sábado, 27 de junho de 2026

LEVANTAR CAÍDOS REQUER DESILUDIR-LHES O DISCERNIMENTO

 

“Não me ensines coisas vãs, pois, é mal o que tu me ensinas”, preceitua Bento de Núrsia – nascido no Nórsia ou Núrsia (Úmbria, Itália), Reino Ostrogótico, 2 de março de 480 – falecido na Abadia de Monte Cassino (Casinum, Itália) 21 de março de 547.  Bento, e seus ensinamentos, foram alavancas poderosas, após o declínio da civilização romana, para o nascimento da cultura europeia; são a premissa para a difusão de centros de oração e de hospitalidade. Não foram apenas o farol do monacato, mas também, uma fonte providencial para peregrinos e pobres.

 

Bento considera que “o ócio é inimigo da alma”. Segundo Bento, oração e trabalho não se antagonizam no augusto propósito de aprimorar o homem, pois, estabelecem entre si brava simbiose. A oração nos leva a encontrar a Deus, cumprindo lembrar que se primeiro em nós não encontrarmos o que buscamos, nunca o encontraremos em lugar, afinal, conhecendo-nos intimamente conheceremos o universo e a Deus em seu resplendor mais veraz. Devemos, pois, dedicarmo-nos, n’algumas horas do dia, ao trabalho manual e, em outras, à leitura que propicie o desvelo destas inefabilidades.

 

O historiador Jacques Le Goff indaga: “a quais excessos as pessoas da Idade Média teriam chegado, se esta grande e suave voz não se tivesse elevada? Uma voz sobre a qual se deteve o grande biógrafo de exceção, Gregório Anício, nascido em Roma, 540 e nela falecido em 12 de março de 604, conhecido como Gregório, o Dialogador na Ortodoxia por causa de seus "Diálogos" e, por isso, tem seu nome n’algumas obras listado como "Gregório Dialogus", numa das quais anuncia Bento como “um astro luminoso” em uma época dilacerada por uma grave crise de valores.

 

Bento nos exorta a ouvir com o coração, à esperançosa perseverança e à disciplina: “Ouça, filho, os ensinamentos do Mestre; dê-lhe ouvidos com o coração; receba, com agrado, os conselhos de um pai que lhe quer bem, para se dirigir, com o rigor da obediência, àquele do qual você se distanciou por causa da negligência e da desobediência”. A disciplina é o ponto de partida e a capacidade de manter a organização, o foco e a execução de hábitos positivos, mesmo quando não há vontade ou entusiasmo para isso. É o que transforma a motivação (que costuma ser passageira) em resultados reais.

 

A perseverança é a força por trás da disciplina. Ela manifesta a capacidade de continuar tentando apesar das adversidades, dos fracassos ou do progresso lento. É o compromisso de "terminar o que se começa" a longo prazo. Significa não desistir quando as coisas ficam difíceis e entender que os erros são oportunidades de aprendizado. A perseverança (aliada à resiliência) oferece a força mental para lidar com os imprevistos ao passo que a disciplina cria hábitos previsíveis, rotinas sólidas e consistência diária. A disciplina reduz o cansaço de decidir; a perseverança vence o cansaço de falhar.

 

Ao ouvirmos com o coração escutamos ativa, empática e amorosamente e seguimos além da percepção acústica de sons, assumindo uma postura de presença, compreensão e compaixão que prioriza acolher a realidade do outro sem julgamentos. É uma compreensão profunda que se esforça para perceber o que o outro realmente diz, pensa e sente a partir da realidade existencial dele. É um ato de comunicação profunda baseado na empatia, no afeto e na presença plena, que pausa individualismos e preconceitos.

 

Exempla-nos assim, Augusto dos Anjos, ao afirmar: “para iludir minha desgraça, estudo. Intimamente sei que não me iludo”. Estes versos constituem o poema "Poema Negro" (também conhecido como "A Santos Neto"), publicado em sua obra única, Eu, de 1912. Reflete a tentativa de usar o conhecimento e o intelecto como um escudo ou anestésico para a dor de existir, com a mesma intensidade que expressa a lucidez indelével do eu-lírico, que conscientiza que a fuga pela intelectualidade é temporária e incapaz de alterar a dura realidade da finitude e do sofrimento humano.

 

A intelectualidade pode explicar a dor, mas não é capaz de anulá-la. Ela cria uma ilusão de controle sobre o caos, mas, falha em adiar o fim inevitável de cada indivíduo. Romper essa defesa mental é o primeiro passo para viver de forma autêntica. A finitude não deve ser teorizada, mas aceita como a regra fundamental da vida. Essa consciência da finitude (mortalidade) é um claro convite para analisarmos como investimos nosso tempo. Em vez de evitar a realidade, esse desvelo nos permite realizar escolhas com mais presença e alinhar nossas ações aos reais valores que norteiam a vida plena.

 

Bento de Núrsia nos concita a abraçar a ideia de que o amanhã é incerto, pois, isto serve como um antídoto para o desperdício de tempo e como um guia para uma jornada mais autêntica e conectada aos seus ideais mais profundos. Saber que o tempo é finito ajuda a combater o hábito de viver no automático e a valorizar o que ocorre no "agora". Definirmos claramente o que importa, torna mais fácil eliminar distrações fúteis, bem como, ajuda-nos a dedicar nossos esmeros e atenção a quem e ao que realmente nutre a existência, cônscios de que o tempo é um recurso precioso e inegociável.

 

Essa perspectiva é a base do Memento Mori ("lembre-se de que você irá morrer"). Filósofos estoicos como Sêneca e Marco Aurélio utilizavam a contemplação da morte não como algo mórbido, mas sim, como um método prático para afastar a ansiedade e para um viver com virtude, significado e serenidade. A certeza real é que a vida pertence à morte. Ao aceitarmos este fato irrefutável e inevitável, a morte passa a ser a única certeza absoluta da vida ao passo que somos confrontados com a necessidade iminente de dar valor e sentido a cada momento de nossa existência.

 

Questionar que morte desejamos ter nos leva a não buscar apenas prever o fim físico, mas principalmente, a definir a qualidade da trajetória a percorrer até nossa partida para o Oriente Eterno. Isto aponta para o desejo de uma morte consciente, cercada de sentido, onde a vida foi vivida de forma plena, com amor e gratidão. Não significa viver em euforia constante, mas sim, com presença. Envolve a busca por dignidade e qualidade de vida (cuidados paliativos), para que não nos expropriemos de nosso próprio morrer. Desejar uma "boa morte" significa desejar chegar ao fim sem o peso do "e se?"

 

Viver com presença substitui o movimento mental compulsivo (pensar demais no passado ou futuro) por uma "atenção silenciosa", permitindo a percepção e a absorção da essência de cada momento vivenciado. Significa "dizer sim" à realidade atual, mesmo quando não é perfeita ou bonita, oportunizando a nós mesmos um viver que se (re)organize internamente perenemente. Envolve valorizar conversas sem pressa, silêncio e/ou simplesmente estar com quem se ama, sendo amado, segando o merecido o amor que soubemos semear seguindo a métrica da régua de 24 polegadas.

 

Neste influxo, alcançamos a maturidade emocional que nos capacita a dar novas perspectivas ao que foi vivido, sem esquecermos o passado, mas, ressignificando-o. A vida, assim, ganha um lume mais dinâmico e proeminente, pois, paramos de buscar apenas o "prazer e a excitação" e passamos a cultivar a atenção plena sobre o que fazemos e sentimos, e isto nos permite viver com plenitude e apreciar o instante. Ter vivido e partido sob os próprios termos, reflete a autonomia de um viver livre dos grilhões dos preconceitos, dos vícios e dos erros que insistem em aprisionar incautos.

 

Uma paz manifesta na sensação de que o ciclo se completou de forma digna. Esta sensação de que o ciclo se completou de forma digna encerra uma narrativa coerente sobre a “morte desejada”. Assumimo-nos, decididamente, como alavancas (exemplos) para um porvir glorioso que reflete os valores, a ética e a postura esperados de nós em ressonância com aqueles que nos margeiam em nosso caminhar em vida. Envolve precisão, relevância, coerência e adequabilidade ao que se nos mostra o horizonte do melhor viver humano para que, assim, gere o impacto social positivo desejado.

 

Ditoso, o exemplo retira uma ideia, valor ou conceito (como "honestidade" ou "proatividade", etc) do campo das ideias e os materializa em uma atitude observável, tornando a teoria tangível e compreensível. Imprescindível, neste mister, é compreendermos que valores e virtudes não vêm exclusivamente dos saberes materiais, pois, efusivamente emergem e se robustecem na interação entre o sagrado (transcendente, religioso, espiritual) e o profano (cotidiano, social, do humano), ascendendo, harmoniosamente, como regras divinas ou construções sociais essenciais para a convivência. 

 

“Não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive”, preceitua Salomão (Eclesiastes 3:12). O bem e a felicidade têm o condão de transcenderem o abstrato para se estabelecerem valiosos, confiáveis, precisos e aplicáveis habitualmente em nossas ações concretas gerando valor ao passo que, dia a dia, esculpe nossa identidade. Se a ação for boa, ela se torna um modelo a ser seguido, sendo preferível à mera teoria, pois, a experiência vale mais que palavras traduzindo-se em valores e em passos práticos até que se tornem parte de quem somos.


O filosofo André Comte-Sponville aduz que, embora os valores possam ter surgido em contextos religiosos (sagrado), eles se tornaram patrimônio da razão humana (profano). Notoriamente, a origem dos valores e virtudes é um dos grandes debates da humanidade, e a resposta depende de qual "lente" você usa para enxergar o mundo. O conceito de hierofania presente na obra de Mircea Eliade sugere que o sagrado se manifesta no profano. Assim, o corpo físico, comumente profano, pode ser investido de um significado sagrado no momento da morte a ensinar as primícias da vida.

 

A consciência da mortalidade é, paradoxalmente, libertadora, e nos leva a valorizar o presente e a viver com mais propósito. Bento de Núrsia desvela que o profano e sagrado não se separam nem mesmo na morte, posto que a experiência humana é marcada por uma contínua união entre o ordinário (profano) e o transcendental (sagrado), inclusive no momento final da vida. “O pó volta a terra com o é; e o espírito volte a Deus que o deu”. (Eclesiastes 12:7), descreve o destino físico e espiritual após a morte: o corpo (pó) se decompõe e o espírito (sopro de vida/inteligência) retorna a Deus que o deu.

 

Granito, Pernambuco, 27 de Junho de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco
Jornalista – ACI nº 1789
Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE

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