quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O SEQUESTRO DO HOMEM PELA PRÓPRIA SOMBRA

 

É mais fácil ser quaisquer coisas entre cachorro e galo de rinha do que ser homem – ainda mais ser um “homem justo” – neste tempo de agora. Ao homem justo compete desde seu primeiro respirar em Terra o combate viril às paixões desreguladas que obscurecem a razão e escravizam a alma. Não se trata de um compromisso com outrem – que possa permitido o descumprimento. É um solene juramento feito a si mesmo, que se negligenciado traz ao perjúrio o maior dos deméritos: a perda de si.

 

O desejo de superioridade e a busca por glória vazia, sob a tirania do orgulho demente e da insana vaidade, conduz as massas humanas a praticarem os mais terríveis atos contra a civilidade, solapando as bases estruturais da humanidade, dentre os quais a supressão das liberdades individuais e a destruição das instituições democráticas para alimentar o ego e o controle de autocratas, além do massacre e da marginalização de minorias sob o pretexto de “suposta” superioridade racial, cultural ou religiosa.

 

Esses comportamentos solapam as bases da humanidade porque substituem a empatia, o diálogo e a justiça pelo narcisismo coletivo e pela força bruta na forma de coerção psicológica, institucional, econômica e/ou verbal que envolve a imposição de vontade, controle ou submissão por meio de pressão, restrição de direitos ou intimidação, sem que haja contato corporal ou agressão física direta. Tudo que silencia direitos, turva a melhor visão dos fatos e emudece a voz.

 

A ambição desmedida num desembesto pior do que a porca parida, a busca pelo poder e pela riqueza a qualquer custo, atropelando o bem comum e estabelecendo a degradação dos valores morais, em que os fins justificam os meios, validando a corrupção, a desonestidade e a quebra dos laços de solidariedade e de cooperação, fundamentais para a manutenção de uma sociedade equilibrada. Uma ambiência onde os interesses individuais se sobrepõem categoricamente às necessidades da coletividade.

 

No fim, essa ganância cega não gera vencedores, mas sim, uma sociedade espiritualmente falida, escrava de um banquete que jamais será capaz de saciá-la. Perpetua-se, assim, um ciclo autodestrutivo que sacrifica o futuro coletivo no altar do privilégio individual – um cenário de terra arrasada onde o sucesso material se edifica sobre a ruína da própria humanidade – arraigando uma tirania invisível que deixa um rastro de destruição que consome a dignidade e os laços sociais.

 

O descontrole emocional destrói a fraternidade e a harmonia social sob a tutela da ira e da vingança que avassalam a consciência de cultos e de incultos, nivelando-os na vala dos comuns, onde arquitetam juntos a derrocada de tudo que é humano no homem que, perdendo a dignidade, cocria com outros flagelos da sã moral e da razão um cenário de degradação onde os valores humanos e espirituais são completamente desfeitos, a consciência humana é obscurecida e a barbárie reina.

 

Quando o descontrole "avassala a consciência de cultos e de incultos, nivelando-os” permite evocar o Sequestro da Razão descrito por Daniel Goleman como o momento em que a amígdala (o centro emocional do cérebro) detecta uma ameaça percebida e assume o controle do comportamento antes que o córtex pré-frontal (a área responsável pela lógica, planejamento e civilidade) consiga processar a situação. Quando a ira atinge o seu ápice, a capacidade de reflexão lógica é desativada.

 

Neste auspício uma pessoa, ainda que altamente instruída ("culta") e/ou uma sem instrução formal alguma ("inculta") reagem de forma idêntica sob o efeito da fúria cega: ambas regressam aos impulsos biológicos mais primitivos de luta ou fuga. O repertório cultural é anulado pelo instinto. A vingança emerge e opera como uma tentativa distorcida de restaurar a justiça ou o ego ferido. Reina a barbárie: a agressão gera o alívio temporário, mas perpetua o conflito, destruindo a "harmonia social”.

 

Em sede de bárbaros, a centralização do indivíduo em si mesmo, ignorando as necessidades do próximo, patrocina a solitude, a apatia e o desrespeito ao humano não importando a idade do homem. Quando a sociedade prioriza o ego em detrimento do coletivo, ela fragmenta o tecido social e desumaniza as relações, independentemente da geração ou fase da vida do indivíduo. Neste momento, o outro deixa de ser sujeito de direitos - e de afetos - e passa a obstar o desenvolvimento coletivo.

 

Vige a tutela de juízos preconcebidos e de dogmas cegos que impedem o livre-pensamento, a evolução intelectual e a verdadeira justiça, dentre os quais, a negação à busca do (auto)conhecimento, preferindo a superstição e o fanatismo, além da aceitação cega de verdades absolutas impostas, sem o crivo da razão, da ciência, nem tão pouco dos sãos princípios, que dirá, dos bons costumes. Aqui, a rejeição ao diferente, seja por motivos religiosos, raciais, políticos ou culturais, é plena.

 

Neste reino de um homem só – ora rei de suas maquinações, ora súdito das ilusões que cria –, o indivíduo abraça o fanatismo e a superstição como escudos emocionais. Sem o crivo da razão, a moralidade se corrompe. Ele pode cometer ou aplaudir atos de crueldade em nome de uma "verdade absoluta", acreditando piamente que está fazendo o bem, pois, seus critérios de certo e errado foram distorcidos pelo fanatismo, pelo ódio e pela desconfiança que destroem a capacidade de conexão humana.

 

Neste diapasão, se curte os vícios que degradam a dignidade humana, aprisionam a vontade e causticam a alma humana, dentre os quais a ilusão de que a felicidade e o valor humano estão atrelados ao que se consome – tudo se vende, tudo se compra, até a “imortalidade”; o dinheiro sempre à frente de quaisquer outras coisas – e o vício da covardia moral – o silencio – diante da injustiça para manter o aparente conforto. Eis duas grandes chagas morais que ruem a integridade e a liberdade.

 

Reverbera a voz de pensadores da sociologia ou filosofia, como Zygmunt Baumann e a Modernidade Líquida, ou a Sociedade do Espetáculo de Guy Debord, reforçando que esses comportamentos não são apenas falhas éticas, mas, processos de autodestruição que corroem a essência do ser humano de dentro para fora. Nesta contemporaneidade, vive-se refém de projeções ilusórias em sede da mercantilização da vida que dissolve por completo o que resta de humanidade – sacrifica a identidade do homem em troca de uma aceitação efêmera.

 

Não perdendo a si mesmo neste mar de ilusões, dele emerge vencedor o “homem justo” (que purificado pela água, elemento que simboliza a limpeza das impurezas, a humildade e a suavidade necessárias para continuar o (auto)aperfeiçoamento), avança a passos firmes em sua jornada em busca da luz da sabedoria que o capacita a cumprir com fidedignidade os compromissos firmados solenemente consigo mesmo em presença do Criador, sendo sempre o fiel espelho daquele que o criou.

 

Ser homem, verdadeiramente homem, é justamente a mais árdua das iniciações: vencer a si mesmo quando o mundo oferece o aplauso da vaidade; conservar a razão quando a multidão se entrega à fúria; permanecer justo quando a injustiça parece mais cômoda; e escolher a fraternidade quando o ódio se apresenta como caminho fácil. O “homem justo” não é aquele que jamais conhece a sombra, mas aquele que, reconhecendo-a em si, não lhe permite governar sua consciência.


Lavrar diariamente a própria pedra, domar as paixões, purificar o coração e submeter o desejo à razão, sabendo que nenhum poder exterior será maior que a liberdade daquele que aprendeu a governar a si mesmo, é o dever primaz de todo aquele que busca a verdadeira luz, pois, somente aquele que permanece senhor da própria consciência pode caminhar livre entre os homens, digno diante de si, fraterno diante do próximo e dignamente aprovado diante do Grande Arquiteto do Universo.

 

Maranguape, Ceará, 24 de Setembro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macêdo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE

Associado à ACI - Associação Cearense de Imprensa

Associado à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

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