“Não
me ensines coisas vãs, pois, é mal o que tu me ensinas”, preceitua Bento de Núrsia
– nascido no Nórsia ou Núrsia (Úmbria, Itália), Reino Ostrogótico, 2 de março
de 480 – falecido na Abadia de Monte Cassino (Casinum, Itália) 21 de março de
547. Bento, e seus ensinamentos, foram alavancas poderosas, após o
declínio da civilização romana, para o nascimento da cultura europeia; são a
premissa para a difusão de centros de oração e de hospitalidade. Não foram
apenas o farol do monacato, mas também, uma fonte providencial para peregrinos
e pobres.
Bento
considera que “o ócio é inimigo da alma”. Segundo Bento, oração e trabalho não
se antagonizam no augusto propósito de aprimorar o homem, pois, estabelecem
entre si brava simbiose. A oração nos leva a encontrar a Deus, cumprindo lembrar
que se primeiro em nós não encontrarmos o que buscamos, nunca o encontraremos
em lugar, afinal, conhecendo-nos intimamente conheceremos o universo e a Deus
em seu resplendor mais veraz. Devemos, pois, dedicarmo-nos, n’algumas horas do
dia, ao trabalho manual e, em outras, à leitura que propicie o desvelo destas
inefabilidades.
O
historiador Jacques Le Goff indaga: “a quais excessos as pessoas da Idade Média
teriam chegado, se esta grande e suave voz não se tivesse elevada? Uma voz
sobre a qual se deteve o grande biógrafo de exceção, Gregório Anício, nascido
em Roma, 540 e nela falecido em 12 de março de 604, conhecido como Gregório, o
Dialogador na Ortodoxia por causa de seus "Diálogos" e, por isso, tem
seu nome n’algumas obras listado como "Gregório Dialogus", numa das
quais anuncia Bento como “um astro luminoso” em uma época dilacerada por uma
grave crise de valores.
Bento
nos exorta a ouvir com o coração, à esperançosa perseverança e à disciplina: “Ouça,
filho, os ensinamentos do Mestre; dê-lhe ouvidos com o coração; receba, com
agrado, os conselhos de um pai que lhe quer bem, para se dirigir, com o rigor
da obediência, àquele do qual você se distanciou por causa da negligência e da
desobediência”. A disciplina é o ponto de partida e a capacidade de manter a
organização, o foco e a execução de hábitos positivos, mesmo quando não há
vontade ou entusiasmo para isso. É o que transforma a motivação (que costuma
ser passageira) em resultados reais.
A
perseverança é a força por trás da disciplina. Ela manifesta a capacidade de continuar
tentando apesar das adversidades, dos fracassos ou do progresso lento. É o
compromisso de "terminar o que se começa" a longo prazo. Significa
não desistir quando as coisas ficam difíceis e entender que os erros são
oportunidades de aprendizado. A perseverança (aliada à resiliência) oferece a
força mental para lidar com os imprevistos ao passo que a disciplina cria hábitos
previsíveis, rotinas sólidas e consistência diária. A disciplina reduz o
cansaço de decidir; a perseverança vence o cansaço de falhar.
Ao
ouvirmos com o coração escutamos ativa, empática e amorosamente e seguimos além
da percepção acústica de sons, assumindo uma postura de presença, compreensão e
compaixão que prioriza acolher a realidade do outro sem julgamentos. É uma
compreensão profunda que se esforça para perceber o que o outro realmente diz,
pensa e sente a partir da realidade existencial dele. É um ato de comunicação
profunda baseado na empatia, no afeto e na presença plena, que pausa
individualismos e preconceitos.
Exempla-nos
assim, Augusto dos Anjos, ao afirmar: “para iludir minha desgraça, estudo. Intimamente
sei que não me iludo”. Estes versos constituem o poema "Poema Negro"
(também conhecido como "A Santos Neto"), publicado em sua obra única,
Eu, de 1912. Reflete a tentativa de usar o conhecimento e o intelecto
como um escudo ou anestésico para a dor de existir, com a mesma intensidade que
expressa a lucidez indelével do eu-lírico, que conscientiza que a fuga pela
intelectualidade é temporária e incapaz de alterar a dura realidade da finitude
e do sofrimento humano.
A
intelectualidade pode explicar a dor, mas não é capaz de anulá-la. Ela cria uma
ilusão de controle sobre o caos, mas, falha em adiar o fim inevitável de cada
indivíduo. Romper essa defesa mental é o primeiro passo para viver de forma
autêntica. A finitude não deve ser teorizada, mas aceita como a regra
fundamental da vida. Essa consciência da finitude (mortalidade) é um claro convite
para analisarmos como investimos nosso tempo. Em vez de evitar a realidade, esse
desvelo nos permite realizar escolhas com mais presença e alinhar nossas ações
aos reais valores que norteiam a vida plena.
Bento
de Núrsia nos concita a abraçar a ideia de que o amanhã é incerto, pois, isto serve
como um antídoto para o desperdício de tempo e como um guia para uma jornada mais
autêntica e conectada aos seus ideais mais profundos. Saber que o tempo é
finito ajuda a combater o hábito de viver no automático e a valorizar o que
ocorre no "agora". Definirmos claramente o que importa, torna mais
fácil eliminar distrações fúteis, bem como, ajuda-nos a dedicar nossos esmeros
e atenção a quem e ao que realmente nutre a existência, cônscios de que o tempo
é um recurso precioso e inegociável.
Essa
perspectiva é a base do Memento Mori ("lembre-se de que você irá
morrer"). Filósofos estoicos como Sêneca e Marco Aurélio utilizavam a
contemplação da morte não como algo mórbido, mas sim, como um método prático
para afastar a ansiedade e para um viver com virtude, significado e serenidade. A
certeza real é que a vida pertence à morte. Ao aceitarmos este fato irrefutável
e inevitável, a morte passa a ser a única certeza absoluta da vida ao passo que
somos confrontados com a necessidade iminente de dar valor e sentido a cada
momento de nossa existência.
Questionar
que morte desejamos ter nos leva a não buscar apenas prever o fim físico, mas
principalmente, a definir a qualidade da trajetória a percorrer até nossa
partida para o Oriente Eterno. Isto aponta para o desejo de uma morte
consciente, cercada de sentido, onde a vida foi vivida de forma plena, com amor
e gratidão. Não significa viver em euforia constante, mas sim, com presença.
Envolve a busca por dignidade e qualidade de vida (cuidados paliativos),
para que não nos expropriemos de nosso próprio morrer. Desejar uma "boa
morte" significa desejar chegar ao fim sem o peso do "e se?"
Viver
com presença substitui o movimento mental compulsivo (pensar demais no passado
ou futuro) por uma "atenção silenciosa", permitindo a percepção e a absorção
da essência de cada momento vivenciado. Significa "dizer sim" à
realidade atual, mesmo quando não é perfeita ou bonita, oportunizando a nós
mesmos um viver que se (re)organize internamente perenemente. Envolve valorizar
conversas sem pressa, silêncio e/ou simplesmente estar com quem se ama, sendo
amado, segando o merecido o amor que soubemos semear seguindo a métrica da régua
de 24 polegadas.
Neste
influxo, alcançamos a maturidade emocional que nos capacita a dar novas perspectivas
ao que foi vivido, sem esquecermos o passado, mas, ressignificando-o. A vida,
assim, ganha um lume mais dinâmico e proeminente, pois, paramos de buscar
apenas o "prazer e a excitação" e passamos a cultivar a atenção plena
sobre o que fazemos e sentimos, e isto nos permite viver com plenitude e
apreciar o instante. Ter vivido e partido sob os próprios termos, reflete
a autonomia de um viver livre dos grilhões dos preconceitos, dos vícios e dos
erros que insistem em aprisionar incautos.
Uma
paz manifesta na sensação de que o ciclo se completou de forma digna. Esta
sensação de que o ciclo se completou de forma digna encerra uma narrativa coerente
sobre a “morte desejada”. Assumimo-nos, decididamente, como alavancas
(exemplos) para um porvir glorioso que reflete os valores, a ética e a postura
esperados de nós em ressonância com aqueles que nos margeiam em nosso caminhar
em vida. Envolve precisão, relevância, coerência e adequabilidade ao que
se nos mostra o horizonte do melhor viver humano para que, assim, gere o impacto
social positivo desejado.
Ditoso,
o exemplo retira uma ideia, valor ou conceito (como "honestidade" ou
"proatividade", etc) do campo das ideias e os materializa em uma
atitude observável, tornando a teoria tangível e compreensível. Imprescindível,
neste mister, é compreendermos que valores e virtudes não vêm exclusivamente dos
saberes materiais, pois, efusivamente emergem e se robustecem na interação
entre o sagrado (transcendente, religioso, espiritual) e o profano (cotidiano,
social, do humano), ascendendo, harmoniosamente, como regras divinas ou
construções sociais essenciais para a convivência.
“Não
há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive”,
preceitua Salomão (Eclesiastes 3:12). O bem e a felicidade têm o condão de
transcenderem o abstrato para se estabelecerem valiosos, confiáveis, precisos e
aplicáveis habitualmente em nossas ações concretas gerando valor ao passo que,
dia a dia, esculpe nossa identidade. Se a ação for boa, ela se torna um modelo
a ser seguido, sendo preferível à mera teoria, pois, a experiência vale mais
que palavras traduzindo-se em valores e em passos práticos até que se tornem
parte de quem somos.
O
filosofo André Comte-Sponville aduz que, embora os valores possam ter
surgido em contextos religiosos (sagrado), eles se tornaram patrimônio da razão
humana (profano). Notoriamente, a origem dos valores e virtudes é um dos
grandes debates da humanidade, e a resposta depende de qual "lente"
você usa para enxergar o mundo. O conceito de hierofania presente na obra de
Mircea Eliade sugere que o sagrado se manifesta no profano.
Assim, o corpo físico, comumente profano, pode ser investido de um significado
sagrado no momento da morte a ensinar as primícias da vida.
A
consciência da mortalidade é, paradoxalmente, libertadora, e nos leva a
valorizar o presente e a viver com mais propósito. Bento de Núrsia desvela que
o profano e sagrado não se separam nem mesmo na morte, posto que a experiência
humana é marcada por uma contínua união entre o ordinário (profano) e o
transcendental (sagrado), inclusive no momento final da vida. “O pó volta a
terra com o é; e o espírito volte a Deus que o deu”. (Eclesiastes 12:7),
descreve o destino físico e espiritual após a morte: o corpo (pó) se decompõe e
o espírito (sopro de vida/inteligência) retorna a Deus que o deu.
Granito,
Pernambuco, 27 de Junho de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– ACI nº 1789
Jornalista
– CRP/MTE nº 0005168/CE
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