verdadeira fraternidade é discreta.

 

Ela não precisa de plateia.

 

❖

 

Entre um abraço aqui e outro ali, confirmamos o fato.

 

Somos irmãos.

 

E talvez um dos grandes equívocos do nosso tempo seja imaginar que a amizade verdadeira precisa de muitas explicações.

 

Não precisa.

 

Há amizades que se explicam pelo tempo.

 

Outras, pela fidelidade.

 

Outras, simplesmente pelo silêncio confortável de quem sabe que não precisa representar diante do outro.

 

A Maçonaria, quando compreendida em sua essência, é uma ambiência de autenticidade.

 

Não porque seus adeptos sejam perfeitos — não são —, mas porque seu método lembra-os constantemente de que ainda estão em construção.

 

A pedra bruta é uma imagem poderosa justamente por isso.

 

O homem não chega pronto.

 

Nenhum de nós chega.

 

Carregamos arestas.

 

Algumas são visíveis. Outras escondem-se tão profundamente que passamos anos acreditando que fazem parte da nossa natureza.

 

A Maçonaria nos convida ao trabalho.

 

Malho.

 

Cinzel.

 

Régua.

 

Esquadro.

 

Compasso.

 

Não como simples objetos, mas, como lembranças permanentes de que a construção moral envolve disciplina.

 

O homem precisa medir seus passos.

 

Precisa esquadrinhar suas ações.

 

Precisa reconhecer limites.

 

Precisa aprender a golpear a própria pedra sem destruí-la.

 

Precisa retirar excessos sem perder a essência.

 

O maior trabalho de todos nós é aquele que não produz ruído algum: vencer, pouco a pouco, aquilo que dentro de nós insiste em ser maior do que deveria.

 

A vaidade.

 

Ah, a vaidade!

 

Ela é uma companheira perigosa.

 

Às vezes, veste-se de autoridade.

 

Noutras, de conhecimento.

 

Até mesmo de virtude.

 

Pode entrar no templo elegantemente vestida e sentar-se entre nós sem que a percebamos.

 

Por isso a Maçonaria precisa ser, antes de qualquer coisa, um exercício permanente de vigilância sobre o próprio homem.

 

Porque aquele que aprende símbolos, mas, não transforma a própria conduta, talvez tenha aprendido a linguagem do templo sem compreender sua mensagem.

 

A régua pode ensinar equilíbrio, mas, quem deve tornar-se equilibrado é o homem.

 

O esquadro pode lembrar a retidão, mas, quem precisa andar reto é o maçom.

 

O compasso pode falar de limites, mas, quem precisa conhecer seus limites é aquele que o segura.

 

O templo é importante.

 

Os símbolos são importantes.

 

Os rituais são importantes.

 

Porém, todos eles apontam para algo que está além deles: o aperfeiçoamento humano.

 

❖

 

Fidedigna amizade festeja a verdade.

 

E aqui está outro dos grandes desafios da fraternidade.

 

A amizade verdadeira não é aquela que concorda com tudo.

 

É aquela que permanece quando a verdade precisa ser dita.

 

Há uma diferença enorme entre bajulação e fraternidade.

 

A bajulação preserva o conforto.

 

A fraternidade preserva o homem.

 

Por vezes, amar um irmão é dizer-lhe aquilo que ele não gostaria de ouvir.

 

Não para diminuí-lo, mas, para ajudá-lo a enxergar uma imperfeição que sozinho talvez não consiga perceber.

 

A verdadeira fraternidade não alimenta a vaidade.

 

Dissipa-a.

 

E isso pode doer.

 

Toda lapidação produz alguma dor.

 

Toda transformação exige alguma renúncia.

 

No entanto, que espécie de construtor seríamos se amássemos tanto a pedra bruta a ponto de jamais aceitarmos trabalhá-la?

 

A Maçonaria nos recorda que não basta desejar ser melhor.

 

É necessário trabalhar para isso.

 

Todos os dias.

 

Talvez por isso a virtude seja apresentada como luz.

 

Não uma luz que simplesmente ilumina o caminho dos outros, mas, aquela que primeiro revela aquilo que somos.

 

A luz também mostra imperfeições.

 

E esse o seu maior mérito.

 

Quem deseja verdadeiramente caminhar na direção da virtude precisa aceitar ser iluminado por dentro.

 

Precisa olhar para si sem a maquiagem do orgulho.

 

Precisa perguntar:

 

Que espécie de homem estou me tornando?

 

Não:

 

“Quantos títulos conquistei?”

 

Não:

 

“Quantas pessoas reconhecem meu nome?”

 

Não:

 

“Quanto sei?”

 

Mas:

 

“Quanto daquilo que aprendi transformei em vida?”

 

Essa pergunta talvez seja uma das mais maçônicas que possamos fazer a nós mesmos.

 

❖

 

Cultivar o amor é a virtuosidade-mor.

 

Há algo profundamente revolucionário nessa ideia em um mundo que tantas vezes confunde força com dureza, inteligência com superioridade e sucesso com acumulação.

 

Amar é uma forma de construir.

 

Amar o irmão.

 

Amar a família.

 

Amar a verdade.

 

Amar o trabalho.

 

Amar a justiça.

 

Amar a própria humanidade, inclusive quando ela se apresenta imperfeita.

 

Não se trata de um amor ingênuo.

 

O amor maçônico, entendido como princípio de fraternidade, não deveria ser cego diante do erro. Pelo contrário: deveria ser suficientemente lúcido para combater o erro sem transformar o errante em inimigo.

 

Talvez seja essa uma das tarefas mais difíceis do homem civilizado: discordar sem odiar.

 

Corrigir sem destruir.

 

Defender princípios sem perder a humanidade.

 

Afinal, de que valeria construir grandes templos se não conseguíssemos construir um pouco de paz dentro de nós?

 

De que valeria conhecer antigas palavras se continuássemos escravos das mesmas paixões?

 

De que valeria vestir o avental se não aprendêssemos a servir?

 

A Maçonaria não pode ser apenas uma experiência estética, ritualística ou social.

 

Ela precisa ser uma experiência de transformação.

 

Caso contrário, corre o risco de tornar-se apenas aparência.

 

E a pedra, por mais bela que seja, continua sendo pedra enquanto não participa da construção.

 

❖

 

Então compreendo melhor meu verso:

 

“Encanto do coração, guiando a razão.”

 

É isso que a fraternidade faz quando alcança sua forma mais elevada.

 

Ela não elimina a razão.

 

Aperfeiçoa-a.

 

Nem nos transforma em alguém incapaz de discordar.

 

Ensina-o a discordar sem deixar de reconhecer no outro um ser humano digno de respeito.

 

A razão sem fraternidade pode tornar-se fria.

 

O sentimento sem razão pode perder o rumo.

 

Porém, quando coração e razão caminham juntos, encontramos uma espécie de equilíbrio que nenhuma riqueza material consegue comprar.

 

É o próprio paraíso.

 

Não aquele paraíso distante, reservado a algum futuro desconhecido.

 

Mas, aquele que, de vez em quando, conseguimos construir aqui mesmo.

 

Um templo cheio de homens que se reconhecem e se aceitam como irmãos.

 

Um abraço sincero.

 

Uma palavra de reconciliação.

 

Uma mão que ajuda.

 

Um silêncio que evita uma ferida.

 

Um conselho oferecido no momento certo.

 

Uma presença que diz, sem necessidade de discurso:

 

“Estou aqui.”

 

Talvez o paraíso seja menos um lugar e mais uma forma de convivência.

 

❖

 

No mais profundo afeto, erguemos nossa canção.

 

E quando cantamos juntos, não estamos apenas celebrando a Maçonaria.

 

Estamos celebrando a possibilidade de o homem ser melhor.

 

Porque a Maçonaria não é feita apenas de paredes, colunas, símbolos e rituais.

 

Ela é feita de homens.

 

E homens são obras inacabadas.

 

Cada irmão é uma pedra em processo de lapidação.

 

Cada encontro pode ser uma oportunidade de polimento.

 

Cada dificuldade, uma ferramenta.

 

Cada erro, uma lição.

 

Cada gesto de fraternidade, um pequeno bloco acrescentado à grande obra.

 

Por isso, a maior homenagem que possamos fazer à Maçonaria não seja falar muito sobre ela.

 

É vivê-la.

 

Ser irmão quando seria mais fácil ser indiferente.

 

Ser justo quando seria conveniente ser conivente.

 

Ser humilde quando o reconhecimento nos seduz.

 

Ser leal quando a ausência de testemunhas parece permitir a traição.

 

Ser fraterno quando a diferença nos incomoda.

 

Ser virtuoso quando ninguém nos aplaude.

 

Porque é justamente aí que a iniciação deixa de ser cerimônia e começa a tornar-se existência.

 

O verdadeiro templo não termina onde acabam suas paredes.

 

Ele acompanha o homem para casa.

 

Vai para o trabalho.

 

Senta-se à mesa com sua família.

 

Caminha pelas ruas.

 

Entra nas decisões.

 

Participa das conversas.

 

Manifesta-se na maneira como tratamos aqueles que não podem nos oferecer nada em troca.

 

É ali, no mundo profano, que o trabalho iniciado no templo precisa continuar.

 

E talvez seja por isso que, ao final de um encontro entre irmãos, quando os abraços se multiplicam e as palavras se tornam insuficientes, reste apenas uma certeza simples:

 

Não somos irmãos porque dizemos que somos.

 

Somos irmãos quando agimos como irmãos.

 

Irmãos in acto.

 

E, se existe alguma grandeza capaz de transformar uma reunião de homens em uma verdadeira família, talvez seja justamente essa: a disposição de caminhar juntos, lapidando nossas pedras, iluminando nossas consciências, dissipando nossas vaidades e cultivando, acima de todas as coisas, o amor.

 

Então podemos erguer nossa canção.

 

Sem orgulho.

 

 

Sem vaidade.

 

Sem necessidade de provar nada a ninguém.

 

Apenas com a alegria serena de quem descobriu que há riquezas que não cabem em cofres, títulos que não precisam ser escritos e tesouros que somente existem quando compartilhados.

 

E assim, entre um abraço aqui e outro ali, olhando os irmãos que a vida colocou em nosso caminho, podemos finalmente compreender o sentido daquela celebração:

 

Viva a nossa união!

 

Porque, quando a fraternidade deixa de ser palavra e se transforma em ato, a Maçonaria deixa de ser apenas aquilo que fazemos.

 

Passa a ser aquilo que somos.

 

Maranguape, Ceará, 24 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas


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