Há
dias que começam como todos os outros, mas, que por alguma razão que a razão
nem sempre consegue explicar, terminam diferentes. Não porque alguma coisa
extraordinária tenha necessariamente acontecido, mas, porque encontramos
pessoas diante das quais a vida parece recuperar uma parte de sua verdade.
Hoje
é um grande dia.
Não
necessariamente porque o calendário assim determine, nem porque alguma
solenidade esteja inscrita nos compromissos da jornada. É grande porque há
encontro. E talvez seja essa uma das mais belas dimensões da existência humana:
encontrar-se.
Reúno-me
com a família.
E
quando digo família, não falo apenas daquela que recebemos ao nascer. Falo
também daquela que a vida nos permite escolher pelo vínculo da afeição, da
lealdade e da fraternidade.
É
assim que vejo meus irmãos.
Homens
diferentes entre si, com histórias diferentes, profissões diferentes,
temperamentos diferentes, sonhos diferentes e, muitas vezes, opiniões
diferentes. Homens que talvez jamais se encontrassem em outra circunstância,
não fosse a mão invisível de um propósito comum.
No
entanto, quando nos encontramos em loja aberta, algo parece nos colocar diante
de uma mesma medida.
Ali,
nenhum de nós é maior por aquilo que possui, nem menor por aquilo que lhe
falta.
O
homem entra com seu nome profano e encontra outro homem que também traz consigo
suas dores, suas esperanças, seus acertos e suas imperfeições. Em loja, porém, somos
todos convidados a trabalhar a mesma pedra: a nós próprios.
Esta
é uma das mais belas dimensões da Maçonaria.
Ela
não promete ao homem um mundo sem imperfeições. Ensina-o, antes, a aperfeiçoar
a si mesmo para que possa participar da construção de um mundo melhor.
E
isso é muito mais difícil.
É
fácil apontar a pedra que está fora do lugar.
Difícil
é reconhecer aquela que pesa dentro de nós.
É
fácil falar da virtude.
Difícil
é praticá-la quando ninguém está olhando.
É
fácil proclamar fraternidade.
Difícil
é estender a mão justamente quando o orgulho recomenda que permaneçamos de
braços cruzados.
É
fácil chamar alguém de irmão.
Difícil
é comportar-se como irmão.
Talvez
por isso eu tenha pensado numa expressão tão singela e, ao mesmo tempo, tão
provocadora: irmãos in acto.
Irmãos
em ato.
Porque
a fraternidade não deveria ser apenas palavra pronunciada em uma sessão,
saudação repetida entre colunas ou fórmula gravada em algum lugar do templo.
Fraternidade precisa de movimento. Precisa de gesto. Precisa de presença.
A
fraternidade acontece quando um irmão percebe que o outro precisa de um abraço
antes mesmo que ele peça.
Acontece
quando uma mão se estende sem perguntar o que receberá em troca.
Acontece
quando se preserva a honra de um irmão ausente.
Acontece
quando se aconselha sem humilhar.
Quando
se corrige sem ferir.
Quando
se perdoa sem transformar o perdão em moeda de cobrança.
Quando
se ajuda sem fazer da ajuda um monumento à própria vaidade.
Porque
a verdadeira fraternidade é discreta.
Ela
não precisa de plateia.
❖
Entre
um abraço aqui e outro ali, confirmamos o fato.
Somos
irmãos.
E
talvez um dos grandes equívocos do nosso tempo seja imaginar que a amizade
verdadeira precisa de muitas explicações.
Não
precisa.
Há
amizades que se explicam pelo tempo.
Outras,
pela fidelidade.
Outras,
simplesmente pelo silêncio confortável de quem sabe que não precisa representar
diante do outro.
A
Maçonaria, quando compreendida em sua essência, é uma ambiência de
autenticidade.
Não
porque seus adeptos sejam perfeitos — não são —, mas porque seu método lembra-os
constantemente de que ainda estão em construção.
A
pedra bruta é uma imagem poderosa justamente por isso.
O
homem não chega pronto.
Nenhum
de nós chega.
Carregamos
arestas.
Algumas
são visíveis. Outras escondem-se tão profundamente que passamos anos
acreditando que fazem parte da nossa natureza.
A
Maçonaria nos convida ao trabalho.
Malho.
Cinzel.
Régua.
Esquadro.
Compasso.
Não
como simples objetos, mas, como lembranças permanentes de que a construção
moral envolve disciplina.
O
homem precisa medir seus passos.
Precisa
esquadrinhar suas ações.
Precisa
reconhecer limites.
Precisa
aprender a golpear a própria pedra sem destruí-la.
Precisa
retirar excessos sem perder a essência.
O maior
trabalho de todos nós é aquele que não produz ruído algum: vencer, pouco a
pouco, aquilo que dentro de nós insiste em ser maior do que deveria.
A
vaidade.
Ah,
a vaidade!
Ela
é uma companheira perigosa.
Às
vezes, veste-se de autoridade.
Noutras,
de conhecimento.
Até
mesmo de virtude.
Pode
entrar no templo elegantemente vestida e sentar-se entre nós sem que a
percebamos.
Por
isso a Maçonaria precisa ser, antes de qualquer coisa, um exercício permanente
de vigilância sobre o próprio homem.
Porque
aquele que aprende símbolos, mas, não transforma a própria conduta, talvez
tenha aprendido a linguagem do templo sem compreender sua mensagem.
A
régua pode ensinar equilíbrio, mas, quem deve tornar-se equilibrado é o homem.
O
esquadro pode lembrar a retidão, mas, quem precisa andar reto é o maçom.
O
compasso pode falar de limites, mas, quem precisa conhecer seus limites é
aquele que o segura.
O
templo é importante.
Os
símbolos são importantes.
Os
rituais são importantes.
Porém,
todos eles apontam para algo que está além deles: o aperfeiçoamento humano.
❖
Fidedigna
amizade festeja a verdade.
E
aqui está outro dos grandes desafios da fraternidade.
A
amizade verdadeira não é aquela que concorda com tudo.
É
aquela que permanece quando a verdade precisa ser dita.
Há
uma diferença enorme entre bajulação e fraternidade.
A
bajulação preserva o conforto.
A
fraternidade preserva o homem.
Por
vezes, amar um irmão é dizer-lhe aquilo que ele não gostaria de ouvir.
Não
para diminuí-lo, mas, para ajudá-lo a enxergar uma imperfeição que sozinho
talvez não consiga perceber.
A
verdadeira fraternidade não alimenta a vaidade.
Dissipa-a.
E
isso pode doer.
Toda
lapidação produz alguma dor.
Toda
transformação exige alguma renúncia.
No
entanto, que espécie de construtor seríamos se amássemos tanto a pedra bruta a
ponto de jamais aceitarmos trabalhá-la?
A
Maçonaria nos recorda que não basta desejar ser melhor.
É
necessário trabalhar para isso.
Todos
os dias.
Talvez
por isso a virtude seja apresentada como luz.
Não
uma luz que simplesmente ilumina o caminho dos outros, mas, aquela que primeiro
revela aquilo que somos.
A
luz também mostra imperfeições.
E esse
o seu maior mérito.
Quem
deseja verdadeiramente caminhar na direção da virtude precisa aceitar ser
iluminado por dentro.
Precisa
olhar para si sem a maquiagem do orgulho.
Precisa
perguntar:
Que
espécie de homem estou me tornando?
Não:
“Quantos
títulos conquistei?”
Não:
“Quantas
pessoas reconhecem meu nome?”
Não:
“Quanto
sei?”
Mas:
“Quanto
daquilo que aprendi transformei em vida?”
Essa
pergunta talvez seja uma das mais maçônicas que possamos fazer a nós mesmos.
❖
Cultivar
o amor é a virtuosidade-mor.
Há
algo profundamente revolucionário nessa ideia em um mundo que tantas vezes
confunde força com dureza, inteligência com superioridade e sucesso com
acumulação.
Amar
é uma forma de construir.
Amar
o irmão.
Amar
a família.
Amar
a verdade.
Amar
o trabalho.
Amar
a justiça.
Amar
a própria humanidade, inclusive quando ela se apresenta imperfeita.
Não
se trata de um amor ingênuo.
O
amor maçônico, entendido como princípio de fraternidade, não deveria ser cego
diante do erro. Pelo contrário: deveria ser suficientemente lúcido para
combater o erro sem transformar o errante em inimigo.
Talvez
seja essa uma das tarefas mais difíceis do homem civilizado: discordar sem
odiar.
Corrigir
sem destruir.
Defender
princípios sem perder a humanidade.
Afinal,
de que valeria construir grandes templos se não conseguíssemos construir um
pouco de paz dentro de nós?
De
que valeria conhecer antigas palavras se continuássemos escravos das mesmas
paixões?
De
que valeria vestir o avental se não aprendêssemos a servir?
A
Maçonaria não pode ser apenas uma experiência estética, ritualística ou social.
Ela
precisa ser uma experiência de transformação.
Caso
contrário, corre o risco de tornar-se apenas aparência.
E
a pedra, por mais bela que seja, continua sendo pedra enquanto não participa da
construção.
❖
Então
compreendo melhor meu verso:
“Encanto
do coração, guiando a razão.”
É
isso que a fraternidade faz quando alcança sua forma mais elevada.
Ela
não elimina a razão.
Aperfeiçoa-a.
Nem
nos transforma em alguém incapaz de discordar.
Ensina-o
a discordar sem deixar de reconhecer no outro um ser humano digno de respeito.
A
razão sem fraternidade pode tornar-se fria.
O
sentimento sem razão pode perder o rumo.
Porém,
quando coração e razão caminham juntos, encontramos uma espécie de equilíbrio
que nenhuma riqueza material consegue comprar.
É
o próprio paraíso.
Não
aquele paraíso distante, reservado a algum futuro desconhecido.
Mas,
aquele que, de vez em quando, conseguimos construir aqui mesmo.
Um
templo cheio de homens que se reconhecem e se aceitam como irmãos.
Um
abraço sincero.
Uma
palavra de reconciliação.
Uma
mão que ajuda.
Um
silêncio que evita uma ferida.
Um
conselho oferecido no momento certo.
Uma
presença que diz, sem necessidade de discurso:
“Estou
aqui.”
Talvez
o paraíso seja menos um lugar e mais uma forma de convivência.
❖
No
mais profundo afeto, erguemos nossa canção.
E
quando cantamos juntos, não estamos apenas celebrando a Maçonaria.
Estamos
celebrando a possibilidade de o homem ser melhor.
Porque
a Maçonaria não é feita apenas de paredes, colunas, símbolos e rituais.
Ela
é feita de homens.
E
homens são obras inacabadas.
Cada
irmão é uma pedra em processo de lapidação.
Cada
encontro pode ser uma oportunidade de polimento.
Cada
dificuldade, uma ferramenta.
Cada
erro, uma lição.
Cada
gesto de fraternidade, um pequeno bloco acrescentado à grande obra.
Por
isso, a maior homenagem que possamos fazer à Maçonaria não seja falar muito
sobre ela.
É
vivê-la.
Ser
irmão quando seria mais fácil ser indiferente.
Ser
justo quando seria conveniente ser conivente.
Ser
humilde quando o reconhecimento nos seduz.
Ser
leal quando a ausência de testemunhas parece permitir a traição.
Ser
fraterno quando a diferença nos incomoda.
Ser
virtuoso quando ninguém nos aplaude.
Porque
é justamente aí que a iniciação deixa de ser cerimônia e começa a tornar-se
existência.
O
verdadeiro templo não termina onde acabam suas paredes.
Ele
acompanha o homem para casa.
Vai
para o trabalho.
Senta-se
à mesa com sua família.
Caminha
pelas ruas.
Entra
nas decisões.
Participa
das conversas.
Manifesta-se na maneira como tratamos aqueles que não podem nos oferecer nada em troca.
É
ali, no mundo profano, que o trabalho iniciado no templo precisa continuar.
E
talvez seja por isso que, ao final de um encontro entre irmãos, quando os
abraços se multiplicam e as palavras se tornam insuficientes, reste apenas uma
certeza simples:
Não
somos irmãos porque dizemos que somos.
Somos
irmãos quando agimos como irmãos.
Irmãos in acto.
E,
se existe alguma grandeza capaz de transformar uma reunião de homens em uma
verdadeira família, talvez seja justamente essa: a disposição de caminhar
juntos, lapidando nossas pedras, iluminando nossas consciências, dissipando
nossas vaidades e cultivando, acima de todas as coisas, o amor.
Então
podemos erguer nossa canção.
Sem
orgulho.
Sem
vaidade.
Sem
necessidade de provar nada a ninguém.
Apenas
com a alegria serena de quem descobriu que há riquezas que não cabem em cofres,
títulos que não precisam ser escritos e tesouros que somente existem quando
compartilhados.
E
assim, entre um abraço aqui e outro ali, olhando os irmãos que a vida colocou
em nosso caminho, podemos finalmente compreender o sentido daquela celebração:
Viva a nossa união!
Porque,
quando a fraternidade deixa de ser palavra e se transforma em ato, a Maçonaria
deixa de ser apenas aquilo que fazemos.
Passa
a ser aquilo que somos.
Maranguape,
Ceará, 24 de Setembro de 2026
Bruno
Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado
à ACI - Associação Cearense de Imprensa
Associado
à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

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