É mais fácil ser
quaisquer coisas entre cachorro e galo de rinha do que ser homem – ainda mais ser
um “homem justo” – neste tempo de agora. Ao homem justo compete desde seu
primeiro respirar em Terra o combate viril às paixões desreguladas que
obscurecem a razão e escravizam a alma. Não se trata de um compromisso com outrem
– que possa permitido o descumprimento. É um solene juramento feito a si mesmo,
que se negligenciado traz ao perjúrio o maior dos deméritos: a perda de si.
O desejo de superioridade
e a busca por glória vazia, sob a tirania do orgulho demente e da insana
vaidade, conduz as massas humanas a praticarem os mais terríveis atos contra a civilidade,
solapando as bases estruturais da humanidade, dentre os quais a supressão das
liberdades individuais e a destruição das instituições democráticas para
alimentar o ego e o controle de autocratas, além do massacre e da marginalização de
minorias sob o pretexto de “suposta” superioridade racial, cultural ou
religiosa.
Esses comportamentos
solapam as bases da humanidade porque substituem a empatia, o diálogo e a
justiça pelo narcisismo coletivo e pela força bruta na forma de coerção
psicológica, institucional, econômica e/ou verbal que envolve a imposição de
vontade, controle ou submissão por meio de pressão, restrição de direitos ou
intimidação, sem que haja contato corporal ou agressão física direta. Tudo que
silencia direitos, turva a melhor visão dos fatos e emudece a voz.
A ambição desmedida num desembesto
pior do que a porca parida, a busca pelo poder e pela riqueza a qualquer custo,
atropelando o bem comum e estabelecendo a degradação dos valores morais, em que
os fins justificam os meios, validando a corrupção, a desonestidade e a quebra
dos laços de solidariedade e de cooperação, fundamentais para a manutenção de
uma sociedade equilibrada. Uma ambiência onde os interesses individuais se
sobrepõem categoricamente às necessidades da coletividade.
No fim, essa ganância
cega não gera vencedores, mas sim, uma sociedade espiritualmente falida,
escrava de um banquete que jamais será capaz de saciá-la. Perpetua-se, assim, um
ciclo autodestrutivo que sacrifica o futuro coletivo no altar do privilégio
individual – um cenário de terra arrasada onde o sucesso material se edifica
sobre a ruína da própria humanidade – arraigando uma tirania invisível que
deixa um rastro de destruição que consome a dignidade e os laços sociais.
O descontrole emocional destrói
a fraternidade e a harmonia social sob a tutela da ira e da vingança que
avassalam a consciência de cultos e de incultos, nivelando-os na vala dos
comuns, onde arquitetam juntos a derrocada de tudo que é humano no homem que, perdendo
a dignidade, cocria com outros flagelos da sã moral e da razão um cenário de
degradação onde os valores humanos e espirituais são completamente desfeitos, a
consciência humana é obscurecida e a barbárie reina.
Quando o descontrole
"avassala a consciência de cultos e de incultos, nivelando-os” permite
evocar o Sequestro da Razão descrito por Daniel Goleman como o momento em que a
amígdala (o centro emocional do cérebro) detecta uma ameaça percebida e assume
o controle do comportamento antes que o córtex pré-frontal (a área responsável
pela lógica, planejamento e civilidade) consiga processar a situação. Quando a
ira atinge o seu ápice, a capacidade de reflexão lógica é desativada.
Neste auspício uma pessoa,
ainda que altamente instruída ("culta") e/ou uma sem instrução formal
alguma ("inculta") reagem de forma idêntica sob o efeito da fúria
cega: ambas regressam aos impulsos biológicos mais primitivos de luta ou fuga. O
repertório cultural é anulado pelo instinto. A vingança emerge e opera como uma
tentativa distorcida de restaurar a justiça ou o ego ferido. Reina a barbárie: a
agressão gera o alívio temporário, mas perpetua o conflito, destruindo a
"harmonia social”.
Em sede de bárbaros, a
centralização do indivíduo em si mesmo, ignorando as necessidades do próximo,
patrocina a solitude, a apatia e o desrespeito ao humano não importando a idade
do homem. Quando a sociedade prioriza o ego em detrimento do coletivo, ela
fragmenta o tecido social e desumaniza as relações, independentemente da
geração ou fase da vida do indivíduo. Neste momento, o outro deixa de ser sujeito
de direitos - e de afetos - e passa a obstar o desenvolvimento coletivo.
Vige a tutela de juízos
preconcebidos e de dogmas cegos que impedem o livre-pensamento, a evolução
intelectual e a verdadeira justiça, dentre os quais, a negação à busca do (auto)conhecimento,
preferindo a superstição e o fanatismo, além da aceitação cega de verdades
absolutas impostas, sem o crivo da razão, da ciência, nem tão pouco dos sãos princípios,
que dirá, dos bons costumes. Aqui, a rejeição ao diferente, seja por motivos
religiosos, raciais, políticos ou culturais, é plena.
Neste reino de um homem
só – ora rei de suas maquinações, ora súdito das ilusões que cria –, o
indivíduo abraça o fanatismo e a superstição como escudos emocionais. Sem o
crivo da razão, a moralidade se corrompe. Ele pode cometer ou aplaudir atos de
crueldade em nome de uma "verdade absoluta", acreditando piamente que
está fazendo o bem, pois, seus critérios de certo e errado foram distorcidos
pelo fanatismo, pelo ódio e pela desconfiança que destroem a capacidade de conexão
humana.
Neste diapasão, se curte os
vícios que degradam a dignidade humana, aprisionam a vontade e causticam a alma
humana, dentre os quais a ilusão de que a felicidade e o valor humano estão
atrelados ao que se consome – tudo se vende, tudo se compra, até a “imortalidade”;
o dinheiro sempre à frente de quaisquer outras coisas – e o vício da covardia
moral – o silencio – diante da injustiça para manter o aparente conforto. Eis duas
grandes chagas morais que ruem a integridade e a liberdade.
Reverbera a voz de
pensadores da sociologia ou filosofia, como Zygmunt Baumann e a Modernidade
Líquida, ou a Sociedade do Espetáculo de Guy Debord, reforçando que
esses comportamentos não são apenas falhas éticas, mas, processos de
autodestruição que corroem a essência do ser humano de dentro para fora. Nesta
contemporaneidade, vive-se refém de projeções ilusórias em
sede da mercantilização da vida que dissolve por completo o que resta de
humanidade – sacrifica a identidade do homem em troca de uma aceitação efêmera.
Não perdendo a si mesmo
neste mar de ilusões, dele emerge vencedor o “homem justo” (que purificado pela
água, elemento que simboliza a limpeza das impurezas, a humildade e a suavidade
necessárias para continuar o (auto)aperfeiçoamento), avança a passos firmes em sua
jornada em busca da luz da sabedoria que o capacita a cumprir com fidedignidade
os compromissos firmados solenemente consigo mesmo em presença do Criador, sendo
sempre o fiel espelho daquele que o criou.
Ser homem,
verdadeiramente homem, é justamente a mais árdua das iniciações: vencer a si
mesmo quando o mundo oferece o aplauso da vaidade; conservar a razão quando a
multidão se entrega à fúria; permanecer justo quando a injustiça parece mais
cômoda; e escolher a fraternidade quando o ódio se apresenta como caminho
fácil. O “homem justo” não é aquele que jamais conhece a sombra, mas aquele
que, reconhecendo-a em si, não lhe permite governar sua consciência.
Lavrar diariamente a
própria pedra, domar as paixões, purificar o coração e submeter o desejo à
razão, sabendo que nenhum poder exterior será maior que a liberdade daquele que
aprendeu a governar a si mesmo, é o dever primaz de todo aquele que busca a
verdadeira luz, pois, somente aquele que permanece senhor da própria
consciência pode caminhar livre entre os homens, digno diante de si, fraterno
diante do próximo e dignamente aprovado diante do Grande Arquiteto do Universo.
Maranguape, Ceará, 24 de
Setembro de 2026
Bruno Bezerra de Macêdo,
o Matuto do Carrasco
Jornalista – Portador do
CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado à ACI -
Associação Cearense de Imprensa
Associado à ACEJ –
Associação Cearense de Jornalistas

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