Hoje (26/06), o dia começa ao sabor do cordel nascido do veio literário do Confrade Francisco Otávio de Menezes, com o tema: “Nordestino, a Alavanca da Alegria e do Progresso”, no qual sou citado por ele. Sob égide da sinergia que há entre todas os reinos in vitae neste Terra descritos pela Doutrina Espírita como Mineral, Vegetal, Animal e Hominal (Humano), Otávio efloresce em seus versos a sincronicidade, que Carl Gustave Jung define como “coincidências significativas”, ainda que não tendo um nexo causal comum perceptível aos olhos da matéria, se conectam pelo sentido e pelo espírito, cujo amor fraterno manifestado faz-se elo perfeito.
Uma sincronicidade conscienciosa, pois, alinha a necessidade de comunicar ao mundo saberes e experiências que somente o melhor coração é capaz de produzir e guardar para o pertinente fomento do aprimoramento humano a partir do autoconhecimento, do significado, da intuição e da relação entre a mente humana e o ambiente, fortemente ancorada na sinergia – do grego synergia, que significa "trabalho em conjunto" –, que reúne e movimenta múltiplos elementos, ideias, tecnologias e/ou pessoas e corrobora para o mais notável impacto multiplicador a bem da felicidade, do bem-estar, do progresso e evolução de toda a humanidade.
Cordelista raiz, Otávio abnega-se a rimar crônicas, causos e sentimentos cujos produtos (cordéis) vicejam alteridade e cativam-nos a manter viva esta tradição centenária nordestina, transformando fatos cotidianos em arte e crítica social em versos, conscientes que a literatura de cordel é um Patrimônio Cultural do Brasil de valor inestimável como guardiã da identidade nordestina – costumes, folclore, crenças, mantendo vivas memórias regionais (re) contando as histórias do sertão, perpetuando a tradição oral, fortalecendo a educação e democratizando o acesso à informação sob a égide da sinergia que une arte da viola e da xilogravura.
Os cordelistas, ou poetas de cordel, utilizam uma linguagem popular e acessível para narrar acontecimentos de forma poética e rimada. O primeiro cordelista a imprimir seus versos foi Leandro Gomes de Barros, porém, suas publicações tiveram início por volta de 1889 sendo impressas em tipografias terceirizadas. Por volta de 1906-1907, Leandro fundou no Recife sua própria tipografia, o que permitiu uma produção em grande escala. Seus folhetos eram fundamentais para a circulação de notícias e histórias no interior do Nordeste, sendo comercializados em feiras populares. Ele influenciou grandes nomes da literatura brasileira, como Ariano Suassuna.
Histórias de Leandro, como "O Cavalo que Defecava Dinheiro", serviram de base para obras clássicas da literatura brasileira, incluindo o Auto da Compadecida de Ariano Suassuna. Ainda que se discuta se ele foi o primeiro absoluto (considerando produções manuscritas ou folhetos avulsos raros de outros autores, como Silvino Pirauá), Leandro é o responsável pela profissionalização e pela primeira fase sistemática de impressão de cordéis no Brasil. Ele escreveu aproximadamente 240 obras originais, embora algumas estimativas sugiram que Leandro tenha publicado ou editado cerca de 1.000 folhetos ao longo da vida.
Entre as publicações de Leandro registradas pela Fundação Casa de Rui Barbosa desse período, destaca-se o folheto "A Ave Maria da eleição" (Recife, 1907). Por sua relevância como formidável alavanca da cultura nordestina, cuja influência se perceber em todo o Brasil na sincronia das artes visuais, musicais e literárias que mociona ainda hoje com seu conhecimento e sabedoria. Leandro é homenageado pelo Povo Brasileiro que estabelece o dia de seu nascimento (19 de novembro de 1865) como o Dia da Literatura de Cordel no Brasil, no qual as novas gerações de cordelistas tributam gratidão àqueles que desde o passado enobrecem esta arte.
Há, também, Patativa do Assaré, um verdadeiro escultor de palavras belas, moldando versos que transformavam a dor, a luta e a beleza do sertão em arte. A beleza palavras de Patativa reside na forma como ele enxergava o sertão, não somente como terra seca, mas, principalmente, como um espaço de contemplação, criatividade e esperança. De inventividade. Em poemas como "Cante lá que eu canto cá", Patativa afirma que a dor só é bem cantada por quem a vive, reforçando sua autoridade como poeta do povo. Prodigiosamente, a expertise de Patativa ao usar o malho e o cinzel para dar forma de poesia à vida: o trabalho na roça, o canto do vento, a beleza das flores nos abrolhos.
Escultor de palavras justas e perfeitas, Patativa não apenas escrevia versos, esculpia a alma do sertanejo, com um ritmo único, uma musicalidade que ecoava nas vozes do povo, e uma estética que unia lirismo e denúncia social. Como ele mesmo diz: "A minha rima faz parte / Das obras da criação", mostrando que a poesia jamais será unicamente dádiva divina, mas sim, poderosamente, um ato de fé e de graciosa liberdade. Seu legado é um testemunho de que a beleza pode nascer da pobreza, da dor e da resistência. Com sete sílabas, Patativa esculpiu o mundo. Patativa ganhou o mundo (como se diz no coloquialismo nordestino), pois, a arte de Patativa é estudada na Sorbone (França).
Violeiros e cantadores como Osnir Soares, Chico de Assis e João Santana percorreram espaços por todo a região norte do Distrito Federal, apresentando estilos como Sextilhas, Motes de 7 e 10 sílabas, Décimas, Quadrão e Martelo Alagoano, além de distribuir livretos de literatura de cordel, expressando sinergia e sincronicidade entre estas artes de origem semelhante. Por justo mérito, desde 2021, o repente é reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Iphan, destacando sua relevância histórica e artística. Quem com sabedoria e beleza encanta traz consigo força que a todos enlaça: amor. Como afirma Saulo de Tarso, “sem amor nada seria”. E cordel é amor vicejante.
Por muito oportuno e por justíssimo mérito, evoco Cego Aderaldo, um dos maiores expoentes da cantoria poética nordestina no século XX, que transformou sua condição de cegueira e pobreza em uma poderosa expressão artística. Seu habilidoso talento é reconhecido em todo o Nordeste, cujo enlevo o faz ser comparado a figuras como Padre Cícero e Lampião, com quem compartilhou um histórico encontro em 1924 em Juazeiro. Em vida, Aderaldo levou a cantoria às grandes capitais, sendo saudado como um herói nacional. Sua memoria é preservada na Casa de Saberes Cego Aderaldo, em Quixadá, onde a poesia popular e as tradições sertanejas são festejadas.
A Peleja de Aderaldo com Zé Pretinho, obra de Firmino Teixeira do Amaral (1916), é uma emblemática cantoria que retrata um desafio entre dois cantadores, onde Aderaldo, apesar do preconceito por ser cego e forasteiro, vence com sua eloquência e bravura, ao passo que Zé Pretinho tem na humildade a sua grandeza: "sou seu subalterno, embora estranho, creio que apanho e não dou um caldo", admitindo assim a superioridade do Cego Aderaldo, permanecendo como um símbolo da tradição oral nordestina, refletindo tanto o mestre cantador quanto o arquétipo do "negro de fama" no imaginário popular. O poema é um testemunho da cultura popular e dos conflitos sociais do sertão.
Inventivo, o Aderaldo foi um dos primeiros cantadores a ganhar notoriedade nacional, levando a cantoria de improviso para grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo. Visionário e empreendedor: foi um dos primeiros a levar novidades tecnológicas para o interior, atuando como exibidor de cinema itinerante na década de 1930 e utilizando gramofones para apresentar discos ao povo sertanejo. Inusitado, ele tirou o baião da viola, orquestrando-o e influenciando grandes artistas como Luiz Gonzaga, que usando a sanfona, o triângulo e a zabumba, levou a dança e a cultura nordestina a todo o Brasil, cativando a admiração de intelectuais como Rachel de Queiroz.
Hoje, a literatura de cordel continua viva, sendo valorizada como uma expressão rica da identidade cultural brasileira, especialmente nordestina, a partir da fértil manifestação de Cordelista como Otávio Menezes, que apesar dos desafios que a era digital lhe impõe, a ela se adaptam, mantendo seu charme através de folhetos ilustrados com xilogravuras e narrativas orais que celebram e perpetuam a cultura popular. Longe de desaparecer, o gênero se (re)inventa no século XXI, unindo a tradição oral e a rima dos folhetos às novas tecnologias, sendo uma voz potente do cotidiano, fé, amores e desafios do povo nordestino, fortalecendo a identidade regional.
É a prova de que a "poesia de bancada" tem fôlego para muitas gerações. A tradição dos folhetos de papel agora convive com o cordel digital, podcasts e vídeos de declamação (o repente) que viralizam nas redes sociais. Talentosos e inventivos, estes cordelistas modernos mantêm viva a forma fixa (sextilhas, setilhas) enquanto abordam temas atuais, garantindo a sua relevância. Projetos como a "Jornada do Cordel" buscam salvaguardar e promover o gênero, inclusive no ambiente escolar. O cordel não é unicamente memória; é resistência, renovação e inventividade constante, consolidando-se como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Iphan (2018).
Incluída no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), a Literatura de Cordel integra-se ao currículo de escolas e bibliotecas públicas para incentivar a leitura desde a infância. Apoios, como o que mobiliza do Ministério da Cultura (MinC), que mantém editais de incentivo (como os previstos para 2026 com investimentos significativos) e a valorização de mestres e casas de cultura fazem-se imprescindíveis para a salvaguarda desta tradição e para sua perpetuação. Assim, a Literatura de Cordel, ancorada nas diligentes mãos e na inventividade de Cordelistas como Otávio Menezes, garante com seu lugar no futuro, inspirando-o desde hoje.
Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco
Jornalista – ACI nº 1789
Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE
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